segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2013 bate à sua porta

Para o ano que está chegando, desejo para vocês, muita poesia, boa bebida e excelente comida. Agradáveis passeios e encontros alegres. Que seus parentes os adorem e que ninguém faça feio na hora agá.
 
Que no próximo ano, vocês possam mergulhar de cabeça em novos projetos e se elevar com boas idéias e reconhecimentos. Mas se nada der certo, que tenham serenidade e energia para “sacudir a poeira e dar a volta por cima”, como na canção.
Que todos possam arejar a mente com os acordes das melodias, em cada manhã, renascidos.
 
Que a música seja o princípio universal da bondade.
 
Que aquele que diz que não gosta de ler, descubra um mundo de aventuras, diversão e companheirismo nos livros.
 
Que constatem que a rotina com emoção é paixão, nunca monotonia. Que pratiquem a tolerância tão rara em dias de trânsito e alagamentos.
 
Que percebam que, antes de dar a mão à solidão, podem dar a mão ao teclado e assim alcançar um amigo do outro lado.
 
Que entendam de uma vez por todas que, “compaixão”, é compartilhar a paixão. 2013 bate à sua porta. Que vocês o recebam bem e cuidem para que ele se torne excelente ano!
 
Por Suely Schraner

sábado, 29 de dezembro de 2012

Fim de calendário

Dezembro é fim de calendário. Última folhinha solitária e resistente.
É um mês estranho, que dá saudade do que passou, medo, ansiedade do que está por vir. Ainda que as perspectivas sejam boas, aparece um friozinho na barriga que indica: mais um ano inteirinho vem aí.
Dezembro é um pouco nostálgico. Ele é como um filminho sendo retrocedido na memória da gente. O que se perdeu, aproveitou, viveu.
Dezembro é uma pausa no meio de 11 meses. É reflexão para desfazer, corrigir, recomeçar, repensar e, há quem diga, é tornar-se mais solidário.
São 31 dias que temos para fazer uma auto-análise e recobrar as forças.
Janeiro está logo ali. “O tempo não para”.
 
 
Por Márcia Castro

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O papel e os Incas

Antes que o mundo se acabe vou contar uma história. História antiga, da minha infância, quando não havia o “politicamente correto” e ecologia era uma coisa que só o Tom Jobim sabia explicar.
Naquela época sem internet, o Google para encontrar prestadores de serviço e o Facebook para achar amigos desaparecidos eram respectivamente as Páginas Amarelas e as Listas Telefônicas.
As Páginas Amarelas – onde meu pai e muitos outros conhecidos trabalharam – eram repletas de anúncios de qualquer coisa que se pudesse imaginar: açougues, vidraçarias, chaveiros, costureiras. Nas Listas Telefônicas constavam todos os assinantes de telefonia fixa, item raro e caro até os anos 1990. Ambas eram distribuídas no começo do ano por entregadores ávidos por uma caixinha.
Antonio Moreira da Silva era o nome, ou um dos nomes, com o maior número de homônimos naqueles imensos blocos de papel jornal. Um daqueles caras era meu avô, o Seu Moreira, o ser mais especial que conheci. Um nome comum para um homem incomum, ímpar na retidão, exclusivo no caráter, único na sinceridade.
O Seu Moreira foi zelador de uns prédios comerciais no centro de São Paulo por mais de trinta anos. O apartamento dele, o único residencial naquele espigão de escritórios, ficava no 14º da Rua Sete de Abril, vizinho da antiga sede dos Diários Associados, onde Chateau foi velado entre um Ticiano e um Renoir.
Passei incontáveis tardes e noites no terraço daquele arranha céu (sim, para um garoto na década de 1970 as estrelas ficavam a centímetros das minhas mãos estendidas), olhando as pessoas lá embaixo como formiguinhas, vendo o sol partindo e as luzes da cidade ocupando seu vazio, exercitando meu pré voyeurismo com binóculos que ganhara num Natal, sonhando com um futuro diferente...
Era comum e essencial para que o mundo continuasse funcionando, que no último dia útil do mês, após o almoço, fossem atirados pelas janelas dos escritórios toneladas de papel picado. Valia tudo: jornal em tiras, serpentina, aparas, aquelas bolinhas dos perfuradores e inclusive retalhos das Listas Telefônicas e Páginas Amarelas que seriam substituídas em alguns dias.
Nunca perdi uma festa daquela. Ia dormir na casa dos meus avós na véspera e, logo cedo, começava minha jornada de picar papéis até que doessem as mãos. Lá pelas tantas, as lentes do meu brinquedo traziam bem pertinho a intimidade das festas nos escritórios periféricos. Trocas de presentes, danças sem música, rolhas saltando das garrafas, abraços e sorrisos.
Subitamente, estourava um rojão anunciando que findara o expediente em alguma firma mais moderninha. Pronto. Era o sinal que todos aguardavam para ocuparem as janelas e defenestrarem todo aquele papel colorido, para o desespero dos garis.
Era um espetáculo lindo, filmado para os telejornais, assunto dos matutinos do dia seguinte que, já com mania de estatísticas, calculavam a tonelagem de papel e o tempo gasto na limpeza.
Mesmo impensável nos dias de hoje, tenho saudades daqueles tempos. Saudades daquele terraço, saudades da minha avó, saudades do Seu Moreira, saudades daquele menino picando papéis.
Hoje seria um espetáculo grotesco, quem sabe o anúncio do fim dos tempos. Mas acho que os Incas não conheciam o papel.
 
 
Por Marcello Pizo

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

E dá-lhe o Natal de novo

 
O natal está aí de novo,
Gritando bem alto ao povo,
Pedindo pra gente gastar
E lá vai mais um presente
Às vezes de alguém que te ama
Mas só te encontra na cama
Na hora de ir se deitar.
E vem aquele vizinho
Que nunca te olha na cara
Quase que meio na marra
Com aquela cara de pau
Parando a gente na esquina,
Pra desejar bom natal.
O bom natal que eu gosto
É o natal da amizade
Natal da cordialidade,
Onde toda a fraternidade
E a famosa caridade,
Tão comum só no natal
Começa no mês de janeiro
Atravessa o ano inteiro
E prossegue por toda a vida
Até nosso último natal.
Do contrário estaremos imitando
Aqueles políticos matreiros
Que se escondem o ano inteiro
Ganhando sem fazer nada
Achando que é o tal.
E que só pensam  no povo
Em ano eleitoral.
Essa festa eu insisto
No passado já foi do cristo.
E a cada ano que passa
Esta mais para o papai Noel.
Todos nós sabemos disso
Mas não conseguimos mudar
Por que a mídia insistente
Não deixa a gente pensar,
Que nessa data bonita
Tem muita gente contente
Pensando mais nos presentes
Do que no aniversariante.
Gosto demais do natal.
Mesmo na terceira idade
Gosto das luzes das cores
Que enfeitam as nossas cidades
Depois o natal vai embora
Papai Noel vai também
O pobre volta pra fome,
Pois tem muita gente que pensa
Talvez nem seja por mal.
Que só se faz caridade
No dia do santo natal.
Queridos parentes e amigos.
Junto a esse meu texto falando sobre o natal
Segue também os meus votos, de um santo e feliz natal,
Com saúde, e muitas alegrias, paz e também harmonia,
No trabalho e no lar.
Bom natal para todos vocês,
Se você acha que o natal, é mesmo uma festa sadia.
Viva esse seu natal, todas as horas dos dias.
 
Arthur Miranda (tutu)

sábado, 22 de dezembro de 2012

Parabéns, Márcia Saidenberg!


Os sentimentos do Natal

O Natal é uma festa esperada por todos, até os menos favorecidos criam virtualmente na sua inocente imaginação a família reunida, muitos brinquedos, uma ceia farta e a esperança de que um dia tudo isso possa virar realidade.
Nesta data tão importante, a sensibilidade se aproxima no grau mais elevado da alma das pessoas, tudo fica mais fraterno e paira no ar uma sensação de mais amor. Este é o momento ideal para fazermos o balanço de todas as coisas e avaliar o quanto evoluímos.
Muitos de nós só têm olhar para as rachaduras que aparecem com o sentimento de alguma perda, deixando que as mágoas, as dores e tristezas da vida tomem conta e calem as alegrias dos corações. Talvez, ao olhar este acontecimento de outra forma, podemos encontrar ganhos importantes como: novas experiências, os ensinamentos que ficaram, a reaproximação de pessoas distantes, a fé restabelecida, portas que se abrem, a boas lembranças que serão eternas, os desafios e a coragem de reescrever um novo capítulo da sua historia. Já passei por momentos semelhantes.
Quando se é criança o natal é um período de festa e de alegrias, mas com o desenrolar da vida acaba mesclando este sentimento que fica equilibrado com tristezas e saudades. Este sentimento também já fez parte de minha vida.
Hoje consigo ver na alegria contagiante das crianças o sentimento mais puro e mágico que encantam os natais. Este é o melhor presente e a homenagem mais sincera que o Menino Jesus espera, gosta e merece receber. Aprendi que, assim como nas crianças, ele também quer ver o sorriso e a alegria estampado em todos nós pelo reconhecimento dos presentes que a vida nos trouxe, muitas vezes despercebidos, e pelo futuro que ainda vamos escrever.
Acredito na dádiva da vida que recebemos de Deus, portanto temos a responsabilidade de nos cuidarmos para sempre fazermos felizes todos que continuam aqui conosco, que nos amam e nos querem bem.
Que no balanço geral e sensível do nosso coração tenha espaço para o agradecimento, o perdão e a renovação da esperança. Que nesta noite de Natal toda humanidade consiga relembrar que veio ao mundo alguém muito especial trazendo consigo amor, compreensão, fraternidade, caridade e tantos outros sentimentos nobres.
Meu desejo é que todos possam governar sua alma alicerçada nestes sentimentos. Eu, você, nossa cidade de São Paulo, nosso país e nosso mundo, que passa por momentos tão conturbados, precisam disso.
Muita paz e bem para todos na noite mais linda do ano.
 
Por Margarida Peramezza

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Uma mulher dinâmica - 2ª parte

 
 
imagem: Frigorífico Wilson com o pasto dos animais - Osasco
Começou nossa acomodação no Parque Continental. Depois de 37 anos de Braz, saindo da Rua do Gasômetro em janeiro\fevereiro de 1969, a alegria e felicidade da minha mulher era CONTAGIANTE.
A iniciativa de comprar a casa, tão longe do Braz, foi dela. Eu, cético, olhava meio desconfiado os anúncios do BNH, oferecendo casas sem entrada (financeira e não de madeira) e prestações corrigidas, cem parcelas e pra 15 anos... Queria comprar em outro bairro, mas a grana era curta. Fomos ver e desanimei. Na área enorme do antigo Frigorífico Wilson que tinha ali, pecuária e matadouro, adquirido pelo Grupo Rio, formado por cariocas, (todos descendentes ou parentes de militares) que já vinham amparados pela “elite” do poder constituído. O complexo levou o nome de “Parque Continental” e a grande área, tem uma parte (menor) secionada por um pequeno córrego, onde se encontra a divisa de São Paulo e Osasco. Por isso, quando se menciona Parque Continental, deve-se acrescentar de Osasco ou de São Paulo.
Com a primeira parcela paga e as prestações corrigidas, de 3 em 3 meses, de 1967 até 1969, foi o tempo que o Grupo Rio levou pra entregar as casas, minha e de vários compradores. Sobradinhos de 6x25, dois dormitórios, sala, cozinha, edícula e quintal. Dois anos pra construir centenas de casas, as menores eram do tipo da minha, (mais baratas, evidentemente).
Não fiquei muito tempo nessa, mas, fatos significativos ocorreram nesta casa, reformada, mais um dormitório e fachada que ficou linda, com pedras brancas e entrada pra um carro só.
Sempre trabalhando bastante com meu fusca 1967. Passei o carro pra Myrtes, (depois eu conto como ela tirou a carta), comprei um Opala dourado, 1970, “zerinho”, era o rei da cocada. Minha querida mulher, ficou com o fusca.

Por Modesto Laruccia

domingo, 16 de dezembro de 2012

Memórias tridimensionais




imagem: 1º prédio do Cine Rapública - 1921
Outro dia, em virtude das férias escolares fui com minha esposa acompanhar as netas em uma sessão cinematográfica.
As opiniões sobre qual filme seria assistido estavam divididas. As netas mais velhas, ou seja, acima de 14 anos, estavam querendo assistir um filme nacional cuja censura era para maiores de 14 anos, a menor, por estar com 12 anos, não teria condições, embora quisesse, de assistir ao referido filme. Por consequência, caberia a mim acompanhar a neta mais nova e assistir um desenho animado.
Não achei justa a referida divisão. Usando de minha persuasão, convenci a todos que o ideal seria irmos assistir o desenho animado, no caso, “A Era do Gelo 4” em 3ª Dimensão.
Devidamente convencidos, rumamos para o cinema, adquirimos os ingressos, locamos os óculos especiais, compramos uma grande quantidade de pipocas e copos de refrigerante e nos preparamos para a sessão.
Enquanto esperávamos, eu, de posse dos óculos especiais, me pus a verificá-los. Era de uma estrutura plástica rígida e com lentes especiais. Estava fazendo essas percepções quando uma lembrança se apossou da minha mente.
Lembrei-me, então, que muitos anos atrás, quando eu tinha apenas 13 aninhos, assisti a primeira apresentação de um filme em 3ª Dimensão.
Era, então, uma novidade cinematográfica em São Paulo.
O primeiro Cine República, havia tido suas atividades encerradas e o prédio em que ele estava instalado por muitos anos fora ocupado por uma repartição da Prefeitura paulistana. Em 1952, Paulo de Sá Pinto (Empresa Cinematográfica Paulista) adquiriu o prédio em questão e depois de reformá-lo inaugurou o novo Cine Republica com capacidade para 2254 lugares. O Filme de estréia da nova sala, conforme os anais históricos o filme de inauguração foi “A vida Secreta de Nora”, estrelado por Loreta Young e Joseph Cotten.
Paulo Sá, nessa sala de cinema, primou em lançar grandes novidades. Entre elas, em 1953 lançou sessões em 3ª. Dimensão.
Essa novidade foi a coqueluche de Sampa por muitos meses. As filas para assistirem ao filme “Veio do Espaço” eram enormes e obrigaram o lançamento de outra novidade, as sessões à meia noite.
Os óculos que deveriam ser usados pelos espectadores eram feitos de cartolina e tinham lentes coloridas. Uma de cor vermelha e outra de cor azul. Esses utensílios eram usados durante o transcorrer das sessões e, ao final na saída, devolvidos ao lanterninha para serem higienizados e reutilizados por outros espectadores.
Tudo isso veio à minha memória em frações de segundos e, depois, voltaram para o limbo das minhas lembranças.
Hoje, pensei nessa ocorrência e resolvi relatá-la para registrar que São Paulo, há 63 anos, já teve sessões de cinema em 3ª Dimensão, que hoje faz tanto sucesso entre a garotada.
Assim sendo, mais uma vez fica provado que o passado se faz novamente presente e que nada se cria tudo se copia.

Por Miguel Chammas

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Na intimidade de minha realidade

A cidade onde hoje eu vivo
depois que deixei São Paulo,
não se parece comigo
e nem me agrada também.
Não tem shopping, não tem nada
nem congestionamento ela tem.
Não tem nem mesmo a metade
do que a minha São Paulo tem.
nenhum ponto turístico,
Nem mesmo Arranha Céu,
nenhuma praça bonita,
nem muitas oportunidades
para um jovem recém formado,
seja médico ou advogado,
ou até mesmo professor.
Falta aqui diversão,
boates, bons restaurantes,
Hotéis de boa qualidade
lazer para a terceira idade.
Hospitais, com moderna medicina,
clubes com boas piscinas.
Faltam grandes avenidas,
pistas para bicicletas,
mas eu nunca jamais reclamo,
por que nessa pequena cidade
do nosso interior paulista
no Vale do Paraíba.
Vive esta mulher que eu amo,
e é tudo que eu tenho na vida
e se não estou enganado,
me ama muito também.
 
Por Arthur Miranda (Tutu)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Uma mulher dinâmica - 1ª parte

Em 1969, quando sai do Braz para morar em minha casa, primeira propriedade adquirida pelo antigo BNH, Banco Nacional de Habitação, de triste memória. A única obra de moderna arquitetura que o BNH construiu foi no Rio de Janeiro, um edifício com todas as mordomias que se possa imaginar aos seus funcionários, desde piscina, ginásio poliesportivo, teatro, escola de balé, churrasqueira para os fins de semana, carros de última série e tudo a custa das arrecadações que o governo fazia por conta dos descontos nas folhas de pagamento dos trabalhadores do Brasil inteiro... Espera um pouco, não é sobre isso que quero falar agora.
Tive minha casa à custa desse empreendimento, então não deveria me queixar. A forma de pagamento das prestações para Continental é que eram umas monstruosidades. A correção monetária, na época, era de meter medo. As prestações eram corrigidas trimestralmente e muitos dos “adquirentes” não aguentaram. Pouca gente sabe que essa aberração foi criada pela famosa revolução de 1964.
Naquele tempo nasceu nossa quinta filha, Mylene. Com cinco filhos a Myrtes não titubeou, arregaçou as mangas e disse: “Mo, você não vai sozinho poder enfrentar estas prestações, vou te ajudar”. Imediatamente, com 36 anos, cinco filhos, o mais velho Maurício com 15 anos, observou as dificuldades de todos os casais que tinham filhos em idade escolar, escolas distantes dos bairros em que moravam antes de vir para o parque. Imediatamente se propôs:
- Vou tirar carta de motorista, vamos entrar em uma prestação e comprar uma "kombi" para levar as crianças nas escolas da periferia. Pode deixar que as prestações vão ser pagas e ainda vamos ganhar mais alguns para nossa poupança.
Dito e feito, compramos o veículo e ela inaugurou transporte escolar aceito por todos os moradores. Cuidava da casa, lavava, cozinhava, cuidava dos filhos, compra de roupas, médicas quando precisava. Sobrava tempo para passeios, viagens, acampamentos (fui sócio por muitos anos do CCB) que fazíamos com a Kombi.
Eu, vendedor, saia de manhã e só voltava à noite; a Marginal só existia parcialmente (os viadutos do "Cebolão", encontro do Tietê com o rio Pinheiros ainda não existia). A felicidade mora conosco desde então. Prometo a vocês contar algumas situações que ocorreram nestes 55 anos de casados, não quero cansar com leituras de longos textos. Apenas deixar um pouco para traz, o Braz (nunca esquecê-lo), e me ater ao Parque Continental e mostrar a todos a valorosa mulher que é a Myrtes. Na próxima narrativa vou contar como o... não, não, esperem e verão.

 
Por Modesto Laruccia

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Eu vou matar a Fatinha


Fechando o ciclo “cabeludo”, cuja inspiração surrupiei carinhosamente do texto do Natale, vou contar aqui quando, como e porque eu quis matar a Fatinha.
Passando pelas várias fases em torno dos meus cabelos, cheguei aos cinquenta anos ainda ostentando uma bela cabeleira grisalha, da qual me orgulhava bastante. Mas, como sempre existe um “mas”, havia uma pedra no meu caminho. Ou melhor: no meu caminho havia uma cabeleireira. Melhor ainda: no meu caminho havia, atravessada, uma pedra que era cabeleireira e se chamava Fatinha.
Como éramos bons amigos, acabei traindo o meu velho amigo Luis com ela. Não se assustem, não! O Luis não era o marido da Fatinha! E tampouco meu, cruzcredo! Ele era o antigo barbeiro que, durante muitos anos cortara os meus cabelos. Seu salão era dos antigos, herdado do pai que o recebeu do avô. Havia três cadeiras de barbeiro, daquelas que sobem e descem através de um pedal. Que se reclinam e, no encosto, existe um suporte para a cabeça. E onde, quando se corta o cabelo de um menino, coloca-se sobre os braços, uma tábua para o garoto sentar e ficar, assim, um pouco mais alto. O que faltava mesmo era encontrar barbeiros para ocuparem as outras duas cadeiras. Atualmente eles querem ser chamados de cabeleireiros e, alguns, mais ousados, de hair stylist. Barbeiro mesmo, só o Luis e, hoje, o Tião – o barbeiro sessentão que corta os meus cabelos.
 
Voltando à Fatinha!
Ela insistiu, fez charminho, muxoxo, jogou seus loiríssimos cabelos prá lá e prá cá e até chantagem emocional. Por fim conseguiu convencer-me a deixá-la cortar os meus cabelos no seu salão. No princípio eu não me sentia muito confortável. Sabe como é: cidadezinha do interior, todo mundo se conhece, a mulherada reunida, falando sobre seus assuntos e eu lá; um galalau cinquentão, atrapalhando a ordem natural. Mas o que a gente não faz para agradar essas maravilhas da natureza? Tudo o que elas quiserem, claro!
Depois ela começou a implicar com o tom agrisalhado do meu cabelo. E mais uma vez, tanto fez que, um dia - oh! Sofrimento! – eu cedi. E deixei que ela passasse uma mistura preparada carinhosamente por ela mesma, que devolveria aos meus cabelos o maravilhoso tom alourado da minha juventude. Mas quando ela, orgulhosamente me virou para o espelho... que baita susto eu levei! O alourado da minha juventude havia se transformado mais num tom acobreado... mais de acordo com uma comédia do que com aquele senhor responsável que se olhava indignado.
Mas a danada da pedra - ops! - da Fatinha, tinha uma lábia daquelas! E tanto falou que me convenceu de que a cor não apareceria na hora. Depois de algumas lavagens, o tom iria surgindo. E com as demais tinturas ele se consolidaria. E como o mal já estava feito e ela falava mais do que duas maritacas brigando, acabei me deixando convencer de que a paciência era mesmo a alma do negócio. No caso, dos meus cabelos. E assim fui deixando os dias passarem, evitando espelhos de todas as formas, como se fosse um vampiro fugindo da cruz. Mas nas horas em que escovava os dentes não tinha jeito! Lá vinha sofrimento com os cabelos de um bufão na minha cabeça.
Esse sofrimento durou duas semanas. Até que, desesperado, invadi o salão e intimei: “Fatinha, é hoje que você vai passar a máquina neste cabelo e acabar com essa palhaçada!”
A moça se sentiu ofendida em seus brios mais íntimos e me colocou de lá para fora, mais com as vociferações em cascata do que com sua recusa em cortar-me os cabelos. Saí de lá com o rabo entre as pernas e fui direto para o salão do Luis que, recompensado pela traição sofrida, passou a máquina naqueles fios de cobre com o maior prazer. E eu, então, passei a desconhecer mais uma vez o meu reflexo no espelho. Desta vez pela absoluta falta de cabelos. Ou então, pela falta dos cabelos acobreados que me atazanaram durante quinze dias.
Saí dali com a cabeça mais parecendo uma bola de bilhar do que qualquer coisa. E fui direto para o salão da Pedrinha – ops! Desculpe! – da Fatinha. Claro que não tive coragem de entrar, mas fiquei passeando pela calçada, indo e vindo, até que ela visse o estrago que me desfigurava. E não é que a danada caiu na gargalhada? Ficou parada na porta do salão, com as manicures atrás e, por último, as freguesas. Com as duas mãos na cintura, ela ria (e as outras também) como se estivessem assistindo a uma comédia estrelada pelo nosso amigo Tutu. E eu, cada vez mais enfezado, não ousei dizer nada. Apenas olhei-a com um olhar assassino e, virando-lhe as costas com a dignidade possível, saí dali batendo as solas dos sapatos, para nunca mais voltar.
E assim, ela livrou-se de ser friamente assassinada, eu me livrei de ir parar atrás das grades e acabei gostando tanto do formato da minha cabeça que, poucos anos depois, voltei a passar a máquina na cabeça toda. Só que agora passo a máquina quatro, que me deixa com mais ou menos um centímetro de cabelos belamente agrisalhados. Com todo o meu orgulho!
Por Zeca Paes Guedes

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A "maledetta" gripe asiática


imagem: vacinação contra gripe asiática em 1957

(Fim dos anos 50)
Noite. Adormeci na poltrona, assistindo a um episódio de “LASSIE”. Fui acordado por minha mãe que me dizia: “Vá dormir na cama”! No televisor, Lassie corria e latia. Sem me interessar pelo fim do episódio, levantei-me e fui para o meu quarto ouvindo a minha “nonna” dizer à minha mãe: “Com sono, a essa hora? Tem coisa errada com esse menino!”
Minha mãe respondeu. Achava que eu estivesse resfriado...
Manhãzinha de frio. Levantei-me mais a contragosto do que costume para ir à escola. Eu, normalmente um devorador, consegui comer apenas uma fatia de pão com manteiga e beber meia “tazza” (xícara) de café com leite.
O caminho da escola parecia alongar-se. Mais eu caminhava, mais a escola parecia distante. O corpo doía, a garganta ardia e a respiração ofegante dava-me um cansaço fora do comum. E que calor! Tirei o pulôver. Suava.
A primeira parte da aula foi uma agonia. Não conseguia prestar atenção ao que a professora dizia. A minha miopia acentuou-se mais e as letras no quadro negro pareciam dançar. Nos meus ouvidos um zumbido enlouquecedor. O meu corpo parecia estar pegando fogo... E que cansaço, meu Deus! De repente o calor que sentia começou a alternar-se com um frio excessivo.
Soa a campainha. Hora do recreio. Levantei-me da carteira e fui para o pátio, andando como se carregasse o mundo nas costas. Sentei na mureta para recuperar o fôlego. Pensei em comprar um refrigerante para matar a forte sede que eu sentia, mas a cantina parecia tão longe e o cheiro da sopa que era servida aos alunos e que sempre abria o meu apetite desta vez embrulhou-me o estômago. É. O melhor é ficar sentado e não fazer nada. Meu “nonno” sempre dizia que para certas situações, a inércia era o melhor remédio.
Fim do recreio. E lá vou eu de volta à classe a passos lentos. No corredor uma professora olha para mim e fica assustada. Aproxima-se e põe a mão na minha testa e diz: “Meu Deus, você está ardendo em febre!” Leva-me pela mão até a diretoria. Ouvido o “diagnóstico” da professora, a diretora avalia a minha situação.
Conclusão: Acompanhado de uma servente da escola cheguei à minha casa. A servente entregou o bilhete da diretora e foi embora. Entrei, fui direto para o meu quarto e desabei na minha cama, sem tirar o uniforme. Minha “mamma” e minha “nonna” foram até mim muito apreensivas. Despiram-me e me enfiaram num pijama de flanela.
Minha mãe, boa conhecedora do filho que tinha, começou a me metralhar no dialeto napolitano: “Que porcaria você andou comendo dessa vez? Não disse para você não abusar dos sorvetes? Mas não! Você nunca me ouve. É nisso que dá quando você me desobedece. Fica doente...” Minha “nonna” pediu que minha mãe se calasse: “Calada, Annamaria! De moleques eu entendo”. Matriarca cansada de guerra, mãe de vinte filhos (dois pares de gêmeos) valendo-se de sua autoridade e experiência, disfarçando a apreensão com um otimismo forçado, aproximou-se de mim. Disse-me com um sorriso nos lábios: “A vedé cos’accade cu té.” (Vejamos o que está acontecendo contigo). Examina que examina. Nada! Vovó “diagnosticou” apenas o óbvio: febre alta. Desistiu e pediu à minha mãe para ir buscar o farmacêutico, lá na Rua Bresser.
O farmacêutico entrou no quarto e começou o exame. Meteu a espátula na minha boca e examinou as minhas amídalas e garganta. Ficou um tanto apreensivo. Começaram as perguntas sobre os sintomas. Eu respondi. Ele, então, enfiou o termômetro debaixo do meu braço.
Nesse tempo de espera, minha “nonna” começou a palpitar sobre a medicação: Quem sabe, uma Cibalena, um Melhoral para baixar a febre. Talvez, um supositório... Eu então, levantei a cabeça, arregalei os olhos, e gritei a todo pulmão: “Nu cullo mio, nissu’mmetterà niente!” (No meu traseiro ninguém vai enfiar nada!) Rindo, o farmacêutico retirou e consultou o termômetro: quase 40 graus! Olhou para minha avó e disse: Pode chamar “u dottore” (o médico) para confirmar. O menino está com a Gripe Asiática!
O médico que atendia as famílias do quarteirão veio e confirmou o diagnóstico. E avisou que “a Gripe Asiática era uma epidemia. Portanto, contagiosa”. Enquanto falava, virou-me, abaixou a minha calça e aplicou a mais dolorosa injeção que jamais tomei na vida. Enquanto o líquido penetrava, eu fazia a “trilha sonora”: Gritos, choro e uma enxurrada de palavrões... O médico escreveu a receita, avaliou o tempo de repouso e foi embora.
Depois de quatro dias, eu já estava em pé. Fraco, “um bagaço” , mas em pé! Porém, como o médico me havia prescrito uma semana em repouso eu tive que ficar em meu quarto para evitar a recaída, ou contaminar os outros.
E a Gripe Asiática derrubou muita gente. As ruas ficaram praticamente desertas de crianças. Saia-se apenas, por necessidade. Em todo o mundo milhões de pessoas morreram por causa dessa gripe, ou porque ela agravou outros problemas de saúde.
Na minha casa a Asiática fez um estrago. Meu irmão foi o caso mais grave: durante dois dias delirou presa de uma febre de 40 graus, que não cedia. Ele era vigiado dia e noite, temendo-se uma convulsão. O terceiro a cair foi o “nonno”. Sentiu-se mal na rua e foi parar no Pronto-Socorro. Diagnosticado e medicado, voltou para casa para curtir a Gripe. Papai e mamãe, sem maiores problemas, passaram pelos incômodos e desconfortos da Gripe Asiática.
Tio Amedeo sentiu-se mal no trabalho. Seu corpo doía tanto que ele ficou travado. Chegou em casa carregado pelos colegas de trabalho. Assim que entrou e me viu, começou a me xingar e amaldiçoar por eu ter trazido a peste para dentro de casa. Prometeu-me, logo que se curasse, iria chutar o meu “rabo” até o fim do mundo.
Vovó foi a última a cair. Mesmo febril, com dores no corpo, insistia em arrastar-se pela casa a fazer o serviço. Foi preciso ameaçar amarrá-la na cama, interná-la na quarentena Santa Casa, se não se cuidasse. Rendeu-se.
Antes não tivesse se rendido! Vingava-se por estar presa ao leito impedida de cuidar dos afazeres da casa e de nós. E de seu leito de convalescente, não permitia que o dia-dia da casa fosse interrompido. Aos gritos, em dialeto napolitano, dava ordens. Exigia que lhe prestassem contas sobre tudo. Até a chegada da Asiática, nunca vira a “nonna” de cama. E, entre seus mandos e exigências nós íamos resistindo bravamente. Afinal era a “nonna”! Era a mulher que dirigia a nossa casa – nossas vidas - com experiência e sabedoria. E nós, nos sentíamos perdidos sem ela.
Assim como veio, a “maledetta” Gripe Asiática se foi, sem deixar marcas ou sequelas importantes. Não deixou saudades, mas deixou lembranças. Pelo menos para mim.
Zio Amedeu não chutou o meu traseiro até o fim do mundo. Assim que melhorou foi até a edícula, onde eu estava engraxando os sapatos. Agarrou-me por trás, levantou-me do chão e enfiou-me no tanque cheio de água, onde as roupas estavam de molho...


Por Wilson Natale