terça-feira, 21 de setembro de 2010

Uma noite no Avenida Danças

foto acima: festa de lançamento do disco-manifesto no Avenida Danças, em São Paulo, 12 de agosto de 1968 à frente da orquestra da casa, Gal, Nara, Rogério Duprat (de costas), Caetano, Gil e os Mutantes na platéia, os jornalistas Alberto Helena Jr. (de óculos) e Chico de Assis.
foto abaixo: Maestro Tobias Troisi

Noite de 23 de setembro de 1.954.
Na esquina da Av. Rio Branco com a Rua Aurora, ficava o "Avenida Danças", famoso "Taxi-Dancing" daquela época.
Edgar, João Roberto e eu, resolvemos entrar para ouvir um pouco de música, pois, naquela noite, se comemorava o início da primavera e as damas se apresentavam todas com vestido cor de rosa. Faltavam poucos minutos para as 22 horas e o ambiente ainda estava semi-deserto. Conseguimos uma mesa bem ao lado das cadeiras onde as meninas ficavam sentadas, esperando os dançarinos; aos poucos o salão foi sendo ocupado pelos habitués; o conjunto dirigido pelo maestro Tobias Troisi que dava início ao baile. Geralmente, as primeiras músicas eram suaves (um fox, de preferência) e de algumas ainda me lembro:

O crooner dizia:

Não sei, que estranha magia

Teu corpo irradia e que me deixa louco assim, mulher...

Em seguida outro número:

Rosa de maio, neste poema
Tu és o tema, a inspiração
Rosa de maio, por qualquer preço
Não te ofereço meu coração

Praticamente, ninguém queria ser o primeiro a sair dançando com a pista ainda vazia. Assim, alguns funcionários da casa tiravam as bailarinas e saíam dançando para incentivar aos demais frequentadores e, aos poucos, o salão já apresentava um bom número de casais e o crooner continuava no fox:

Meu amor, veja bem o que tu vais fazer,
Um amor sincero igual ao meu
Hoje não se encontra mais...

Em seguida mais um número:

Maria Helena lembra o tempo que passou,
Maria Helena o meu amor não se acabou
Das flores que eu guardei uma secou
Maria Helena és a verbena que murchou...

E a seleção se encerrava assim:

Mas se nunca mais voltares,
Para aliviar os meus pesares,
Guardarei teu vulto então
Sempre no meu coração...

A música não parava... Em seguida, uma seleção de boleros, de alguns ainda me lembro:

Pintor nascido em mi tierra
Con el pincel estranjero
Porque al pintar em tus quadros

Te olvidaste de los negros...

e proseguia a seleção com os sucessos mexicanos da época:

La mujer que al amor no se assoma
No merece llamar-se mujer
Es qual flôr que no expande su aroma
Es un leno que no sabe arder

e se encerrava geralmente assim:

En el camino verde,
Camino verde que vá à la ermida
Desde que tú te fuiste
Lloran de pena las margaridas

E foi exatamente nessa noite que eu fiquei conhecendo a dançarina Maria Helena; gastei, praticamente, um cartão com ela, pois a morena era de fato muito bonita, olhos negros, lábios carnudos e sabia ser provocante quando dançava, tivemos até um curto "caso" mas este é um assunto para a próxima matéria.

Por Leonello Tesser (Nelinho)

10 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Belos tempos, Nelinho, de uma São Paulo extinta. Ainda bem que muito viva em recordações como as suas, inclusive em sua fabulosa memória para com as damas do passado... certa vez, um amigo perguntou-me de uma ex-caso e colega de firma minha, muito bonita. Dise que não lembrava o nome, e ele- mas que ingratidão!...Abraços.

Luiz Saidenberg disse...

Desculpem...é disSE. DisSe! Isto é o que dá ter fugido da escola de datilografia Underwood, aos dezessete anos!

Laruccia disse...

Aí, Nelinho, recordando "... el viejo tienpo que yoro e que nunca volvera...." Avenida Danças sempre fornece boas recordações, não é Nelinho? e vc aproveitou bem. Por isso hoje vc tem uma vida saudável, sem ressentimentos e lamúrias, próprias de idosos que não aproveitaram bem a juventude. Parabéns Tesser, felicidades e boa viagem.

Zeca disse...

Muito bom, Nelinho!
Gostosas lembranças que hoje aquecem os corações. Eu ainda lembro do Avenida Danças, que nunca frequentei pois não era muito de dançar. Naquela época, no auge da juventude, eu só queria saber de ie-ie-ie. Mas lendo as letras deixadas aqui por você, reconheço algumas músicas e me vêm à memória até algumas melodias. Agora vamos aguardar a história da Maria Helena.
Abração.

Soninha disse...

Olá, Nelinho!

Que boas lembranças!
Assim como Miguel, você também era dos bailes, né?!
Sem querer dizer que sou "novinha" (rss), mas, não é de meu tempo este local. E, também, não frequentei muitos bailes, pois meu pai era repressor quanto a isso.
Mas, lendo suas memórias, vemos que eram bons estes tempos, tendo as orquestras ao vivo nos bailes e dançando muito todos os ritmos.
Muito legal!
Quero desejar-lhe boa viagem à Europa. Divirtam-se bastante.
Breve regresso.
Muita paz!

Miguel S. G. Chammas disse...

Nelinho velho bruxo!
Sempre a atiçar minhas lembranças. Li este texto com as pernas fremitando com vontade de sair dançando pelos salões.
Vc não vai se lembrar mas euzinho aqui, que trabalhei no Avenda como bailarino e picotador, era tambem um dos "funcionários da casa" que tiravam as meninas no inicio da função, para quebrar o gelo dos frequentadores.
Tempos bons aqueles meu amigo!
Mas não pretendo fazer deste comentário um outro texto.
Digo apenas que valeu!

MLopomo disse...

Fui, no Avenida Danças muitas vezes, era junto ao Chuá, as casas de dança onde você pagava por minuto para dançar. Eu dançava quando muito 10 minutos, com apontamento marcado para um encontro aos “Lençois da Cama, para que dançar mais uma musica?

Bernadete disse...

Nelinho, nunca pude conhecer um lugar desses. Meus bailinhos eram somente os de pró-formatura, nas casas ou quintais dos formandos. Tudo sob a supervisão dos pais. Mas pelo seu texto e depoimentos de outros colegas, vejo que deve ter sido um belo tempo para vocês.
Um abraço

MLopomo disse...

Me lembrei de uma passagem do Avenida Danças já que era um freguesão. La pela metade dos anos 1960 no tempo que havia aquela ronda de policia a cata de presos, baixou a Rota, o chefe da ronda foi ao palco tirou o microfone das mãos do Crooner, e mando o recado. Senhoras e senhores a Rota chegou e o Baile acabou. Ouviu –se uns barulhinhos já que o silencio era total, bagulhos eram jogados para baixo das mesas. todos foram intimados a fica de frente a parede e com as mãos encostadas nela. Nos bolsos da turma nada encontrado, mas a catança por debaixo da mesa encheu um saco de estopa daqueles de 60 kilos. Eram todo tipo de armas desde canivetes a maioria, facas e revolveres. “Tubos de bola” Papelotes de maconha e cocaína tinha aos montes. Um picotador do Avenida não quis encostar na parede quando ia levar uma bolachada pelas fussas, disse: meu sou funcionário. O policial baixou a mão na hora. Ninguem foi preso, mas o baile não teve seqüencia. Havia muita bronca porque dali não saia propina, a casa andava sempre na lei. Tinha alvará para fazer o que fazia.

Bazoli disse...

Meu nome é Roberto e frequentei muito a Boate Imperador no Bras e não acho nenhuma citação na Internet,alguem tem informações aonde encontro