sábado, 30 de abril de 2011

Dois minutos


Não mais que isto. Diria que durou uma eternidade, ou apenas segundos? Não sei, pois esse tempo fora elipsado de minha vida...
Lá fora, brilhava o Sol, numa linda manhã do litoral norte paulista. O ar perfumado que era a primeira coisa a me comover, quando descia do carro para abrir o portão. Pássaros cantavam, muito diversos dos da capital, até mesmo talvez o Sem Fim, com seu lamento pungente. Mas eu nada via ou ouvia, estendido no chão da cozinha.
São Paulo, 1995. Eu estava às vésperas de tomar uma decisão crucial, pois haviam querido me despedir da grande agência onde trabalhava, agora na Gomes de Carvalho, Vila Olímpia. Queriam despedir a todos nós, que pertencêramos à velha agência da Vila Buarque, agora comprada e absorvida por esta outra. Chegara minha vez, mas, verificaram que não poderiam... Faltava um ano e meio para minha aposentadoria. Teriam de continuar me aturando, e eu, de frequentar um local em que já não havia sentido, nem condições psicológicas para continuar trabalhando.
Da geladeira ao balcão, poucos metros. Apanhei uma garrafa de Coca Cola e dirigi-me para ele, mas não chegaria lá.
Ao mesmo tempo em que insistiam na minha presença na firma, um amigo, trabalhando em outra, chamou-me para ser seu parceiro. Aceitaria? E se descobrissem, havia o risco de justa causa na primeira, e talvez também não pegasse bem, na segunda. Muito tenso, fui ao médico, que me receitou pílulas para a pressão que, geralmente, era e é normal.
Caminhei alguns passos, a Coca na mão, então tudo sumiu para mim.
Havíamos descido para o litoral, onde a pressão sempre é menor. Esquecido que já havia tomado o remédio de manhãzinha, tomei outra pílula. A pressão desabou. E desabei também. Quando despertei, como de muito longe, minha mulher gritava aos filhos para chamar o caseiro. Cacos de garrafa de Coca ao redor, levantei-me, como Lázaro dos mortos.
Dois minutos, talvez... Mas, foi como cortar, na montagem, um trecho de um filme e jogá-lo no lixo. Era assim que antigamente faziam nas produtoras de cinema. Simplesmente desliguei; dois minutos de vida, como se não houvessem existido. Será assim a morte? Acredito que deva ser parecida com isto.
Dois minutos, e talvez tenham me ajudado numa outra noção, de que é necessário sempre saborear ardentemente o viver, além da Coca Cola perdida.
Aceitei o novo emprego. Fazendo das tripas coração, continuei nas duas empresas, embora só realmente trabalhasse na segunda. Mas recebia em dobro, tive décimo terceiro em dobro, aumento em dobro, tudo na forma da Lei. E não me arrependi em dobro, muito pelo contrário...
Quando afinal fui demitido da primeira, logo o fui da segunda, pois o amigo que me convocara havia subido precocemente, e não seria substituído. Também demitido em dobro, mas a vida continuava, mesmo sem aqueles dois minutos...

 
Por Luiz Saidenberg

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Turismetro


Num sábado, meu marido e eu resolvemos fazer um passeio diferente por São Paulo; fomos até a estação Sé do Metrô, localizamos o quiosque do Turismetrô, escolhemos um dos roteiros de passeio oferecidos, nos identificamos e nos juntamos ao grupo que aguardava a guia que nos levaria a essa aventura.
Nosso roteiro consistia em caminhar pelo centro velho de São Paulo, com explicações em cada parada, dentre elas algumas igrejas, Teatro Municipal, praças e a faculdade de direito do Largo São Francisco.
Parecia interessante, e era. Ficamos sabendo de curiosidades como o motivo de a estátua do maestro Carlos Gomes, tão imponente na Praça Ramos de Azevedo, ter sido construída de costas para o Teatro Municipal, ou o fato de a Igreja de São Gonçalo, na Praça João Mendes, ter missas rezadas em japonês, exclusivamente para a colônia amiga que se localiza no bairro da Liberdade etc...
Mas, ao chegarmos na Faculdade de Direito do Largo São Francisco é que o roteiro, que parecia interessante, se tornou surpreendente. A guia nos explicava a origem da Faculdade, quando o grupo foi abordado por um rapaz trajando uma roupa saída dos anos 40 que começou a discorrer sobre os antigos alunos daquela universidade e os movimentos ali acontecidos.
Sua eloquência era grande, mas sua esquisitice era maior; parecia um daqueles malucos que circulam pelo centro da cidade, que chamam nossa atenção quando passamos. Mas, esse rapaz não nos chamava a atenção, ele nos prendia a atenção.
Sua intervenção durou cerca de dez minutos e emocionou a todos. Encerrada sua participação, nosso personagem se misturou aos transeuntes que por ali passavam e desapareceu.
Entre surpresos e emocionados, ficamos sabendo, pela nossa guia, que essa participação fora programada pelos organizadores do passeio e o rapaz era um ator contratado para esse desempenho.
São Paulo nos surpreende em suas pequenas coisas, até nós, os paulistanos, quando resolvemos fazer um simples passeio a pé pelo centro da cidade...
Por Márcia Calixto

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Coisas que gosto de fazer em São Paulo - parte III


Em textos anteriores já comentei o prazer que sinto ao visitar o Mercadão e a delícia que é fazer uma excelente (qualidade x preço) refeição no Sujinho. São dois ícones, para mim, da capital paulista. Neste texto, ainda sobre bares e restaurantes, vou mencionar outros lugares onde gosto de conceder-me os prazeres da boa mesa em São Paulo. Como já disse, existem outros, muitos outros! Mas esses são os meus preferidos. Sem desmerecer os muitos outros que nossa cidade, sempre tão generosamente, nos oferece.

Acredito não precisar nem lembrar da existência do tradicional e inimitável Ponto Chic! Lá no Largo do Paissandú, onde jamais consigo resistir ao delicioso bauru. Seu recheio abundante é composto de rosbife, quatro queijos derretidos em banho-maria, tomate e pepino, tudo servido no pão francês. Sem contar o clima do lugar, que ainda guarda lembranças da época áurea, onde o centrão da cidade ainda era o melhor lugar para passear e se divertir.

O Ponto Chic era frequentado, a noite, pelos estudantes de direito da Faculdade de São Francisco, dentre eles o ex-governador Abreu Sodré, que contou a história das reuniões dos estudantes, muitos dos quais grandes nomes da literatura, entre eles Machado de Assis, Mario e Oswald de Andrade e também de Casimiro Pinto Neto, o inventor do sanduiche Bauru.

Há algum tempo já não faço este programa, mas sempre gostei muito de reunir amigos e ir jantar no Gigetto, lá na Rua Avanhandava, com seus pratos incrivelmente generosos e as figurinhas carimbadas do circuito teatral da cidade. A mesa do couvert era enorme e, se não tomássemos cuidado, quando viessem os pratos do cardápio, a fome já havia sido eliminada de vez. As massas do Gigetto sempre foram divinas! Além de não exagerarem nos preços.

Agora, se encontar coragem e tiver um ataque de desprendimento, sou capaz de gastar todas as economias num jantar no Massimo, que fica na Alameda Santos e cujos pratos já se tornaram famosos, tanto pela generosidade quanto pelo sabor. Houve um tempo, quando era alto executivo financeiro de uma multinacional, em que cheguei a ser conhecido pelo nome pelo próprio maitre. Depois, resolvi trocar a vida de executivo pela de empreendedor em Paraty e, durante um bom tempo não tive condições de ali voltar. Mas, nos últimos anos, vez ou outra (é raro, mas acontece), quando algum amigo mais bem resolvido financeiramente topa, eu crio coragem e retorno ao lugar. É um restaurante muito caro, mas vale a pena só pelo prazer de degustar suas finas iguarias e ser atendido com toda cortesia pelos seus funcionários, que já não me conhecem, mas continuam gentis e atenciosos.

Existem outros lugares na cidade que valem a pena ser visitados, mas estou falando aqui daqueles que eu mais gosto, daqueles que me habituei a frequentar ao longo de minha vida e enquanto morava em São Paulo. Depois que me mudei, há mais de vinte anos, muitos lugares deixaram de existir, outros mudaram de endereço ou sofreram modificações e muitos outros foram surgindo, cada qual com suas especialidades e com suas próprias características.

Falar aqui sobre todos eles seria criar uma imensa lista de bares e restaurantes, os quais a cidade tem de sobra e para todos os gostos. Estou falando apenas daqueles que se tornaram parte da minha própria história de vida. Daqueles que permanecem sempre em minhas lembranças e que, quando posso, não deixo de visitar.

Por Zeca Paes Guedes

terça-feira, 26 de abril de 2011

Pizzaria do Bruno - Uma tradição do Bairro


A partir dos anos 40, as grandes atrações do Bairro da Freguesia, para
seus moradores e visitantes, além da festa de aniversário do bairro
(na época comandada pelo português mais brasileiro que eu já conheci
um homem a quem o bairro deve muito chamado Joaquim Fernandes), era a
Pizzaria do Bruno Bertucci, com sua pizza famosa e muito admirada por
muitos.

A pizzaria era frequentada por muita gente famosa da sociedade
paulistana, do mundo artístico, como também famosos craques do futebol
paulista, como Liminha, Ponce de Leon, Lima e Oberdan Cattani
(Palmeiras) Baltazar, Nardo (Corinthians) Gino, Maurinho, (São Paulo).

Os sócios proprietários do estabelecimento tanto o Seu Bruno como o
Seu Jango, (como era conhecido o seu sócio, João Machado Siqueira),
eram pessoas muito queridas e conhecidas no bairro inteiro.

A filha do seu Bruno, a Dirce Bertucci era uma moça loira, muito bonita,
que eu pessoalmente achava-a muito parecida com a cantora Doris Day,
era professora do Grupo Escolar e amiga de minha irmã Jurema, o irmão
dela o Hildo Bertucci que foi meu amigo na mocidade, era um grande
artilheiro do futebol varzeano, goleador nato, infelizmente já
falecido.

Os garçons como o Walter, o Pizzaiolo Melão, eram pessoas conhecidas
por todas as famílias do Bairro.

Eu e uma boa parte da molecada do bairro, defendíamos a entrada da
matine domingueira do cinema, mais um cachorro quente de acréscimo,
tomando conta nos finais de semana dos carrões que frequentavam a
pizzaria, já bastante famosa naqueles tempos.

Um dia aconteceu algo que eu jamais irei esquecer, estava eu com meus
companheiros, o Zeca Faria, o Ado seu irmão, o Orestes irmão de Nenê
Pintado, o Zé molambo, e outros que eu não me recordo, exercendo
nossas atividades de guardadores de carros, quando, justo na minha
vez, estacionou um belíssimo cadilaque último tipo. Eu, então, já
pensando na futura gorjeta, me aproximei, esperei a saída dos
passageiros, e então olhei para o motorista, e... Perdi a fala... Ali
estava, bem na minha frente, o artilheiro do meu Corinthians, o grande
cabecinha de Ouro, o craque da seleção paulista e brasileira, o
Campeão Paulista de 1951, o famoso Baltazar, que eu só conseguia ver de
longe, das gerais do Pacaembu.

Minha voz não saiu, fiquei paralisado e mudo, ainda bem que ele falou, dizendo:
- Você vai tomar conta do carro? Pois pode tomar.
Uma hora e meia depois, quando ele e seus companheiros voltaram para o
carro, Baltazar olhou para mim e me deu dois cruzeiros de gorjeta.

Eu ainda muito emocionado disse que não era preciso, minha grande
gorjeta era o fato de estar falando com meu ídolo. E, graças a essa
minha sinceridade, ganhei mais uma nota de 10 cruzeiros com a estampa
do Presidente Getúlio Vargas, que eu, na época, só via na mão dos
adultos.

E será aí, nesse local tão importante para mim, que iremos nos reunir
para comemorar mais um encontro dos redondos com as redondas, no
próximo mês de maio. Espero que os escritores do Blog, Memórias de
Sampa e do Site, São Paulo Minha Cidade, venham dispostos a comer a
melhor pizza do Brasil

Arthur Miranda (tutu)
QUEM VIVE SÓ COMPRANDO O SUPERFLUO, ACABA VENDENDO O NECESSÁRIO

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Crônica do dia a dia


São Paulo é uma cidade de vida intensa, que permite ao observador a descoberta de uma história em cada um das suas esquinas. Cada transeunte desta megalópole traz no seu rastro uma intensa história, repleta de amores, desamores, aventuras, perigos, bondades, maldades e tudo o mais que uma pessoa, por mais simplória que seja, vive ao longo de sua existência.
Hoje eu vou escrever sobre uma pessoa fisgada nessa multidão de viventes da paulicéia e seu mais fiel amigo. Atendendo a compromissos profissionais, notei que circula pela Avenida Cruzeira do Sul, nas imediações do Terminal Tietê, um carrinheiro (será que existe o termo?) catador de papéis e sucatas.
Como regra geral, é uma pessoa humilde, que traja roupas já rotas e marcadas por uma imundice notória às vistas e ao olfato. Não é mais nem menos comum do que muitos com que deparamos todos os dias.
Não sei, mas acredito que sua subsistência se faz mais pelo consumo de alguns tragos diários do que por ingerir com certa normalidade algum alimento.
Bem, essa figura, no seu caminhar indolente e até arrastado por um cansaço mais moral do que físico, é acompanhada por um cão que, um dia, deve ter sido de cor branca com manchas amareladas (e que hoje está tão encardido como o próprio dono).
De tanto ver essas figuras foi que percebi a lealdade e o grau de cumplicidade que as une. Tanto o homem como o cão são inseparáveis. Hoje, por exemplo, pude perceber a fidelidade do cão que, notando que seu dono ou companheiro estava sendo hostilizado (por brincadeira) por outro pária das ruas, latia e, destemidamente, ameaçava investir contra o ofensor e era contido, a duras penas, pelo dono.
Assim, vendo a cena, consegui concluir, mais uma vez, que a amizade e o afeto independem de condições sócio-econômicas e são regidas, simplesmente, por harmoniosas ondas emitidas pelo coração.
Mais uma lição que a vida me ensinou, dentre tantas outras que aprendi, nos meus anos de vivência. Mais um instantâneo registrado no cotidiano das ruas da minha São Paulo.

 
Por Miguel Chammas

sábado, 23 de abril de 2011

Sexta-Feira da Paixão (1960)


(ou, Como um estúpido bocudo perdeu o seu ovo de Páscoa)
O velho ditado vitoriano deveria ser dito ao contrário: Adultos são para serem vistos e não ouvidos!
Fosse assim, as crianças estariam a salvo de muitos males. Principalmente eu, que vivia prestando atenção ao que os adultos diziam. Os tais adultos, nesse caso, eram os amigos do meu tio Amedeo. Falavam eles sobre as procissões e se divertiam descrevendo os "santarrões" e as beatas que as integravam: Eles, uns paus d'água, desbocados que viviam mexendo com as mocinhas. Elas, todas "mexeriqueiras". E os "amicci" falaram muito, muito mais... Davam uma visão diferente daquela que eu tinha sobre as procissões. Contavam certas passagens que me faziam rir desbragadamente.
Há muito tempo as procissões foram banidas dos grandes centros, e algumas foram restringidas a um quarteirão no entorno das paróquias.
A que eu sempre via passar, aqui na Mooca, tinha um percurso longo: era a procissão da "Chiesa della Madonna del Buon Consiglio" (Igreja de Nª. Srª. do Bom Conselho). Um quilômetro e meio de percurso. E na procissão, toda uma rica parafernália representativa dos passos e morte de Jesus.
Nesta Sexta-Feira Santa de 1960, fui preparado para ver a procissão por outro ângulo e para constatar se certa passagem era falsa ou verdadeira... Ah! Esses adultos!
O trajeto da procissão começava a ser interditado às cinco da tarde. Às seis, saía a procissão. Eu, minha mãe e minha avó, estávamos desde as seis junto ao cordão de isolamento, na esquina da rua de casa... Algum tempo mais, ouve-se o cantochão fúnebre; mais um minuto e a procissão surge diante de nossos olhos. O padre, os coroinhas, o sacristão; pálios e bandeiras de irmandades; imagens identificam os "passos" de Jesus. No andor, carregado e ladeado por membros da congregação de Cristo, vem a imagem de Jesus açoitado. Mais além, surge, após a representação da queda de Cristo, a Verônica que, abrindo um pergaminho, canta com voz carregada de dor e sofrimento. E, atrás da Verônica, estavam várias mulheres, todas de preto, com véu espesso sobre as cabeças...
Foi aí, nessa passagem que eu, nos dizeres atuais, "dancei bonito". É que os amigos do meu tio contaram que, atrás desses espessos véus, estavam as 'biscates' mais conhecidas da Mooca, as 'putane' de vida alegre, as moças que deram um (para eles bom) 'mau passo' e certas senhoras casadas (na opinião deles muito gostosas), que haviam praticado o adultério. Elas expunham-se ao "julgamento público" (Expostas? Como assim? Cobertas até os pés? Nem as mãos se podiam ver?)... Eram as tais 'Madalenas Arrependidas'. Arrependimento que os "amicci" do titio diziam durar até o fim da procissão.
Eu, querendo mostrar que tinha mais conhecimento que a minha mãe e vovó (aqui foi a minha queda), digo, gritando de satisfação: "Nonna! Mamma! Guarda le putane!" (Vovó! Mamãe! Olha as putanas!). Um forte tapa na boca, dado pela minha mãe, quase me faz engolir os dentes. Olhei ao redor e vi mulheres me olhando com olhos que diziam "Massacra!" E vi homens que mordiam o lábio inferior para não explodirem de rir. Mudo, assisti à procissão até o final da sua passagem. Só em casa minha mãe percebeu que meu lábio sangrava.
Tratam o corte do meu lábio, dão-me um pano com uma pedra de gelo para pôr em cima e evitar o inchaço e começam as perguntas: Quem foi que te ensinou essa barbaridade? Quem disse isso a você? Quem daqui, quem dali... Quem de lá... E eu, "mudinho da silva". A paciência limitada da minha avó se extingue: "Não vai falar, não quer falar e eu sei por que! Esse "bestia" está protegendo o Amedeo! Uma coisa dessas só pode ter vindo daquele "stronzo".
"Amedeo! Amedeo!" - lá se vai a "nonna" até o quarto do meu tio. O bate-boca que começa lá e termina na sala. Meu tio olha na minha cara, como quem perguntasse algo. Eu movimento a cabeça em negativa. E a "nonna" falando, falando. Jogou na cara do meu tio que ele era uma influência nociva para mim. Titio ofendeu-se. E eu gritei, calando a minha avó: "Juro por Deus que não foi ele! “Ouvi a história de uns homens que estavam jogando “trucco”, lá no bar.” Menti. E, sob pressão, como eu era bom nisso!
"E por que não disse antes, "stronzo"?", pergunta a minha mãe. "Porque sei que nem a senhora e nem a "nonna" gostam que eu fique na porta do bar e nem que eu fique vendo os homens jogando."
A "nonna" desculpou-se com o meu tio, não sabia o que fazer para reparar as palavras duras que havia dito a ele. Desculpou-se como podia e, para se safar, direcionou toda a sua raiva contra mim. Ouvi palavras dramáticas do quanto eu a fazia sofrer e o quanto ela se sacrificava por mim, pelo meu bem-estar... Coisas que mães, avós de todos os tempos diziam, dizem e dirão...
Aproveitando um momento de calmaria, meu tio diz: "Vem "Ciccio". Vamos ver se a padaria está aberta. Eu quero comprar sorvete." Saímos.
Na rua, ele me diz: "Mentirinha mais esfarrapada aquela tua. Quem foi que te contou essa história da procissão?". Eu respondo: "Foram os teus amigos!". O "zio" cai na gargalhada: "Mas que amigos mais f... d... p... que eu tenho!"... "Eles te falaram sobre 'as mulheres de padre'?" "Não?... Então eu te conto..."
E lá estávamos nós, descendo a rua, eu ouvindo e ele enchendo a minha boca dolorida de risos e a cabeça de "cacca"... E a padaria estava fechada.
Em casa, meu "nonno" e meu pai nos esperavam. Pensei comigo: "É hoje que o couro vai cantar". O "babbo" fala comigo em voz pausada: "O que você fez hoje foi muito grave e triste. Foi uma falta de respeito a Jesus. Não vou bater em você e nem castigar. Mas, pelo que você fez hoje, não vai ganhar um ovo nesta Páscoa."
Pensei "Como não vai me castigar? Está me dando o pior castigo." Nada a fazer, senão resignar-me. Meu pai nunca voltava atrás.
Antes de sair da sala, vi papai e vovô olhado um para a cara do outro, mordendo os lábios inferiores - como os homens na procissão - para não caírem na gargalhada. Desabafei com o meu tio: "Cazzo! Eles me castigam e ainda riem da minha desgraça!" O tio pisca um olho para mim e diz: "Agradece a Deus por ter perdido o ovo de Páscoa e não os "teus".
Tio Amedeo era um sábio. Muito sensato.

Por Wilson Natale

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Ilha do Bororé

Você sabia que na cidade de São Paulo existe uma balsa que atravessa um braço de “mar”? Se você já sabia, talvez esta crônica não lhe traga maiores informações, mas em caso oposto, creio que o assunto despertará sua curiosidade.
Apesar da balsa existir há muito tempo, noto que ela é praticamente desconhecida pela maioria dos moradores desta cidade, apesar de ser uma de suas “jóias”. Vamos, pois, conhecê-la através de um passeio que fiz em um dos últimos fins de semana.
Sou um andarilho que gosta de efetuar longas caminhadas em locais de densa vegetação. Estes locais existem nas cercanias de São Paulo e este passeio é para um destes locais. Como bom andarilho solitário, não saio de carro para fazer caminhadas em locais distantes, porque posso ser obrigado a estacionar em local ermo, para depois iniciar o passeio e, além disso, sou obrigado a retornar ao ponto de origem, o que às vezes limita o passeio. Por isso, tomei condução coletiva. A linha da CPTM que margeia o Rio Pinheiros foi recentemente estendida em mais três estações, sendo a última de nome Grajaú, construída juntamente com um magnífico terminal rodoviário urbano, onde desci e tomei o ônibus Ilha do Bororé, que parte do terminal a cada trinta minutos. Após rodar cerca de quinze minutos por bairros densamente populosos, cheguei à beira da Represa Billings, que foi transposta pelo ônibus através de uma simpática balsa, atingindo o bairro de Bororé. Imagine a agradável sensação de estar a bordo de um ônibus urbano, igual aos que vemos todos os dias pela cidade, saindo de uma área densamente povoada para, na outra margem entrar em um bairro rural com escassas casas e chácaras, abrigadas pela densa mata atlântica. Em um cenário belíssimo, o ônibus segue pela estrada rural que tem o nome de Estrada de Itaquaquecetuba – não confundir com a cidade de mesmo nome – e faz seu ponto final junto à próxima balsa, que marca o limite entre os municípios de São Paulo e São Bernardo. Foi hora de descer e encarar os caminhos e trilhas a pé.
Quando chegou o cansaço, voltei ao ponto final do ônibus, onde saboreei, na lanchonete local, um gostoso sanduíche, a preço módico, e iniciei o retorno para casa, satisfeito com a aventura do dia.
Na caminhada, senti que a região está ameaçada pelo crescimento da cidade, já havendo sinais de degradação e grilagem de terras. Por outro lado, senti também que ela está sendo contida e que o sentimento ecológico de não se perder aquele paraíso é muito forte! Que Deus ilumine as autoridades a não permitir a destruição deste patrimônio.

 
Por Roberto Flugge

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Capitano d’industria

Reza a lenda que serviu a Mussolini. Era da marinha e viu o mar tingir-se de vermelho na guerra.
Só emoção. Coração na boca. Para o bem e para o mal. Ou oito ou oitenta. Gostava demais. Sentia raiva demais.
Se ela legislava a favor de um empregado, ele retrucava: Quem paga o seu salário, sou eu ou é ele? Para logo em seguida, concordar.
Até para pedir um copo d’água, um palavrão, em italiano ou português mesmo. Era de lei.
A maturidade, a experiência e afeto permeados de confiança. Confio até me provarem o contrário, dizia. Competia consigo próprio.
Sua gargalhada ressoava pelos corredores. Da mesma forma que dava murros no balcão, se algum documento sumia. Um dia, a funcionária nova não encontrava o documento solicitado. E ele: Toda vez que procuro este documento, tá na casa do caralho! A Jurema retrucou baixinho: Não sabia que tinha casa... Já, a funcionária nova, que era crente, nunca mais apareceu, nem pra dar baixa na carteira.
Capaz de surpreender. Ajudou o empregado a construir a casa dos sonhos. Tijolo a tijolo. Dizia que era empréstimo. Nunca aceitou pagamento de volta. Mas, numa falta profissional, gritava: Bastião, você é um bosta!
Seu objeto de sonho era construir casas populares para todos os empregados.
Quando soube da viuvez precoce da ex- funcionária, mais que depressa lhe ofereceu o emprego de volta. Estou no sexto mês de gravidez, ela disse. Gosto de gente que trabalha, esteja grávida ou não. Pode vir. E isso, foi a sua salvação, já que nem enxoval, nem berço ela tinha.
Num belo dia, ele comprou uma Mercedes. Orgulhoso a chamou para mostrar a maravilha. "Como o senhor pode andar num carro que custa mais que um apartamento, com tanta gente sem ter onde morar?" E ele: Prefiro ser vaiado numa Mercedes que aplaudido num ônibus.
Inteligente e trabalhador. Um capo de indústria. Tenacidade e dedicação fizeram o pequeno negócio, iniciado numa garagem, se transformar numa referência em matéria de pastifício.
Era o primeiro a chegar e o último a sair. Dizia que o escritório era o cartão de visita. Queria moças bonitas e eficazes. Limpeza era regra absoluta. Um dia, um entregador apoiou a mão suja no portal. Ao ver isso, ele deu um tranco que o coitado se desequilibrou, sob o riso de todos. O batente da porta era todo branco, não podia ter nem uma manchinha...
A massa que fabricava era excelente. A mesma que ia para o mercado, era servida em sua mesa.
No Natal, não economizava. Panetone da Di Cunto, pernil e caixas de macarrão pra todos.
Uma tristeza, porém, minava sua resistência. A vida inteira dentro da fábrica, só compensada pela certeza da volta ao lar no fim de cada dia. Lar que deveria desocupar. Perdeu em última instância, o direito de continuar onde vivia há muitos anos. Desapropriação, para aumentar o jardim do palácio do governo de São Paulo.
Desajustes na sociedade e má gestão o forçaram a vender a fábrica. Mais desilusão. A vida se esvaindo num câncer definitivo.
Suas últimas palavras ao morrer: Foda-se.

P.S.:
Foda, vem do grego antigo e significa "mina".
FODDERE, significa "escavar" ou "cavoucar".
FODINA, significa algo como "mina pequena, sem
importância, com baixo rendimento extrativista".
Assim, o termo FÓDA virou analogia do ato sexual,
muito provavelmente, devido ao esforço masculino
sobre o corpo feminino, como num trabalho "árduo".
Curiosamente, alguém dizer "VOU FODER A MINA",
significaria, literalmente, que iria escavar no túnel,
em procura de algo precioso...
Fonte: http://www.dicionarioinformal.com.br/

Por Suely Aparecida Schraner

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Entendendo a Páscoa


São Paulo é uma mistura de raças e tradições, em decorrência de seu imenso poder de inserir a todos em suas carnes de concreto e asfalto.
Então, por ocasião desta festa tão tradicional que é a Páscoa, quero aprender um pouco sobre sua origem e entender a diversidade de comemorações em nossa querida Sampa.

A palavra Páscoa vem do aramaico pashã, cujo sentido original é muito discutido. Pode significar "saltar".
No hebraico pesah (pessach) significaria originariamente "dança cultual", ou conforme alguns, a passagem do sol pela constelação do carneiro ou da lua pelo seu ponto mais alto. No livro bíblico de Êxodo, a palavra toma o sentido de "passagem".
Originariamente, o pesah e a festa dos ázimos eram duas festas distintas. A primeira dessas festas tinha relação com a vida dos nômades, a segunda com a dos agricultores sedentários.
Como ambas as festas caíam na primeira lua cheia da primavera, foram mais tarde unidas, e celebradas em memória do êxodo dos judeus, porque, conforme a tradição, esse se dera na primavera.
Os ritos para a comemoração da Páscoa foram se transformando, ao longo dos anos. Ao tempo de Jesus, a refeição pascal era tomada em grupos de dez a vinte convivas, em casas particulares.
Os cordeiros, para a ceia, eram mortos no Templo, no dia 14 de Nisan, (ou Abib), que corresponde ao nosso mês de abril (talvez dia 6 ou 7), entre 14h30min e 17h, mas comido depois do pôr-do-sol.
A festa tomou verdadeiramente o caráter de comemoração da libertação do Egito, o que explica os ritos da festa, pela pressa com que os israelitas saíram, o que os obrigou, naquela oportunidade, a usar a massa que estava na masseira, antes que pudesse levedar.
Além do cordeiro e do pão ázimo (sem fermento) utilizavam-se, ainda, o "charoset", isto é, um prato de frutas desfeitas em vinagre, formando uma pasta cor de tijolo, que servia para recordar a argamassa que os filhos de Israel empregavam nos trabalhos do cativeiro egípcio. Ervas amargas recordavam as agruras da escravidão.
As ervas eram mergulhadas no "charoset" e comidas, em meio a preces de gratidão a Deus. O pão ázimo era distribuído em pequenas parcelas, a fim de recordar a antiga escassez de víveres. O vinho era indispensável, misturado com água: 4 cálices ao todo, servidos pelo chefe de família e seguidos, um a um, de explicações a respeito da simbologia daquela comemoração especial e de entusiásticos louvores dos Salmos. As famílias que não o pudessem adquirir, deveriam buscá-lo no Templo, de forma gratuita, especialmente entregue para a ocasião, que era imprescindível de ser celebrada por todos os varões de Israel. As mulheres poderiam participar, se o desejassem, não sendo a isto obrigadas.
De acordo com os Evangelhos, a prisão, condenação, flagelação e a morte de Cristo coincidiram com a festa em que os judeus comemoravam a libertação do cativeiro egípcio, a sua Páscoa. É por este motivo que, posteriormente, se ligou o episódio da ressurreição de Jesus à Páscoa, tendo a liturgia Católica a adotado em seu calendário.
Quanto aos símbolos da Páscoa, responsabilizam-se os teutônicos pelo ovo de Páscoa. Antes eram ovos mesmo, símbolo da vida e da fertilidade, provavelmente proibidos como alimentos durante a Quaresma (liturgia católica) e reaparecendo no cardápio do domingo da ressurreição.
Contudo, o costume de oferecer ovos como presentes nessa época, remonta aos antigos egípcios. Entre nós, esse costume foi trazido por missionários que visitaram a China. Só que, antigamente, eram ovos mesmo, de pata ou de galinha, coloridos e enfeitados. A partir do século XVIII, incorporou-se o ovo de chocolate como símbolo da Páscoa, admitindo-o como indicativo de fertilidade e renovação. No Brasil, os ovos de chocolate foram introduzidos entre os anos 1913/1920, por imigrantes alemães.
O coelho, outro símbolo ligado à Páscoa, conforme a Liturgia Católica expressa a capacidade da Igreja em reproduzir novos discípulos. Alguns historiadores associam isso a antigos ritos de fertilidade, o que se justifica, pois o coelho é o animal que mais se reproduz.

Extraído do texto e da pesquisa de Maria Helena Marcon

“Toda complexidade atrasa o relógio da evolução e não devemos nos prender a exterioridades.”

Por Sonia Astrauskas


terça-feira, 19 de abril de 2011

Cotidiano de São Paulo



Pela manhã tomo o ônibus
olho em silêncio as pessoas:
todas em sonolência se encostam e
nem percebem o percurso
de mais um dia.
Final de tarde no ônibus
de volta para casa:
pessoas acordadas,
eufóricas e falantes
disputam o espaço físico
o espaço do viver.
gargalhadas saem de
estômagos ocos
vidas saem de corpos exaustos.
Gostosamente, o sexo aparece
na mão que desliza
pela perna da menina,
no olhar insinuante do
rapaz de jaqueta jeans.
Nossa gente
na maioria das vezes com
a barriga vazia
bolsos vazios
mãos vazias
e, mesmo assim
durante todo o percurso
sorriem,falam, gesticulam,brincam
contam segredos e, principalmente
sonham!

Por Márcia Ovando


segunda-feira, 18 de abril de 2011

Páscoas e um congresso inesquecíveis


1942; tenho dez anos, o Brasil, na iminência de entrar na guerra contra o eixo (Alemanha, Itália e Japão), que desafia quase todo o resto do mundo. Na escola primária, Grupo Escolar Romão Puiggari, são distribuídos folhetos quinzenais, anunciando a implantação da nova capital da república, no centro do mapa do Brasil, precisamente em Goiás, e que levará o nome de Brasília. Acho o nome bonito, a localização da nova capital num planalto que, na justificativa dos promotores, está bem alto, no centro do país, longe do mar, sem correr o risco de sofrer ataques marítimos.
Eu, na idade do primeiro decênio e na limitada preocupação com essas ocorrências, passo as aulas lendo meus gibis, nas segundas, quartas e sextas-feiras, e o Globo Juvenil, às terças, quintas e sábados, onde me inteiro, através dos meus heróis preferidos, Super-Homem, Batman, Capitão América, Namor, o Príncipe Submarino, Terry e os Piratas, Mandraque, Flash Gordon etc, das bravuras dos soldados aliados contra os “bandidos” do eixo. Minha posição, na intimidade do lar, é com os aliados, com as caricatas figuras dos três comandantes do eixo, sentindo um pouco de piedade com relação à do Mussolini, de quem meu pai gosta. Mensalmente, leio o Gibi Mensal e o Globo Juvenil Mensal (os dois com 100 páginas), O Gury, O Lobinho (os dois com 78 páginas).
Na escola, além dos folhetos da nova capital, tomo conhecimento dos horrores da guerra, através de folhetos ilustrados dos campos de concentração nazista. Em casa, nas conversas com meus irmãos e com meu pai, procuro esclarecimentos sobre o Brasil entrar na guerra, contra o eixo, principalmente, contra a Itália. Meu pai, fervoroso adepto do fascismo do Mussolini, diz que o Brasil não vai entrar em guerra contra um país que conta com grande número de imigrantes aqui vivendo. Mesmo tendo saído da Itália bem jovem, 11 anos, meu pai se mantém informado das obras do Duce, na Itália, a estação ferroviária de Roma, melhoria econômica do povo, derrubada do regime monarquista, etc. Culpa os americanos que estimulam o Brasil, por meio de ameaças, a sair de cima do muro, que é a pretensão do governo. Getúlio Vargas tenta resistir, com bom relacionamento com os três países beligerantes, quer seguir os exemplos de Espanha, Portugal e Suíça, que se mantêm neutros. Não consegue.
Aqui, em São Paulo, na esteira das graças envolventes do mundo cristão, principalmente da igreja católica, que se prepara para realizar um congresso eucarístico, faço, nesse ano, a 1ª comunhão e inscrevo-me para participar deste grande evento.
No mês de junho de 1942, venho de minha casa, na Rua Alfândega, no Brás, a pé, até o Vale do Anhangabaú, sob o Viaduto Santa Ifigênia, assisto à Santa Missa Campal do 4º Congresso Eucarístico Nacional de São Paulo, oficiada por Dom José Gaspar d'Afonseca e Silva, Arcebispo de São Paulo, nascido em 6 de janeiro de 1901 em Araxá, MG, e falecido em 27 de agosto de 1943, no Rio de Janeiro, num desastre de avião em que falece, também, Cásper Líbero, diretor d´A Gazeta.
Esse Congresso, precedido por campanhas radiofônicas, pela imprensa, tem seu ponto alto na venda de um escudo de folha de flandres, com os dizeres “4º Congresso Eucarístico Nacional de São Paulo junho de 1942”, com a finalidade de levantar fundos pra realização do evento e os que compram, pregam nas portas das residências, pra dar ao conhecimento de todos que a família colabora.
Uma festa para os olhos, o Vale todo tomado por uma multidão e a missa campal rezada, com a distribuição do sacramento por um exército de sacerdotes, todos com a preocupação de melhor atender aos fiéis, o que foi conseguido.
As festas da Páscoa, com todos os preparativos domésticos em que prevalecem os quitutes relativos à data, começam com a quaresma, os 40 dias decorrentes após o carnaval, a Quinta-Feira Santa com o Lavapés, Sexta-Feira da Paixão, com procissão do Cristo Morto, e a Vigília. Durante toda a quaresma, nas sextas-feiras, se faz a abstinência de carne, seja ela in natura, industrializada ou acompanhando qualquer receita, mesmo com pequena participação. Em casa, minha mãe chegava ao exagero de proibir, além da carne, o leite, o queijo e a manteiga, que eram subprodutos da vaca, ou seja, ela dava uma de SIF. Nestes dias, só peixe. No Sábado de Aleluia, com a malhação do Judas, ao meio dia, começava a Vigília Pascal, confissão, à meia-noite, Missa do Galo e, ao meio dia, comilança pra nenhum descrente botar defeito. Nem se cogita sobre ovos de Páscoa de chocolate; a única coisa parecida que minha mãe faz é uma massa com formato de boneca, se for pras meninas e, para os meninos, um cavalinho, todos levando um ovo cozido e envolvidos numa massa, feito empada, grudado na figura e que tem o nome de “papriug”, qualquer coisa parecida com “pato”.
Pra nós, descendentes de bareses, além das observações religiosas, temos um folguedo a mais, temos a “pascoela”. Em que consiste a pascoela: na segunda-feira, após o domingo de Páscoa e com as sobras do domingo gordo, nós e a vizinhança vamos à margem do Rio Tamanduateí (piscoso, na época), no parque D. Pedro II, fazer um belo piquenique, liquidando, de vez, tudo o que restou da Páscoa e mais alguma coisa preparada em última hora. É uma verdadeira festa de arromba, com músicas (sempre tinha alguém que tocava algum instrumento), comida à vontade, brincadeiras de roda, futebol (com bola de meia) e as “mamas” pondo seus assuntos em dia, rasgando “o manto diáfano da fantasia”, como diz o escritor português Eça de Queirós. E o que mais nos surpreende é que, em volta, todo o perfil da cidade, com a imponência do prédio Martinelli dominando o panorama e, pasmem, todos trabalhando. Na minha visão infantil, será que eles não sabem que hoje é “pascoela”, não se trabalha? Acho que não... Eles não sabem o que é viver!
Até hoje eu penso assim...

Por Modesto Laruccia

domingo, 17 de abril de 2011

Balada para um louco


Na fila do caixa, ouvimos os gritos: - pois o que eu quero é que você morra! Tudo isto porque, quando a mulher levara a mão ao coração, uma senhora perguntou o que ela estava sentindo. E recebeu esse tresloucado berro como resposta.
Viramos e vimos que a desvairada era uma velha conhecida, pelo menos de vista. Era moradora de uma estranha casinha no Brooklin, que uma vez me inspirou, por seu aspecto e de seus habitantes, a escrever “A Voz da Lua".
Tinha dito então que era gente pacífica, que não incomodava ninguém. E realmente, vimos essa senhora, meio mal ajambrada, conversando tranquilamente com outras locais. Uma vez, ao nos ver passar de mãos dadas, comentou: - como é lindo o amor.
E acho que não era ironia...
Mas, desta vez, ela estava atacada. Possuída, como dizem alguns. Mal vestida, de sandálias havaianas, cabelo à Joãozinho.
Avançou mercado adentro, em passos rápidos, e ouvimos mais gritos. As pessoas se entreolhavam, embaraçadas. Logo, passa rapidamente por nós, sai sem nada levar de compras.
Enquanto embarcávamos os pacotes, no estacionamento, ouvimos mais gritos, lá fora, a plenos pulmões.
Já aí, a Lua não tem nenhuma culpa; é loucura no duro. Que tristeza constatar a fragilidade do cérebro humano, sujeito a impulsos elétricos e cargas químicas, que, minimamente alteradas, provocam a alucinação.
Certa vez, um terapeuta afirmou-me que o maior medo humano é, depois da morte, a loucura. Ou seja, a morte da razão, para mim bem pior do que a primeira morte, e da qual a pessoa não se dá conta; para ela os loucos são os outros.
Outro personagem local, rapaz de boa aparência e, segundo contaram, de boa família, vivia também por ali, jogado pelas calçadas. Ás vezes, bem vestido, casaco de couro, óculos raibã, parecendo um astro de rock; mas, logo em seguida, sujo, barbudo, esfarrapado, falando sozinho.
Disseram-me que sua família morava ali por perto e seu grande problema foi a droga, porém, parece-me ser caso bem mais sério, como a senhora do princípio do texto. Por ali esteve, comovendo a todos, por vários anos.
Uma só vez, educadamente, pediu-me um trocado, e apressei-me em atendê-lo. Mas, agora sumiu... Há muito não vemos sua triste figura. Estará internado? Terá morrido?
Louco, louco, louco, louco, canta a balada de Piazzola. Mas isto, mais que um tango, dá tristeza, vergonha, horror de pertencer à raça humana, de ver seus absurdos e como são tratados esses infelizes pela sociedade. Sem esperança de assistência, nem recuperação.
Então, só mesmo saindo de trás de uma árvore, com uma bandeirinha de táxi livre no chapéu de Carlitos e declarar- Yo sé que estoy piantao, piantao, piantao...no vés que vá la Luna volando por Callao?

Por Luiz Saidenbeg


sábado, 16 de abril de 2011

Feliz Páscoa dos Natale


Ler os textos dos outros memorialistas sempre me dá algo mais que uma ótima narrativa. Dão-me fatos novos, surpresas e funcionam como desencadeadores das minhas próprias lembranças.
Foi o que aconteceu quando li o texto do ARTHUR...
Lido o texto, feito o comentário, uma voz infantil (a minha voz mesma) começou a cantar dentro da minha cabeça.
Era uma música singela, que cantávamos na classe, no tempo do Grupo Escolar, nas semanas que antecediam à Páscoa:

“Coelhinho da Páscoa,
O que trazes pra mim?
Um ovo, dois ovos,
Três ovos, assim!

Coelhinho da Páscoa,
Que cor eles têm?
Azul, Amarelo, vermelho também” !

A música, singela, deu asas ao meu pensamento e lá me fui, de bom grado, de volta ao passado.
Nos tempos do meu tio Amedeu, a Páscoa era à napolitana. A “nonna” cozia os ovos de galinha, deixava que esfriasse e os tingia com anilina em, cores variadas. Depois que os ovos coloridos secassem, eram decorados finamente por uns e, “male e porcamente”, por outros com desenhos florais, bichinhos, etc.
E, entre os tantos ovos de galinha, havia um ovo especial que causava grande emoção: Era o sonhado e desejado ovo de pata!
Os ovos, juntamente com muitos “caramelli" (balas, caramelos) eram embalados em papel celofane e escondidos pela casa toda. E, também escondia-se o ovo de pata.
Tio Amedeo e os netos dos meus avós, enlouquecidos, viravam a casa de pernas para o ar em busca dos ovos. Algazarra, gritos... De repente, um grito mais forte. Alguém encontrara o ovo de pata!
Feliz da vida, o vencedor apresentava-se ao vovô e recebia como prêmio, para inveja dos outros, um saquinho cheio de bombons!
Eu, nos primeiros anos da minha vida, participei dessa “caça aos ovos”. Infelizmente, nunca achei o ovo de pata... Meus primos chegavam a ele antes de mim. E que raiva me dava!
Um belo dia, eu não sei se foi a situação que melhorou, ou se o chocolate barateou, só sei que começamos a ganhar ovos de chocolate na Páscoa. Foram-se os ovos de galinha e o de pata, para o país das tradições perdidas. Mas, o ritual continuava o mesmo. Escondiam-se os ovos pela casa toda.
Ritual que teve o seu ponto final por causa do meu tio.
Como o Arthur, meu tio Amedeo tinha a paciência e empenho em procurar, à noite, pelo seu ovo de Páscoa e, quando o encontrava, levava-o para o seu quarto e em pouco tempo devorava-o todo! No dia seguinte, ria-se na cara dos meus avós, mostrando os papéis, remanescentes do ovo.
Chocólatra que era, passava o resto do dia mendigando um naco dos nossos ovos. Quando o negávamos, ele “sacanamente” apelava para a condição de tio – a quem devíamos obediência e respeito – e se refestelava.
Por causa do titio acabou-se a caça aos ovos.
Ovos comprados e trancados a sete chaves no guarda-roupa da vovó.
Véspera da Páscoa: Sentado à mesa da sala de jantar eu via a minha mãe e minha avó a forrar caixas de sapatos com papel de seda verde e amarelo, enquanto o meu pai cortava com a tesoura tiras e mais tiras de papel celofane branco e amarelo transparentes para forrar o “ninho”, onde o coelhinho da Páscoa deixaria o ovo.
À noite, levávamos o “ninho” para o nosso quarto e o colocávamos no chão, junto à nossa cama.
Eu sempre fazia um tremendo esforço para ficar acordado e ver o coelhinho “botar” o ovo no “ninho”, mas o sono vencia sempre!
Manhã de domingo, acordava e lá estava o ovo! Era só abrir e começar a comer!
Dez horas da manhã, chegavam os meus primos e vovó trazia o restante dos ovos escondidos no guarda-roupa e os distribuía aos netos. Dez horas da manhã, tio Amedeo, que já havia devorado o seu ovo, mendigava um pedacinho de ovo de cada sobrinho. Pedia, se impunha, ameaçava a todos. A nossa sorte era a vovó que, vigilante, sempre acabava com a “festa” do titio.
Saudade!

“Coelhinho da Páscoa, o que trazes pra mim”?...

Por Wilson Natale