quarta-feira, 29 de junho de 2011

Vivendo 42 anos sem Braz


Há 42 anos saí do Braz, tempo mais do que suficiente pra esquecer esse pedaço de coração que deixei com 38 anos. Com esposa Myrtes e 4 filhos. Maurício, professor de inglês, hoje com 54 anos, descasado e um filho, Matheo de 19 anos, estudante; Moacyr com 52 anos, descasado e 2 filhos, Gabriela, 25 anos e Frederico com 23 anos, (os 3 vivendo na Malásia); Maria, 50 anos, coordenadora e professora, 1 filha, Paola, 19 anos, estudante; Marcello, 44 anos, técnico em animação computadorizada, casado com Denise, dona de uma butique, 2 filhos, Anastasia, 10 anos e Vincenzo, com 8 anos, estudantes e finalmente, Myllene, 42 anos, a única nascida no Parque Continental, onde moro atualmente, casada com Fernando, criaram e desenvolvem um tablóide, voltado só pra anúncios comerciais, 1 filho, Rafael, 6 anos, estudante.
Saindo do Braz, da Rua do Gasômetro, 3 minutos (de bonde) da Praça da Sé, ou 10 minutos a pé. Com tudo a mão, mercadão, lojas, padarias, igrejas, clubes, etc. No Parque Continental, tudo... Por fazer... Arrependido, nós? Nem um pouco. Não gostava do Braz? Nem pensar. Vão passar outros 40 anos e eu ainda vou ter saudades do Braz.
Já contei minhas atividades como morador novo, num bairro novo e todos os problemas decorrentes da ausência de tudo que a gente tinha, num piscar de olhos. Mas, tudo foi compensado com a alegria e felicidade que desfrutávamos, principalmente a Myrtes, que foi contemplada com a maior alegria de sua vida ao receber as chaves da casa, tão esperada por 2 anos, nova, tudo ligado, água, luz e, principalmente o silêncio; sabe lá o que é dormir, depois de 12 anos de casado, sem o fabuloso trânsito da Rua do Gasômetro, das 4 horas da manhã até 2 da madrugada?
Desfrutamos o encanto de uma vida bucólica, quase rural, por quase 20 anos. Como sempre trabalhei em vendas para 2 ou 3 empresas, (não conjuntas, uma após outra) praticamente saía de manhã e só voltava no fim do dia, almoçando quase sempre fora de casa.
Nos primeiros 5 anos, morei numa das inúmeras ruas sem saída para carros, fiz pequenos arranjos na casa, estabeleci contatos com os novos vizinhos e, de imediato, descobri quem gostava de futebol; reunimos um bom número de aficionados, completando com moradores de outras ruas. Quem não conhece o Parque Continental, ele é dividido em quadras que, por sua vez, possuem ruas que eles chamavam de “passagens”. As ruas terminavam na divisa das quadras, chamadas de “áreas verdes”. Sossego e tranquilidade, livres do barulho da Rua do Gasômetro.
Para o futebol usávamos a área hoje ocupada pelo Shopping Continental, todos os domingos, de manhã, o famoso “racha”. Com o passar dos meses, precisávamos pressionar a Continental para a construção do clube, do qual hoje sou o sócio mais antigo. Na rua em que morei por 5 anos, (ainda moro no parque mas, numa casa maior e na avenida), junto com os vizinhos próximos, formamos uma só família e nos dias de junho, todos os fins de semana, eram festas juninas, com fogueira, fogos, balões, doces, bebidas, pipocas, quentão e tudo o que se relaciona com festejos juninos, numa convivência gostosa e harmoniosa com todos os vizinhos.
Até hoje estas ruas são bem estreitas; se eu parasse o carro em frente à minha casa, deveria fazê-lo com duas rodas sobre a calçada. Bem, o que eu quero contar, isso não importa. Em frente a minha casa, morava Dona Filomena, que tinha um filho chamado Rui. Magnífica pessoa o Rui, tinha de altura pouco mais de um metro, mas, não era anão atarracado, simplesmente um homem de estatura baixa. Educado, respeitoso, com boa cultura, porém tinha um problema bem “cabeludo”.
Sua mãe, Dona Filomena, tinha momentos de total desligamento, não conhecia ninguém, xingava quem passava na porta; quando via a Myrtes dizia, bem alto, pra toda vizinhança ouvir: “olha só a madame, só ela tem empregada doméstica em casa”. No principio, chocou. Todos chegaram a pensar que minha mulher havia provocado alguma coisa. Alguns dias depois, Dona Filomena bate na porta oferecendo um bolo: “Olha Dona Myrtes, um bolo pras crianças”, sem fazer nenhuma referência ao ocorrido. O Rui ficou sabendo e pediu desculpas pela atitude da mãe explicando que ela sofria de um desvio cerebral, mas, que era inofensiva.
Ocorrências iguais ou parecidas iam acontecendo com mais frequência ainda, não só conosco, mas com outros vizinhos também. Verdade seja dita, por estarmos frente a frente, ao abrir a porta de casa, dava de cara com Dona Filomena e a Myrtes tinha a paciência de ouvir e ficar calada. Um dia falava da empregada, outro, da roupa que ela vestia, sobre seu cabelo. Logo depois, aparecia com doces pra amenizar a situação ou, sei lá pra que, já que ela não se lembrava de nada. O Rui se desmanchava em desculpas. Aí, ela começou a pegar no meu pé. Quando chegava ao fim do dia, eu tinha que abrir o portão pra por o carro na garagem. Aí, aparecia Dona Filomena na porta: “Olha só quem chegou? O Marcelo Mastroiani... quem ele pensa que é? Um artista? Um galã?” Isso causou risos nos vizinhos que ouviram, e a mim, gargalhadas.
Mas, não ficou nisso... A coisa “engrossou” depois que ela começou a falar pra toda vizinhança que o “Mastroiani” não era o homem que vocês pensam, não”, dizia ela. “Ele me espera sempre quando vou à feira e, um dia, me puxou atrás de uma barraca, tentando me agarrar”. Dona Filomena, pra vocês terem uma idéia, era tão idosa que poderia ser minha avó, naquela época. Não fiz caso, mas, falei com o Rui, sugerindo que ela fosse internada ou que colocasse uma empregada que cuidasse dela. Ele me disse que já tentara de tudo, batia, xingava, não respeitava ninguém.
Pouco tempo depois, ele a internou e ela não durou muito, falecendo alguns meses depois.
Estas são as primeiras recordações de quando deixei o Braz e vim para o Parque Continental, na zona oeste de São Paulo, há 40 anos atrás.
Quanto à insanidade de Dona Filomena, creio que ela não era tão desligada da realidade pois, me comparando com Marcelo Mastroiani, acho que tinha, as vezes, resquícios de lucidez.

Por Modesto Laruccia

domingo, 26 de junho de 2011

Memórias de botequim II

 
Não tenho muito com que me ocupar no decorrer dos dias, então só me resta, como recurso extremo, lembrar de meu passado.
Faço isso com denotada alegria, mesmo porque, tal atividade pode me afastar do terrível alemão que ronda pessoas da minha idade, o grande facínora “Alzheimer”.
Pois muito bem, percebi que o meu texto sobre botequins teve plena aceitação entre os meus fãs; resolvi, então, fazer mais uma incursão ao passado e buscar outros botequins de meu real agrado.
Confesso, eram muitos, se fosse levar a cabo o registro de minhas Memórias de Botequim muitas e muitas linhas teriam de ser digitadas e editadas.
Por exemplo, tinha um botequim em Pinheiros, bem pertinho da Igreja de Pinheiros, onde eu cometia um enorme pecado ao longo de vários domingos do ano. Eu morava no Jaguaré e, acompanhado da mulher e filhos, saia mais cedo para o almoço dominical e fazia a primeira parada nesse bar, a Igreja tão próxima nem tinha o prazer de nossa visita.
Era uma casa de dimensões tão diminutas que a freguesia que não tivesse chegado cedo, ficava aboletada nas calçadas e fazia seus pedidos aos gritos. Lógico, todos eram atendidos, assim, enquanto segurávamos os copos com uma das mãos, a outra devorava as porções de tira-gostos (queijo provolone, linguiça calabresa seca, ricota seca apimentada, berinjela ao forno, sardella, aliccella, pão italiano).
A habilidade dos balconistas em preparar as batidas e caipirinhas era impressionante, a variedade de bebidas adicionadas a cada drinque era segredo de estado, não transmitida a ninguém. E nós, pouco interessados em segredos, queríamos, apenas, degustar aqueles acepipes e néctares, sem culpa na consciência.
Outra lembrança de botequim me ocorreu agora e, para não perder a oportunidade, passo a relatá-la.
O Antonio Capezzutto, um dos Duques de Piu-Piu, era funcionário antigo da Fábrica de Cigarros Sudam, instalada na baixada do Glicério, em nossa Sampa.
A nossa solidariedade era tanta que eu, trabalhando no 5060 da Avenida Celso Garcia (Penha) e o Antonio Settani trabalhando na Pontal, estabelecida na Avenida do Estado, altura do Cambuci, diariamente íamos encontrar o Capezzutto na saída do trabalho para, juntos, vencermos as íngremes subidas do caminho até o nosso querido Bixiga.
Porém, de quando em vez, sedentos, depois de um dia repleto de lutas e labutas, resolvíamos, antes de encetar nossa caminhada, visitarmos um botequim instalado na Rua Helena Zerrener, bem próximo da Sudam.
Ali, matávamos nossa sede com algumas doses de batidas de coco, de amendoim, ou então de caipirinhas, e para acompanhar essas delícias, pedíamos algumas porções de “Joana D’Arc”, essa delícia era preparada da seguinte forma: alguns gomos de linguiça calabresa fresca, acomodados em um recipiente e cobertas com álcool. Depois de acomodadas, um fósforo era riscado e o fogo ateado. As linguiças assavam ao fogo de álcool e depois eram servidas, tendo como acompanhamento, fatias de pãezinhos (no sul, cacetinhos).
Depois de abastecidos, iniciávamos a caminhada para o lar, vencendo as subidas da Rua dos Estudantes, Rua Antonio de Lima, Rua São Paulo, Rua Américo de Campos, Avenida da Liberdade, Rua Condessa de São Joaquim, Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, onde o trio se dissipava; eu ia para a Rua Major Diogo, o Capezzutto para a Rua 13 de Maio e o Settani para a Rua Santo Antonio.
Tempo bom, que não volta mais...

Por Miguel Chammas

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sexo e Montepio da Família Militar.


Há mais de trinta anos, nos tempos da ditadura, eu trabalhava na Denison Propaganda, na Brigadeiro, quase esquina da Paulista.
A agência ficava numa pitoresca galeria, que tinha várias lojas embaixo. Papelaria, bazar de jóias, um restaurante japonês e o Zakuska, bar russo que era o ponto dos colegas chegados a uma bebidinha. E pouca gente ali não o era.
Certa vez, encontrei lá, 5 da tarde, um contato já de cotovelo no balcão, degustando seu aperitivo.
Como fazia todos os dias. Os donos, o Russo e a Russa, bebiam mais que os clientes, quietinhos no seu canto. Sua vodka vinha direto do congelador, com estalactites de gelo.
Podia-se acessar a agência por elevador ou pela escada espiral, já que ficávamos no primeiro andar.
Nas duas hipóteses, não havia nenhuma fiscalização sobre quem subia. Não havia portaria, naquele tempo, e as entradas da agência ficavam em pontos cegos. Podia entrar quem quisesse, coisa impensável hoje. Assim, eram frequentes os roubos e não se podia deixar nada nas mesas, a não ser bem escondido.
Certo dia, voltando do almoço, passei pela sala de um colega, que perguntou:
-Ei, você viu a mulher?
-Que mulher?
-Uma que está vendendo títulos do Montepio da Família Militar... E sexo oral, de brinde!
Fiquei estupefato, mas, ali podia-se esperar qualquer coisa e quando, a seguir, a mulher apareceu, eu já estava prevenido.
Era uma senhora baixinha, sobriamente vestida, nada sexy. Pareceria uma tia daquela época, mas, agora o tempo passou e somos muito velhos para ter tios assim.
-Psiu, chamou ela. -Você quer entrar para o Montepio da Família Militar?
-Não, minha senhora. Eu detesto militares.
-Ei, ei... E que tal um sexo oral, então?
-Muito obrigado. Mas estou cansado... Transo toda hora!
-Ah, é?! Ei, ei, e com quem, com quem?...
-Com todo mundo... Aqui é uma zona!
Aborrecida, a mulher partiu para assediar outros colegas. Ninguém topou e ela saiu furiosa, reclamando aos berros:
-Seus gays! Todos gays! Aqui não tem homem nenhum!
Essas coisas são mesmo incríveis... Mas, reais! Pior é que umas colegas vieram reclamar que eu havia maculado a honra das “donzelas” da agência!
Como sou desenhista, fiz uma caricatura do acontecido, com a única correlação que pude achar entre os fatos: Todo mundo olhando espantado, e a senhorinha dizendo- Ei, ei, que tal; Montepio e sexo oral, hein, hein? A Família Militar quer mais uma vez "ferrar" com todos vocês!

Por Luiz Saidenberg

domingo, 19 de junho de 2011

Dia 24 de Junho


Dia 24 de Junho, dia de São João, era o aniversário de minha mãe, então, a festa era dupla: uma pelo aniversário e outra para a fogueira sagrada desse dia. Todo ano tinha fogueira e, um mês antes, eu e meu irmão, com a ajuda da molecada, íamos catando lenha e todo tipo de madeira para a fogueira, que era feita na Rua do Porto, Itaim Bibi. A princípio, colocava os mourões, que nada mais eram que troncos de eucaliptos grossos e bem secos, pois eram cortados meses antes, ficando sob o sol e chuva. Os troncos que estavam com tamanho de um metro, eram colocados em baixo, formando um quadrado e pedaços de madeiras que pegávamos na Marcenaria Fontes, na Rua da Ponte, eram colocados dentro. Gravetos completavam o conteúdo para pegar fogo mais fácil. A fogueira era armada durante o dia e só colocavam fogo quando estava escurecendo.
Às seis horas da tarde, o quentão já estava sendo feito na base de gengibre, açúcar e pinga; batatas doces já estavam selecionadas, sendo sempre as maiores para colocar na fogueira quando ela já estivesse em brasa. Depois que as batatas eram retiradas, era a vez dos homens pisarem nas brasas; eram os chamados “pés cascudos”, que não sentiam dor e não ficavam com os pés queimados.
Pipoca era feito aos montes. Muitos fogos eram comprados: Caramuru com um tiro canhão, ou de três tiros, e bombas com forte poder explosivo. Para as crianças, as bombinhas de dez centavos, biribas e fósforos de cor eram a farra da criançada.
Naqueles anos 1950, o céu estava cheio de balões, época que não era proibido solta-los. Balões de vários tipos se viam no céu e o que mais me chamou atenção foi o balão elefante, creiam, o “artista” fez até a tromba do bicho, que ficava cheio de fumaça dentro dela, depois saia por um pequeno furo feito na ponta da tromba.
Em frente à casa de dona Laura, seria solto um grande balão charuto, que meu pai tinha feito junto com Seu Osvaldo. O balão era tão grande que a boca tinha cerca de trinta centímetros do diâmetro. A tocha era enorme, com breu e querosene. Colocado a tocha, o balão estava em pé, com muita gente segurando e uma pessoa em cima do telhado para segurar o bico. Quando foi colocado fogo, o balão já pegou força para subir; não era necessário dar o impulso para cima. Quando todos soltaram, ele subiu rápido e Berto, para comemorar a subida dele, soltou um caramuru que estourou bem no meio do balão, que foi queimado rapidamente. Meu pai achou que ele fez de propósito, mas, Seu Osvaldo achou que foi uma fatalidade.
Quem gostava de fazer balão era meu irmão José... Desde garoto ele já fazia; começou fazendo balão-caixa de quatro folhas e, mais tarde, de oito folhas de papel de seda. Ele mesmo fazia a tocha com breu e o balão não subia devido ao peso da tocha e, quando ele diminuiu o tamanho, o balão não ia muito longe. Daí pra frente, ele passou a fazer as tochas com parafina, que era mais leve. Era difícil achar pedaços de parafina nas lojas... Foi daí que percebemos que tinham velas feitas de parafina e ficou mais fácil. Meu irmão, então, mudou a forma de se fazer tochas. Ele diminui ao máximo o tamanho delas, fazendo dois rolinhos de saco de estopa com parafina, colocando distante da outra, torcendo o arame, ficando uma a cinco centímetros da outra, formando uma cruz, que passou a ser chamadas de “tocha em cruz”. Daí, elas eram consumidas mais lentamente. Não tinha balão que não subia.
Na Copa do Mundo de 1958, o Dia de São João caiu numa terça-feira, dia em que o Brasil ganhou da França por 5x2 e o jogo final entre Brasil x Suécia estava marcado para o domingo, 29 de junho; naquele tempo, dia de São Pedro, caindo em dia de semana, era feriado.
Dois balões estavam sendo preparados para o dia da vitória que todos esperavam. Os dois eram enormes charutos de 96 folhas, que seriam solos logo depois do jogo, com o Brasil todo comemorando o título mundial soltando fogos. A nossa turma já estava preparada para soltar os balões; o primeiro charuto seria solto em sentido horizontal com quatro bocas, chamado de charuto deitado e com uma das bocas pendendo, fez com que o balão pegasse fogo. Já o segundo, era outro charuto de 96, de uma só boca, que foi solto em sentido vertical; meu irmão, especialista em tochas para balão, caprichou. Foi soltar o "bicho", vê-lo sumir nas nossas vistas.
Com o progresso e o crescimento da cidade, foi proibido soltar balões; assim mesmo as pessoas soltavam, mas, não tinha mais aquele glamour... As ruas já estavam asfaltadas e não se podia fazer fogueira, a não ser num terreno baldio, ou então, para quem tinha quintal, e até os quintais foram sendo suprimidos para aumentar a casa. E as festas juninas ficaram na memória de quem viveu aquela época.

Por Mário Lopomo

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Até agora não fomos assaltados


A segunda-feira chegou e com ela, o amigo suíço, vindo da Austrália. Vontade de conhecer o centro da cidade de São Paulo.

De carona com minha irmã, que trabalhava próximo da estação Armênia, lá fomos nós. Pra mal dos pecados, os motoristas de ônibus resolveram não sair da garagem. A fila de carros, na Avenida 23 de Maio, bibelôs de asfalto.

Horas depois, respirado todo o monóxido de carbono a que tínhamos direito, apeamos no Anhangabaú. Meu amigo pálido e nauseado, explicava que estava passando mal, resultado de uma hepatite adquirida na Índia, por onde andara recentemente.

Paramos num mercadinho para comprar maçã. Dizem que é um bom antídoto para enjôo. Aliviados subimos a Líbero Badaró. Na Praça da Sé uma parada na guarita, que fica defronte à catedral. Surpresa. O “guarda” falava inglês e até deu dicas ótimas de turismo.

Rumamos até o Pátio do Colégio. Aí também o guia se esforçava para explicar em inglês que o local é o marco inicial do nascimento da cidade de São Paulo. Que, estando no alto de uma colina entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, foi escolhido para iniciar a catequização dos índios. Contou da inversão do rio e dos fragmentos de uma parede do antigo colégio, que procura simular a original seiscentista, feita de barro misturado com grãos de areia e brita. Dizem que, até sangue de boi foi usado para dar liga.

No alto do Edifício Altino Arantes, nossa guia também arriscava umas palavras no idioma de Shakespeare. Eu, pasma com tão boa recepção e meu amigo, extasiado numa São Paulo improvável. No alto do edifício Arantes, clicou tudo com sua câmera descartável. É que em sua terra natal o haviam alertado para não andar com câmera fotográfica boa, senão seria roubado na primeira esquina. De lá, caminhamos até a Rua Aurora. Bar do Leo e os deliciosos bolinhos de bacalhau com chope bem tirado e a nossa boca do lixo bem ao lado.

Próxima parada: Praça da República. Olhar São Paulo com olhos de turista. Ver e reparar. No Edifício Itália, permissão dada e subir até o Terraço Itália. Diante da vista deslumbrante, um lamento por não ter na mão uma câmera digna da visão. E ainda mais, a alegria do privilégio em assistir ao ensaio no piano bar.

De passagem pela avenida Liberdade, o deslumbramento pela nossa Chinatown e a boa gastronomia.

Mais metrô e chegamos ao maior centro financeiro, a Av. Paulista. Um banho cultural em meio a greve de ônibus e trânsito caótico que nos assola.

No parque Trianon, uma gritaria. Um mendigo sojigando outro, por conta de algo encontrado no lixo.

Flanar. Da Casa das Rosas, Itaú Cultural, Exposição na FIESP até o MASP mais imersão cultural. Na Augusta, pausa para um café expresso.

O sol se punha e uma brisa leve indicava que era hora de voltar. O amigo exclamou: “São 17 h e até agora não fomos assaltados! São Paulo não é nada do que falam na Europa”.

Por Suely Aparecida Schraner

sábado, 11 de junho de 2011

Coisas que gosto de fazer em São Paulo - parte V


Já falei sobre o Mercadão e seus sabores, sobre os bares e restaurantes e suas delícias e também sobre passeios culturais que gosto de fazer pela cidade. Mas São Paulo não se resume a isso. A maior metrópole da América Latina e uma das maiores do mundo nos oferece infinitas variedades de passeios e divertimentos.
A cidade possui praças e parques, entre os quais destaco alguns, sem qualquer demérito para outros não esquecidos, apenas não relacionados aqui. O Parque do Ibirapuera é um dos meus prediletos, pois, ali, posso apenas levar um livro para ler sob a sombra de suas árvores, como passear pelos seus caminhos, só ou acompanhado, num gostoso bate-papo. Outros que não frequento com a assiduidade que gostaria, mas que me agradam muito também são: o Parque da Aclimação, belo e acolhedor, assim como me sinto bem também sob a exuberante vegetação do Parque Trianon, este em frente ao MASP, na Avenida Paulista e, ainda, o Parque da Luz, que sei ter sido reurbanizado recentemente, mas que ainda não tive o prazer de conferir.
Praças como a da República, no Centro, e a Buenos Aires, em Higienópolis, são belas em seu traçado e vegetação, embora ultimamente não possam ser consideradas muito bem frequentadas. Principalmente a da República, praticamente tomada por pessoas do chamado submundo paulistano.
Um passeio que gosto muito de fazer, há muitos anos e considero imperdível, é unir o útil ao agradável, assistindo ao “show” de canto gregoriano, acompanhado de um dos órgãos mais prestigiados do mundo, oferecido pelos padres do Mosteiro de São Bento, aos domingos, às onze da manhã. Depois, com o coração mais leve, dar um passeio pelo centrão da cidade, aproveitando para conferir a imensidão do Vale do Anhangabaú, vista de cima do Viaduto do Chá.
Ainda no centro, vale à pena dar uma conferida na programação do Centro Cultural Banco do Brasil, na Rua Álvares Penteado. Ali pertinho também tem o antigo prédio histórico dos Correios e Telégrafos, no Vale do Anhangabaú, hoje transformado em Centro Cultural.
Aos domingos, também acontece no bairro da Liberdade, ao lado do Metrô Liberdade, uma animada feirinha, que nos permite sentir como se estivéssemos num pedacinho do Japão. As barracas de comidas da “Feirinha da Liberdade” também são famosas, pelos quitutes que oferecem a preços razoáveis.
Já falei sobre os cinemas da cidade, no texto anterior, mas um passeio que gosto bastante de fazer é pegar um cineminha no Espaço Unibanco, na Rua Augusta, próximo à Avenida Paulista e ao Metrô Consolação. Lá sempre encontro bons filmes e, por esse motivo, é um dos redutos dos cinéfilos paulistanos.
Estando próximo ao Metrô Consolação, sempre vale à pena visitar as lojas da Livraria Cultura, para mim as melhores da cidade, no Conjunto Nacional. E, para não ser injusto, não posso deixar de mencionar a gigantesca loja da FNAC, na Avenida Pedroso de Moraes, onde costumo passar tardes inteiras ouvindo CDs e folheando (e comprando) livros.
Para quem, como eu, que passou boa parte da vida no Bexiga, nada melhor do que ir a um ensaio da Escola de Samba Vai Vai, na Praça 14 Bis. É um programão, especialmente se puder estar na companhia de um animado grupo de bons amigos.

Zeca Paes Guedes

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A festa


Estávamos no meio do ano de 1975, eu ainda morava na Freguesia do Ó e ainda nem pensava que dali a dois anos estaria de mudança para Campos do Jordão onde passei a viver até 2001, quando me transferi para Taubaté e daí para Lorena, onde vivo atualmente. Em Junho de 1975, fomos convidados (eu e minha família, por um tio irmão de minha mãe e já falecido) para uma festa junina, da qual ele anunciou que seria a última de sua vida e, para isso, contava com a presença de todos seus familiares, amigos, colegas e conhecidos.

Possuidor de uma casa com um terreno extenso e que em breve iria desaparecer, pois ele resolveu colocar metade do mesmo a venda, para levantar dinheiro e reformar a velha e antiga casa, há alguns bons anos construída no Bairro da Cachoeirinha.

Tio Antonio, em vista disso, resolveu fazer esse “festão”, em homenagem a Santo Antonio e ao terreno que em breve ficaria bem menor. Meu tio caprichou, convidou um sanfoneiro, fez pipoca, batata doce, bolo de fubá, arroz doce, canjica, curau, pamonha e, é claro, quentão à beça, que segundo ele era para esquentar o frio que, naquela época, no mês de junho, era bem forte na Vila Cachoeirinha.

Às oito da noite, depois de encher o quintal de bandeirinhas e pequenos balões de papel de seda colorido, meu tio já estava comandando o acender da fogueira de, aproximadamente, 3 metros e meio de altura.
Os convidados chegavam a todo instante, primos que eu não via há mais de sete anos ali estavam felizes, se abraçando.

Entre amigos, parentes e penetras eu, sem exagero, acredito que perto  das 20:30 horas, 150 pessoas circulavam pela festa fazendo com que aquele aparente grande espaço territorial fosse, aos poucos, se tornando pequeno.

O consumo era geral, bacias de pipoca, travessas com bolo de fubá, arroz doce, batata doce, canjica, pamonhas e curau desapareciam como que por encanto. Nem é necessário dizer que dois caldeirões de 15 litros de quentão, mesmo sendo servido em pequenas xícaras de cafezinho, jaziam vazios, esperando para serem reabastecido.

Foi então que um primo meu resolveu colocar alguns vidros de Gutalax (purgante incolor sem cheiro e sabor) nos caldeirões de quentão, já devidamente cheios e que, rapidamente, começaram a ser servidos para todos os presentes.

Meu tio anunciou aos berros: Pessoal, agora vamos levantar o mastro, preparar os foguetes para soltar, mas, antes, vamos dançar a quadrilha, por que o sanfoneiro chegou.

E assim, com o mastro já de pé... A cara cheia de quentão com Gutalax, ao som gostoso da sanfona, o pessoal foi para uma quadra de vôlei, agora transformada em Salão de baile, se largaram nas músicas típicas dessas festas.

Agora, imaginem a situação: O pessoal com o “bucho” cheio de pipoca, bolo de fubá, refrigerantes, curau, pamonha, amendoins, arroz doce, batata doce, mais o quentão que era 51 puro disfarçado com um pouco de água e umas batatas de gengibre... Aquilo estava provocando uma pressão intestinal semelhante a uma panela cheia de leite fervendo, prestes a sair pra fora da panela.

Foi precisamente nesse clima, que um festeiro, soltando um balão gritou: Pessoal, vamos soltar os FO... Ele nem chegou ao GOS. Quando ele falou vamos soltar os Fo... A maioria soltou de uma vez só. A quadra ficou totalmente comprometida e ficou meio metro cheio de... Fumaça por todo lado e aquele cheiro horrível de... Pólvora seca sufocou o ambiente.

Quando a fumaça passou e o cheiro de pólvora diluiu-se na poluída atmosfera, foi gozado por que os moços fortes de 18 a 22 anos soltaram seus caramurus de 3 tiros; era só PUM, PUM, PUM para todo lado.
As moças soltaram rodinhas (aquelas de prender com prego na parede, nem sei se ainda existem), faziam um ruidinho longo tchiiiiiiiiiiiiisssssssssssssssssi com um só PUM no fim.

Os velhos soltavam rojão, mas, alguns estavam com a pólvora molhada e o Rojão no lugar de subir, saia meio de lado e, no lugar de estourar para cima, pipocavam mesmo era em baixo. Era gente correndo dos puns por tudo quanto era lado.

As Velhas, coitadas, cansadas de andarem pela festa, nem levantaram para soltar e soltaram mesmo sentadas. Soltavam aqueles estalos de Salão, que só da o seu estalo quando é jogado com força no chão. O ruído e bem fraquinho; só fica plic, plic e o PUM nunca acontece.

Passaram o resto da noite limpando aquela sujeira; meu tio, louco da vida, morreu sem nunca saber que foi um dos seus sobrinhos o autor da brincadeira. Mas, segundo a mulher dele, cunhada de minha mãe, meu tio morreu desconfiado que o verdadeiro culpado de tudo isso, na realidade, foi mesmo eu.

E VIVA SANTO ANTONIO – SÃO JOÃO E O QUERIDO SÃO PEDRO.

Arthur Miranda (tutu)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Memórias de promessas friolentas


Nem só de maldades eram os meus dias com meu Tio Miguel.
Gostava quando ele, fazendo-se de rogado, com cara de indiferença, atendia aos meus rogos e, pegando os bolachões de cera, iniciava uma audição musical fenomenal.
Eram discos de selo verde, enormes, gravados por nomes famosos do cenário internacional.
Tito Schippa, Gigli, Caruso, Gino Bechi eram os meus preferidos; sabendo disso, ele os tocava com maior frequência.
Trechos de óperas, faziam uma audição especial. Eram executados, sempre, com uma pequena estorinha ilustrativa, ou um “causo” vivido por ele.
Tio Miguel fazia essas audições musicais ao cair da tarde, lá no Cambuci, depois que a sirene da fábrica de chapéus Ramenzoni berrasse a hora da saída dos seus operários, assim, aquele barulho insuportável não atrapalhava nossa música.
Devo a ele a minha pequena cultura musical.
Lembro-me, também, que nas noites friorentas de Sampa, quando a tradicional garoa paulistana descia borrifando com suas gotículas as janelas das casas, causando a impressão de um frio ainda maior, meu velho tio, esfregando suas enormes e bem cuidadas mãos, reclamava da friagem e dizia para minha tia: Maria, vamos tomar um café para afugentar o frio?
Perguntava e já se dirigia à cozinha, levando-me pelas mãos.
Minha tia, na sua calma lusitana, nos seguia e tirando o café da jarra de barro, colocava um pouco na panela e acendia o fogo para esquentá-lo.
Aí era a parte que eu mais aguardava; meu tio dirigia-se ao móvel da cozinha, tirava de lá um litro de uma bebida incolor, colocava uma pequena poção num copinho, mistura a essa bebida o café quentinho e me dava para beber.
Lembro que o café ficava muito mais gostoso. Ficava com um sabor de anis e rapidamente acalorava meu pequeno corpo.
Anos mais tarde, vim saber o nome daquela bebida mágica, era Licor de Sambuca, e hoje, sempre quando enfrento as noites invernais, vem à minha boca o gosto daquela mistura maravilhosa.
Prometo, então, comprar um litro de Sambuca e tê-lo por perto no inverno. Os meses passam, as estações também e, no inverno seguinte, volto a fazer a mesma promessa que, infelizmente, poucas vezes cumpri.
Por Miguel Chammas

domingo, 5 de junho de 2011

Os falares da Mooca

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Sr. Alexandre Marcondes Machado
(Juó Bananére, para os íntimos e toda a população paulistana.)

“Barbuleta di aza adurada, “Borboleta de asa dourada,
Minina de migna paxó! Menina de minha paixão!
Agiugué nu giacaré, Joguei no jacaré
I perdi meus duzentó!” E perdi meus duzentão!”

Ah! Os falares da Mooca! Quem diria?...
Pois é. Os filólogos estão correndo atrás do prejuízo. É preciso que estudem urgentemente os “falares da Mooca” - o último reduto do “Dialeto Macarrônico” falado pela maioria da população de São Paulo entre o fim do século XIX e o meio do século XX. Na Mooca, fala-se até hoje, embora paulatinamente, venha caindo no esquecimento.
E é nesse momento de recuperação do dialeto que entra em cena o Sr. Alexandre Marcondes.
Alexandre Marcondes Machado (1892-1933), deixou a cidade de Pindamonhangaba e veio para São Paulo vencer na vida. Muitos conheciam o Engenheiro Alexandre Marcondes que projetou e construiu o Palacete Xavantes, na Rua Benjamim Constant, nº171 (O prédio existe até hoje.).
Mas, um belo dia o Engenheiro virou jornalista: Inventou um pseudônimo que criou vida e devorou seu criador. O Sr. Marcondes virou JUÓ BANANÉRE. Toda a Paulicéia o conheceu. Era o Juó Bananére, “Poeta, Barbieri i Sordato. Gandidato à Gadêmia Baolista di Lettera”. Virou um “Baulistano paxonado pelas minina du Bò Ritiro”.Juó escrevia para o povo, no patuá falado pelos italianos do Brás, Bela Vista (Bixiga), Bom Retiro e Mooca. E como prova os acetatos gravados, que estão no Museu da Imagem e do Som, ele falava muito bem nesse patuá. E no patuá, Juó Bananére – humorista e satírico mordaz – fazia a cidade rir a não poder mais. Para ele nada era sagrado. Não perdoava os políticos e a política; fazia versinhos saborosos e descaradamente parodiava os grandes poetas. Suas crônicas sobre o cotidiano, a Revolução de 24 são hilárias.
O tempo passa e o Juó vira um grande “giurnalista”. Vai para a publicação d’ O Pirralho e substitui Anibale Scipioni (pseudônimo de Oswald de Andrade) nos artigos. Esses seus escritos feitos para o Pirralho serão publicados em um livro - LA Divina Increnca - em 1924. Livro que teve mais duas edições no século XX: 1966 e 1993. Voltolino (Lemmo Lemmi), grande cartunista d’A Cigarra, em uma caricatura, dá corpo e rosto ao Juó Bananére. E o Juó cria para si mesmo um brasão que tem como lema: NON CUTUCA! Um belo dia o Juó Bananére (João Bananeira) deixa O Pirralho e vai viver de expedientes. E, antes que a morte o levasse tão cedo, ele cria O DIÁRIO DO ABAXO PIQUES. (Alusão ao Largo da Memória e Largo do Riachuelo - hoje Praça da Bandeira.)E a morte levou Seu Marcondes aos 40 anos. Então, o Juó partiu para o Olimpo dos Jornalistas. Virou mito, resistiu anos na memória dos contemporâneos e virou História Paulistana.
E o tempo incumbiu-se de dar ao Bananére a sua devida importância: Em “Cavaquinho e Saxofone”, Alcântara Machado o define como um produtor de “modelos de estilo” e com certo caráter antropofágico. Otto Maria Carpeaux considerou Juó Bananére um pré-modernista.
E os estudiosos da língua, os filólogos, debruçados sobre o livro La Divina Increnca do Juó, vão descobrindo que ele escrevia na língua mais falada em São Paulo desde os tempos de Anchieta, quando a Língua Geral (Tupi-Guarani) era, por opção, mais falada que o Português. Vão descobrindo que o Patuá macarrônico é, falando-se de regionalismo, a língua regional mais importante do século XX.
Estão correndo atrás, antes que tudo se perca. Estão na Mooca –último reduto desse patuá - registrando tudo o que, dia-a-dia, vai-se definhando. Resiste o Moochese (Mooquêse, Mooquês) entre nós os mais velhos, mas definha entre as novas gerações...
Resiste ainda. Como resiste o falar rápido e “cantado” do paulistano cuja origem está nesse patuá.

Por Wilson Natale

Mais sobre o tombamento do sotaque da Mooca:

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Quase outono


Lá na minha rua tinha um bosque, canta a velha musiquinha. Não é verdade, não é na minha rua, mas, a duas quadras de distância. É um belo parque, pequeno e muito arborizado, com pistas para caminhada.
Entremos. Olhando, e mais, sentindo o verde profundo da vegetação na manhã cinzenta, assaltou-me uma sensação de outro dia assim, úmido e fresco, de muitos anos atrás.
Talvez o ar, sutil, de quase garoa, quase neblina, onipresente, ainda que invisível. Mas, e o cheiro de gasogênio, elemento imprescindível na sensação? Os carros que passavam, do lado de fora das grades talvez evocassem, de algum modo, tal lembrança, mesmo neste tempo de etanóis. Alguma coisa restara, para fazer a ligação com aquele ano de 1946.
São Paulo então era, dizem, mais fria e garoenta. E nesta manhã de parque sentia-se o contraste com os sufocantes dias anteriores.
1946... Colocamos os pés na rua, a tranquila Vitorino Carmilo, aspirando o arzinho frio e caminhamos rumo à casa de Tia Zilda, diante do então Cine São Pedro.
Subindo a Albuquerque Lins, depois de minha tia, passava-se por uma Ortopédica Alemã, com uma cruz vermelha no letreiro e estranhos aparelhos na vitrina. A seguir, a Padaria Palmeiras, com suas famosas empadinhas e pizzas de balcão.
Cruza-se a Praça Marechal, dobra-se à esquerda e pronto, estamos na Rua das Palmeiras, muito interessante. Mas, Rua das Palmeiras? Que poderia haver de interesse lá, dirão alguns. Para um garoto acostumado à pasmaceira do interior, tudo era fascinante.
Ali o trânsito, quase inexistente para os padrões de hoje, era para mim movimentado.
Os carros, estranhas geringonças movidas a gasogênio, carregando nas costas a complicada e escura caldeira, como uma corcunda.
O cheiro era novo, estranho, mas leve e por que não, até agradável.
Bem, eu gosto de cheiro de piche sendo aplicado no asfalto e talvez lembrasse um pouco. Nada disto tem a ver com esses ufanistas que dizem não poder ficar longe dos maus odores de São Paulo: gasolina, diesel, poluição, lixo, isto para não falar nas Marginais.
Na Rua das Palmeiras, lojas de ferragens, de carros, de móveis, até uma bela doceira em frente do Largo Santa Cecília. A igreja, pequena e toda branca, com pinturas de Benedicto Calixto, conhecido de minhas tias, quando morara em Brotas, terra delas. E a impressionante e lúgubre imagem da Santa, sob o altar.
Por fim, maravilha das maravilhas, subíamos as escadas rolantes da Clipper, para contemplar seus elegantes balcões, nos quais não faltavam brinquedos desconhecidos.
Hoje, raramente passo por esses antigos lugares, que continuam quase os mesmos, arquiteturalmente, apenas cobertos de sujeira e pobreza. Paradoxal, mas, como uma Pompéia, as construções foram preservadas pela decadência da região. Quase nada de novo foi erigido.
Nada mais sinto da velha emoção de adentrar, como um explorador do século dezoito, uma nova selva de pedra, palmilhando seus atalhos fumarentos.
No ar fresco e úmido de uma manhã, de quase Outono.

Por Luiz Saidenberg

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Crendices da vovó


Dias atrás, caminhávamos pelo jardim da praia, Miguel e eu, fim de tarde, luar aparecendo tímido, mostrando um fiozinho de lua e iniciando mais um ciclo de lunação. Logo me lembrei de minha avó. Quando crianças, ela nos fazia saudar a lua nova, toda vez que esta acontecia. Dizia que era para nos dar sorte e era uma forma de respeito pelos ciclos da vida.
Ela aconchegava junto de si os netos amados, lá no quintal de nossa casa, na Rua Umuarama ou na casa dela, na Rua Angelina Techio Cidro, na Vila Prudente, e nos ensinava os versos para saudar a lua nova:

Salve, salve Lua Nova
Três coisas quero te pedir
Livrai-me de dor de dente,
do fogo ardente
e da língua de má gente!

Não entendíamos muito bem a razão de tal estrofe, mas, repetíamos cada verso, assim que minha avó os dizia.
Coisas dos antigos.
Com isso fui recordando algumas das crendices de minha avó e de minha mãe e que, por muito tempo, foram nossas também.
Se, por um acaso, estivéssemos comendo um pedaço de pão e este caísse ao chão, vovó nos fazia recolher e dar um beijo no pão, para que não nos faltasse comida e porque no pão estaria Nosso Senhor Jesus Cristo.
Se apontássemos as estrelas com os dedos, dizia ela que nasceria verruga em nossa mão.
Quando contássemos uma mentirinha fazendo figa ou cruzando os dedos atrás, nas costas, não seríamos condenados por este pecado.
Nas festas da família, vovó não permitia que se brindasse com bebidas diferentes, para não inverter os desejos.
Contava-nos que era sempre bom ter um elefante de enfeite sobre um móvel qualquer da casa, pois evitaria a falta de dinheiro, mas, ele teria de estar com a tromba erguida e teria de ser colocado de costas para a porta de entrada... Só assim daria sorte.
Abrir guarda-chuva dentro de casa? De jeito algum! Dizia ela que isso traria infortúnios e problemas aos familiares.
Ensinava que era muito bom ter um ramo de arruda sob os travesseiros, para afastar maus olhados e atrair bons fluidos.
O tempo ia passando, deixávamos de ser crianças, mas, as crendices de vovó seguiam conosco.
Era tão engraçado quando íamos visitar alguma parenta, amiga ou conhecida que tivesse dado à luz... Tínhamos que avisar à parturiente caso estivéssemos menstruadas, para não lhe secar o leite. Se fôssemos visitar quarto de noivas, era bom sentar na cama do casal para nos dar sorte e arranjarmos também casamento. Já para as noivas sortudas, que já tinham agarrado seus futuros maridos, deveriam guardar todos os papéis dos presentes ganhos, embaixo da cama, para dar sorte aos nubentes. E ninguém era besta de duvidar... Não tinha uma noiva que desprezasse seus papéis dos presentes... Entufavam tudo sob a cama... Afinal, melhor pecar pelo excesso do que pela omissão.
Em dias de férias, quando a meninada toda se reunia para as brincadeiras costumeiras e desabava aquela chuva, lá vinha vovó, ensinando alguma reza ou simpatia para parar de chover. –“Joguem a peneira no meio do quintal. Logo passa esta tormenta”. Ou, senão: -“Coloquem o ovo (há quem diga que é sabão) para Santa Clara que a chuva logo passa”. Nem titubeávamos. Saíamos correndo a fazer as simpatias. E não é que dava certo?!
Quanta saudade! Eu ficaria horas, dias, meses, ou mesmo a vida inteira, lembrando das crendices de vovó... Quão doces recordações! Porém, limito-me a citar apenas algumas delas:

A pessoa que é pulada não cresce mais.
Cruzar com gato preto na rua dá azar.
Chinelo ou sapato com a sola virada para cima, o pai ou a mãe podem morrer.
Sol com chuva, casamento de viúva.
Mulher que tem o segundo dedo do pé maior que o primeiro, manda no marido.
Cortar cabelo na Sexta-feira Santa não cresce mais.
Vassoura atrás da porta espanta visitas.
Sexta-feira 13 é dia de azar.
Agosto é mês do desgosto.
Assobiar à noite chama cobra.
Comer manga com leite faz mal.
Jogar sal no fogo espanta o azar.
O número 7 é o número da mentira.
Quem passa debaixo do arco íris vira mula sem cabeça.
Quem come banana à noite, passa mal.
Quem canta na quaresma vira mula de padre.
Quem comer muito à noite terá pesadelos.
Passar debaixo da escada é má sorte.
Quebrar um espelho dá sete anos de azar.
Colocar bolsa no chão faz o dinheiro acabar.

Será?! rsss

Por Sonia Astrauskas