quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Pizzaria Bruno homenageia os autores do blog


 








Nosso querido amigo, Arthur Miranda, nos comunicou que a Pizzaria Bruno, na Freguesia do Ó, onde fizemos nossa 2ª rodada de redondas, que nos recebeu carinhosamente, colocou um painel com fotos nossas, assinalando a nossa presença no estabelecimento.

Um dos sobrinhos do Arthur esteve na Pizzaria e viu.

A Pizzaria Bruno foi a primeira a nos prestar esta homenagem, entre todas as casas que temos realizado os encontros dos autores do site SPMC e do blog Memórias de Sampa.

Queremos agradecer, imensamente, por este carinho do João Machado Siqueira e Rui Siqueira, donos da Pizzaria Bruno, a mais antiga de Sampa!

Valeu!
Muita paz!

Por: Memórias de Sampa

Dante, o barbeiro boca suja e o Corinthians de 1929

clique no play para assistir ao primeiro jogo filmado entre Corinthians e Bologna (30/07/1929)

Eu era bem garoto quando aparava minha carapinha na barbearia do Dante na rua Fortaleza no bairro do Bexiga, lá pelos anos de 1947 ou 48.
O Dante, um ítalo-corinthiano, era uma figura que hoje chamaríamos de ‘estranho no ninho’. Fanático pelo alvi-negro do Parque São Jorge, era capaz de arrumar as maiores encrencas com os antigos palestrinos/‘parmeristas’, que não se conformavam com o fato de um paesano ser torcedor do maior inimigo, e, logo, tome catadupas de xingamentos em português, italiano e dialetos diversos, sempre de acordo com os resultados dos jogos entre Corinthians e Palmeiras, numa equação que acho melhor explicar: gozação era igual à resposta pesada, que evoluía para xingamentos onde as mammas eram frequentemente citadas pejorativamente; em seguida a esses prolegômenos orais, o couro roncava solto com eventuais clientes tentando tirar a navalha da mão do Dante enquanto os provocadores ou provocados desembestavam a correr em direção à Maria José, que ninguém é idiota pra ficar esperando ser retalhado pelo italiano furibundíssimo e olha que ele se “furibundava” por quaisquer dois mil réis! Aquela cabeça cheia de cabelos cheirando à Glostora ou à Quina Petróleo Juvênia era extremamente quente; provocar o homem não era uma boa idéia!
O salão do Dante era igualzinho a todas as barbearias da época: duas cadeiras Ferrante lado a lado e em frente à espelhos, uma estufa para aquecer toalhas de rosto que, diga-se de passagem, era mais um enfeite de parede do que um equipamento útil, creio até que nunca fora muito usada, algumas cadeiras comuns para se esperar a vez, uma pilha de revistas velhas: O Riso, O Governador, Noite Ilustrada, o Cruzeiro, Alterosa, Careta... Outrossim (opa!), informo que a barbearia ficava na Fortaleza, uma porta simples de frente a uma das entradas do ‘vilão’ (O ‘vilão’ era um grande cortiço que tinha duas entradas: pela Ruy Barbosa e pela Fortaleza e abrigava mais de 100 famílias. O local ainda existe hoje, mas sofisticou-se; não é mais cortiço, óbvio, é uma espécie de condomínio residencial; tem até nome pomposo: “Travessa dos Arquitetos”, chic, né?). Todo Bexiga sabia que o Dante era o maior ‘boca suja’ que Deus colocara no mundo, mas ninguém ligava, era tudo normal, pelo menos para ele!: - “Ecco! Io parlo palavró mesimo. Nasci ca boca chuja, porca miséria!”, dizia sempre que alguém reclamava de seus destemperos...
Tic, tic, tic...o pente separava os cabelos e a tesoura cortava aqui e ali e a conversa fluía, dizendo melhor, o monólogo comia solto: “ Us pessoar fala qui o Domenico da Guia é o milhó bequeira que ixisti, ma io non credo... inguar ao Grané num teve nem vai tê, Madonna mia... O Curintia era molto buono co Tuffy, co Grané, co Del Debbio...” , e tome histórias, lances, salames, brigas, causos e mais causos do futebol dos anos 20, 30 e 40... O Dante era um corintiano enlouquecido, sejamos sinceros...; morreu velhinho por volta de 1965, 66, numa fase em que o Corinthians não conseguia nada, títulos, vitórias retumbantes, nada, nada... ; deve ter morrido xingando.
O velho Dante veio à minha lembrança quando meu filho Júlio me presenteou com o DVD comemorativo do Centenário do Corinthians. Alguns jogos importantes foram filmados, inclusive um que acordou o velho barbeiro que dormia esquecido nos recônditos de minhas lembranças deslembradas: em 1929 o Corinthians disputou, creio, uma de suas primeiras partidas internacionais contra um time profissional italiano e venceu por 6 x 1 com 2 gols de Grané...
De repente voltei à minha infância no Bexiga num dia de muito calor. Estou sentado sobre uma tábua apoiada nos dois braços da cadeira de barbeiro. Meus pés estão soltos no ar – “num pisa nu istufamento qui e prá num chujá... dispois vem ôtro fregueis i chuja u rabu... num fica bem, né”? - e eu escuto pela milésima vez a descrição daquele longínquo jogo de 1929...
Setembro de 2010. Luzes apagadas na sala. O Júlio está configurando o DVD Player. Começa a reprodução. Estou vendo o Corinthians de 1929 numa TV de LCD de 56 polegadas em pleno século 21, 81 anos depois do fato ocorrido. Nó na garganta. Meu time entra em campo, olha lá o Tuffy, o Grané entra em campo sorrindo, Neco é aquele, será?
Estou vendo a minha São Paulo um ano antes da Revolução de 30.
Centenas de automóveis estacionados numa várzea cortada pela linha dos bondes que se dirigiam para o bairro da Lapa. Ao longe as ondulações da Serra da Cantareira. O Parque Antarctica lotado. Palhetas, bengalas, chapéus coco e gellot, ‘Theda’s Bara’ usando vestidos longos e chapeaux emplumados, sorrisos inocentes para a câmera que filmava... Meu pai, o velho Alcides, teria 17 anos na época. Estaria ele já em São Paulo, vindo da distante Conceição do Monte Alegre? Minha mãe, Dona Zezé, tinha 8 anos e ainda estava em São Manuel, cidade dos Barros e dos Melão, terra da dupla Tonico e Tinoco que ainda não eram ninguém. Eu? Eu nasceria 11 anos depois e mais tarde iria cortar cabelo na barbearia da rua Fortaleza...
A voz do Dante: - Quando o futebór terminô, vim vindo a pé da Pompéia até o largo do Piques, subi a Santantó e fui dormi. Nunca dormi tão gostoso, démo uma surra nus intaliano...
- Mas Dante, você é italiano! Não pode querer mal um time da sua Itália...
- Guarda..., na Itália io era italiano, mas tô no Brasile desde 1914 i no Brasile io sô brasiliano i corintiano, i num me importa os língua de trapo...
O Dante, com suas histórias, me fez admirar aqueles jogadores antigos, com seus longos calções de algodão, seus bonés e gorrinhos, seus bigodões, com suas chancas e com suas bolas de capotão. Jogadores que tinham nomes respeitosos: Imparato, Friedenreich, Amilcar, Grané, Del Debbio..., não havia os “inhos” da vida, os Ronaldinhos, os Marcelinhos, etc...
Grané, só vi você num relance, entrando em campo em 1929, num filmete de 40 segundos quando muito, mas você me fez lembrar um tempo em que um barbeiro do Bexiga contava suas façanhas com suas chancas de biqueiras metálicas... Quando vi o Corinthians de 1929 voltei a ser criança,... “minha mãe me deu dois mil e duzentos réis prá pagar o barbeiro e comprar um sorvete de palito na sorveteria do seu Giuseppe”...
Grané, sou seu fã ardoroso! Grazie, signore Dante, valeu!

Por Joaquim Ignacio de Souza Netto

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Encontros e desencontros.


Desmesurada cidade que é, São Paulo dá raras oportunidades de reencontro para colegas de bancos escolares. Quase todos nós, veteranos da vida, temos uma acentuada nostalgia para com nosso período da juventude, na tranquila cidade que já foi esta, e no despreocupado convívio com os amigos de escola. E não sou exceção a esta quase regra.
Já havia procurado alguns deles, sem sucesso. Busquei por décadas, mas como encontrar?
Cheguei a crer que jamais os veria novamente. Mas, chegou a internet e as coisas mudaram em todos sentidos, também nestas buscas.
E aí, vencendo as distâncias, o imenso tempo decorrido, uma vida inteira de perdas e ganhos, repentinamente se torna possível reencontrar os velhos amigos, a um simples toque de teclado. Ploc, um segundo e as probabilidades aumentam espantosamente.
Se não temos sucesso, de algum modo ELES acabam por nos achar.
Lembro-me bem do período em que estudei, curso noturno, no Colégio de Aplicação, na Rua Gabriel dos Santos.
Tive poucos, mas bons amigos; o ambiente, apesar do adiantado da hora, era amigável e ameno.
Ás vezes, a turma da classe se reunia para ver o bang bang da ocasião, filmes de guerra e outros, nos vários e bons cinemas da redondeza. Ou, tomar uma cervejinha com pastéis, ali mesmo no pedaço.
Como diz o velho clichê, mais que batido, bons tempos...
Depois, a maturidade e a diáspora. A loucura da vida urbana, empregos, novos compromissos, amizades e amores. Então, adiós muchachos compañeros de mi vida, farra querida... para nunca mais.
Será mesmo? Ledo engano, pois da terrível tela da internet, como a do Grande Irmão de "1984", de George Orwell, nada escapa. E, como dizem, um belo dia, abrimos uma mensagem inédita. E o nome é familiar, apesar de cinco décadas. Um velho amigo de colégio. Pronto, fomos descobertos.
Este, encontra-se fora de São Paulo, mas, imediatamente se comunica com outro amigo que mora aqui, até perto de casa. Inopinadamente, ele resolve visitar-me. Quanta alegria em revê-lo, ainda nesta vida. Convida-me para um almoço- outra coincidência- que será para o dia seguinte, da turma de outro colégio, mas ao qual ele e minha turma mais chegada da Gabriel dos Santos haviam participado.
E lá vou eu, entusiasmado, mas, de início, noto a diferença: bem diverso das expansões de alegria e fartos brindes, tão comuns nos almoços publicitários, ali são todos bem comportados. Falam baixo e comedidamente, e a meia Heineken que pedi foi o único álcool que tocou a toalha da mesa, durante as várias horas que passei lá. Circunspectos e com sérios comentários, observam velhas fotos amarelecidas, 5X5, de seus tempos de grupo e futebol.
Com minhas brincadeiras e ironias, sinto-me como o único "mau” elemento presente.
Logo eu, tão tímido e calado naqueles tempos colegiais... O mundo dá muitas voltas mesmo, e sinto que os caminhos ali trilhados, todos com sucesso, foram bem diferentes dos meus. As afinidades, que poderiam ter surgido do compartilhamento escolar, já não existem.
Tenho a impressão de estar num conclave de seminaristas... Estas impressões foram acentuadas depois que enviei fotos do evento aos mais íntimos. E, para aquecer o novo relacionamento, desenhos e alguns textos. Um só deles dignou-se a responder-me, meses depois. Não têm também o hábito da réplica e do retorno virtual.
Eu entendo que, quando se trata de um ascético e genérico PPS, tudo bem, mas não responder a mensagens e trabalhos pessoais? Tudo legal; são boas pessoas, mas nossa amizade não continua a mesma.
Esses 50 anos de distância, uma vida toda, foram demasiados, e fazem-me lembrar uma cena do belo filme de Ettore Scola, "Nós que nos amávamos tanto", quando dois amigos, de destinos e mentes também bem diferentes, encontram-se na Piazza del Popolo, em Roma, após 35 anos de ausência. Um deles, Antonio, convida o outro para jantar no restaurante de sua juventude, e despede-se. O advogado Gianni, representado por Vittorio Gasmann, murmura: até mais 35 anos, Antonio. Ou seja, nunca mais!

Por Luiz Saidenberg

domingo, 28 de agosto de 2011

Nem bem Deus me dá o saco, vem o cão, leva a farinha.


Caiu. Passou raspando. Foi por um triz. O escarro vindo da janela do ônibus passou a um milímetro do espetinho de carne, o famoso churrasquinho de gato, assando na calçada. Fiquei imaginando as vezes que acertam.
O Largo Treze de Maio, um misto de mercado persa às avessas. Na travessa, uma sinfonia de sons de todo tipo. Um canto cadenciado e alto se destaca a cada 10 metros: Compro “orodóleuro”. Difícil traduzir o, “compro ouro, dólar e euro”. São moços e moças, com seus coletes-placas amarelos, escrito em preto e vermelho “compro ouro”, a repetir este mantra zilhões de vezes ao dia. Mais à frente, na Praça Floriano Peixoto, em meio a tantas pernas que vão e vem, enrolados em seus cobertores sujos, moradores de rua acampados na beira da calçada do Paço Cultural Júlio Guerra, a Casa Amarela. Ao lado, seus fieis cachorros. E um monte de filhotinhos. Uma mais assanhada, se pôs a saltar numa altura absurda para o seu tamanhinho. É a Lokinha, a garota visivelmente drogada, me disse. Uma cachorrinha branca e cinza, alegre e saltitante, ainda sem nenhum encardido na pelagem. Quem resiste?
Na Casa Amarela e no CCM é que acontece o curso de Jardinagem. Lugar onde se aprende o cultivo de plantas, de amizades e onde também se põe a mão na massa. A professora é gente fina, os alunos gente sensível, que sabe que gente também é natureza. Natureza a pedir socorro, como no espaço plantado e sujo que espera por manutenção e limpeza.

Importante no curso de jardinagem é criar camaradagem com tudo o que é ser vivo. As alunas cuidam e fotografam suas plantas exibindo-as como quem mostra fotos de filhas muito queridas. O desafio do momento é limpar e podar o espaço plantado em frente ao CCM. Perto do bueiro, um cheiro intenso de urina enquanto os achados surpreendem. Ao final, cordilheiras de sacos pretos lotados de todo tipo de embalagem, bitucas de cigarro, moedinhas de um centavo, uma faca e até cigarro de maconha. Toda sorte de imundície produzida pelas gentes gentis deste solo varonil. Enquanto isso, voava mais lixos vindos de ônibus, de carrão, de pedestres e das gentes com e sem instrução.

Duas horas depois, a força das vassouras, pás e tesoura mostraram a que vieram. Tudo limpo, podado, arrumado e uma cena chama a atenção. O pedinte faminto ganhou um espetinho de carne. Um outro, assalta o petisco e sai correndo. Surpreso, o roubado exclama: nem bem Deus me dá o saco, vem o cão leva a farinha!

Nota:
CCM= Centro de Cidadania da Mulher (em Santo Amaro)
Rua Mário Lopes Leão, nº 240 - Bairro: Santo Amaro.
Paço Cultural Júlio Guerra – Casa Amarela, Praça Floriano Peixoto, 131 –Santo Amaro
Curso de Jardinagem ministrado pela bióloga Adriana Maciel

Por Suely Aparecida Schraner

sábado, 27 de agosto de 2011

Histórias da Light - 1ª parte


O “ladrãozinho safado”
Vocês, que já dobraram o “cabo da boa esperança” e ainda não se “tocaram”, devem se lembrar da época de se pagar a conta de luz na própria Light, lá na Xavier de Toledo. Lembram? Pros que estão na margem de cá, do “cabo”, vou expor como eram estas cobranças.
A Light, (antiga mantenedora da distribuição de energia elétrica pra São Paulo, que agora atende pela sigla “AES Eletropaulo”), enviava a todas as residências que tinham energia ligada, evidentemente, uma folha de papel no formato retangular, onde vinha o nome, endereço, consumo, valor da conta, vencimento e os três reloginhos que identificavam os marcadores de consumo para o caso de reclamação, exigência que vigora até hoje e outras informações.
Isso na década de 40, eu tinha meus dez ou doze anos.
Meu pai me instruiu pra ir pagar a conta de luz que vencia naquele dia. Sai da rua Alfandega, peguei a rua do Gasômetro, subi a General Carneiro, largo do Tezouro, rua XV, Direita, viaduto do Chá e pronto, Ligth. Tinha uma fila de dez pessoas, mais ou menos, e na minha frente, uma senhora de seus 50 ou 60 anos, por aí. Aí, começou a tragicomédia. Trazia em minha mão direita, bem apertada, a conta e o dinheiro, deveria sobrar uns trocados.
A senhora à minha frente começou a olhar pelo chão ao seu redor e, vez ou outra, me encarava, como se fosse me devorar. Olhei atrás de mim, pensando se era com outra pessoa, mas não, era comigo mesmo. Sustentei seu olhar pra ver o que ela queria. Olhando nos meus olhos disse em voz alta: “ladrãozinho safado, você roubou meu dinheiro, quero meu dinheiro já, preciso pagar minha conta, vou chamar o guarda, ele vai te prender.” Eu, segurando o meu dinheiro, garoto, não tinha nem bolsos nas calças curtas, veio o guarda-civil e me perguntou se eu tinha tirado o dinheiro da senhora.
Mostrei meu dinheiro, a conta e convenci o guarda que não tinha tirado nada dela. Ela berrava bem alto que eu tinha roubado dela. Me enfezei e parti pra ignorância, chinguei a mulher e o guarda percebeu que eu era inocente e a mulher não “batia” bem com a cabeça. Todas as pessoas da fila viram que eu não tinha feito nada. Aí, o guarda me chamou de lado e me mandou pra casa.
Antes de ir embora, falei: – preciso pagar a minha conta. A mulher estava sentada numa cadeira e vociferava: foi ele, tenho certeza, onde está o dinheiro da conta? O guarda, sem cerimônia, revirou a bolsa dela e lá estava o dinheiro e a conta. O guarda me olhou, deu uma piscadela, encolheu os ombros, com as duas palmas das mãos na frente, como quem diz, que é que se vai fazer?
Essa foi a primeira tentativa de um pseudo-assalto em que tive participação neutra.

Por Modesto Laruccia

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Desabafando e exorcisando fantasmas


No seu blog Prosa e Verso (http://prosaversochammas.blogspot.com), meu querido amigo, o Miguel Chammas, publicou no dia 01 de maio, a crônica Memórias de Botequim IV, fazendo referência a uma exposição visitada por ele e sua companheira Soninha (amiga querida também) - do blog Roda de Prosa (http://rodadeprosa.blogspot.com ). Exposição essa que foi planejada e organizada por mim na galeria de arte do Banco Central do Brasil, na Avenida Paulista, em nossa amada cidade.
Na época escrevi a respeito, no meu blog (http://janelasdozeca.blogspot.com ) e no Palimpnoia (http://palimpnoia.blogspot.com ). No final dos textos “Dúvidas” de 31/03/09 e “Trivialmente” de 18/05/09, estão as notas se referindo a essa exposição. A imagem acima é de um dos mais belos quadros (minha opinião) dessa exposição. Quadro esse que foi adquirido por um colecionador português, para o qual vendi no período de um ano, vinte e uma obras do artista.
Essa exposição foi um grande sucesso de público, com grandes repercussões na carreira do artista, que teve seu nome e sua obra divulgados pela mídia, tornando-o bastante conhecido pelas pessoas envolvidas com a arte. Entre 2008 e 2009 eu organizei diversas exposições para ele, no Rio de Janeiro, em Buenos Aires e em São Paulo. Também preparei e enviei um projeto para exposição no Congresso Nacional, em Brasília e consegui o salão para setembro de 2010. Quando conjugo os verbos na primeira pessoa do singular, estou me referindo ao meu trabalho de organização, preparação, pesquisa e administração. Em momento algum estou desvalorizando a qualidade do trabalho desenvolvido pelo artista, sem a qual eu não conseguiria trabalhar.
Nesse período, organizei um mailing list, através do qual divulguei seus trabalhos por e-mail para vários países do mundo, alavancando vendas e conseguindo bons clientes e colecionadores. Os preços dos seus trabalhos triplicaram nos dois anos e alguns meses em que trabalhei para ele. Com tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, acreditei estarmos nos aproximando cada vez mais, desenvolvendo uma amizade enorme à qual atrelei minha dedicação e lealdade. A ponto de permitir que eu mesmo não recebesse nada pelo meu próprio trabalho, priorizando as despesas e “extravagâncias de artista”, que eram enormes. Depois de mais de um ano sem receber, driblando e negociando com outros credores, percebendo que aquele sucesso todo estava subindo à cabeça dele, que se tornava cada vez mais “uma estrela”, eu não aguentei e desisti.
E recebi. Indiferença e ingratidão.
Os salários e comissões atrasados, chegando a quase R$ 30.000,00, foram “negociados” entre nós, verbalmente (eu ainda acreditava na nossa amizade) e, até hoje, não vi nem a cor desse dinheiro.
Do lado positivo dessa experiência, posso dizer que aprendi muito sobre o mercado de arte. Já do lado negativo, tornei-me um pouco mais cauteloso antes de entregar a minha amizade. Nem posso dizer que levo em consideração o lado financeiro, embora envolva uma soma considerável, pois até hoje, mesmo contra todos os conselhos que tenho recebido, ainda não me decidi levá-lo a juízo.
No início do ano passado, uma cliente (minha) que já havia comprado dois quadros dele e acabou se tornando minha amiga, em função das nossas conversas e negociações, acabou se decidindo a abrir uma galeria de arte na Vila Madalena, com o nome do artista, para representá-lo na cidade. Na mesma época, o projeto enviado ao Congresso Nacional foi aprovado e a exposição precisava ter iniciados seus preparativos. Em maio (há um ano) decidi deixar de trabalhar para ele e tudo ficou paralisado. Menos a galeria da Vila Madalena, que foi inaugurada em outubro, numa bela festa. Mas aí eu já não estava participando...
A galeria que eu gerenciava aqui em Paraty acabou fechando. A exposição no Congresso Nacional não foi realizada por falta de alguém que a organizasse. A galeria de São Paulo, inaugurada em outubro passado, fechou poucos meses depois, pois ele conseguiu desentender-se com a proprietária. As vendas dos seus quadros despencaram, ele continua super endividado, sem chances aparentes de recuperação. O seu nome? Saiu completamente da mídia, totalmente desacreditado, não pela obra em si, que é boa, mas pelo caráter duvidoso da “estrela” que se desentende com todo mundo, não paga suas dívidas e conseguiu, em poucos meses, desfazer todo o trabalho de construção e solidificação de um nome no difícil mercado de arte que eu havia conseguido. Como no mundo da arte essas coisas se espalham como pólvora, acredito que será bastante difícil recuperar o prestígio perdido.
Eu lamento muito tudo isso, pois foi um trabalho que, enquanto durou, me deu enorme prazer e me trouxe novos conhecimentos e grandes experiências. Confesso que sofri muito com minha decisão, tanto que a adiei a ponto de permitir que a dívida se acumulasse tanto. E não sei explicar, nem a mim mesmo, por que não o levo à justiça.

Por Zeca Paes Guedes

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ave! Shalom! Salaam!


BOCA-SUJA F.C.

- “Passa logo essa bola, turquinho de m..., antes que esse “panhó” (espanhol) filho da... tome ela de você, cazzo”!
- “M... é você, seu p..., italiano carcamano! Pega na minha “zabra”, seu monte de “hara”!”
E o espanhol:
- “Não sou teu irmão,”cabrón”. Seu italianinho mafioso”!
- “Vai tomar no ..., panhó piolhento!
Moshé grita:
- “Se vocês continuarem brigando, pego a bola e vou embora”!
- “Vai! Leva a bola. Aproveita e enfia ela no “rabo”, judeuzinho cagão”!
- “Vou enfiar é no seu “rabo”, seu monte de bos... Fascista”! Vai-te f...”!
- “Vai cagá”!
- “Vai você”!
E a partida continuou até que os gritos de nossas mães chamando por nós “deram o apito final” e fomos para as nossas casas felizes e contentes. No dia seguinte, com toda a certeza, haveria uma nova partida, muitos xingamentos, muitas ameaças que raramente chegariam às vias de fato...
Era assim que vivíamos naquele tempo. “Bocas de privada de botequim” que éramos, pelo puro prazer de xingar nos ofendíamos mutuamente. Não havia preconceitos. A nacionalidade era apenas um complemento a individualizar o ofendido.
Naquela Babel que era a Mooca, Babel tão diferente da bíblica - pois todos se entendiam - os preconceitos eram raridades. A Imigração reduziu cada imigrante à sua humanidade e os nivelou. Amornou os nacionalismos ufanistas e os patriotismos extremos.
E lá estávamos nós, na Mooca, vivendo nossas vidas, misturando idiomas e dialetos. E vivendo, como se diz hoje, “entre tapas e beijos”. Não me lembro de nenhum de nós “ficar de mal para toda a vida”.
Vivíamos!
Nós – os “oriundos” - Filhos dos imigrantes.
E na Mooca estavam os brasileiros, os portugueses, os italianos e espanhóis. E os “turcos” que para cá vieram após a queda do Império Turco, depois da Primeira Guerra Mundial.
E os “turcos” eram os turcos, os sírios, os libaneses, os armênios e os judeus sefarad ou sefardi que ao tempo da primeira guerra saíram da Europa, se fixaram no Império Turco e, depois, vieram para cá.
E, bem lá no Alto da Mooca, viviam os “Bicho d’Água” (Como se não fôssemos também bichos d’água.) . Eram os lituanos, os “ungaresi” (húngaros), os poloneses, os romenos e ucranianos. E alguns russos.
Portanto era nessa Mooca-babel de nacionalidade variada, de todos os credos e todas as crenças, que vivíamos a “babelar”...
Saudade!...
Tempos depois, relembrando os dias de infância, descobri que muito antes do Papa João XXIII e do Concílio Vaticano II, nós exercitávamos o Ecumenismo.
A Mooca era ecumênica. Principalmente na hora dos “apertos e necessidades”. Passava por Santo Agostinho, por Lutero e ia de Kardec ao Pai João... Enfim: Acendia velas nas igrejas, cantava Salmos, recebia “passes” e despachava “ebós” nas encruzilhadas!
Eu, nesse ecumenismo, assimilando as lições da Bíblia, Torah, lições do Talmude e do Coram, ou Alcorão fui-me transformando em Ave, Shalom, Salaam...
Todo o domingo eu ia à missa na Igreja de San Gennaro, na Rua da Mooca. Finda a missa eu desgarrava de vovó e corria em direção à Primeira Sinagoga Brasileira, na Rua Odorico Mendes, encontrar parte dos meus amigos. Juntos, corríamos até a Avenida do Estado, atravessávamos a ponte sobre o Tamanduatei e íamos à Primeira Mesquita Brasileira. Pronto! Toda a turma reunida.
E no domingo, o resto da manhã era de “futebór”, a tarde era de cinema ou de Parque Shangai...
Segunda-feira, depois do Grupo Escolar, Boca-suja F.C.:
- “Passa essa m... de bola, seu panhó “senza coglioni”!”
- “Vai-te f..., italianinho perna-de-pau”!
- “Vai Moshé, pé-de-chulé! Não deixa o turco pegar!”
- “Pé-de-chulé é a mãe, ‘taliano’ sovaquento”!
- “É, isso mesmo! – diz o turquinho - Sovaquento cheirando “charmuta” suja!...
A vida continuava.
Afinal era a Mooca, bello! E ôrra, meu! Cumu nóis era felice!...

Por wilsonnatale

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Alerta, alerta. Vamos fazer revolução


Que benção pode rtrazer mais um novo amigo, Joaquim Ignácio de Souza Netto, já autor do SPMC, e que nos permitiu colocar seu texto aqui, em nosso querido blog.
Entrego-lhes, com meu carinho de sempre.
Muita paz!

Meu pai, Alcides de Souza Leme, chegou a São Paulo em 1930 ou 31, com seus 18 anos completados e creio ter palmilhado os mesmos caminhos que eu percorreria muitos anos depois. Precisou lutar muito para sobreviver, carregou cestas para as madames nas feiras, foi lixeiro e talvez estivesse se encaminhando para uma vida medíocre, se não fosse a intervenção de um aparentado de meu avô, o maestro Antão, regente da banda da Força Pública:
- Filho do Joaquim Ignácio, lixeiro? De jeito nenhum! Vai entrar pra Força Pública e seguir carreira, 'já se viu’!
Meu pai, então, entrou (ou foi "entrado") para a Força Pública, onde aprendeu a profissão de telegrafista, mas não fez carreira, não era bem seu feitio...
Era 23 de maio de 1932. Ativistas políticos, estudantes, gente do povo, uma pequena multidão se concentra em frente à sede da "Liga Revolucionária" na Rua 24 de Maio, órgão ligado diretamente aos grupos apoiadores do governo de Getúlio Vargas, presidente da República após o golpe da revolução de 1930.
De repente, o "rompe e rasga" intenta invadir o comitê. Tiros, muitos tiros repelem a invasão. Correria, gente ferida agonizando, mortes, as mortes de Martins, Miragaia, Dráusio, Camargo. Alvarenga morre dias depois. MMDC. São Paulo mobiliza-se... O ambiente político está tenso...
Era 9 de julho de 1932. Meu pai está de serviço no quartel da Força Pública da Rua Conselheiro Crispiniano. A soldadesca recebe ordens de se aprontar com petrechos completos, mochila, mosquetões, munição, barraca, ferramentas, num total de 30 e tantos quilos... São informados que farão uma marcha de treinamento... Marcham em passo acelerado até o Brás, até a Estação do Norte. Embarcam em trens que aguardavam na gare. Outras unidades da Força Pública vão chegando...
Ninguém fora avisado, mas São Paulo estava começando uma ensandecida revolução contra o 'status dictatorialis' que havia dois anos imperava no Brasil...
Três meses na Mantiqueira, bloqueio do túnel, as matracas, o frio, as geadas, o canhoneio, os aviões vermelhinhos, a fome (meu pai dizia que chegavam a se alimentar com uma espécie de sopa de raízes, folhas e capim, ou alguma caça ou gado de sítios e fazendas, abatidos a tiros de mosquetão...) e a morte, a morte de companheiros de trincheira, por balaços, por ferimentos infectados, pela pneumonia.
A morte também feriu meu pai da maneira mais violenta possível: na trincheira ele recebeu um telegrama comunicando a morte de minha avó que não suportara saber que seu filho tinha sido enviado para um front de batalha. Morreu com um infarto fulminante.
O telegrama recebido meu pai colou na contracapa de um livro, a "Gramática Expositiva" de Eduardo Carlos Pereira, que ele levava em sua mochila (grande autodidata, estudou sozinho praticamente até seus últimos dias de vida!); até alguns anos atrás, essa gramática esteve comigo, mas, por fim, acabou por se desfazer, infelizmente, tantos anos passados...
No final dos embates, São Paulo estava exaurido, o Estado e a cidade. Meu pai deixa a Força Pública e entra para a polícia civil no cargo de telegrafista.
Os anos passam, casa-se em São Manoel no último dia do ano de 1938. Nasci em Barretos em 1940. Viemos para São Paulo em 1944, quando meu pai iniciou mais uma batalha, agora não só pela sua vida, mas pela de minha mãe e pela minha...
Em 1957, na comemoração dos 25 anos da Revolução Constitucionalista, com lágrimas nos olhos, assisti a meu pai desfilando no Anhangabaú com seus companheiros de trincheira, do túnel, de Cunha, do frio e da fome.
Segui aqueles senhores que marchavam, alguns orgulhosamente (“peito pra fora, barriga paá dentro, seu mocorongo!”); outros, já combalidos, cansados da vida e de viver, andavam apenas, enquanto acenavam fracamente para as pessoas que estavam mais interessadas em recolher as lâminas de papel metalizado que caiam do céu numa chuva de prata...
Na debandada daquele estranho exército de soldados brancaleônicos engravatados, de terno, chapéu e sapatos sociais e que, ao invés de mosquetões, portavam bandeirinhas do Brasil e de São Paulo, encontro meu pai:
- E aí, pai! Como foi? Se emocionou?
- Emoção? Não! Não me emocionei... Só cansei... - Cansou? Como... Cansou?
- É, cansei! Vim em passo marcial da 9 de Julho até quase a São João. Não fazia isso há 25 anos, esqueceu? Resolvi brincar um pouco de soldadinho... Acho que tenho direito...
- Claro, claro...
Em casa, comentou:
- Muita gente que foi homenageada hoje, com medalhas, citações, comendas, passou longe do fogo das armas. Alguns eram escoteiros na época da revolução e estão nas páginas dos jornais posando de heróis, e todos eles, com certeza, recebem uma complementação em seus salários por conta do Artigo 30 que premia ou deveria premiar aqueles que lutaram de verdade... Mas a vida é assim mesmo, qualquer dia desses o país entra nos eixos. Agora vamos dormir, amanhã eu trabalho e você tem o colégio... Vai, vai dormir.
- ‘Tô’ indo pai... ‘Bença’.
- Deus te abençoe. Dorme com Deus...
Meu pai morreu em 7 de julho de 1960, aos 48 anos, dois dias antes de se completar 28 anos daquela madrugada em que ele saiu do quartel para marchar em passo acelerado até a Estação do Norte, naquele 9 de Julho em que São Paulo pegou em armas.
Seus restos estão no Mausoléu do Ibirapuera? Não, não estão, mas deveriam estar.
Gente como meu pai e muitos outros serviram o Estado de São Paulo e a cidade com risco da própria vida. As famílias dos heróis não deveriam procurar o Estado para que lhes fossem prestadas homenagens... Acredito ser obrigação do Estado reconhecer o papel que esses homens e mulheres desempenharam na História e homenageá-los.
Em tempo: minha mãe, D. Zezé, veio a receber um aporte financeiro referente ao "Artigo 30" anos após a morte de meu pai. Atualmente, não sabemos a razão pela qual, não recebe mais...
Palavras de meu pai em 9 de Julho de 1957: “...Qualquer dia desses o país entra nos eixos...”.
Alcides de Souza Leme, um soldado constitucionalista - *19-03-1912

+07-07-1960 Requiescat in pacem. '...bença, pai...

 
Por Joaquim Ignácio de Souza Netto

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Memórias sem nome


Antigamente eu guardava papéis! Eram papéis de todas as formas e tamanhos, oficiais e extra-oficiais, rascunhos ou originais, velhos ou novos, o importante é que eram papéis e meus.

Essa mania me rendeu muitas brigas familiares. Muitas surpresas, geralmente agradáveis, pois encontrava um texto, uma anotação e até um registro profissional há muito esquecido e que me seria de grande valia naquele exato momento.

Depois, com o advento e o fortalecimento da informática, tive que ir me adaptando aos novos tempos. Então, os guardados passaram a ser digitalizados.

Maldito advento! Quanta coisa que eu sonhava estar bem guardada, perdeu-se com os constantes “paus” nos equipamentos e, lógico, as trocas de HD’s, as formatações etc e tal e cousa e louza e maripousa, como diria um comentarista esportivo de nossos tempos.

A troca não foi das melhores. Os papéis colecionados ficavam amarelecidos, mas continuavam tendo seus registros preservados, enquanto os arquivos digitalizados se perderam no espaço. Perdi muita coisa, textos, fotos, anotações, trabalhos, perdi inclusive, uma poesia feita em homenagem ao meu neto Rafael e que jamais será substituída.

Ora muito bem, toda essa lenga lenga foi elaborada para servir de preâmbulo a um fato novo (?) que acredito ser válido de registro. Vamos a ele: Outro dia, com receio de que outro “pau” acometesse o HD do meu Noteboock, resolvi fazer uma varredura intensa e pormenorizada. Fiz, inclusive, a varredura de muitos CD’s que foram utilizados como backup em tempos passados.

Surpresa! Muitos CD’s sequer abriram, outros abriram parcialmente, e eu, pacientemente, fui vendo cada um dos registros guardados, surpreendendo-me com alguns, deletando outros, relendo velhos textos e, num exato momento, deparei com um arquivo denominado MIGUEL CHAMMAS; curioso, cliquei para abrir e, quando aberto, percebi que era um texto. De certo era um texto de minha autoria, que eu tinha guardado e não mais me lembrava. Comecei a leitura e fui me interessando cada vez mais. Ao final do texto que muito me emocionou, uma onda de rancor se apoderou de meus sentimentos. Tinha guardado o texto, mas, “expert” em assuntos informáticos, não tivera o cuidado de registrar o seu autor. Tentei, de todas as formas, lembrar o nome do referido e nada, resolvi, então, publicá-lo neste site na esperança que o autor se identifique novamente.

Assim sendo, vamos ao texto:

MIGUEL CHAMMAS!
Certamente, Miguel, temos algumas identidades. Teus "meia" sete e meus "meia" quatro nos fazem contemporâneos e nossas histórias nos mostram peregrinos por mesmas noites, iguais caminhos.
Muitas dessas identidades só se farão confirmar se trocarmos nossas saudades, mas, uma delas já podemos afirmar: ambos amamos Sampa desmedidamente.
É muito provável já termos repartido espaços, quer na calçada do Pari Bar, quer na pista do velho Lilás, quer até mesmo na ante-sala da Madame Cristiane. Podemos ter comido pedaços da mesma "redonda", na Ayrosa; esperado com a mesma ansiedade a coalhada da Kibelandia; saboreado com o mesmo prazer a salada de batata e o salsichão da Salada Paulista.
Com as garotas que aguardamos à frente do Mappin, podemos ter assistido à mesma sessão do Ouro ou do Marrocos, antes de as levarmos ao Brahma e encantá-las, pedindo suas músicas preferidas, ao sempre bom pianista de plantão.
Pouco antes desse tempo, quando eu ainda aluno da Caetano de Campos, pode ser que batemos pé e gritamos numa mesma sessão ZIG ZAG do Cine Metro, ou aguardamos para cortar os cabelos numa das cadeiras "Dysneyanas" da Casa Clô. E se por acaso nos encontramos num Carnaval, pelos lados da Avenida São João, prometa não contar a ninguém que aquele magrelo fantasiado de cow-boy era eu.
Embora tenha conhecido a Laura Garcia, muito pouco frequentei suas casas, não sendo elas minha "praia". Me habituei, ao copiar meu pai, com uma boemia* mais saudável, o que, parece, também nos identifica, mas pode ser que, levado por algum solteiro à beira do cadafalso, cobiçamos a mesma carne no La Licorne.
E por falar em carne, agora no bom sentido, será que não disputamos o mesmo ar rarefeito que se formava no Churrasqueto da Dom José de Barros? Abafado, não? Mas valia a pena! Ou ainda pode ter sido no Eduardo's, um pioneiro do rodízio. E por que não no Moraes, o rei do filé? Não desprezo também a possibilidade de termos sido atraídos, ao mesmo tempo, pelo ossobuco do Giovanni, o porpettone do Gato que Ri ou a lingüiça "de Bragança" daquela portinha em frente da Casa Manon, afinal estamos falando de carnes...
Outra grande possibilidade de termos estado próximos vem do "tributo às origens", ou seja uma constante freqüência ao Almanara, da Basílio da Gama ou ao Jacob, do beco da Vinte e Cinco, ou ainda aquele cujo nome me escapa, na Barão de Duprat, referências que levam minha emoção ao auge, por serem alguns dos locais onde eu mais fui com o Feiez, das Casas Lima.
Embora árabe de sangue, acredito que Você, de vida mais privilegiada, nunca tenha comido a esfiha dupla do Paco, nos baixos da Ladeira Porto Geral ou um kafta com arroz e tabule, num boteco do mesmo beco onde brilha o Jacob. Se assim foi, Você não sabe o que perdeu!
Pelo que te admiro, gostaria muito de ter compartilhado de tua Felicidade. Não que não tenha sido feliz, também, mas porque a tua, ao menos no que a traduzes, só pode ser escrita com F maiúsculo. Graças a Deus que nos abriram as páginas do São Paulo Minha Cidade e pude mergulhar em teus textos e assim, mesmo que de forma virtual, caminhar com Você por tuas referências. Teria sido melhor, com certeza, a realidade, mas na sua total impossibilidade (o tempo não volta!), a virtualidade já me basta.
Miguel, todo esse intróito, esses volteios, é prá te afirmar o quanto me emocionaram tuas palavras, mesmo sabendo-as engrandecidas por tua generosidade.
Estou arquivando no mesmo baú de memórias em que guardo meus mais felizes e inesquecíveis instantes paulistanos, o comentário com que me brindaste. Um dia ainda quero abrir esse baú à tua frente. Um dia em que o amanhã de nossas agendas não registre nenhuma anotação ou então que o tempo pare, para dar espaço a tanta Felicidade que temos para reviver!
Se não for em Sampa, que seja na Long Beach onde esse velho lobo ainda se faz rei. E poderá ser no puxado do Bar da Costa e Silva com a Castelo Branco, onde me vejo agora a comer mariscos, servido pelo pequenino velho espanhol, já há muito servindo ostras ao Senhor.
Seja onde for, ainda quero te agradecer pessoalmente as imerecidas palavras e talvez junto contigo compor mais um texto de louvor ao nosso Amor comum, nossa São Paulo. Um texto em que ditarás o tema e conduzirás a escrita e eu, aqui ou ali, entre acanhado e muito feliz, me atreverei a palpitar. Pois não é assim que se devem comportar Mestre e discípulo?
Um abração. E até!
e.t - E se levares a Mariana, não ficarei por baixo: levo o meu Felipe!

 
Por MiguelChammas

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

E por falar em saudade


Clique no play para assistir ao vídeo

É com muita alegria que trazemos o texto de nossa querida amiga, Márcia Saidenberg, engrossando nossas fileiras e comprovando a veia artística da família Saidenberg.
Entrego-lhes, com meu carinho de sempre.
Muita paz!

Lendo o texto do Zé Carlos Navarro, também nós ficamos no mesmo labirinto de emoções.
Mas, um conselho meu amigo: NUNCA, NUNCA mesmo retorne aos lugares que lhe foram felizes, dona Saudade tem um prazer brutal em derreter as cores e formas das nossas belas lembranças! "Volver a los diecisiete, despues de cumprir um siglo..." assim canta Mercedes Soza, e é assim que parece que nos sentimos ao retornar aos lugares da infância ou da juventude...
A saudade da fé, das esperanças nos sonhos e desejos realizados, todas as ilusões como nuvens brancas bailando pelo cérebro, lembranças que não se apagam. Voltar, como se fosse possível inverter a ordem natural do “Vamos em frente que atrás vem gente!” Nunca um rio percorre o mesmo caminho, diz um dito popular e assim somos nós.
Crescemos. Física e espiritualmente. Nunca ficamos no mesmo lugar, mesmo que pareça loucura para alguns. Pode-se ficar até no velho endereço e lugar do mundo, só que nunca somos os mesmos, a cada dia, vamos burilando-nos, banhando-nos nas substâncias dos sentimentos e ações de cada dia e é ai que a mágica acontece.
Vamos encarando nossos desafios, amparando os que nos são caros , aprendendo a difícil tarefa do perdão. Perdoar a nós mesmos. Perdoarmo-nos por não sermos aquele super-herói/heroína que sonhamos na juventude. Desculpar aquele super humano que tropeça em si mesmo, caindo como uma criança, necessitado de carinho e atenção.
Afinal somos crianças ainda? Somos ainda adolescentes rebeldes? Somos madurões completamente imaturos? O que somos? No que nos transformamos com o tempo passando? Que estranha crisálida esta que é a vida! Ainda sairemos borboletas algum dia...
A vida vai nos levando pelos caminhos, enredando-nos no nosso script, destino. Deus vela por nós. Somos suas crianças crescendo na escola da vida. Somos ovelhinhas perdidas do Bom Pastor. Somos o filho pródigo.
E Ele nos ampara sempre, de braços abertos . Generoso nos oferecendo a vida, em desafios e experiências; os amores; os filhos; os amigos; as flores; animais; a natureza que nos nutre o corpo físico e espiritual.
Somos teus filhos, Bom Pai da Vida, retornaremos a Ti.
Oxalá melhores, oxalá melhores...

Por Márcia Saidenberg


domingo, 21 de agosto de 2011

O encontro com as redondas


Dias após o ultimo encontro com as redondas, acontecido no último dia 12/08/2011, procurei responder para mim mesmo a seguinte pergunta: O que motiva a minha participação nesse encontro que acontece no mínimo três vezes por ano em São Paulo, morando aqui em Lorena, a 200 quilômetros de distância da Paulicéia?
Com certeza não são as redondas; aqui, no vale do Paraíba, existem dezenas de pizzarias que podem fornecem pizzas tão deliciosas quanto as da nossa querida Cidade de São Paulo.
Então descobri alguns motivos que sempre acabam me arrastando, juntamente com a esposa, para a participação nesses encontros.
Vou então relacioná-los:

1º Oportunidade de passar um dia inteiro, ou parte dele, na minha Cidade querida, São Paulo Minha Cidade, São Paulo da minha vida. Andar pelas ruas e avenidas mais belas do meu Brasil, pisar no chão que pisei quando ainda era mocinho, olhando praças, avenidas e lugares onde andei, vivi, chorei, sorri,trabalhei, sonhei, amei, sofri e também me diverti .

2º Sair da rotina do dia-dia estafante; São Paulo é o fortificante, que tonifica meus dias, espanta as minhas tristezas, amplia minhas energias.

3º Por fim, é o estar com vocês, escritores do Blog Memórias e do Site SPMC, que eu aprendi a gostar e a amar como minha família. Às vezes, no finalzinho do dia, eu percebo que, meio despercebido, passei mais tempo em contato com algum de vocês do que com os meus familiares. Senão, vejamos: Às vezes, fico 10 dias sem comunicação com MEUS FILHOS. Entretanto não fico um dia sem entrar em contato com o site ou com o Blog.

Portanto, faço um convite aos escritores do Blog, como também desse Site.

Querem fazer amigos e falar sobre SÃO PAULO,
ouvindo histórias gostosas e até piadas hilárias?
Venha e vê se não falha.
Participe você conosco, entre também nessa onda.
Venha para esse encontro dos redondos com as redondas.

Arthur Miranda (tutu)

sábado, 20 de agosto de 2011

Um caipira chamado Vicente

Temos a grata satisfação de postar o texto de nosso mais novo amigo do blog ,o jornalista Paulo Edson.
Entrego-lhes, com meu carinho de sempre.
Muita paz!
Foi no coreto da Praça Gustavo Teixeira por ocasião do Festival Craveiro & Cravinho de Música Caipira de 2006, que conheci Vicente Simionato. Estatura média, chapéu de feltro na cabeça para esconder os ralos cabelos brancos, bigode grisalho aparado, óculos de grau, violão debaixo do braço. Naquele ano Vicente revelou a sua veia poética. Ao lado da esposa Odila, defendeu “Orgulho de Caboclo” e ganhou o primeiro lugar, na categoria composição inédita do festival. Com a classificação, o Duo Paulicéia (Vicente e Odila), além do troféu, ganhou também um casal de viola e violão, um dos prêmios distribuídos pela produção.
Vicente Simionato nasceu no dia 6 de fevereiro de 1936 na vizinha cidade de Pederneiras. Filho do “sêo” Emenegildo, italiano da Sicilia, e de Dona Rosa, nascida em Jaú. Vicente tem 13 irmãos: 6 homens e 7 mulheres. “Sêo” Emenegildo, gente humilde, trabalhava na lavoura de café para sustentar mulher e filhos. Em 1940, aos seis anos, Vicente mudou-se com a família para a cidade de Garça, onde completou o curso primário. Os Simionato ainda seguiam o destino de plantar, cuidar, colher, secar e ensacar café. A família vivia do trabalho e pouco tinha de diversão. Na verdade, nem um rádio para passar o tempo, Foi então que Dona Francisca de Freitas Ribeiro, dona da fazenda, presenteou “sêo” Emenegildo com um rádio ABC de três faixas: ondas médias, curtas e tropicais. O “rádio pegava o mundo”, lembra Vicente. Foi exatamente nessa época que ele viu aflorar o interesse pela música caipira. Eram tempos de Raul Torres & Florêncio e Serrinha & Caboclinho.
O menino pederneirense permaneceu lidando com café até 21 de abril de 1952, quando rumou pra São Paulo para “tentar a vida”. Foi morar no Moinho Velho, nas bandas do Ipiranga. O primeiro emprego veio como auxiliar de serviços gerais numa firma de acumuladores e baterias. Lá no bairro conheceu Odila, mocinha bonita que morava em frente à casa dele. Um olhar aqui, outro ali, e o namoro era só uma questão de tempo. “Sêo” Oriente, pai da moça, era bravo: “O véio era ruim como uma peste. Para ele eu era apenas um pau do mato”, recorda Vicente. Com o tempo o “veio” viu que não tinha jeito mesmo e autorizou o namoro. Quatro anos mais tarde Vicente e Odila casaram-se na Igreja São Vicente, no Moinho Velho. Era o dia 6 de dezembro de 1958. Então casados, Dilo e Dila começaram a perceber que tinham jeito para dupla sertaneja e chegaram até a se apresentar em programas de televisão, como “Som Verde” na Rede Bandeirantes, comandado por Tonico & Tinoco. O casal permaneceu em São Paulo por mais 38 anos.
Em 1996 Vicente e Odila mudaram-se para São Pedro. Foram morar no bairro Alpes das Águas, onde Vicente trabalhou como chacareiro por 10 anos. Foi naquele ano que Vicente compôs pela primeira vez: “Lua” foi o seu primeiro trabalho, lembrando a saudade do tempo que ficou lá atrás.
De minhas crônicas registradas neste espaço, Vicente adaptou algumas, transformando-as em versos. Casos de “A jardineira”, “O meu herói do rádio” e “O pulo do tiziu”. Coisas lindas que emocionam.
Hoje Vicente e Odila residem no bairro Recanto das Águas. Os dois lembram, com tristeza, dos shows no “Som na Praça” e do Festival Craveiro & Cravinho de Música Caipira. Pra matar a saudade, Dilo e Dila cantam nas rodas de viola, promovidas pelo Lucas Baltieri.


Paulo Edson - jornalista e radialista

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Desliga isso


Início da tarde. Resolvo andar; deixo de lado ônibus ou metro, caminho. Estabeleço, como marco inicial, a Praça da Sé, vou à Catedral, falo com meus Pais, o que está no céu e o que para lá foi, há poucos anos atrás. Peço fervorosa ajuda, ouço o silêncio como resposta. Saio, desço à Rua Boa Vista, pessoas se acotovelam e me empurram pelas calçadas. Elas têm pressa; eu, definitivamente não tenho mais.
Estou decidido e resolvido ao que me propus. Caminho calmo, sereno, ao ritmo da natureza. Chego à Rua Boa Vista. À minha frente se descortina a General Carneiro, à esquerda uma sequência tresloucada de números assinalando o nada para ninguém. Chamam-no de impostômetro, que presumivelmente marcaria o quanto pagamos de imposto a cada período da nossa vida. O deste ano já vai alto, inútil, para quem se apercebe ou se aproveita de qualquer informação. No entanto, ele continua lá, no avassalador suceder de números. Eu, de minha parte, desdenho aquilo, junta-se aquele mundaréu de inutilidades à minha estéril vontade de não pensar em nada. Alias, pensei numa coisa sim.
Nesta hora gostaria de encontrar com o responsável por aquele painel e, sossegadamente, solicitar: “Desliga isso”.
Passo ao largo da vontade, deixo tudo para trás e me vou. Passo pela São Bento, cruzo o Anhangabau, passo pelo centro velho, na velha Conselheiro Crispiniano, viro na 24 de maio, onde os vendedores ambulantes tomam espaço nas ruas, restam-nos estreita passagem. Chovera e as poças d’água são armadilhas que nos são impostas a cada passo. Vejo o eterno tapume onde era a Mesbla e onde era a Caverna Americana, lembro meu pai ensaiando suas palavras em inglês ou alemão para atender os fregueses que ao restaurante iam. Foram embora as lojas sofisticadas, ficam os arremedos de comércio, os ambulantes, os tristes e os mal aquinhoados.
Ando um pouco mais, chego à Augusta. Desvio o olhar do 423 para não lembrar do colégio; o Bolonha continua vazio, talvez seja a hora, talvez seja o mercado, não sei, nem me importo. A tarde cinzenta avança e eu preciso caminhar. Relembro os cinemas que não existem mais. Hotéis e pequeno comércio proliferam. Chego quase ao topo da Paulista. Não encontro mais o Paes Leme, que virou um edifício, e quase não vejo o São Luiz, espremido entre lojas e prédios.
O relógio do Itau, no Conjunto Nacional, está apagado. Sei que ora está funcionando, ora não. A cidade progrediu e seus dirigentes querem o melhor para ela, não importando se o melhor que eles estabelecem é realmente o melhor. Lastimo a pendenga com o relógio do Itau. Cidade limpa só nos arranha céus porque na calçada a gente tropeça em pessoas jogadas e nas pedras portuguesas que deveriam estar firmes no chão e não estão. Faróis abrem e pessoas correm; a cidade limpa, limpa não está. Mas, o relógio do Itau, marco da cidade por mais de 30 anos, às vezes está funcionando, às vezes não.
Nesta hora gostaria de encontra alguém, não sei se da família Setubal ou da família Moreira Sales e enfaticamente solicitar : “Desliga isso”.
Mas, não encontro ninguém e desço a Augusta. Nem olhei pro lado onde era o Astor que, graças a Deus, virou livraria Cultura, nem olhei por onde andaria o cine Paulista. A Augusta já foi, estou na Colômbia e passo pela Igreja Nossa Senhora do Brasil. Chego ao meu destino.
Na Groenlândia estou em frente ao prédio onde era a mercearia dos meus pais, fonte inesgotável de renda que me proporcionou escola e faculdade. O prédio está fechado, menos por causa da hora, já que a noite chega, e mais pela insensibilidade dos governantes que ceifaram a vida produtiva de um casal que lá lutara por exatos 21 anos. As portas estão fechadas e sabe-se que, lá dentro, há atividade profissional. Nos avessos dos avessos, uma atividade, de portas abertas, foi barrada para que outra, de portas fechadas, fosse exercida.
Encosto no muro da casa em frente. À minha volta só vejo muros altos e câmeras de segurança. E por falar em segurança, noto que logo à minha volta, figuras avantajadas se aproximam. Suspeitam de minha presença. Chegam. Questionam sobre ela. Tal como há 33 anos, meus pais tiveram que sair do seu local de trabalho, quase que expulsos pelas autoridades, era eu, naquele momento, suspeito de não sei o que na cabecinha subdesenvolvida ao extremo daqueles senhores.
À primeira pergunta desandei a falar: Aqui eu vivi e cresci. Naquela casa morava a família Cintra Godinho, naquel’outra, a família Yazig, o deputado naquela, pulei muitas vezes este muro que estou encostado agora para brincar de mocinho e bandido. Não sou nada aqui, mas já fui dono e senhor deste espaço. Nada me apetece mais agora do que saborear estes velhos tempos, nada mais. Não sei se voltarei mais aqui, mas, quase sempre passo por aqui. Para nada. Só pra fazer o que estou fazendo agora. Desculpas daqui, murmúrios dali, o grupo se dispersa e eu fico novamente só.
Revejo outra vez o mesmo filme.
A Silvinha brincando de esconde esconde, em 1958; a Silvia Regina em 1975, grávida do Alexandre; meu pai cerrando as portas pela última vez; rosto virado para que eu não visse nada do que não quisesse ver, os muros das casas, relembro que se via as salas das pessoas, o entra e sai das crianças e adultos. Vejo tudo isso e me torno muito mais triste do que estava. Há um processo célere em andamento, eu sei disso. Nem me incomodo mais.
Caminhei muito hoje. Refleti. Deixei meus entes queridos e fui me encontrar com o desalento que nesses dias me acompanha. As ruas estão no mesmo lugar, mas diferentes; as casas estão no mesmo lugar; mas irreconhecíveis; os sonhos ressurgem com a mesma velocidade, mas desesperançados; meu coração insiste em me manter vivo, mas a realidade não deixa. As pessoas mudam, trocam o absoluto pelo relativo. O que foi essencial, hoje é supérfluo. O gesto irrefletido ficou maior que o amor. Estou cansado. Andei muito, não só hoje, mas a vida toda. A cabeça, senhora da razão, aponta tudo, aceita tudo, quer consertar, não conserta. O velho e cansado coração, timoneiro, guia e, mestre de tantas jornadas, soluça triste, tenta se equilibrar no ritmo que cada vez mais se mostra mais lento, ao contrário de tudo à sua volta.
Vou embora, parodiando um amigo meu que sempre brincava trocando as palavras de lugar e digo que preciso ir embora “porque é longe e eu moro tarde”. Continuo a caminhada, infinitamente quieta, incondicionalmente serena.
Deixo a Groenlândia e me vou. Meus passos soam secos na calçada úmida e meu coração triste soluça baixinho no seu tum tum tum costumeiro.
Nesta hora, gostaria rezar ao nosso Papai do Céu e humildemente pedir a Ele, “Desliga isso”.

Por José Carlos Munhoz Navarro