quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um passeio pela São Paulo do início do Século XX

No início do século passado São Paulo já crescia bastante, mas era ainda uma cidade de pequeno porte, com aproximadamente 250.000 habitantes. O centro da cidade ficava em torno do Páteo do Colégio, com poucos quarteirões, mas a população vivia nas chácaras que existiam nos arredores da cidade. Essas chácaras foram sendo loteadas para ceder lugar à expansão da capital, já servida por ferrovias que a ligavam ao interior e ao porto de Santos.

A Avenida Paulista, inaugurada em 1871, com suas três vias separadas por canteiros onde cresciam árvores frondosas como os plátanos, logo foi sendo ladeada pelos magníficos palacetes que a engrandeciam. Foi a primeira via pública asfaltada da cidade. E abrigava o Colégio São Luiz, o Sanatório das irmãs de Santa Catarina e o Instituto Pasteur, ainda hoje por lá.

Na mesma época, as longínquas chácaras que ficavam do outro lado do Rio Anhangabaú, em cujas margens havia uma plantação de chá, foram ligadas à cidade pelo Viaduto do Chá, aproximando-as significativamente do centro comercial. O Bairro da Luz também ficou mais próximo com a inauguração da Estação da Luz.


Os teatros mais famosos da época, como o Casino Paulista, o Eldorado e o Politeama e sofisticadas lojas que vendiam de tudo, como bengalas, chapéus e até sapatos, estavam instalados na Avenida São João, ainda uma via estreita, mas que já era servida pelos bondes elétricos.

Também no início do século passado foi iniciada a construção da Catedral da Sé, a partir do projeto do alemão Maximilian E. Hehl (professor da Escola Politécnica), inaugurada apenas em 1954. As obras externas terminaram apenas em 2003, 90 anos após o início. O casario colonial cedia espaço a ares mais cosmopolitas.

Um plano paisagístico destinado a embelezar a cidade criou o Parque do Anhangabaú, o Parque Dom Pedro, o Belvedere do Trianon e a Praça Buenos Aires. Essas construções foram formando um conjunto urbanístico que deu ares cosmopolitas à cidade que era bem provinciana em seus usos e costumes devidos, principalmente aos trabalhadores que a iam ocupando.

Com o crescimento contínuo da capital, os casarões logo começaram a ceder espaço para o surgimento dos primeiros arranha-céus e, na segunda metade do século, além de cr
escer em seu entorno, o crescimento para o alto se tornou a principal característica da cidade que hoje está entre as maiores do planeta.

O centro velho foi se estendendo em direção ao Vale do Anhangabaú, depois do Viaduto do Chá e, posteriormente, do Santa Efigênia. Eu acompanhei a segunda metade do século e ainda me lembro da beleza dos casarões da Avenida Paulista, onde hoje são preservados apenas dois ou três. Lembro-me da opulência de Higienópolis e da beleza da Avenida Angélica, entre outros recantos desta cidade que amo tanto.

Por Zeca Paes Guedes

9 comentários:

Soninha disse...

Olá, Zeca!

Memórias de Sampa também é cultura...
Aliás, todo o blog é cultural, pois traz fatos e histórias contadas pelos autores sob sua própria ótica e isso é bastante interessante, porque é a história viva sem a maquiagem dos historiadores e editores de livros que ocultam alguns fatos.
Seu texto, rico em detalhes, nos fez viajores "vips" do tempo, conhecendo nossa Sampa querida de outrora.
Ontem, felizmente, pudémos estar no centro de São Paulo, Praça da República, onde pudemos entrar no Edifício Itália, ver o Colégio Caetano de Campos sem os tapumes, atravessar as avenidas São Luiz e Ipiranga, viajar de Metro, visualizar muita coisa bonita que nossa amada Sampa tem, mesmo envolta em fumaça e amortecida pelos seus nilhões de ruídos...
Ela continua encantadora.
Valeu, Zeca.
Obrigada.
Muita paz!

Luiz Saidenberg disse...

Ótimo e histórico texto, Zeca, falando das deficiências, mas tb da beleza da S. Paulo "Belle Époque". Hoje, nada quase mais restou dela, máquina de trabalho e lucro que se tornou, como a "Metrópolis" de Fritz Lang.
Feliz de quem, como nós, ainda apreciou um pouco disto. Quando subia de bonde pela Av. Angelica, e virava na Paulista, era um deslumbre a vista das mansões e da magnífica pérgola do Parque Trianon, com sua colunata e estátuas. Hoje, há lá uma mambembe feira de artesanato...

Laruccia disse...

Zeca, o que mais emociona nesta beleza de apanhado de nosso século XX, é a nossa participação nesta transformação de uma pequena vila numa tentacular metrópole.
Chego a essa conclusão pelo simples fato de que, se passamos por boa parte desse século, vivendo, estudando, trabalhando temos o direito de reinvidicar a responsabilidade desse extraordinário progresso, vc não acha? por isso nos orgulhamos de nosa cidade, abençoada e consagrada por Deus e seu patrono, São Paulo. Parabéns pela narrativa, Guedes.

Miguel S. G. Chammas disse...

Zecamigaço,
lendo o teu texto fui, novamente, me enchendo do orgulho de ter participado desse crescimento, dessa transformação da cidade.
Quem diria que passamos por todas essas mutações sem dar muita bola de quão significativas e importantes elas eram.

Nelson de Assis disse...

Zeca.
O meu maior arrependimento existencial, foi o de não ter participado deste movimento transformista e cultural por qual a nossa São Paulo passou, a partir da metade do século passado.
A engenharia e, principalmente, a arquitetura paulista, remete-nos à história daquilo que mais belo e atraente pode-se, ainda observar, pelos belos casarões e palacetes que ainda resistem aos tempos e às dolorosas 'marretadas' de suas criminosas demolições.
Quanto de histórias se perdeu nestas insanas 'derrubadas', para a edificação dos modernos 'espigões'.
Viva o 'Martinelli', o 'Altino Arantes', a 'Casa das Rosas' o 'Instituto Pasteur' e outros tantos monumentos da antiga arquitetura, oriundas de uma escola de engenharia em que a arte não era necessariamente sinônimo de modernidade mas, sim, de beleza.
Seu texto é a lente de um passado de 'glamour' e maravilhas e, ficou melhor ainda com as fotos nele postadas, pela sensibilidade de nossa brilhante editora, Soninha.
Abraços

Soninha disse...

Nelson, querido amigo!

Em todos os textos, ou na maioria deles, faço pesquisas para encontrar as imagens que possam ilustrar os textos, de forma que fiquem alegres.
Mas, estas do texto do Zeca, foram cedidas por ele mesmo, ok?!
Aliás, nos textos que ele me envia, sempre tem ilustrações cedidas por ele.
Enfatizo sobre a minha imensa alegria em pesquisar as coisas de Sampa, em editar os textos, em ilustrá-los...é uma benção!
Agradeço a todos vocês por me enviarem os textos e me permitirem editá-los.
Muito obrigada! Que Jesus os abençoe!
Muita paz! Beijosssssss

Bernadete disse...

Zeca, nada mais gostoso, do que ler um texto histórico sobre São Paulo,de um paulistano apaixonado.
Estou com o Modesto, sinto orgulho em saber, que uma pequena Vila transformou-se na maior cidade do país. Lamentável, é o descaso com que nossa cidade foi tratada por nossos governantes,ao longo de todos esses anos de progresso.
Terra da garoa, da poluição de trânsito parado e outras mazelas? Não importa. Adoro São Paulo.
Um abraço

Arthur Miranda disse...

Zeca, e agora o eu digo? que falo? o que escrevo? O que comento? Velozes,Inteligentes,companheiros de Blog "egoisticamente"já disseram tudo.
Só me resta dizer que andei muito pela Paulista, cheguei a ver a maioria daqueles palacetes, mas gosto também de ver a Paulista atual, apesar de ter saudades da antiga.
E seu texto e suas fotos vieram alimentar ainda mais essa saudade. Parabéns, e obrigado.

Leonello Tesser (Nelinho). disse...

Zeca, recordações são sempre importantes, relembrar a velha São Paulo é sempre uma emoção nova, o modernismo avança mas as imagens de outrora permanecem em nossas mentes, parabéns pelo texto, abraços, Nelinho.