sábado, 4 de setembro de 2010

Émelhor prevenir do que remediar

Corria já metade do ano de 1948 estávamos em pleno mês junho mais precisamente véspera de São João. Um frio gostoso assolava a nossa querida Capital paulistana.
Fazia pouco mais de três anos que a Segunda Guerra Mundial chegara ao fim.
A vida dos paulistanos já havia voltado ao normal, já não se via mais as famigeradas filas para se comprar pão, carne e outros víveres que
durante o período da guerra estavam racionados.
Nossos vizinhos, o casal Carlos Heytzmann e sua esposa Anésia Rodrigues Heytzmann (casal de saudosa memória) pais de meus amigos Carlos Roberto (Beto Mama) e Mario Luiz, eram pessoas muito queridas não só por mim e minha família, como também por todo o pessoal do bairro da Freg


uesia do Ó. Dois anos antes, o casal teve mais um filho, o João Lourenço (Joãozinho), então o Casal passou a comemorar com festa o Dia de São João.
Essas festas contavam sempre com a participação de todos os familiares do Sr. Carlos, como também os de sua esposa, Dona Anésia.
Participavam as irmãs e irmãos de Dona Anésia, o Zicão as professoras Benedita Irene, as Gêmeas Celeste e Estela, Dona Judith, também professora e mãe dos amigos que, lamentavelmente, nunca mais soube deles, o Zélito, o Acácio e o Contisio, (que moravam na Rua Cotoxó, na Pompéia.) Dona Benedita (minha professora de Catecismo) e Dona Porfíria, uma negra muito querida, irmã de criação de Dona Anésia, todas nascidas criadas e morando, na época, na Freguesia e na mesma casa, conhecida como chalé. Localizada no largo da Matriz Velha, no inicio da Lade
ira velha (infelizmente fiquei sabendo que a casa foi demolida).
E assim, minhas irmãs e eu éramos uns dos poucos convidados presentes que não eram membros nem faziam parte dessa família.
Na festa havia de tudo que se usava fazer na época, pipoca, quentão, batata doce, pinhão, bolinhos de fubá, fogueira, balão, mastro, fogos, fogueira e enfeites com bandeirinhas e pequenos balões coloridos (parece até que estou vendo tudo isso bem agora).
Ah!Quase estou deixando esquecido, perdido nessas lembranças, algo que, em verdade, é a razão dessa historia.
Seu Carlos, homem experiente (trabalhava, havia muitos anos, nos escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana, na Praça Júlio Prestes, em frente à Avenida Duque de Caxias, no Bom Retiro.) Ao comprar os fogos para a festa, sabendo que seus filhos e todos seus sobrinhos eram crianças com, no máximo, dez anos, resolveu prevenir acidentes comprando somente os fogos sem bombas, considerados inofensivos.
Havia rodinhas, estrelinhas, biribas ou estalos de salão, aviãozinho, muitos foguetes e busca-pés, todos sem a bomba.
A munição foi distribuída para todos os que estavam presentes, para serem soltas na hora de erguer o mastro e soltar os balões.
Eu peguei minha parte, um monte de biribinha, estrelinhas e uns 20 busca-pés; peguei os meus estalos, enfiei no bolso da minha calça ainda curta, peguei os busca-pés e, para ficar com as mãos livres, os coloquei com suas varetas enfiadas na alça de minha calça.
Não deu outra, no momento que eu fui soltar meu primeiro busca-pé, uma faísca pulou nos demais e, de repente, todos os outros pegaram fogo ao mesmo tempo. Resultado o povo todo da festa partiu para cima de mim, para apagar o fogo; e eu correndo pra todo lado, tentando me livrar dos busca-pés preso na alça de minha calça. No final, fiquei com boa parte de minha calça e camisa novinha queimadas
.
Não fosse a providência daquele vizinho amigo eu, com certeza, ficaria de barriga aberta e com meu intestino exposto.
Se aqueles busca-pés, acesos ao mesmo tempo por acidente, estivessem todos com bombas, hoje eu seria apenas um retrato naqueles santinhos impressos e gentilmente oferecidos em missas de sétimo dia, aos parentes e amigos. E, é claro com o passar do tempo (pois ninguém guarda essas tranqueiras para sempre), Há muito eu estaria perdido em algum lixão, ou então já reciclado de volta ao lixo jogado.

Por arthur miranda (tutu)

6 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Tutu, embora assustador, teu texto está impagável. O perigo sempre rondou os fogos de artifício.
Você deve ter ficado em estado deplorável.
Quase um "tutu joanino"....

Luiz Saidenberg disse...

Arthur, isso de fogos sempre foi mesmo um perigo. Cada fagulha desperta outras e quando vemos a desgraça está feita.Muito bem narrado, e vc ainda teve muita sorte. Quase vira aqueles duelos nordestinos de fogos nos calcanhares, ou as festas mexicanas com bolas de fogo para todo lado...com o pessoal tb todo de fogo, mucho loco, haja tequila e mescal !

Zeca disse...

Eita, Tutu!
Belas memórias estas tuas! Me lembraram das minhas próprias festas juninas, onde eu sempre me diverti muito com todos esses fogos mais "inocentes" como dizia minha saudosa avó. Nelas havia fogos mais perigosos, mas os adultos não permitiam a aproximação da criançada e, na hora de soltá-los, eles faziam o maior terrorismo em nossas cabeças. O medo só dava lugar ao encantamento quando os fogos explodiam no ar, transformando-se em coloridas chuvas de estrelas.
Abração.

Modesto disse...

Arthur, vc não vai acreditar, lendo sua maravilhosa história comecei a lembrar de um fato ocorrido com amigos de infância quando chegou a parte do acidente sofrido por vc. Quase que te perguntei se seu nome não era de fantazia e que seu verdadeiro nome seria Vicente Dragone. Com esse menino, (na época, claro) ocorreu exatamente o mesmo. Só que ele se queimou feio, foi socorrido, levaram pro hospital. Hoje vejo só a irmã dele, presta serviço nas festas de São Vito onde vou todos os anos. Ela diz que ele se mudou pra Limeira e esta riquíssimo plantando e comercializando laranja. Parabéns pelo texto, Tutu.

Soninha disse...

Olá, Arthur!

Nossa...seu texto fez-me lembrar das diversas festas juninas que aconteciam lá em casa, no nosso tempi de criança.
Meu pai adorava fazer uma enorme fogueira e minha mãe e avó faziam os quitutes típicos. A família e a parentada reuniam-se e era aquela festa.
Tinha fogos, infelizmente, mas, para as crianças somente as estrelinhas, que eram aqueles fósforos coloridos...porém, um adulto tinha que estar perto para acender.
Certa vez, meu padrinho acendeu para eu segurar o fósforo...acho que estava muito perto de meu rosto e aconteceu do meu cabelo pegar fogo...as pontinhas da frente apenas...mas, foi um sustão e choradeira...meu padrinho me socorreu e me pegou no colo, para me consolar.
Como você disse, melhor prevenir, com certeza.
Valeu, Arthur!
Obrigada.
Muita paz!

Bernadete disse...

Nossa Arthur, que situação hein!
Bricar com fogos sempre foi um perigo para as crianças,mas nós adorávamos. Só você mesmo, usando sua veia cômica, para nos relatar esse fato assustador com muito humor.
Um abraço