sábado, 3 de julho de 2010

Que Deus nos perdoe a peraltice

Época: meados dos anos 50;
Protagonistas: Zilando Ribeiro de Freitas, João Baptista da Costa Menezes, Monsenhor Bastos e Eu;
Locações: Rua Augusta, Rua da Consolação, Igreja de N. S. da Consolação, Rua Bento Freitas, Rua Rego Freitas, Rua Marques de Itu.
Eu residia na Rua Augusta, 291, o João Baptista (Juca) morava no quarteirão de cima, o número não me recordo, mas era do lado par na altura do numero 400.
Ele morava com os pais e irmãos, duas tias e o tio Monsenhor Bastos (todo são paulino deve lembrar-se da figura) em uma casa enorme que permitia, ainda, a locação de um ou dois quartos.
O Zilando, nessa altura dos acontecimentos, morava com a família na Rua Bento Freitas esquina da Rua Major Sertório, onde seu pai tinha instalado uma pensão (nela foi feita, inclusive,parte do filme Modelo 19, com Jardel Filho).
Na Rua Rego Freitas, esquina da Rua Marques de Itu, havia sido instalada uma sorveteria com sorvetes tipo italiano (coqueluche da época) e nós ficamos fãs da localidade.
Porém, nos faltava o principal para as visitas constantes que pretendíamos fazer. Faltava verba suficiente para matar nossa vontade gelada.
O que fazer? Qual seria a solução mais viável?
Reunidos os três, discutimos várias possibilidades e deliberamos por optar uma idéia que, na realidade, surgiu da adaptação de várias outras sugestões apresentadas. Iríamos fazer três listas de captação de contribuições em nome da Igreja de N. S. da Consolação, devidamente assinada pelo responsável, Monsenhor Bastos e arrecadar a verba que nos fazia falta.
Plano definido, pusemos mãos à obra, em folhas de papel almaço pautado, fizemos um preâmbulo mais ou menos assim:
“A igreja de N. S. da Consolação, através de seu responsável Monsenhor Francisco Bastos autoriza seus representantes, portadores desta lista, a arrecadarem contribuições para a compra de alimentos para pessoas carentes da comunidade”.
Eu, como chefe dos coroinhas, fui até a sacristia e consegui chancelar as folhas com o carimbo oficial da Igreja, o Juca, mais chegado ao tio, forjou uma assinatura parecida e, os três, devidamente documentados, saíram para executar a missão.
O plano estava dando os resultados esperados. Todas as tardes, reunidos, íamos à sorveteria e nos fartávamos de sorvetes.
Não sei como, um belo dia, o comentário sobre a lista chegou aos ouvidos do Monsenhor. Ele, mais ladino do que se podia esperar, iniciou investigação particular e, claro, chegou aos três pequenos meliantes.
Me lembro como se fosse hoje. Chegamos na Igreja totalmente despreocupados, entramos na sacristia e zapt!
Fomos aprisionados e suspensos pelas orelhas por um religioso totalmente fora de suas condições normais.
Informados que toda a história tinha sido descoberta, fomos obrigados a devolver as três listas que já estavam bastante sujas de tão usadas, levamos uma tremenda reprimenda e, ainda, como penitência, tivemos de rezar o terço a tarde inteira na presença de todos os fieis que chegavam à Igreja.
Monsenhor ainda teve a “audácia” de ir até a sorveteria e passar uma descompostura no proprietário, ameaçando-o, inclusive, com uma queixa policial.
Assim terminou nossa aventura e como prejuízo maior, a proibição do proprietário da sorveteria de nossa presença no recinto. Foi-se também nosso melhor quitute...
Que Deus nos perdoe a peraltice!

Por Miguel Chammas

16 comentários:

Soninha disse...

Olá!
Mentira tem perna curta, não é mesmo?!
Que coisa feiaoque vocês fizera, meninos!
Mas, a vida tem destas coisas e criança é peralta, em qualquer época da humanidade.
ME diverti muito lendo estas peraltices e o ralhar do padre.
Valeu!
Muita paz!

Berê disse...

Miguel, eu fico imaginando você, ajoelhado, rezando o terço! Fico só imaginando. Mas não consigo ver a cena.
Ótimo espaço para nós escritores do SPMC. Um abração.

Luiz Saidenberg disse...

Não podia dar outra, Miguel. No filme Radio Days, Woody Allen, retyratando-se pequeno , participou de uma coletapara ajudar estado de Israel. E gastou todo dinheiro em balas e no Anel do Vingador Mascarado.
Levou cascudo de tudo que é lado. Abraços.

Zeca disse...

Olá, Miguel!

Grande presente este novo blog, que já em seu início nos encanta com seus textos bem escritos e deliciosos.

O cronista do casamento deu, aos noivos, um maravilhoso presente, que eles poderão guardar pelo resto da vida para mostrar aos netos como foi o seu casamento. E a nós, leitores, nos transformou em convidados dessa festa.

E você, como sempre, nos aquece o coração contando magistralmente suas histórias e nos fazendo lembrar das nossas próprias peraltices infantís, tão inocentes se comparadas às de hoje! Essa sua história de levantar uma grana para se empanturrar de sorvete é simplesmente deliciosa!

Parabéns pelo novo espaço.

Anônimo disse...

Miguel, posso imaginar você de joelhos rezando o terço e pedindo perdão pelo pecado rs.rs.rs.parabéns pela história, abraços, Nelinho.

Leonello Tesser disse...

Miguel, meu comentário saíu como sendo um anônimo, devo estar cometendo algum êrro, me perdoe, abraços, Nelinho.

tutu disse...

Miguel por causa de um Gelato vocês entraram em fria. Parabéns pela historia e pelo Blog, só que graças aos meus altos conhecimentos tecnológicos ainda não sei como postar historias no mesmo. rsrsrs

Marcia disse...

Miguel, peraltices de criança, para ficar na memória sempre. Adorei sua estreia no blog. Parabéns a você e a Sonia pela iniciativa. Abraços.

Marcos Falcon disse...

Miguel este puxão de orelhas deixou marcas registradas até hoje.
Abraços
Falcon

MLopomo disse...

Quem não fez peraltices como esta?
O Miguem devia recolher dinheiro com aquele coador vermelho, para resarcir os prejudicados das doações."Porque quem recolher dinheiropara Deus, empresta aos seres humanos.

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Memórias de Sampa disse...

Prezado Senhor Anônimo

Encaminharemos, por e-mail, suas declarações, ao autor.
Sentimo-nos no direito de publicar textos e comentários, desde que não ofendam a nenhum dos autores ou leitores.
Obrigado.

Modesto disse...

Formidavel, Miguel.

Modesto disse...

O comentário acima foi pra testar. Este é que vale.

Miguel, vc. sabe que o cara que assaltou a Tyffani começou assim e... progrediu, como vc. pode ver. Saia desse lambe-lambe e procure se atualalisar com pequenas lojas, depois supermercados, bancos e aí parte pra joalherias, que é o que está na moda. Sorvetinhos de casquinha, isso é pra principiante.
Gordo, a gente começa um blog com alegria e continue com essa maravilhosa vida que vcs, Miguel e Sonia, exibem até agora. Parabéns pela iniciativa, colaborar com vcs. é um prazer enorme. Uma pergunta: Miguel e Sonia, seu "cantinho" aceita ficção?
Parabéns aos dois e "um baccio in testa per te, Michele i um baccio in la faccia pra Sonia.

Bernadete disse...

Miguel,ri muito dessa sua peraltice. Mas acho que a penitência determinada pelo Monsenhor,foi de bom tamanho.
Um abração / Bernadete