domingo, 15 de outubro de 2017

Comemorando a data


Pensando nesta data de 15 de outubro em que se comemora o dia do Professor, remeti-me ao passado e às minhas lembranças de 1969. Neste ano, eu e minha turma recebemos nossos títulos de professores primários, expedidos pelo Instituto de Educação Estadual Nossa Senhora da Penha, e que nos davam licença para ensinarmos da 1ª à 4ª série do 1º grau e nas classes de pré-escola, que, naquela época, eram raras dentro de uma Unidade Escolar. Estávamos também preparados para prestarmos concursos públicos e assim iniciarmos nossa árdua, mas maravilhosa, carreira. Era assim que eu a via.
Tivemos excelentes professores que nos passavam através de seus relatos, além do conhecimento básico que devíamos receber, a dificuldade de permanecer no magistério e seguir carreira, a importância de trabalhar com “dedicação e amor” e que estes deveriam ser os eternos dizeres da nossa bandeira e guiadora dos nossos caminhos. Hoje sei como isso foi importante e pesou nas minhas tomadas de decisões.
Hoje, depois de mais 40 anos de vivência, posso afirmar com segurança que nunca me arrependi da escolha que fiz. Pude continuar meus estudos, me aprimorei, ganhei outros títulos, prestei concursos e outras conquistas obtive dentro do magistério, das quais sempre me orgulharei. Na minha caminhada e dando continuidade aos meus estudos, aprendi um pouco mais sobre as grandezas e misérias da educação brasileira. Hoje sei que a nossa educação não anda bem e outras grandezas e misérias surgiram agravando os problemas não resolvidos no passado. O tempo passou e foram tantas modificações e tantos desencontros que é notório que algo se perdeu pelo caminho.
Bem, como otimista e esperançosa, acredito que ainda vamos ter a tão sonhada educação de qualidade e para todos, norte e sul, leste e oeste, do nosso imenso Brasil.
E para não dizer só dos espinhos, atualmente tenho encontrado ex-alunos formados engenheiros, advogados, médicos, físicos, pedagogos e outros que são professores de diversas áreas de ensino. E outros ainda não menos importantes, mas em profissões diversas como, artistas, técnicos, motoristas, secretários e etc. E esses são os motivos que me orgulham de ter sido e ser uma professora!
Voltando para 1969, lembro que éramos mais ou menos 100 formandos, um grupo grande, forte, amado, unido e certo das responsabilidades futuras. Não sei se todas continuaram no magistério, mas eu, Edna, Maria Alice, Marilisse e Maria Helena, éramos amigas inseparáveis e aprontamos muito durante todo o curso e a nossa amizade continua até hoje, exceto uma delas que já faz muito tempo que não temos mais notícias. Todas optaram por continuar no magistério e quase todas já se aposentaram e merecidamente.
Então nesta data, quero desejar à minhas amigas inseparáveis que deram duro todos estes anos e a todos professores que optaram pela maravilhosa carreira e que estão frente a sala de aula, que lidam na constância do ensinar X aprender, ousando modificar , meus parabéns! Meu agradecimento e todo respeito e carinho!


Por Maragaria Peramezza

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Pacaembu


Este texto escrevi em 27/04/2010 por ocasião dos 70 anos do Pacaembu

A caminho do trabalho, sempre fico ouvindo o rádio para saber sobre as novidades, que não são muitas. Hoje, na rádio Bandeirantes, logo cedinho, falava-se sobre os 70 anos do estádio Paulo Machado de Carvalho, o conhecidíssimo Pacaembu, de Sampa, inaugurado em 27 de Abril de 1940.
Orgulhosa, fui ouvindo sua história que se misturava à história de meu avô materno, filho de imigrantes italianos e louco por futebol e à de meu amado pai, mineiro vindo ainda adolescente para São Paulo e que, igualmente, adorava futebol.
Ao longo da Rodovia dos Imigrantes, fui ouvindo o locutor e me lembrando de quando meu pai e meu avô contavam sobre o feito maravilhoso.
A televisão, rádio, internet e jornais estão repletos de detalhes sobre tão importante monumento que é o Pacaembu, mas, em minha memória os detalhes eram especiais, pois eu via os olhos expressivos de meus amados pai e avô contando-nos como havia sido, quais as dificuldades e, ainda, sobre a rodada dupla que teve no dia seguinte ao da inauguração.
Indignado, meu avô relatava sobre a maneira desrespeitosa, segundo ele, do público receber sob vaias o então Presidente da República, Sr. Getúlio Vargas, que foi assistir ao desfile e outras homenagens da inauguração, juntamente com Ademar de Barros e Prestes Maia, respectivamente governador e prefeito da época.
Os famosos jogos da estréia, sendo o primeiro Palestra Itália contra Sport Coritiba, Sport abrindo o placar com o gol de Zequinha, mas o jogo finalizou com o placar de 6 a 2 para o Palestra, sendo este o atual Palmeiras, clube que mais comemorou títulos no Pacaembu.. O Segundo jogo, a convite da prefeitura da cidade de São Paulo, Corinthians e Atlético Mineiro, com o placar de 4 a 2 para o Corinthians, contava-nos meu amado pai, cheio de orgulho de seu time do coração.
Por 10 anos o Pacaembu foi o maior estádio da América do Sul, perdendo seu posto para o Maracanã, em 1950.
Pacaembu foi a base de muitos jogos importantes da seleção brasileira de futebol e por longo tempo foi o local oficial de jogos nacionais e internacionais, deixando de ser sede obrigatória depois a inauguração do Morumbi, em 1960.
Ícone importante de São Paulo, recebeu inúmeras estrelas de nosso futebol, além de tantos outras estrelas internacionais. Foi uma das principais sedes dos jogos Panamericanos de 1963.
Suportou as mazelas do tempo, passou por profundas mudanças, entre elas a derrubada da concha acústica e a construção do tobogã atrás do gol à direita das cabines de imprensa.
Pacaembu orgulha-se, também, de ser um dos maiores divulgadores para o país do talento do garoto magrinho que usava a camisa branca do Santos, Pelé, que tem números impressionantes no estádio do Pacaembu. Em 119 jogos marcou 115 gols.
Hoje é atual casa do Corinthians, o Pacaembu também sedia, anualmente, a final da Copa São Paulo de Juniores, sempre no dia do aniversário da cidade de São Paulo, em 25 de Janeiro.
Sei que meu amado pai e meu querido avô sentir-se-iam orgulhosos por ver o Pacaembu como um dos principais pontos turísticos da cidade de São Paulo, com a inauguração, em 2008, do Museu do Futebol em suas dependências.
Em seu aniversário de 70 anos, o Pacaembu ganha um importante presente que é ser palco da finalíssima do campeonato Paulista-2010.
Parabéns, Pacaembu. Parabéns, São Paulo. Parabéns, Brasil.


Por Sonia Astrauskas

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Uma igreja do passado


Existem memórias teimosas, que persistem em nossa mente. Não ocorrem frequentemente, mas quando passamos por certo lugar, elas reaparecem. Uma marca do passado, reavivada de passagem. Foi assim com aquela igreja.
Devia ser uma igreja muito marcante, para se fixar assim na memória. 
Como e porque? Foi na infância. Creio que vínhamos de Campinas pela Viação Cometa, e, na subida da Lapa de Baixo, havia uma agenciazinha, talvez um ponto de parada dos ônibus.
Toda vez que ali passei lembrava  disto, apesar de não compreender porque parávamos ali. Vínhamos pela velha Via Anhanguera, e ao chegar a São Paulo já começava a acontecer o extraordinário. Não sei como, o ônibus vinha pela Av. Raimundo Pereira de Magalhães, após o Tietê. Já era estranho, como é, até hoje. Depois de um trecho meio descampado, entrava em São Paulo... Pela porta dos fundos!
Uma passagem estreita, sob os trilhos da estrada de ferro, cercada de pedras tomadas de húmus e trepadeiras, como a entrada de uma caverna. Passagem para um só veículo, então era... E assim ainda é necessário esperar o semáforo abrir.
Calma, já estamos perto da tal igreja. Parava-se na tal agência de ônibus, e com direito a uma circulada pelas redondezas. Foi aí que avistei a igreja, que mais me pareceu um pagode, tão diferentes eram suas formas.
Passaram-se décadas, mas eu me questionava: ainda existiria? Toda vez que por ali passava, o que acontecia raramente, lembrava-me de quando a vi, de longe, e tentava vislumbrá-la. Mas, que nada.
Foi aí que Ana Maria Mortari postou sua foto, no Facebook. Reconheci-a de imediato, após talvez mais de sessenta anos passados. E tratei de pesquisar; era, antigamente, a Igreja Húngara, daí o inusitado de suas torres, com seus toques de castelo da Transilvânia, dos Montes Cárpatos, da Mongólia, sei lá. Por isto havia pensado, na primeira vez, num pagode chinês.
Como não podia deixar de ser, fui visitá-la no aniversário da cidade. De longe, seus ângulos agudos cortavam o espaço vazio, em nada se parecendo com o resto da vizinhança, que por sinal, acho que não mudou muito também, desde minha infância. Era isto que tanto me impressionou. Esses cortes bruscos, combinados com uma varanda de madeira e um galo no alto de uma das torres são mesmo notáveis, embora a igreja seja bastante pequena e simples.
Atualmente, é Igreja Presbiteriana Independente, e se mantém ativa, com uma série de ações beneficentes. Aí está, mais um mistério de São Paulo resolvido, e graças à Internet, que colocou todos à nossa disposição. É só pesquisar e lá vem essa igreja, o Cine Santa Cecilia, a Mansão Mormanno. 
De Volta Para o Passado, outra vez.


Por Luiz Saidenberg

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Memórias heróicas


O ano era, eu acho, 1946, o local, tenho certeza absoluta, era a casa da Rua Augusta 291, em Sampa, onde nasci e vivi meus primeiros 17 anos de vida.
Era uma casa enorme, tanto que era a residência dos Chammas, ou seja, meu avô paterno (minha avó já era falecida), minha Tia Neide e seus filhos Sonia Maria e Roberto, meu pai, minha mãe, eu e meu irmão e, ainda, minha tia Zaíra (Zazá para os íntimos) enquanto solteira.
Tinha ela três quartos enormes e mais um pequeno que tinha sido destinado à minha tia Zazá, uma vez que não tínhamos empregados. A distribuição dos quartos era através de um pequeno corredor de entrada, onde se localizava o quarto da frente e, depois, outro corredor que ocupava a totalidade da demais dependências da habitação, assim distribuídas: primeiro quarto para o Sr. Alfredo, meu pai, sua esposa e filhos; segundo quarto para a Sra. Neide e seus filhos; e a enorme sala de jantar. Depois, em continuidade do corredor, vinha o pequeno quarto da Tia Zazá, o banheiro e a cozinha.
Na cozinha, na mesma direção do corredor abria-se uma porta de madeira que permitia o acesso a uma escadaria que levava ao gigantesco quintal onde estava localizado o grande tanque de lavar roupas, bem abaixo do muro de contenção da escada, no mesmo sentido do já tão comentado corredor.
Posso, então, afirmar que era um grande imóvel ligado por um extenso corredor.
Desculpem os leitores, mas essa descrição detalhada se fez necessária para permitir a compreensão dos fatos que relatarei a seguir.
Conforme já mencionei no início deste relato, o ano era de 1946 e este rabiscador tinha ou estava prestes a ter 6 aninhos de vida. Era eu um aficionado por revistas de quadrinhos e vivia, quando não aplicando uma mirabolante aventura, lendo as estórias de Mandrake, Flecha Dourada, Super-Homem, Super-Boy, Capitão Marvel, Batman e Robin, Príncipe Namor, Homem Tocha, Homem de Borracha e outros que tais e sonhando ser uma dessas figuras imaginarias.
Bem, prefácio descritivo estruturado passemos ao relato memorial.
Um dia, fechado em meu quarto, terminei de ler uma estória do Capitão Marvel. Era uma aventura eletrizante e me imaginei ser o próprio herói. Olhei em volta e vi o roupão que meu pai usava. De imediato alcancei a peça de roupa e a dobrei de forma que pudesse ficar com a aparecia de uma capa. Coloquei a pretensa capa nos ombros, amarrei-a com seu próprio cinto ao meu pescoço e estava já encarnado na figura imaginada.
Abri a porta do quarto com o maior cuidado e espreitei o movimento da casa. Estava tudo muito calmo, o corredor estava desimpedido, olhei mais atentamente para o fim do corredor e me assegurei que a porta da cozinha estava bem aberta e, decididamente me lancei na aventura planejada.
Corri pelo longo corredor no intuito de pegar o máximo de velocidade e impulso e ao atravessar a porta da cozinha me lancei no espaço na certeza de que eu se não saísse voando, pelo menos cairia no tanque que estava, sempre com água ou roupas molhadas.
De fato, não voei. Cai no grande tanque de cimento onde minha adorada mãe estava a lavar umas roupas.
O susto dela, inicialmente, foi enorme, depois, passado o impacto, o susto se transformou em violência, e levei uma tremenda surra de toalhas encharcadas.
Depois, então, tive de voar com ela até a farmácia Flavius para fazer uma serie de curativos nas “medalhas” advindas do meu voo, da minha aterrissagem e da surra merecida.
Hoje fico a pensar, como podem viver as crianças atuais sem essas emoções infantís? Que coisa chata deve ser a vida deles. 



Por Miguel Chammas

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Memórias de um dedo médio



A época pode ser situada entre os anos de 1955 e 1956.
O local é a Cantina da ESCOLA TÉCNICA DE COMÉRCIO FREDERICO OZANAN, situada à Praça Franklin Roosevelt, 129 – São Paulo.
Os envolvidos eram todos os alunos dos Cursos da referida escola e o proprietário da Cantina, um senhor de nome Saul que a havia comprado do antigo proprietário, o sempre querido Francisco (Chico para todos os alunos e alunas da velha escola).
Identificados os participantes vamos, enfim, aos fatos:
Éramos, todos, estudantes dos cursos de Técnico de Contabilidade ou Secretariado, com idade entre 14 e 19 anos, ávidos por alguma notícia que nos fizesse rir ou bagunçar durante os intervalos das aulas.
Quando a Cantina era ainda de propriedade do Chico, tínhamos uma válvula de escape muito boa.
Ele, diariamente, expunha uma gravura do “Amigo da Onça” (figura criada pelo cartunista Péricles e publicada na revista semanal “O Cruzeiro”).
A piada do dia tinha sempre uma alusão a um aluno ou aluna e causava verdadeiro reboliço entre todos. Comentários e piadinhas tomavam conta de todas as rodinhas e faziam o tempo passar mais depressa.
Quando a cantina foi vendida para o Saul (nunca consegui decifrar a sua nacionalidade, para mim, era uma mistura de português e qualquer outra raça europeia).
Ele tinha uma figura bastante estranha, era mal-humorado, resmungão e bastante pão duro. Fazia questão de não ser simpático e não admitia qualquer tipo de pendura. Ficava uma fera se alguém pedisse fiado.
Tinha mesmo um aspecto esquisito, um tanto quanto de não muito asseio.
Definitivamente, não caiu no agrado da classe estudantil e não conseguiu se enturmar com nenhum dos grupos líderes da escola.
Nós os alunos, vivíamos na vigília constante para flagrar qualquer gesto, ato ou derrapada do dito cujo para contar a todos e, assim, justificar os risos e chacotas da hora do recreio.
Na época, os refrigerantes tinham uma versão menor que era um sucesso no público estudantil.
Eram o Guaraná Caçulinha, a Coca-Cola pequena, etc.
Devido a grande aceitação, os estabelecimentos comerciais, inclusive a Cantina da Escola, tinha um significativo estoque desses vasilhames.
Um belo dia, eis que o Saul lança uma novidade na Cantina.
Era uma delícia bastante supimpa, Leite com Groselha, embalada em garrafinhas de Coca-Cola e produzida na própria cantina.
A novidade caiu imediatamente no gosto de todos, e no recreio seu consumo era bastante acentuado, mesmo por que o custo era menor que o de um refrigerante e, lógico, era muito mais saudável.
Um dia o sucesso da beberagem caiu em descrédito e, em pouco tempo estava fadado ao esquecimento.
O motivo deste descrédito foi que alguém, em algum momento não registrado no tempo, constatou que o velho Saul preparava o tal Leite com Groselha despejando os ingredientes em cada uma das garrafinhas e, para misturar, enfiava seu dedo médio, sem qualquer tipo de asseio, no gargalo de cada garrafinha e balançava-a antes de colocá-la na conservadora.
A notícia se espalhou como vento e causou nojo em todos os alunos.
Até hoje, só tomo Leite com Groselha se eu mesmo promover a mistura.
Arre égua! Como diriam meus amigos nordestinos.


Por Miguel Chammas

domingo, 1 de outubro de 2017

Doces recordações

Imagem: EEPSG Prfª Adelina Mazagão Alcovér

Outro dia, relembrava alguns fatos que ficaram marcados em minha adolescência. Foi quando veio em minha memória a época em que passei a frequentar a Escola Estadual de Primeiro Grau Professora Adelina Mazagão Alcovér, que ficava na Rua Celso de Azevedo Marques, na Mooca, quase no final da década de 60.

Meus olhos de menina de 11 anos deslumbravam um mundo completamente diferente do que eu estava acostumada na escola primária, dirigida por freiras, que era o Círculo Operário, na Vila Prudente, hoje Círculo de Trabalhadores Cristãos de Vila Prudente e Colégio João XXIII.

Nos primeiros dias de aula de ginásio, hoje ensino fundamental, meu amado paizinho me acompanhava para me ensinar o caminho. Íamos a pé, desde nossa casa, na Rua Umuarama (Vila Prudente) até a escola. Um longo caminho, mas, era preciso, pois não tínhamos carro e nossos parcos recursos não nos permitiam ir de táxi, e as linhas de ônibus, disponíveis na época, não nos levavam ao nosso destino e teríamos de utilizar várias linhas para conseguirmos chegar à escola.

Mas, para mim, tudo era fascinante. Eu me sentia crescida, adulta e tinha orgulho por ter conseguido passar no exame seletivo e frequentar aquela escola. Naquela época, as escolas estaduais eram hiper melhores do que as particulares, em se tratando de qualidade de ensino, conteúdo, rigor, disciplina etc., e preparavam o aluno para os cursos posteriores, como o segundo grau e faculdade.

Saíamos de casa bem cedo, pois as aulas iniciavam-se às 08h00. Descíamos a Rua Umuarama, onde morávamos, até um determinado trecho da Rua José Zappi, onde nos dava acesso à Rua Chamantá (Parque da Mooca), e esta, por sua vez, nos dava acesso à Avenida Paes de Barros, na altura do início da Rua Juatindiba, hoje Rua Juventus. Andávamos toda a extensão da Rua Juatindiba até chegarmos à Rua Celso de Azevedo Marques, em tempo de eu poder participar do hasteamento das bandeiras do Brasil, de São Paulo e da escola, ao som do Hino Nacional, cantado por todos os alunos.

Logo aprendi o caminho e ia sozinha para a escola. Depois, acompanhada pelas colegas que se foram somando, mesmo porque acabei fazendo parte da equipe de voleibol da escola. Esta atividade curricular me abriu as portas do Clube Atlético Juventus. No início de 1970, o treinador da equipe feminina juvenil do clube, o Ademar, juntamente com nossa professora de educação física, a Rosália, buscavam novos jovens talentos para o esporte e davam oportunidade aos alunos de nossa escola que desejassem praticar o vôlei. Nestas seleções, fui escolhida e lá fui eu jogar voleibol pelo time juvenil B do Juventus. Estudava pela manhã e treinava à tarde, no clube. Participamos de vários campeonatos locais e até intermunicipais, conquistando algumas medalhas e troféus para o clube.

Bons tempos, aqueles.

Depois, passei para o segundo grau, hoje ensino médio, e tive de me despedir da escola querida que eu jamais esqueceria, por tantos bons aprendizados e tantas alegrias recolhidas.



Por Sonia Astrauskas

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Memórias remediadas




Estava hoje, como soer acontecer, preenchendo o vazio dos meus dias praticando meu exercício físico-visual, ou seja, assistindo o que a “telinha” me oferecia quando, num dos múltiplos intervalos comerciais que nos enfiam goela abaixo, foi veiculado um filmete de uma nova campanha publicitária de um antigripal famoso, o “Benegrip infantil”.
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A veiculação me interessou pela forma com que foi abordado o assunto, mostra o desespero de um filho para tentar se desvencilhar das tentativas de seus pais para lhe administrarem o remédio, gritos, desculpas e mil artifícios... Depois do surgimento da nova apresentação do remédio a rejeição, conforme campanha publicitária, desaparece de imediato.
Assisti estarrecido lembrando de uma realidade muito antiga vivida por este rabiscador de palavras. Tudo veio claro em minha memória e, sem dúvidas, comecei a registrar os pensamentos com toda a realidade com que se apresentavam. Aqui vai:
Minha segunda filha, a Roberta, era um para-raios de doenças. Se alguém viesse a dar um espirro na Cochinchina (atual Vietnam) por resultado de uma nova virose ou coisa que o valha, era ali, na Rua Rocha, no miolo do velho e querido Bixiga, que se repicava o espirro e se manifestava o novo mal. Era incrível.
Numa dessas oportunidades, não sei como e nem por que, ela apresentou sintomas de abatimento da saúde. Uma febre logo se fez presente, eu estava em uma ausência profissional e a mãe, decididamente, a levou ao médico. Depois dos exames solicitados veio o diagnóstico, Febre Reumática.
Voltei para casa o mais depressa possível, mas minha presença já não se fazia tão necessária, a pequerrucha já estava medicada e brincando serelepe como sempre.
Ledo engano! Os males estavam por iniciar. O médico ao constatar a doença disse à minha esposa que o tratamento daquela doença era longo e dolorido.
Ela teria que ser medicada, pelo menos até os 14 anos com a aplicação mensal de um antibiótico famoso pela dor que até hoje é provocada quando injetado no paciente, injeções de Benzetacil eram e são, até hoje, o terror dos pacientes.
Inicialmente medicada minha pequerrucha iria nos meses seguintes me provar que era, também, uma grande atriz dramática além de uma fazedora de “auês” homéricos;
A cada mês, na época da injeção ela promovia um espetáculo, choros, gritos, rogos, tentativas de fuga e tudo mais que fosse possível ela usava e abusava, a vizinhança já sabia e não ligava mais para o barraco.

Na Praça 14 Bis, bem próxima de nosso apartamento existia uma farmácia que tinha, por sua vez, um farmacêutico de origem nipônica, cujo nome, por culpa de minha idade avançada, não consigo lembrar o nome, mas que era um “expert” em aplicar injeções, e depois do primeiro escândalo na farmácia, considerou a possibilidade de ir, a cada mês, aplicar a espetada lá em casa, no que foi, de imediato, entendido e aceito.
Então, a cada mês, aquele prédio se transformava no palco dos espetáculos da Robertinha, mas como diz o velho ditado “não há mal que sempre dure...” um dia, nova consulta, uma súplica emocionada dos pais já esgotados com tanta gritaria, veio a liberação médica. Já não mais teríamos que forçar a aplicação de novas injeções. Estávamos livres, nós e a Roberta, daquele suplício mensal.
A lembrança, porém, não foi apagada e, ao assistir esse comercial, voltou de cabo a rabo em nossa memória.
Graças a Deus só na memória.


Por Miguel Chammas

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A Batalha da Campanella

Imagem tirada do blog Falcão do Morro Itaquerense - Seleção Juvenil de 1963

Itaquera 1966, 23 de dezembro.
Sou acordado logo cedo por minha mãe e de imediato convocado por ela para irmos ao Mercadinho do SESI ao lado da padaria Vencedora para efetuarmos as compras para o almoço de natal que seria realizado na casa da tia Terezinha sua irmã mais velha.
Saímos de casa com duas enormes sacolas e na descida do Morro do Falcão passamos pela casa da prima Mariinha para pegar meu primo Paulinho, conhecido em Itaquera por Paulinho Porrete, pois ele iria nos ajudar a carregar as sacolas na volta para casa além de levar a lista de compras que ficara a cargo de sua mãe.
Chegamos ao SESI e como era de se esperar nos deparamos com enormes filas para efetuar as compras de natal, tendo em vista que aquele estabelecimento vendia a preços populares.
Enquanto minha mãe fazia as compras Paulinho e eu fomos nos sentar ao lado das carroças de carreto que ali tinham o ponto, e nos ocupamos em ficar jogando pedrinhas, ou melhor, saquinhos, pois eu sempre carregava os 5 saquinhos que eram preenchidos com areia, que minha mãe havia feito para substituir as pedrinhas.
Compras feitas, dona Nair minha mãe entregou as duas sacolas e ordenou a mim e ao Paulinho, que fôssemos direto para a casa da tia Terezinha levar as compras, e que não era para pararmos em lugar algum. Depois de deixar as sacolas lá poderíamos então sair para brincar.
Ordem dada ordem a ser cumprida. Colocamos as sacolas atravessadas num cabo de foice que havíamos levado para esta finalidade e marchamos em direção a Vila Corberi.
Passamos pela estação de Itaquera e no final da mesma Paulinho sugeriu que fôssemos direto pela linha do trem, que cortaríamos caminho. De imediato concordei e lá fomos nós. Esta mudança de rota foi o ponto chave para tudo que ocorreu e que vou relatar a seguir.
Ao passarmos pelo pontilhão sobre o Rio Verde, neste lugar o rio atravessava da Tomazzo Ferrara para a 25 de Março, e lá havia um túnel onde no seu término tinha uma queda que os garotos utilizavam para escorregar, nos deparamos com o Tampinha lutando contra o Landóia da Campanella dentro do rio.
Paramos para observar a luta entre os dois garotos e aos poucos foram chegando mais meninos da Campanella que começaram a atirar pedras em nós que estávamos lá no barranco da linha do trem. Vendo que a turma da Campanella ia crescendo, Tampinha interrompeu a luta corporal no rio e subiu para a linha onde nós estávamos e pediu para irmos buscar reforço.
Pegamos as duas sacolas e correndo descemos pelo campo do Figueirinha e fomos na casa do tio Bruno, onde deixamos as sacolas guardadas e convocamos o Bruninho Carijó, o Bilú irmão do Lauro e mais uma “renca” de garotos que estavam jogando bola no Figueirinha e marchamos em disparada para o pontilhão.
Em maioria e com farta munição de pedras de brita que sustentavam os dormentes da linha do trem passamos a levar vantagem na batalha, e aos poucos os garotos da Campanella foram retrocedendo e nós avançando, até que eles bateram em retirada subindo pela trilha da Biquinha que ligava pelo meio do mato a 25 de Março com o alto da Avenida do Contorno.
Empolgados, enchemos nossos bolsos de pedras e partimos em perseguição aos fujões, e não percebemos que estávamos entrando em terreno do inimigo. Dito e feito. La no alto já na Avenida do Contorno, perto do Campo do Botafogo os garotos da Campanella haviam juntado uma turma maior que a nossa e bem armados de paus e pedras.
Meia volta e desta vez partimos em retirada para o nosso lado, porém meu primo por ser portador de paralisia infantil de uma das pernas, não podia correr na mesma velocidade dos demais garotos, e sendo assim ele e eu ficamos mais para trás da fila. Ao chegarmos na trilha da descida da Biquinha, vendo que seríamos alcançados pelo inimigo, Paulinho se atirou de carrinho em uma grande touceira de Capim Angolão que havia ao lado do barranco e até mesmo por instinto eu fui atrás.
Ali escondidos vimos cada um dos garotos da Campanella passarem na trilha ao nosso lado sem nos verem. Após todos terem passado, não sei até hoje por qual motivo, o Paulinho cismou de sair do esconderijo e ir ao encontro do inimigo pela retaguarda. Ele sacou de seu bolso um canivete suíço que havia ganho de seu pai do qual nunca se separava e iniciou a marcha em direção aos garotos que agora estavam já na 25 de Março ao lado do rio travando uma batalha de pedras contra a turma do Falcão que estava sobre a linha do trem.
Desta vez eu titubeei, pois sendo um garoto magrela, não teria a menor chance o corpo a corpo contra aqueles garotos, diferentemente do Paulinho que compensara a perda de força na perna afetada por uma força descomunal nos braços, e encará-lo no braço era para poucos.
De onde eu estava podia ver meu primo aproximando-se da retaguarda do inimigo, até o exato momento em que ele desapareceu de minha visão e fora cercado por um grupo menor de garotos que defendiam esta retaguarda. Neste momento fui invadido por uma coragem súbita e com uma pedra em cada mão disparei em socorro ao Paulinho.
Ao aproximar encontrei Paulinho no chão gemendo de dor e gritando: - Quebrei a perna, quebrei a perna, corre chamar minha mãe.
Não sabia se obedecia ao Paulinho ou partia para a porrada contra os moleques, quando o Landóia falou: - nem tocamos nele, ele caiu sozinho. Versão esta que Paulinho de imediato confirmou.
Parti em disparada em busca de socorro, peguei minha mãe em casa e em seguida passamos na dona Olga cabelereira onde estava minha prima Mariinha a mãe do Paulinho fazendo o cabelo par a festa de Natal. Saímos então todos correndo e desesperados para a 25 de março, prima Mariinha ainda com os bobs no cabelo. E minha mãe se descabelando.
Encontramos o Paulinho já na beira da rua sentado em uma cadeira que fora providenciada pela mãe do Anibal e do Zé Zoiudo que moravam ao lado do rio.
Paulinho estava pálido e suando frio, mas pode contar que ao aproximar dos moleques, com o canivete em punho decidido a enfrenta-los e espetar o primeiro que chegasse perto, escorregou no barro e caiu sobre a perna afetada pela paralisia e quebrou o fêmur.
Os moleques a esta altura já haviam de dispersado temendo a consequência do ocorrido que ficara muito sério a partir deste acidente.
Fui incumbido de correr até a casa do seu Gabriel para que socorresse o Paulinho em seu taxi e dei sorte que seu Gabriel estava chegando para o almoço e de imediato atendeu a meu pedido.
Paulinho foi levado para o Hospital das Clínicas onde foi internado e teve que passar por uma grande cirurgia para implantar uma placa de platina de mais de 20 centímetros para religar os ossos do fêmur, placa esta que está em sua perna até hoje.
O Natal naquele ano foi triste, mais entendemos que a providência fora divina, pois se meu primo não caísse e quebrasse a perna poderia ter feito algo terrível com seu canivete.
Assim terminou a Batalha da Campanella. Paulinho, ou melhor Dr. Paulo Douglas Primerano Jr, hoje aos 66 anos é renomado advogado em Boituva. Tampinha continua em Itaquera desfilando com sua carrocinha de amolar facas e indo a todos os jogos do Falcão do Morro. Bruninho Carijó e Landóia já morreram, dos demais não tenho notícias.
Fica aqui uma enorme saudade do tempo de moleque e de Itaquera de antigamente.


Por Marcos Falcon

sábado, 23 de setembro de 2017

Memórias de uma saudade


Todos têm saudades. Não existe ser vivente, neste mundo de meu Deus, que não tenha saudades, Saudades de alguém, de alguma situação, de uma época, de emprego, enfim saudades de qualquer coisa. Este cronista, ou melhor, este rabiscador de textos insólitos também as tem, e muitas, de muitas coisas, de muitas ocorrências, mas Saudades mesmo, com “esse” maiúsculo eu tenho de uma senhorinha de estatura pequena, de nariz abatatado, de olhar intrigante e melancólico que povoou meus dias por mais de 40 anos. 
Uma grande mulher embora de estatura pequena. Uma mulher que sofreu em silêncio ao ver seus sonhos irem, a cada dia, sendo apagados ou desestimulados. Uma mulher que dedicou sua existência a um casamento falido, a cuidar, com denodo, de uma família que não era originalmente sua, a zelar por filhos gerados dentro de seu útero, com todo carinho e responsabilidade, ensinando-os desde os primeiros passos, as primeiras letras, os primeiros voos, as primeiras desilusões, como deveriam enfrentar o mundo. Esses ensinamentos, lembro-me bem, foram efetuados de todas as formas e possibilidades, ora com carinhosos gestos, ora com surras homéricas.
Uma mulher que zelou, ainda, pela educação e acolhimento dos filhos de sua cunhada quando ela foi convocada por Deus para a espiritualidade.
Uma mulher que, acreditando no dever de suas promessas, ao perder, ainda na gestação, uma filha tão desejada, foi já no outono da vida, buscar na adoção a filha desejada, dela cuidando, acalentando e perdoando suas falhas e erros até sua despedida deste plano.
Isso mesmo, estou falando de Dona Thereza, minha tão honorável mãe, que neste 23 de setembro, se viva estivesse, completaria 97 anos de vida.
É, minha mãe, minha velha, como eu habitualmente e carinhosamente te chamava, hoje, novamente, aliás como todos os dias, me lembrei de você.
Lembrei de nossos segredos, de nossos desejos, de nossos sonhos, mas mais ainda, lembrei dos lindos momentos que juntos desfrutamos. Sabe minha velhinha, lembrei de várias tardes em que juntos, sentados no nosso quarto lá na casa da Rua Augusta, onde eu assistia você, com suas mãos milagrosas e mágicas, bordava os pontos em cruz ou outros mais difíceis ainda, nas peças de lingerie, de cama ou, ainda, de mesa que lhe encomendavam e que você agradecia por poder melhorar as finanças de nossa família com o suor e sangue de seus dedos. 
Lembra, velhinha? Lembra que você, em várias oportunidades me olhava entretido em seus afazeres e perguntava, o que você está querendo Miguelzinho? E na ausência de minha resposta concluía: quer cantar comigo? E na ausência de minha resposta, começava a cantarolar, com sua voz maviosa e afinadíssima: “vide el mare quanto é bello....”, “Mamma son tanto felice”, ou ainda, “sola fané descangayada, la vi esta madrugada sair de um cabaret”,  “La cumparsa de misérias sem fin desfila” “Il primo amore non siscorda mai” e tantas outras melodias que emolduravam nossas tardes com muita alegria.
É, minha velhinha, faz tempo que estas saudades brotam de meu coração amargurado. 
Tenho medo, às vezes, de não ter feito por você tudo que lhe era merecido, mas, saiba que o pouco que pude fazer foi do fundo do coração, tentando compensar o muito que fez por mim.
Hoje, neste 23 de setembro de 2017, respeitosamente, te envio meu mais carinhoso e saudoso beijo e te confesso que a minha saudades é imensa. Um dia, ainda, deveremos nos encontrar novamente e afogar em abraços e beijos toda esta angustia.
Parabéns minha mãe!

Por Miguel Chammas

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Memórias por um ditado


Já lá se vão muitos anos. Estávamos no curso dos anos “tenta”, possivelmente “tenta e cinco”. O solar da família Chammas era em um apartamento no oitavo andar de um prédio da Rua Rocha, esquina com a Rua Itapeva, lógico, no meu idolatrado Bixiga.
O titular daquele núcleo familiar, eu, era um orgulhoso profissional da área de Consultoria Empresarial de O&M que, naquelas alturas, já colecionava uns tantos trabalhos de sucesso em todo o território nacional. Meu sucesso não era medido pela remuneração um tanto aquém do merecimento natural, mas era, sim, medido pelos trabalhos realizados com todo o denodo e com seus resultados devidamente comprovados.
A família, por sua vez, sentia com minhas ausências profissionais já que, por força de trabalhos distantes, era eu obrigado a me ausentar por períodos de três semanas a cada fim de semana retornando, mas mesmo assim íamos vivendo com dignidade respeito e muito carinho.
O apartamento era alugado; veículo, tínhamos um Ford Corcel II vermelho flamejante, naquela altura, um tanto quanto necessitado de melhorias.
Estava desenvolvendo, no período, um trabalho em São Paulo o que alegrava a todos. Fiquei nesse trabalho por algumas semanas e, utilizando o carro com maior frequência, fui reparando todos os seus defeitos e necessidades.
Resolvi, então, depois de pesquisar orçamentos, mandar arrumar o nosso transporte. Seriam verificados e reparados os pequenos defeitos mecânicos e, lógico, os defeitos da carenagem e consequente pintura.
Aceite, para tal, trabalhar um período sem condução própria, utilizando serviços de taxi para meus deslocamentos.
Na última semana do meu trabalho em São Paulo a reforma do carro estava sendo terminada, e contente, eu poderia passear no final da semana com toda a tropa, coisa que já não fazíamos havia algum tempo. Mesmo por que eu já sabia que na semana seguinte estaria assumindo uma nova tarefa no interior e estaria ausente, quem sabe, por mais algumas semanas.
Fizemos o planejado passeio. Fomos almoçar na Cantina Veneta, nossa predileta, que ficava na estrada de M’boi Mirim.
Como de praxe, no carro já estavam acomodadas a minha mala de viagem e minha maleta 007 com os materiais de uso profissional (naqueles tempos noteboock não era nem conhecido por estas plagas), pois após o almoço, a “dona patroa” me desembarcaria na Rodoviária da Rua Duque de Caxias para início de minha viagem profissional e retornaria à casa com nossas filhas.
Pronto, final de semana perfeito, embarquei com destino ao interior e na segunda-feira, iniciei um novo trabalho. A distância dessa nova tarefa não era grande e isso me permitiria retornar a cada sexta-feira.
A semana passou rápida e me permitiu um retorno mais cedo para casa. Desembarquei em São Paulo por volta das 14h00 e de taxi fui para casa.
Minha ideia era chegar em casa, largar a bagagem, pegar o carro e ir buscar minha esposa (esqueci de contar que ela, no intuito de ajudar as finanças domésticas trabalhava, como escriturária, no Hospital Menino Jesus também no Bixiga) fazendo-lhe uma surpresa.
Se assim pensei, assim procedi. Só que ao descer na garagem do prédio e localizar nosso carro na vaga a ele destinada, levei um susto. Meu corpo gelou da cabeça aos pés. Aquele carrinho, quase novo., pintadinho de vermelho estava, agora, ostentando um nobre e profundo amassado na sua trazeira.
Cego de raiva embarquei e quase desmontei o carro tal a violência usada para bater à porta. Sai cantando pneus e só parei à frente do Hospital. Buzinei algumas vezes e, finalmente, ela e a prima que com ela trabalhava, apareceram na janela.
Ela fez um sinal me pedindo para aguardar e eu já percebi que a desculpa estava pronta e convincente. Tratei de me acalmar e quando ela se aproximou já foi dizendo: “-a culpada fui eu...não percebi a mureta do estacionamento e bati fazendo a manobra...”
Um pouco mais calmo disse que ela fosse para casa por que eu iria tentar resolver o problema do carro... Fui e resolvi.
Levei o carro até a Loja Ford Sonnerving que existia na rua Frei Caneca, pedi uma avaliação do carro no estado, perguntei o preço de uma Belina Ford LE Branca, que era meu sonho e havia me encantado desde a entrada, negociamos a troca e o financiamento do valor excedente e, às 19h30 este consultor, extremamente satisfeito, já com seu novo troféu estacionado na garagem, usou o interfone da portaria para chamar toda família e com eles festejar a nova aquisição que, diga-se de passagem, foi aprovada e comemorada por todos.
Em seguida, todos embarcados, fomos passear e mostrar nosso carro aos parentes mais próximos.
Lembrei dessa passagem hoje ao ler hoje em algum lugar um ditado que dizia “Há males que vem para o bem.”


Por Miguel Chammas

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Memórias Gestuais


Há muito tempo que não me sinto propenso a sentar diante desta maquininha eletrônica e digitar fragmentos da minha memória. Tinha receio de que minha caixa de lembranças estava exaurida. Nada vinha aguçar minha vontade de formalizar um registro histórico.
Então, tentei aceitar a situação como normal e abstraí a vontade de escrever.
O tempo passava e de quando em vez me pegava pensando na possibilidade de retornar aos meus rabiscos. Concentrava-me na busca de um tema e...nada acontecia.
Resignado voltava ao meu “ponto zero” e, consequentemente, ao fazer nada de sempre.
Hoje, ainda sem nada interessante para fazer, sozinho, uma vez que, por conta de uma vontade enorme e um merecimento incomum, minha companheira iniciava um curso acadêmico, restou o cotidiano, assistir TV ou ouvir a irradiação do jogo do meu time que, por ser uma segunda-feira, não seria sequer televisionado. Não tive dúvidas, optei por ouvir o rádio.
O jogo estava seguindo seu curso normal, meu time jogava bem e me dava a certeza que de um momento para outro abriria o placar. Certeza confirmada, o verdão abria 1 x 0 contra o, também verde, Coritiba. A tranquilidade tomou conta de meu ser até o final do primeiro tempo e me dava a certeza que no segundo tempo de jogo o placar se ampliaria e a vitória seria definitiva.
A segunda etapa teve início, algumas alterações foram realizadas pelas duas equipes e, nosso adversário mudava um pouco sua estratégia de jogo, nosso time não se encontrava em campo.
As dificuldades eram evidentes. O verdão de Curitiba ia se encontrando cada vez mais e ameaçava nossa mísera vitória. A bola ia e vinha, os ataques seguiam muito mais perigosos contra o Palmeiras e eu, como todo torcedor consciente, torcia, tentava mandar fluidos positivos para minha equipe na determinação de, pelo menos, manter a apertada vitória.
Foi então que, num momento de muita tensão, me percebi fazendo um gestual que era marca registrada dos Duques de Piu-Piu nos anos “entas” da minha juventude, no meu amado Bixiga, bairro famoso de Sampa, para amarrar o time adversário.
Esse gesto, introduzido em nosso grupo pelo amigo e irmão Xiribi era simples, em ambas as mãos, devidamente postadas, estirávamos para a frente os dedos indicador e mínimo como se fossem um par de chifres e, os dedos restantes, anelar, médio e polegar, se contraiam e formavam uma figa.
Pura crendice nos permitia a certeza que estávamos amarrando o adversário e impedindo-o de concluir com eficiência suas jogadas.
Lógico que, em muitas ocasiões, nem esse gesto cabalístico nos ajudou, mas quando a coisa acontecia a nosso favor, a ele (gesto), eram concedidas todas as glórias.
Hoje, mais uma vez, devo render ao velho ritual as glórias da vitória. Vencemos com um suado 1x0 e ao término da irradiação, minhas velhas mãos, já padecentes de artroses e artrites, estavam bastante doloridas pelo uso desse gesto durante a maior parte do segundo tempo.
Eis que, na paz da vitória, consciente da lembrança gestual, voltei para meu notebook, abri o Word e registrei mais um rabisco.
Será que voltei em definitivo? Não sei, mas aguardem por favor.  

Por Miguel Chammas

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A festa


1963
13 de junho dia de Santo Antônio.
Meu pai Antônio já por tradição de família, todo ano fazia a festa de Santo Antônio para reunir a família e os vizinhos em nossa pequena chácara em Itaquera.
A festa era preparada com antecedência e minha mãe encarregava-se de preparar os doces típicos que fazia com muito carinho e competência, pois para ela nada mais importante no mundo que receber elogios de suas comadres de como estes estavam deliciosos.
Meu pai como que por um ritual, sempre uma semana antes ia até o Calipeiro, onde hoje está o Itaquerão, para escolher o mais belo exemplar que seria transformado em mastro para sustentar as imagens dos três santos, Antônio, João e Pedro, ao pé do qual na noite da festa seria rezado o terço sob o comando do Juca da dona Olâmpia, o “maió” rezador da região.
A mim ficava a missão de durante as semanas que antecediam a festa ir catando lenha para armar a fogueira, que não podia ser pequena e pela tradição deveria queimar a noite toda e amanhecer ainda acesa.
O dia da festa amanheceu lindo como um típico de inverno com sol tímido num céu sem nuvens  de um azul brilhante que contrastava com o frio dos ventos de inverno.
Minha mãe e Ana minha irmã deram início a decoração do quintal que foi todo enfeitado com bandeirolas de papel de seda colorido. Meu pai como exímio carpinteiro já ia improvisando os bancos de madeira de construção ao redor da fogueira. Eu fui escalado para ir buscar um saco de capim gordura, de preferência seco, que seria utilizado no processo de acender a fogueira.
Missão dada missão cumprida, peguei um saco de estopa que utilizada para carregar o capim que normalmente eu cortava para os coelhos, passei na casa do João Turco, e chamei o João Burrão para ir comigo buscar o capim.
Sabia que na entrada do Calipeiro havia muito capim gordura, pois eu o havia avistado no dia em que fui com meu pai buscar o mastro para o estandarte dos santos. Fomos diretos para lá e foi muito fácil cumprir esta missão, pois nesta época de seca quase todo o capim estava bem seco, no ponto para ser queimado.
Ao colocarmos o capim no saco avistamos, mais a frente em uma touceira isolada em uma haste de sementes do capim gordura, uma bola escura que ao longe nos parecia ser um ninho de bico de laca, um passarinho de porte pequeno que vive junto aos papa-capins.  Nos aproximamos do ninho e pudemos notar que não era de bico de laca e sim era uma bola de carrapatos micuins também conhecidos como carrapatos pólvora.
Nesta época do frio eles escalam estas hastes e se amontoam para acasalarem e depois serem levados pelo vento para reprodução em qualquer lugar. Uma bola desta deve ter mais de milhão de pequenos seres, prontos para encontrarem um animal mamífero de sangue quente e se alimentar antes de morrem.
Olhei para o João e ele para mim. Pronto a traquinagem já estava desenhada. Corremos para casa com o saco de capim e retornamos para o Calipal agora com um saquinho de papel destes onde eram vendidos a granel os grãos de arroz e feijão, que comprávamos no armazém de secos e molhados do Seu Luiz Português.
A habilidade do João era extrema. Vergou suavemente a haste do capim gordura, colocou o saquinho debaixo e com um leve bater de dedos de forma contínua foi derrubando toda a ninhada para dentro do saco. Agora saco com a boca amarrada era só levar e guardar nosso tesouro para o grande momento.
A festa tinha  seu ritual, ou seja, o povo ia chegando a partir das 18 horas e até as 20 todos já estavam lá. Às 20 horas em ponto meu pai hasteava o mastro com os santos sob um estrondar dos fogos que simultaneamente eram queimados pelos especialistas, meus tios Nine e Antônio. Mastro fixado era a hora de todos sentarem-se nos bancos para a reza do terço. Após o terço a fogueira é acesa e começa a comilança. Naquele ano meu pai havia contratado um sanfoneiro que iria alegrar a festa e tocar para o povo dançar.
Assim que o mastro começou a ser erguido e todos estavam com o olhar fixo nos santos, os santinhos João e eu pegamos o saquinho e esparramamos os “porvinhas” por todos os bancos.
Já na segunda Ave Maria que o Juca rezava teve início o baile, sem música, porem era um tal de coça coça, mexe mexe, sem parar e que por respeito a reza ia sendo aguantado com bravura, principalmente pelas mulheres.
Não teve jeito, antes do primeiro Pai Nosso o povo não aguentou foram levantando dos bancos, os homens coçando para todo lado e as mulheres mais recatadas correm para dentro de nossa casa onde minha mãe as ajudou a livrarem-se dos carrapatos já depois do estrago feito.
Meu pai indignado falou que os carrapatos só poderiam ter vindo junto ao feixe de capim gordura, e sendo assim ateou fogo na fogueira e solicitou os homens que passassem tochas de fogo pelos bancos e pelo terreiro para matar os micuins.
A fogueira iluminou todo o quintal, porém o estrago era grande e a mulherada não para de coçar. Minha mãe tentou distribuir suas guloseimas, mas não adiantou as nove da noite só restavam no quintal o Chico Torto que sempre ficava até a meia noite quando descalço passava sobre as brasas da fogueira sem queimar os pés e o Seu Eduardo que ficava até acabar o caldeirão de quentão.
O assunto foi tema das conversas entre as comadres durante toda a semana e motivo de gargalhadas quando comentavam sobre s as mais diferentes e engraçadas formas de se coçar de cada uma das senhoras.
Meus pais ficaram frustrados com a festa do Micuim, porém atribuíram o fato a uma fatalidade.
João Turco e eu nunca contamos a verdade para eles, e durante muitos anos seguidos sempre que havia a festa de Santo Antônio na minha casa nós lembrávamos este fato olhávamos um ao outro de soslaio e riamos da piada que somente nós entendíamos.


Por Marcos Falcon