sábado, 4 de setembro de 2010

Ferragosto

Os dois quadros são obras pintadas pelo nosso amigo Luiz Simões Saidenberg
Avançamos com dificuldade. O respirar é desagradável. O ar, como fina areia do deserto. Boca, garganta, olhos, tudo seco. Nenhuma nuvem no céu, de cor pálida, amarelada. Só poeira e poluição. Nenhuma brisa, pouquíssima umidade, nada para espantar o pó, densa ferrugem sobre carros e árvores.
Não, não estamos no Marrocos, aspirando o Simun, nem em Roma, com o Sirocco. É São Paulo mesmo, e em pleno inverno: trinta graus! É preciso água, muita água. Ferragosto em Roma já pegamos, mas nunca imaginei na Capital paulista.
Foi nesta época mesmo: eu tinha cometido um erro. Podia ter esperado mais um mês, e a primavera romana fluiria com águas do Tibre e nós junto. Mas, não, tirei férias em Agosto e agora lá estava, com a família: sol escaldante, lojas e restaurantes quase todos fechados e Roma, como diz a música, entregue a cães loucos e ingleses.
Ou, turistas loucos, como nós, de todas as partes, amontoando-se na Scalinata de Trinitá dei Monti, talvez para tentar sorver no ar gotículas da Fonte da Barcaccia, ali embaixo. Íamos, como abelhas, de fonte em fonte, com garrafas plásticas, a partir da própria Fonte das Abelhas, na Piazza Barberini, até a Via delle Quatro Fontane. E haja fonte!

Um movimento do sabiá no ipê em frente e, num solavanco, volta à nossa cidade. É inverno; e está assim. E quando for verão? Nosso ipê amarelo ainda não floriu; como sempre, atrasado... Agora é que está perdendo as folhas, enquanto os outros já estão em favas contadas.
Queimadas devoram florestas e plantações, não importa agora qual o hemisfério. O Homem, em sua ânsia de lucros e consumo foi longe demais e o planeta está ameaçado. Que mais teremos pela frente? Tornados, furacões, vendavais, terremotos? Frios paralisantes, calores do inferno?
É São Paulo, é inverno e é Ferragosto. Não adianta esquentar também ainda mais a cabeça com o Amanhã. Fiquemos com o Hoje e, diz a Bíblia, que baste a cada dia o seu mal.
Chega! Eu quero mais é sombra e água fresca. On the rocks, se possível.

Por Luiz Saidenberg

11 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Miguel S. G. Chammas disse...

E não se esqueça, meu amigo, de usar sapatos largos.
Não faça como eu que teimei em estrear sapatos novos e agoraestou amargando dores atrozes e bolhas gigantescas.

Zeca disse...

Caro Luiz,
belo texto onde, com riqueza de detalhes nos mostra um pouco da Roma, a capital do país de origem de vários dos nossos companheiros. Nos mostra também o resultado da incoerência do progresso que troca o clima perfeito e a harmonia da natureza pelas novidades forjadas pela tecnologia. Até a nossa São Paulo da garoa, há muito já não merece este apelido, pois a garoa foi substituida pelo manto de poluição. Até aqui, neste paraíso à beira mar, estamos sofrendo a secura deste inverno escaldante. A minha água à sombra também, on the rocks, please!
Abraço.

Arthur Miranda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Arthur Miranda disse...

Prezado Simões, o calor tem realmente estado de amargar, para quem anda a pé pelas ruas de São Paulo então é pior ainda, nisso quem anda em Roma leva uma grande vantagem pois a bela Roma tem bicas publicas por todo lado ao contrario de São Paulo e Rio onde você com sede só mesmo entrando em algum bar e pedindo uma agua mineral, Gostei demais do texto recheado de recantos romanos, por onde andei a muitos anos e que andavam já bem esquecidos em minha memória. Abraços.

4 de setembro de 2010 21:21


Postado em Ferragosto
Excluir comentário Cancelar

Modesto disse...

Luiz, vc nos levou, nas azas de sua imaginação, até Roma. Estava gostando do passeio quando fomos interrompido pelo seu retorno a São Paulo. Por favor, não faça mais isso... desperte vc do sonho mas deixe nós continuarmos no passeio. Temos esse direito por caus do deleite que é a sua leitura e nos faz sonhar da mesma forma. Texto de excelentes paralelos. Parabéns, Saidenberg.

Luiz Saidenberg disse...

Muito obrigado.Caro Modesto, desculpe interromper minhas calorosas férias de 1998 mas, sacumé, o dever nos chama..a São Paulo, terra do trabalho. Mas com todo prazer relatarei mais peripécias, se aparecer a oportunidade. Aliás, modestamente, os quadro de fontes são de minha lavra, tb. Abraços a todos.

Luiz Saidenberg disse...

Desculpe,falha nossa! Os quadroS...os quadroS !!!
Abraços.

Soninha disse...

Olá, Luiz...

Demorei, mas, vim...
Viajando um pouquinho para descansar, postei sem deixar o primeiro comentário, como costumo.
Mas, eu já havia lido, or conta da edição.
Um texto delicioso que nos levou para um passeio pelos lados de Roma, sem deixar de lembrar de nossa Sampa amada, com todos os seus problemas, mas, sempre querida e que sempre queremos morar.
Ainda bem que o clima melhorou um pouquinho, neste feriado, não é mesmo?!
Valeu, Luiz!
Obrigada.
Muita paz!

Bernadete disse...

Beleza Saidenberg. Você nos fez passear por Roma durante um ferragosto,depois nos trouxe novamente para Sampa à contragosto. rsrssr.. Seus textos são ótimos mesmo falando dos problemas mazelas das grandes cidades.
Um abraço

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Luiz, a velha Roma descrita com raro brilhantismo, parabéns, Nelinho.