sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Memórias de um dia 16 de julho de 2016


imagem: Restaurante Guanabara, em Sampa

São Paulo, 16 de Julho de 2016, sábado, este foi um dia de grandes emoções para este escrevente idoso e cheio de memórias.

Nesta data eu estava me dirigindo para um almoço que pretendia fosse memorável, mas vamos por partes:
Primeira: Tinha experimentado, pela vez primeira, uma viagem usando minha condição de idoso. Aliás, condição que de nada vale no momento de requisitar a tal passagem por que para obtê-la o coitado do pleiteante tem que, com cinco (cinco) dias de antecedência e na hora exata em que pretende viajar, se apresentar no guichê da Empresa Transportadora, no terminal rodoviário de destino e contando com a benemerência das operadoras no local fazer o pedido que, depois de várias delongas pode ser aceito ou não. Se aceito, você recebe o bilhete emitido e faz, lógico, o seguinte questionamento: Pode emitir também o bilhete da volta? E ficará sabendo, então, que se a volta for para o mesmo dia, em período diverso da ida, terá que voltar no horário pretendido e tentar conseguir a passagem, mas poderá também, ficar aguardando próprio terminal até o horário para tentar conseguir o famigerado bilhete. Assim foi que perdi um dia inteiro no Terminal Rodoviário, desconfortavelmente acomodado para conseguir legislação específica. 
Ah! Registre-se que se consegue, com muita paciência, os almejados bilhetes, mas o direito de embarcar e viajar só lhe serão garantidos se desembolsar o valor das famigeradas taxas de embarque, por que essas não são gratuitas nem dispensadas pela exploradora dos terminais rodoviários. Ou seja, passagem gratuita só parcial.
Segunda: Chegando ao meu destino e percebendo que tinha, ainda, um bom espaço de tempo descompromissado, e ciente que meu compromisso era no centro da cidade, resolvi embarcar num trem metropolitano e descer na Praça da Sé. Queria tomar um banho de paulistanidade e respirar os mesmos ares que havia respirado em minha juventude, quando exerci a função de “Office-boy”. Assim decidi e fiz, desci na estação Sé do metro, galguei ao solo por escadas rolantes e...Meu Deus! Em que mundo estou? Que cenário é este tão dantesco e inóspito que se apresenta aos meus olhos?
Que horror, quanta desgraça, quanta sujeira, quanta tristeza rolando pelas calçadas do “marco zero” da Capital dos paulistanos. Lágrimas internas rolaram em meu coração, mas resistindo às decepções, continuei a minha peregrinação, cruzei a Praça da Sé desviando de uma série de imundices e excrementos e avancei para a Rua XV de Novembro. O cenário era menos tenso mas, ainda, bastante diferente daquele registrado em minha memória. Os velhos bancos, tão visitados outrora, já não existem mais. Apenas a resistente agencia do Bradesco que por centenas de vezes atravessei para alcançar a Rua Álvares Penteado, continua no mesmo lugar. Procurei achar o Banco Comercio e Indústria, o Banco Comercial, não encontro mais nada. Onde ficava a Lojas Garbo agora é uma churrascaria popular. Tudo mudado. Sigo em frente e chego na Praça Antonio Prado, no numero nove o famoso Edifício Altino Arantes, onde os primeiros andares eram usados para a sede social do Jockey Club Paulistano, os demais andares eram comerciais e no 9º andar e trabalhava, nos escritórios da empresa Comercial e Importadora Restinga Ltda., uma laminadora de ferro de propriedade de Pedro Cerquinho de Assumpção e José Cerquinho de Assumpção e gerenciada pelo grande esmeraldino Pedro Ferronato.Postas fechadas, uma placa indicando ser agora um órgão governamental (Secretaria Estadual de Esportes Lazer e Turismo) e nada mais. 
Olhei para os lados e não vi, além do prédio do Banco do Estado de São Paulo (agora Santander) mais nada de reconhecível. Onde está o City Bank? A Bolsa de Valores? Nada... Os quiosques que, no meu entender haviam sido implantados para embelezar a praça, sujos e mal cheirosos, servem-se, agora, como pontos de abrigo para o sono de mendigos.
Balancei a cabeça para apagar a visão e continuei minha caminhada em busca da ladeira da Avenida São João. Já sabia de há muito que o relógio havia sido retirado, mesmo assim arrisquei um olhada e sem surpresa não o encontrei, comecei a descida, busquei a Fotoptica onde revelei diversas fotos e aluguei várias câmeras fotográficas e já não existia, olhei em frente e, alvíssaras, encontrei as portas do Banco do Brasil onde fui muitas vezes a serviço na CACEX em busca ou re entrega de documentos. Na porta lateral do Edifício Martinelli,devidamente fechada, uma placa informava que as visitas ao terraço estavam suspensas nos finais de semana e feriados.Que pena, uma visita poderia, perfeitamente, preencher mais um espaço do meu dia e me permitiria, quem sabe, matar a saudades, que ainda sinto, do CAFÉ (Clube Associativo da Fazenda Estadual) que tanto freqüentei na infância mercê beneplácito de minha tia Zaíra Chammas (Zazá).
Sigo em frente, atravesso a Rua Libero Badaró decidido a sentar-me em um banco que avistei, lembro-me das muitas vezes que percorri aquele trecho de rua, empurrando um carrinho de ferro, levando ou buscando livros no Collie Posteaux dos Correios, executando minhas funções para a Rede Latino Editora, onde trabalhava.
Sento-me no banco visado e olho para os lados, nada de que minha memória registrava, do lado direito, no trecho da Avenida São João que ia da Rua Libero Badaró até o Vale do Anhangabaú, não vi nem uma daquelas enormes vitrines preenchidas com bugigangas mil, onde por centenas de vezes comprei pares de abotoaduras, prendedores de gravata e alfinetes de colarinho, peças indispensáveis, que compunham a elegância masculina da época. Nada mais existia! Virei meu olhar para o lado esquerdo e, tristeza, não vi o chamativo luminoso da Casa dos Dois Porquinhos, não vi a velha Pastelaria da esquina, hoje substituída por outra churrascaria.
Enfim, olhei para a esquina onde, as 13hs00m seria realizado o evento objeto do meu deslocamento a São Paulo. A Brasileirinha já não mais estava por lá, mas graças a Deus, o tradicional Restaurante Guanabara (onde degustei várias Coxinhas de Frango (coxinhas brancas) e sanduíches de Pernil sem molho, acompanhados de geladíssimas guaranás da Brahma), que era na Rua Boa Vista, agora ocupava o lugar e, em poucos minutos ali eu estaria degustando sua famosa feijoada.
Terceiro: Enfim, relato a terceira parte das emoções desse sábado. O almoço tinha sido preparado para reunir alguns autores de textos do site São Paulo Minha Cidade que, junto com seus familiares, se propunham a degustar a famosa feijoada do Guanabara e manter a amizade que os unia.
Logo que me aproximei da porta do restaurante, encontrei com o Leonello Tesser (Nelinho) e juntos entramos. Fui logo reparando que o balcão dos famosos sanduíches havia sido deslocado para o lado direito de quem entra, comentei com o maitre e ele me respondeu que aquilo já tinha acontecido há mais de dois anos (tempo em que eu não havia, sequer, passado por ali). Sentamo-nos em locais devidamente reservados para o grupo e fui logo bebericando uma Espírito de Minas para não perder tempo enquanto aguardavas os demais chegarem.
Com o passar dos minutos foram chegando a Teresa Fiore, O Roberto Capuano com seu filho Robertinho e sua nora a Lena, em seguida chegou o Marcos Falcon, depois vieram o Rymundo Montagna e esposa, o Arthur Miranda e a Denise sua esposa, em seguida o José Carlos Navarro e sua esposa Silvia, o Modesto Laruccia chegou sozinho, devidamente licenciado pela querida Myrte e, finalmente a família Loureiro (Marcos, Isabel e a pequena princesa) completando, assim, a lista dos participantes.
Entre bebericos, experimentos (o Robertinho Capuano fez questão de experimentar o famoso sanduíche Psicodélico tão comentado até aquele momento), e a feijoada, transcorreram horas maravilhosas e de muita alegria.
Fartos ou, como se diria nos antigamente, com os pandulhos cheios, chegou a hora da despedida. 
Beijos e abraços em profusão, renovadas promessas para uma nova reunião e cada um foi continuar a sua trajetória de vida. 
Sei que novos encontros hão de acontecer e rogo ao Bondoso Deus, que me permita estar presente em todos eles, pois, são dessas pequenas coisas, que meu ser fica revigorado e pronto para novas aventuras.
Até lá, vamos nos arrastando e buscando sobreviver!



Por Miguel Chammas

sábado, 6 de agosto de 2016

Na rua Lavapés


Éramos 4 amigos inseparáveis, eu, Wagner, Fausto e Dimer. Juntos saíamos pela noite sempre procurando um bom programa para nossa diversão; geralmente a opção era para um salão de baile no centro.
Havia também um acordo: quem conseguisse uma companhia feminina podia se desligar da turma  e seguir seu caminho.
Certa noite, fomos todos juntos ao salão do Paulistano da Glória e, eu e o Fausto, conseguimos conquistar duas garotas, boas bailarina;, eram duas primas, a M. e a MP. (os nomes são mantidos em sigilo para salvaguardar a privacidade).
Uma hora antes do término, saímos os 4 para terminar a noite na casa delas; as duas residiam num casarão que ficava na Rua do Lavapés, no Cambuci, ao lado da antiga Fábrica de Chapéus Ramenzoni  (hoje nenhuma das duas existem mais). Na casa residiam outras pessoas e num corredor comprido havia quartos de  ambos os lados. Ficou combinado que uma delas entraria na frente para ver se tudo estava calmo e se os demais moradores estavam dormindo.
 Tudo estava em ordem. Fomos caminhando pelo corredor escuro até o quarto das meninas, que também estava às escuras, e com o máximo de silêncio, elas entraram primeiro, eu entrei logo após e por último entrou o Fausto. Antes de fechar a porta ele perguntou onde ficava o interruptor da luz, uma delas indicou que ficava ao lado direito, mas o que ela não falou é que naquele dia à tarde o interruptor teve problema e teve que ser retirado por um senhor que cuidava da habitação, mas, por falta de tempo, não conseguiu colocar outro no lugar. Assim, a lâmpada teria que ser acionada encostando um fio no outro para  fechar o contato.
 Dessa forma, o Fausto levou a mão procurando o interruptor... Não preciso me estender no assunto para explicar o que aconteceu;  encostando a mão nos dois fios desencapados,  ele tomou um tremendo choque, deu um grito e soltou uma série de impropérios em pleno corredor. Com isso, várias portas se abriram e só víamos cabecinhas sonolentas procurando saber o que tinha ocorrido. Tivemos  que sair às pressas do local antes que alguém resolvesse tomar satisfações mais sérias. Deixamos as meninas lá e a noite terminou dessa forma. 
Dias depois, tornamos a encontrar as garotas e felizmente nada aconteceu  com elas que continuaram morando lá, mas nunca mais nos convidaram.



Por Leonelo Tesser ( Nelinho)

sábado, 30 de julho de 2016

E tudo terminou em pizza


Desde o início da década de 30, meu pai, Domingos Capuano, trabalhava no depósito de uma grande Papelaria de São Paulo na época. Na década de 40, já como chefe desse depósito, certa vez convidou uns amigos mais chegados para uma pequena reunião em sua residência (Rua Antonieta - atual Comendador Miguel Calfat na Vila Nova Conceição), motivado pelo seu aniversário. Vieram cinco amigos sendo que quatro deles aparentando entre 35 e 40 anos e um com bem menos do que 30, que era entre todos o mais falante e desembaraçado para se expressar. Em certo momento subiu num banquinho que estava no quintal e fez um breve discurso dirigido ao meu pai. Nessa ocasião deveria estar entre oito e dez anos de idade quando presenciei essa cena.
No final da década de 40, em reconhecimento ao excelente desempenho prestado pelos quase 20 anos na firma, o dono da empresa, Sr. Jorge, agraciou meu pai com um bom valor em dinheiro e mais duas vezes esse valor em mercadoria para possibilitar abrir uma pequena Papelaria no armazém que ele havia construído na própria residência. E foi assim que surgiu a Papelaria Martim Francisco que logo em seguida passou para a Avenida Santo Amaro, próximo da residência, tendo permanecido em atividade por 47 anos.
No início da década de 70, entra na Papelaria um amigo do meu pai que não se viam há algum tempo. Logo no início do encontro o assunto predominante não poderia ser outro: Futebol. Como os dois eram "palestrinos", começaram a conversar sobre o Palmeiras. Em dado momento da conversa esse amigo menciona o nome do MILTON PERUZZI, que também era "palestrino". Tive lampejos de ter ouvido do meu pai dizer o seguinte: "- Sim conheço, esteve uma vez na minha casa", Num momento me veio a mente aquele jovem muito falante que subiu num banquinho e fez um breve discurso, mas nunca tive a curiosidade de indagar meu pai sobre o assunto.
Somente há cerca de 5 ou 6 anos tomei conhecimento que a expressão que se tornou famosa no nosso cotidiano por todo o país, principalmente em Brasília: " E TUDO TERMINOU EM PIZZA ", teve como criador o marcante Locutor e Jornalista Esportivo MILTON PERUZZI que, entre outras façanhas, comandou com brilhantismo o programa Mesa Redonda Futebol é com Onze, na TV Gazeta.
Nessa altura meu pai não estava mais entre nós. Fiquei sem referência sobre o assunto. Recentemente surgiu a ideia de consultar a internet e buscar notícias sobre MILTON PERUZZI. Dentre muitos personagens surgiu o nome do Dr Milton Peruzzo Jr. médico cirurgião plástico, que constatei ser filho do MILTON PERUZZI (que na realidade era PERUZZO). Através de um e-mail para contato fiz a seguinte pergunta para o Dr Peruzzo: "... seu pai comentou alguma vez que na década de 40 chegou a trabalhar por algum tempo em uma Papelaria?" Logo no dia seguinte recebi a resposta do Dr Peruzzo: " - Não lembro de meu pai ter citado que trabalhou em Papelaria mas lembro dele ter dito que era amigo de um Capuano ".
Mediante essa resposta enviei outro e-mail esclarecendo a cena do banquinho e do discurso da década de 40 e também do encontro do amigo do meu pai na década de 70 na Papelaria onde foi mencionado o nome do MILTON PERUZZI. Prontamente obtive a seguinte resposta: " - Signore Capuano. Com certeza era meu pai, ninguém gostava mais de falar e discursar como ele... Abraço - Milton Peruzzo Jr ".
Passando a considerar verdadeira a minha presunção e consequentemente considerando terem sido amigos por algum tempo, certamente se encontraram e continuam a conversar sobre o "palestra"... lá no céu, ONDE TUDO TERMINA...EM PAZ!!!


Por Roberto Capuano

quinta-feira, 28 de julho de 2016

O reencontro

imagem: reencontro dos autores com feijoada no restaurante Guanabara em 16.07.2016

Manhã diferente, esta.
Após a feira orgânica para conhecer por onde anda e como anda o nosso mundo, fomos ao almoço.
Passeio pela cidade, calma, estranhamente calma, mesmo para um sábado de inverno, mas calma. Deixo a Silvia no ponto mais próximo possível do encontro, vou ao estacionamento, contorno o Largo do Paissandu, entro no cine Ouro, estaciono o carro. Sinto um piano tocando baixinho, vem o manobrista, entrego a chave, recebo o ticket, há um som de piano tocando baixinho.
Vou ao encontro de Silvia, passei pelo cine Paissandu, vejo o seu constante sorriso, olhamos a vitrine da loja; lembro do Marrocos mais adiante, no quartel do segundo exército um pouco antes, lembranças, de encantamentos e de correrias.
Descemos a São João. Passos lentos, meus passos guiados pelos dela, no ritmo que ela precisa. Foi ali que lanchamos aquela noite depois da reunião, diz ela, foi, respondo, seguimos. Ao nosso lado um alto falante berra como ninguém, chegamos ao prédio dos Correios, lembranças das filas e eu como “boy”, acostumado ao som do bater do carimbador nos selos das cartas. Hoje temos ainda correios, temos menos cartas, quase nenhum carimbador e nunca mais aquele prédio dos correios.
Chegamos. Uma pausa para descansar e eis que vejo a Teresa se destacando na multidão. O sorriso como sempre, a simpatia nunca perdida. Abraços, carinhos, beijos. O vento bate forte, resolvemos entrar, entramos e encontramos já parte dos amigos à nossa espera. A reunião da feijoada se inicia. Novos abraços, caipirinhas, chops, a insubstituível “Tônica” para a Silvia, mais amigos chegam e a mesa se completa. Almoçamos ou não almoçamos ? Almoçamos, mas o almoço é o de menos, o que vale é rever a cada um e ouvir o seu dia a dia, o seu momento, o seu passado, o seu rincão e ficarmos senhores do todo que a cidade nos proporciona ou nos proporcionou um dia. Há o discurso emocionado, a fala macia, o conselho compartilhado, a esperança renovada. Somos um grupo de pessoas fazendo a sua história, e, modestamente, por que não ? fazendo a história desta cidade, a historia deste País. O celular dispara, o facebook se atualiza e tal como nas antigas reuniões tudo se extrai para o bom e para o melhor. Somos um grupo de idealistas sonhando com o sonho dos realizadores, como só estes são capazes de conceber.
Mas, tudo tem um fim e o grupo se dispersa desta vez, ou melhor, um breve hiato, pois estaremos juntos mais vezes. Abraços, recomendações e sobretudo agradecimentos. Somos agradecidos pelo que temos e pelo que somos, lamentamos apenas por aqueles que desconhecem o que temos. A volta é feliz e nostálgica. Estamos satisfeitos, mas queríamos mais. Sempre queremos mais. Um amigo sobe devagar a São João, outra que se perde na multidão, eu e a Silvia voltamos na busca do carro. Faz frio, voltamos ao estacionamento, onde era o cine Ouro. Entrego o ticket e o manobrista vai buscar o carro. Eu olho as paredes, a Silvia sabe o que estou pensando, aperta minha mão como se fosse relembrar comigo. Nosso olhar de cumplicidade revela tudo. Encontramos nossos amigos, estamos felizes, mas há um som de piano tocando baixinho na minha cabeça. Vem o carro. O ruído do pneu abafa o piano, abro a porta e antes de entrar dou uma última olhada para o interior do estacionamento. Vejo o tapete macio, o balaustre de madeira, o porteiro elegante e me sinto como se assistir um antigo filme, fosse. Saímos à rua, o burburinho aumenta e eu calado. A Silvia passa a mão no meu rosto e murmura baixinho : Você também ouviu, não ouviu? Desvio do ônibus que chega muito perto, deixo passar a senhora que atravessou na nossa frente e penso baixinho : É; eu ouvi o piano também. 
Tarde diferente, esta.


Por José Carlos Munhoz Navarro

terça-feira, 26 de julho de 2016

Ganhei um livro

imagem: cedida pela autora

Brasileiro não tem o hábito de ler.
É o que dizem as pesquisas.

Bibliotecas são sisudas. Quem chega lá, ou é para estudar ou para fazer pesquisas. Tudo por obrigação.
É o que dizem as pesquisas.

Esmolas financiam o uso de drogas das crianças  em situação de rua.
É o que dizem as pesquisas.

Crianças e adolescentes arriscam suas vidas com trabalho infantil e mendicância nas ruas.
A ONU Brasil,  falou que são cinco milhões nessa condição. O IBGE não contou. Mistério.
Fogem de casa por conta de violência doméstica e o” escambau”.
Pequenos refugiados urbanos na cidade de São Paulo.
É o que dizem as pesquisas.

A mais cosmopolita de todas? 
Cultural? Maior centro financeiro?
É o que dizem as pesquisas?

Daí que ele chegou  e pediu um dinheiro.
Eu só tinha um livro
Ofereci.
Ele pegou, olhou e sorriu.

Saiu saltitante e gritando pros amigos debaixo do viaduto:
“ganhei um livro, ganhei um livro, ganhei um livro”!

Do desterro pra glória, da agonia para o êxtase.

O que mesmo querem dizer as pesquisas?


Por Suely Schraner

sábado, 9 de julho de 2016

Semana de 9/Julho -- Antonio de Paula Mendonça – Soldado Paulista --


”O Sr. Antonio, de Cristais Paulista, viveu bravamente 95 anos – de 1912 até 2007. Acompanhou os trepidantes acontecimentos da História de S. Paulo por todo o século passado, sempre do ponto de vista de um morador do interior do Estado, região em torno de Franca e Barretos.
Viveu uma vida longa, rica e produtiva. Teve um casamento que durou 72 anos, seis filhos que obtiveram grau universitário e dezenas de netos e bisnetos. Uma exemplar trajetória paulista. Foram homens como este que fizeram do Estado de S. Paulo a 'locomotiva do Brasil', como já disse algum poeta.
Entretanto, talvez o ponto culminante de sua existência, a prova de fogo mais marcante que enfrentou, durou pouco. Aconteceu nos seus 20 anos, quando – durante alguns meses – participou da Revolução Constitucionalista de 32.”
Antonio de Paula Mendonça – Soldado Paulista


Por Douglas Bock

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Querido Noel


Naqueles idos, um parto “fórceps” mais  a hipoplasia, te deixaram sequelas. Hoje, um mosquitinho de nada,  anda fazendo estragos nas cabeças dos nenenzinhos. Trata-se do mosquito  que é vetor do vírus zikv  e que causa  a infecção “Zika vírus”.


É, caro cantor e compositor, “deu zica”. Uma zica geral.  Como disse Camões lá atrás,  “a pátria está metida no gosto da cobiça e da rudeza,  de austera, apagada e vil tristeza”. Com certeza,meu poeta,  seu bandolim choraria os mais triste  acordes hoje em dia. Seus desafetos teriam orgasmos cívicos, tripudiando sobre seu talento. 


Seu humor e sua crítica bem humorada, não dariam conta dos comentários ácidos e rasos das tais redes sociais. Aliás, estas, deviam se chamar “redes anti-sociais”.


Noel, é seu aniversário  e eu não deveria estar dizendo essas coisas. Entretanto, sua partida precoce livrou-o de poucas e boas. Fumar? Nem pensar. Todos os fumantes agora são párias. Beber? Só se fôr pedestre. O tal do bafômetro te flagra e é xilindró na certa. Namorar? Transar? Só se for “encapado”. “Com que roupa eu vou? 


Vou me despedindo por aqui. Pra quê mentir, se tu não tens esse dom de saber  iludir? Só me resta pedir ao garçom uma média, um copo d’água bem gelada, que eu não estou disposta a ficar exposta ao sol.


 Suas composições iluminam os meus ais. 

Abraços saudosos.


Por Suely Schraner


terça-feira, 5 de julho de 2016

Matar ou Viver


Este título poderia, muito bem, ser o título de um filme ou de um best seller famoso, mas, no nosso caso, é apenas e tão somente um título apelativo que busca restabelecer a sanidade meio combalida de um canal de comunicação importantíssimo para mim e todos os paulistanos que dele fazem parte.
Estou falando do blog “MEMÓRIAS DE SAMPA” que nesta data completa 6 anos de vida, trazendo em seu bojo os textos de autores paulistanos que tentam preservar as coisas boas de “SAMPA”.
Plagiando as sagradas escrituras, inicio este parágrafo dizendo “No princípio era”, e depois continuo, um site chamado “São Paulo minha cidade”, que promovido sobre a égide política da Prefeitura municipal, chegou aos píncaros da glória mercê aos textos de centenas de paulistanos que ali registraram suas memórias de um passado, recente ou não.
As crises e intempéries sofridas por esse site no transcorrer de sua existência, provocaram preocupação tamanha nos seus colaboradores que não sabiam o que fazer para tentar mantê-lo no ar, servindo de ponto referencial às pesquisas de toda a sorte. Tinha-se a impressão de que de um momento para outro, por um da cá aquela palha dos políticos mantenedores, tudo iria por águas abaixo, destruindo algo que nos era tão alentador e querido.
No auge dessas dúvidas cada vez mais fortes e desalentadoras, surgiu no horizonte uma possibilidade de salvação, Sonia Astrauskas teve a ideia de criar um blog que, mesmo sem querer concorrer ou ofuscar o site, serviria para amenizar a ansiedade dos autores que clamavam por uma solução às diversas paralisações do site.
Nascia, assim, em 2010 o blog “MEMORIAS DE SAMPA”, http://memoriasdesampa.blogspot.com , que atendia a todas as reivindicações dos autores no que tangia à publicação dos seus textos memoriais.
O sucesso veio rápido, a trajetória de textos foi:
2010 = 220 textos; 2011 = 253 textos; 2012 = 131 textos; 2013 = 87 textos; 2014 = 31 textos; 2015 = 13 textos e, finalmente 2016 no dia em que ele completa 6 anos de vida, apenas e tão somente 9 textos, sem contar este que ora escrevo.
Será que os autores ficaram desinteressados ou desmotivados em escrever sobre o tema? Não acredito. O tema é por demais cativante para provocar desinteresses.
Será preguiça? Idade avançada? Falta de criatividade? Não sei explicar, sei apenas que não havendo interesse de participações o blog tende a se extinguir.
Por este motivo é que resolvi denominar este texto como MATAR ou VIVER e lançar o desafio: Vamos abandonar o blog e deixá-lo se extinguir, ignorando todos o esforço e dedicação da sua criadora, ou vamos voltar a participar e  novamente com toda animação e garra de outrora e fazer com ele ressurja do nimbo e volte a nos encantar?
A pergunta fica no ar, que respondam nossos colaboradores.


Por Miguel Chammas

Aniversário do blog


imagem: Viaduto Santa Efigênia, num entardecer chuvoso e belo

Neste último mês de Junho (2016), nosso blog esta completando 6 anos.
Muitos textos, muitas fotos, muitas histórias pudemos ver e ler aqui. Já são 743 textos publicados, recheados de emoções.
Não fosse a colaboração de nossos amados e respeitados autores, esta meta jamais seria alcançada. O blog ainda é o que é, graças aos textos geniais, às histórias fantásticas trazidas por estes escritores, contadores de histórias.
Ao criarmos este espaço humilde era nossa intenção agregar os amigos e amigas, autores do site São Paulo Minha Cidade que, havia algum tempo, estava parado. Hoje, percebo que, mesmo o site tendo voltado à ativa, com seus altos e baixos, os colaboradores do blog continuaram perseverantes também aqui no blog, acrescentando brilho a este trabalho e trazendo novos amigos.
Com o advento do Facebook houve um declínio, significativo, nas postagens. Mas, ainda confio que o nosso trabalho terá valido a pena e continuará a mostrar as belas belas histórias de Sampa.
Sou imensamente grata por tudo isto. E espero continuar recebendo estas histórias maravilhosas de todos os queridos autores deste blog.
Que Deus os abençoe com muita saúde, sempre... Sustentando a todos na palma de Sua mão.
Parabéns a todos!

Muita paz!

Sonia Astrauskas

sábado, 16 de abril de 2016

Praça Silvio Romero

imagem : Praça Silvio Romero


Nas décadas de 50 e 60, a Praça Silvio Romero, no Tatuapé de cima, era como se fosse de uma cidadezinha do interior, onde a vida girava em torno dela. A igreja de Nossa Senhora da Conceição, no centro da praça, embora fosse uma capela, era majestosa com a sua torre e seus sinos onde tive o prazer de badalar quando garoto.

O início dos passeios foi quando o prefeito Jânio Quadros instalou duas fontes luminosas. O Cine Leste das suas matinês aos domingos ou a seção das moças nas quartas-feiras onde enchia de rapazes para arrumar uma namorada. Impossível alguém daquela época que não teve algo a ver com a praça, nem que fosse só para embarcar no ônibus 34 que fazia o itinerário até o Anhangabaú, passando por Belém e Brás a caminho do trabalho ou a passeio, era o que a rapaziada fazia aos domingos à tarde quando nos encontrávamos para as domingueiras nos salões do Independência, no Brás, ou em outro salão qualquer da cidade.

Para tratar dos dentes era o Dr. Estevão, precisando de um médico era o Dr. Oswaldo Cruz. Quando sobravam alguns trocados, a molecada se reunia para uma pizza na padaria Montenegro e a padaria Lisboa até hoje está lá com seu pãozinho imbatível. Para dar uma aparadinha no cabelo era o salão do Mario, ao lado do cinema. Havia o Bazar Cinelândia, um dos primeiros a vender os Bolachões de 78 RPM, quem comprava dez ganhava um de presente.

Na Farmácia Santa Rita era onde curávamos nossas gripes e resfriados, bancos Auxiliar e Noroeste, onde quase todos tiveram seus primeiros talões de cheque. Em época de eleição, os comícios, tanto do Jânio quanto do Adhemar, eram na praça, foi em um desses que vi cantando em cima de uma carroceria de caminhão os Demônios da Garoa, em uma das suas primeiras formações.

O comitê do sempre candidato a vereador pelo bairro, Alfredo Martins da padaria Lisboa, que entre as mensagens tocava a Deusa do Asfalto e a Volta do Boêmio Nelson Gonçalves a noite toda. Avistava-se o enorme galo da caixa d'água da fábrica de canos D. Maio e Gallo.

Em uma manhã, houve um enorme incêndio no posto de gasolina Izildinha, que depois virou um mercado. Quem precisasse de material de construção tinha o Macalci, na esquina com a Padre Adelino, a pastelaria e na frente dela o pipoqueiro Paulin, para quem procurasse casa para comprar ou alugar: Imobiliária Boa Sorte. Para estudar: a escola 22 de Outubro do professor Narciso, quem gostava de música: o Conservatório Musical Heckel Tavares, reunião na sede da Sociedade Amigos do Bairro.

Alfaiataria, Alonso, um espanhol que confeccionava os ternos para a rapaziada se dar bem nos bailes.


Por José Camargo Beira

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Meu Tatuapé sumiu


imagem: José Beira aos 20 anos de idade, em seu querido Tatuapé

Os campos de futebol da várzea da Rua Melo Peixoto, o campo do Paulistinha, onde disputei vários festivais, virou a Radial Leste e outros vários campos de futebol viraram bairro chique Anália Franco.

A capelinha onde eu tocava o sino sumiu da praça, o cine Leste das matinês aos domingos e seção das moças às quartas, virou um enorme espigão, o Grupo Escolar Visconde de Congonhas do Campo, onde aprendi a ler e escrever, ainda esta lá, mas escondido atrás de muros tão altos que mais parecem uma prisão.

Procurei a sede do Cruzeirinho onde havia bailes memoráveis e muitos amores. Virou um enorme estacionamento.

Meu Tatuapé sumiu.

Passei na Rua Tuiuti para ver o casarão onde cheguei com um mês de vida... Outro espigão.

Prédios, prédios e mais prédios foi o que virou meu Tatuapé querido.

A caixa d’água com o galo da empresa de Maio e Gallo sumiu junto com a empresa.

Sumiu a famosa porteira e o sinal “din din din” da passagem de nível dos trens da Central do Brasil. Virou shopping e estações.

Sumiu tudo que me lembra de meus dias felizes da infância e juventude.

Para onde foi meu Tatuapé?

Ficou parado na minha memória, pois eu saí há 40 anos do Tatuapé, mas aquele Tatuapé dos anos 50/60 jamais sairá de mim.


Por José Camargo Beira
 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Pagando promessa


imagem: Ladeira da Penha (atual Ladeira Cel. Rodovalho). No canto direito o monumental Palacete Rodovalho que tinha uma ponte de ferro sobre a ladeira para acesso à Estação Penha de um ramal da E.F. Central do Brasil. Ao fundo, o Tatuapé, ainda uma região rural, cortada pela Estrada da Intendência (atual Av. Celso Garcia)



Olhando uma postagem de Miguel Chammas, de uma charge com foto,  dizendo sobre o baiano pagando promessa, onde aparece um “cabra” ajoelhado na escada rolante, lembrei-me de um tio meu, irmão de minha mãe, que fez uma promessa de ir de joelhos até a Penha.
Isto quando sua mãe, minha bisavó, sarou de uma doença grave. 

Era o início do século passado e seus familiares moravam no Cambuci;  neste dia, o tio que era muito jovem, nem imaginava onde era a Penha. Muito menos, ainda, o restante da família, imigrantes espanhóis chegados há pouco ao Brasil. 

O caso foi resolvido deste modo:  Naquela época quase ninguém tinha carro. Resolveram chamar um carro de aluguel e o coitado do motorista, a pedido do meu tio, arrancou o banco da frente do carro para que ele pudesse ficar ajoelhado e ir até a Penha. 

Promessa era coisa séria e todos daquela rua cooperaram com dinheiro e com a trabalheira que foi arrancar o banco. 

O tio foi vestido de “San Antonio" ao qual fizera a promessa e ainda levaram uma cesta cheia de pedidos de graças feitos pelos amigos e vizinhos.



Por Trini Pantiga

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Uma volta pelos anos 60 em São Paulo

 
Para assistir ao vídeo, clique em play
 
Confira o vídeo com a seleção de fotos muito especiais da década de 60 da cidade de São Paulo.

Nele estão listadas as seguintes ruas:

Rua Bela Cintia
Rua Cardoso de Almeida
Rua Benjamin Constant
Rua Líbero Badaró
Rua XV de Novembro
Rua bom Pastor
Rua Amaral Gurgel
Rua Conselheiro Crispiniano
Rua Estados Unidos
Rua Dom José
Rua Direita
Rua Doze de Outubro
Gasometro
Mooca
Xavier de Toledo
Treze de Maio
Santo Antonio
Voluntários
Rua Senador Feijó

Informações e vídeo extraídos de:
http://soudesaopaulo.com.br/coisas-de-sao-paulo/1701/Vamos-dar-uma-volta-pelos-anos-60.html

Administradora do blog Memórias de Sampa

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

As esfihas duplas


 
imagem: Rua Barão de Itapetininga - década de 60
 
No início dos anos 60, bem ali, na rua Barão de Itapetininga, junto à Livraria Francesa, o seu Natalino vendia aquelas esfihas gordurosas em uma estufa que ficava na porta de um bar.
Em volta da tal estufa, transeuntes de poder aquisitivo irrisório, eu era um deles, se reuniam para degluti-las na hora do almoço.
Eu era office-boy e trabalhava ali perto, na Galeria Califórnia, e sempre marcava o ponto na porta daquela bar.
"Seu Natalino, manda ver uma esfiha dupla aí para mim, não comi nada até agora" pedia eu.
Com o pegador de metal, o seu Natalino colocava uma esfiha sobre a outra e as dobrava colocando-as naquele papelzinho liso que não absorvia nada.  Era a tal "esfiha dupla". Depois de encharcá-la de limão com aquelas bisnáguas um tanto encardidas, seu Natalino estendia o braço dando-me a preciosa iguaria. Além do limão, o que não faltava era o óleo que a esfiha esbanjava.
Normalmente o freguês se inclinava para a frente e recuava os pés para trás evitando que o óleo caísse no sapato quando a esfiha era abocanhada. Como ganhava pouco e não tinha grana para gastar em sanduíche e em PF, as esfihas duplas do seu Natalino quebravam um galhão.
Bons tempos aqueles.
Por Nelson José Xavier da Silva
 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Lembranças da 4ª série

 
imagem: "O SOLDADO TANAKA" - DE GEORG KAISER - 1959 TEATRO BELA VISTA - SÃO PAULO TARCÍSIO MEIRA E SÉRGIO CARDOSO


Quando estava na 4ª série do ginásio (oitava série ou novo ano hoje), fazia parte de uma comissão de alunas que não queria a diretora na nossa escola (Instituto Feminino de Educação Padre Anchieta). A famosa Dona Helena.
Enfim, um dia, o jornal da hora do almoço da TV Tupi (Tico-Tico e Maurício Loureiro Gama) chamou essa comissão para falar do caso e eu, no auge da minha adolescência, vi Tarcísio Meira no mesmo ônibus que eu (um daqueles que saía da Praça do Patriarca). Eu o conhecia dos teleteatros da mesma TV Tupi e, como acompanhava as críticas no jornal, sabia do ator jovem e bonito, que havia participado de O Soldado Tanaka. Naqueles tempos eu só havia assistido Gigi no Teatro Bela Vista, com Paulo Goulart, onde Conchita de Moraes apareceu e foi aplaudida em cena aberta (eu não entendi, mas aplaudi também porque sabia que era alguém importante). 
Bem, tudo isso, apenas para dizer que hoje assisti, via internet, ao Roda Viva, onde Tarcísio Meira foi entrevistado e, não sei porque, lembrei do meu amigo Miguel. Até sei, pois o Miguel Chammas era o diretor-produtor-primeiro ator do GATO, Grupo Amardor de Teatro Ozanam e, um vez, trabalhou no Teatro Bela Vista e participou de um "teatro jovem", inclusive com Osmar Prado.
Padre Anchieta, Miguel, Tarcísio Meira, Teatro Bela Vista são passado, mas não passaram .
Por Teresa Fiore
 

sábado, 7 de novembro de 2015

Molecagens

 
 
imagem etraída da internet: Rua Tuiuti - Tatuapé - década de 50 e 60
 
Tatuapé, parte de cima, década de cinquenta, a única rua calçada com paralelepípedos era a Tuiuti, a artéria principal do bairro, as travessas, ruas do Ouro, Platina e paralelas eram todas de terra.
 A molecada se divertia, as brincadeiras mudavam sem que ninguém percebesse, era tempo de uma coisa, de repente era de outra, tempo de pião, bola de gude, pipa, raquete. Cada bairro tinha sua peculiaridade. Num lugar os garotos empinavam pipa, noutros maranhão ou papagaio, nós empinávamos quadrado ou barraca.
 Uns jogavam bolinha de gude, outros burquinha, mesmo sendo o mesmo jogo. Nós jogávamos raquete, noutros bairros o mesmo jogo era betis ou taco. Mãe da rua, queimadas, palha ou chumbo, onde está fica. As únicas brincadeiras que não tinham seu tempo certo eram as peladas de futebol, entre nós ou contra os da rua de cima ou de baixo, que as vezes rendia belas brigas, coisa de que anos depois riamos a valer. E no mês de junho, os balões e fogueiras.
 Havia também o tempo de colecionar figurinhas, as famosas Balas Futebol,
 colecionávamos as figurinhas com a foto dos jogadores e jogava-se fora as balas, intragáveis de tão doces. Certa ocasião, por absoluta falta de dinheiro e excesso de imaginação, começamos a colecionar maços de cigarros, e como nas figurinhas, tinham os fáceis e os difíceis. Marcas como Continental, Belmonte, Macedonia, Beverly, eram os mais fáceis, tinham os mais ou menos, Hollywood, Luiz XV, Mistura Fina, e os mais difíceis eram os famosos cigarros ovais Fulgor, Castelões, Aspásia e o dificílimo
Caporal Lavado, havia também o Negritos, um cigarro com papel escuro adocicado e uma infinidade de quebra peito que naquele tempo não vinham com o aviso que cigarro faz mal e nem as fotos assustadoras de hoje, que parece, ainda não assustam ninguém. O bairro estava crescendo e com inúmeras construções, brincávamos no monte de areia, de caminhão, e o nosso "caminhão" era um tijolo.
Cada coisa no seu tempo, não sei dizer se era melhor ou pior do que nestes tempos de videogames, lan houses etc., mas lembro-me que o grande "bandido" da época era o Menegueti, uma espécie de Robin Hood, que nos dias de hoje seria um Franciscano, e o mais grave que acontecia com as pessoas, as adultas claro, era um "nervoso" que era curado com chá de cidreira. Não se ouvia falar em stress, depressão ou síndrome do pânico.
Como diria minha mama Angelina: Mária Vérgine, como era buono San Paolo nos  anos tchincoenta.
 
Por José Beira