terça-feira, 20 de julho de 2010

Com as bençãos de José Bento






Semana Monteiro Lobato.
Leio que estará, na biblioteca infantil que lhe leva o nome, uma exposição dos desenhos que enriqueceram suas obras infantis. Imperdível, pois além de fã de Lobato, essas ilustrações marcaram minha infância. Então, mais que uma exposição, é uma viagem. Não Viagem ao Céu, mas quase. Viagem para os anos 50, ou antes, até.
No domingo tranquilo, nos dirigimos à Praça Rotary, antiga Leopoldo Fróes, na Vila Buarque. É uma velha conhecida. Nos tempos em que morava na Barra Funda, muita vez caminhei até a pracinha, naquele tempo sem grades e tendo ao centro o Teatro Leopoldo Fróes, do qual não sobrou nenhum vestígio.
Muito mais tarde, trabalhei vários anos na General Jardim, que sobe bruscamente p
ara a Dona Veri

diana. Nessa época, porém, assoberbado de trabalhos urgentes, lembro de ter ido uma única vez à Biblioteca.
Estaciono à porta e entra-se sob curvilínea marquise, à Niemeyer. O prédio amplo, claro e muito limpo, com seu jeitão antigo. Velhos conhecidos nos recebem, dos cantos e do andar superior: Emília, o Visconde, Dona Benta, a Cuca, bonecões de papel machê. E ali estão as vitrinas com reproduções dos desenhos, alguns brilhantes, como os de Belmonte, J.U. Campos, André Le Blanc, e Manoel Victor Filho.
Elas me transportam a meu primeiro ano primário. Como já entrei na e
scola sabendo ler, a boa e ingênua mestra pensava que eu decorava as lições. Bastaria dar-me um texto diverso de Ivo viu a uva, para tirar a dúvida. Enquanto isso, eu me ocupava da Chave do Tamanho, um Lobato ainda infantil, mas, bastante sombrio para minha idade.
Já havia devorado os deliciosos O Sítio do Picapau Amarelo, Reinações de Narizinho, Viagem ao Céu... Lobato foi meu primeiro ídolo literário. E aqui estão as velhas capas, as ilustrações em preto e branco inconfundíveis. Mais ao fundo, o que devem ter sido móveis do gabinete do escritor; pesadas e escuras mesas e cadeiras, preciosamente entalhadas com floreios e mascarões.
Um clima sóbrio e severo, observado da parede por um grande retrato do autor, com su
as fabulosas sobrancelhas. Numa estante, suas roupas, também escuras e pesadas, pertencentes a uma São Paulo talvez muito mais fria e úmida.
Sobretudo, terno de grossa casimira, gravata, chapéu, tudo muito diferente dos estereotipados trajes cariocas de malandro, terno de linho branco, chapéu Panamá, sapato de duas cores, enfim, da imagem do brasileiro divulgada pelo mundo.
Mais bustos e a máscara mortuária de Lobato. Um clima pesado, em se tratando de escritor tão criativo, e apesar de seu pessimismo, com grandes mostras de humor. Mas saí dali bem leve. Havia resgatado um bom período de minha infância.
E com muita vontade de reler os livros. Voltemos á essa bela experiência, buscando nas seções infanto juvenis das boas livrarias. Para quem o leu, Lobato será sempre imortal.

Por Luiz Simões Saidenberg

11 comentários:

Modesto disse...

Saidenberg, falar de Monteiro Lobato, pra mim é um retorno auspicioso a minha juventude tão cheia de sonhos proporcionados pela leitura de seus livros. Quanto encanto, quanta emoção que ele sabia ministrar a meninice e aos jovens. Lembro bem quando lí "Os doze trabalhos de Hercules", o que eu senti, o que deve ter transformado minha formação... Sou grato a vc por ter lembrado e a visita que vc. fez a biblioteca. Por tudo que ele escreveu, por ser um patriota puro defensor de nosso petroleo, Lobato nunca deve ser esquecido. Obrigado e parabéns, Luiz.

Arthur Miranda disse...

Fiquei conhecendo melhor Lobato só depois de adulto, quando atuei algumas vezes no programa Sítio do Pica Pau Amarelo levado ao ar em 1967 pela tv Bandeirantes, lamento até hoje o fato de não te-lo conhecido também na minha adolecencia. Morei por 5 anos em Taubaté e quase que mensalmente visitava a Chacara do Visconde onde existe a casa em que Lobato viveu, com fotos, e muitas lembranças desse gigante brasileiro

Arthur Miranda disse...

Fiquei conhecendo melhor Lobato só depois de adulto, quando atuei algumas vezes no programa Sítio do Pica Pau Amarelo levado ao ar em 1967 pela tv Bandeirantes, lamento até hoje o fato de não te-lo conhecido também na minha adolecencia. Morei por 5 anos em Taubaté e quase que mensalmente visitava a Chacara do Visconde onde existe a casa em que Lobato viveu, com fotos, e muitas lembranças desse gigante brasileiro

Arthur Miranda disse...

Fiquei conhecendo melhor Lobato só depois de adulto, quando atuei algumas vezes no programa Sítio do Pica Pau Amarelo levado ao ar em 1967 pela tv Bandeirantes, lamento até hoje o fato de não te-lo conhecido também na minha adolecencia. Morei por 5 anos em Taubaté e quase que mensalmente visitava a Chacara do Visconde onde existe a casa em que Lobato viveu, com fotos, e muitas lembranças desse gigante brasileiro

Miguel S. G. Chammas disse...

Luiz, foi nesssa casa de cultura que iniciei minha vida de leitor.
Lá no final da decada de 40 até meados de 50, ali compareci diariamente e participei de todas as atividades existentes, principalmente a leitura. Tive oportunidade de ler e sonhar com toda a obra de Monteiro Lobato.
Dias lindos e saudades afloraram com a leitura do teu texto.

Soninha disse...

Olá, Luiz!

Tenho doces lembranças de bibliotecas. Adorava frequentar.
A de minha infância e adolscência era a Biblioteca da Vila Prudente. Mais tarde, já jovem, frequqntava a biblioteca da Mooca, as bibliotecas dos colégios e, depois, da faculdade, cujo acervo me espantava...era um mundo mágico que eu adorava.
Você foi feliz em seua escolha e por seu texto.
Parabéns.
Obrigada.
Muita paz!

Bernadete disse...

Saidenberg, os livros e personagens de Moteiro Lobato, marcaram a infância de todos nós. E você,através desse texto delicioso,deixa registrado no blog, merecidas homenagens, ao autor de nossas primeiras leituras.
Um abraço / Bernadete

margarida disse...

Saidenberg, Conheci Monteiro Lobato através de sua obras que eram colocadas no currículo escolar. Eram leituras que meu pai permitia, não só porque a escola adotava, mas porque nos levava ao mundo sonhos, da alegria e da imaginação. Com certeza ele nunca será esquecido. Um abraço.

Zeca disse...

Saidenberg, feliz e louvável sua decisão de prestar essa homenagem àquele que deve ter sido o primeiro ídolo literário da maioria de nós, pelo menos daqueles que iniciaram suas leituras entre as décadas de 40 e 60.
Eu viajei muito pela obra do grande Lobato! Ganhei de presente a obra completa para crianças e dalí pra frente, ninguém me separava doa personagens mágicos desse escritor que, sim, como você afirmou no fim do texto: "será sempre imortal."
Abraço.

Leonello Tesser disse...

Luiz, Monteiro Lobato fez parte dos meus primeiros anos de vida escolar pois no curso primário havia uma professora que nos recomendava a leitura das obras deese grande personagem da literatura brasileira, parabéns pela lembrança e pelo texto, abraços, Leonello Tesser (Nelinho).

MLopomo disse...

Fotografia. Uma paixão de Lobato
Carta de Areias, 25 /5 /1907.
– “Já viste trabalho em fotografia? Revelar uma chapa? Chapa é uma placa de vidro recoberto de uma leve camada de gelatina sensibilizada, de aparência branca e opaca. Pões-na, porem dentro do banho revelador e a imagem que existia misteriosamente oculta dentro da gelatina delineia-se aos poucos, vai ganhando contornos e nitidez, até de todo se revelar com perfeição. Tu foste para mim o que o revelador é para a chapa. Donde parecia nada existir que não fosse aridez e revolta, e orgulho e pessimismo e tédio, tu arrancaste mil qualidades preciosas e inestimáveis – Amor, ternura, otimismo alegria, bondade. Agora vejo que tudo isso existia em mim latentemente e só esperava como tu para expandir. E sou grato, imensamente, por isso.”