sábado, 10 de julho de 2010

11 de abril, e você já tem um ano, amigo

A tarde avançava preguiçosamente, teimando em se arrastar, para desespero da noite que ansiava em chegar para ficar conosco.
Na cozinha, a mãe e a avó se esmeravam naquele fabuloso lanche de sempre. Na sala, já meio extenuados por tantas brincadeiras, meu neto e eu sucumbíamos ante um belo e reconfortante sono. Claro, depois de tantas cabeçadas e dores fingidas, amenas mordidas, ( favor não confundir com menos mordidas), risos e gargalhadas só nos restava cair no sono e assim, nós dois nos enroscamos, em brinquedos, lençóis e xales e como dizíamos antigamente, “capotamos”.
Somos dotados de um dom maior e através do sonho e da imaginação viajamos no tempo e no espaço, rompemos barreiras e nos tornamos senhores únicos de tudo o que acontece à nossa volta e naquele sonho, liguei minha super nave e alcei vôo onde piloto e co piloto - cérebro e coração – tomaram assento e fomos os dois, o neto e eu, entre os brancos flocos de nuvens dar uma pequena volta, pois queria lhe mostrar coisas, ensinar-lhe algo..
E fomos. Ele tinha muito mais que seus 11 meses de agora, talvez cinco, seis, sete anos, sei lá, falava e perguntava como todos as crianças dessa idade que são movidos a comos e por quês. Eu o levava às costas, como super herói presente e inteiramente respondante.
Saímos da sua casa e a primeira parada foi Interlagos. Mostrei do alto o Autódromo, descrevi o traçado velho, voamos pelo Laranjinha, pela Ferradura, pelo bico do pato e o coloquei no podium, lá no alto. Não teve champanhe, nem hino, mas teve um ar de vitória com umas três ou quatro voltas na frente do segundo colocado. Saímos rapidamente, Av Interlagos, Marginal Pinheiros, cruzamos a Bandeirantes e eis o Ibirapuera. Falei da festa do IV Centenário, do Parque de Diversões que existia, do lago onde eu e sua avó andávamos de barco. Não acredita ? seu porcalhão, andávamos sim e tinha um restaurante na beira do lago. Aquilo redondo é o Planetário, um dia vou te levar para você ver o universo, o céu, as estrelas e você vai ver quantas estrelas existem no céu. Quantos sorvetes Carioca nós tomávamos no quiosque em frente. Não cara, aquele outro redondo é o Ginásio do Ibirapuera não é o planetário de gente grande. Ali se joga basquete, vôlei, futebol de salão, tinha show do Holliday On Ice - ta bom você não entendeu – rolidei on aice – vai perguntar pra tua mãe que tem mais tempo. Ali é a Av Brigadeiro Luiz Antonio, vai até a Av Paulista que é a parte mais alta da cidade. Agora aqui só tem prédios e todos os bancos trabalham por aqui, mas a muito tempo aqui só tinha casas. Eu joguei bola ali na esquina da Paulista com a Augusta. Não tinha perigo, não era em cima do prédio, ali era o colégio Paes Leme, um casarão grande, não um prédio. Em frente tem o Conjunto Nacional que é um lugar bem legal para se passear, ainda, mesmo sem o Cine Astor ou o Cine Rio. Cine é onde passam filmes. Não, amigo ´DVD é outra coisa. Mas tem a Livraria Cultura que ajuda bastante. Ta cansado ? Não ? Sabia, vamos em frente. Na Rua Augusta só tinha ônibus elétrico. Sua avó falava que eles usavam suspensórios. Não sabe o que é ônibus elétrico ? Ah suspensórios. Bem suspensórios são..., vamos andando cara.
Ali é o Pacaembu onde a gente assistia jogo de futebol. Era mais bonito que agora, tinha uma certa arte e eu vinha com meu pai quase todo domingo. Às vezes vinha feliz e voltava feliz, às vezes nem tanto, afinal eu comecei vir aqui em 1960 e desde esse ano até 1977, eu li e ouvi coisas não muito legais não. Por que ? Porque sim, amigo, pede pro teu pai que ele te conta. Foi no Pacaembu que eu aprendi uma porção de coisas bonitas e a falar nome feio.
Por aqui a gente chega no centro da cidade. Aquela ponte enorme não é uma ponte é um elevado que todos chamam de Minhocão. Passamos na av São João e chegamos na Praça da Sé. Porque chama praça da Sé ? Vai ver que erraram o nome e queriam homenagear teu avô e chamar de Praça do Zé, mas alguém errou a grafia e ficou por isso mesmo. Ali naquela igrejinha pequena é que nasceu a cidade. Chama Pátio do Colégio. Você nota que as ruas são estreitas como uma cidade do interior. São Paulo também foi pequena, foi crescendo, crescendo e hoje é como está hoje. Lembra que eu falei quando a gente passou pela Av Paulista, ? Aqui era o centro financeiro da cidade. Nesta rua, Boa Vista e naquela , XV de Novembro ficavam os bancos e sempre que a gente tinha que pagar contas vinha pra cá. Aqui é o Mosteiro de São Bento, algum dia eu te trago para a gente ver uma missa você vai ver que linda. Aquele é o Viaduto Santa Efigênia. Todo ele feito em ferro e cruzando o Vale do Anhangabaú.
Está vendo aquele outro ali adiante ? É o viaduto do Chá. Tem esse nome porque tinha uma plantação de chá, oras. Aqui em baixo passava o Rio Anhangabaú e de vez em quando, quando chove muito ele enche e enche a gente também( ainda ). Ali é a igreja Santa Efigênia. Puxa quanta igreja junta, você vai me perguntar ? É que o pessoal era bem mais católico que agora. Agora só tem outro tipo de igreja. Aqui é o Largo do Paissandu, e tome outra igreja. Aqui na Conselheiro Crispiniano ficava o quartel do exercito, onde este teu avô cismou um dia, por volta de 65 /66 de enfrentar alguns soldados e descobrir que eles corriam mais que a gente e batiam sem dó. Passamos no Viaduto do Chá que eu já mostrei e olha o Santa Efigênia lá adiante, lembra? Esta é a rua Direita. Ta bom eu sei o que você vai perguntar mas nem pergunte, eu também não sei. Ah, veja que interessante, ali é o Largo do Café , café, Café...café. Sonho e realidade se confundem e a Silvia me acorda para o café. Acordei, levantei e fui. Não sem antes dar uma olhada pro meu neto espalhado, largado, braços abertos, dormindo um tranqüilo e abençoado sono.
Pudera com tanto que voamos, com tanta informação, com tantos e perguntantes por quês, só podia dar nesse cansaço só.

Tomando café, me deparei olhando o vazio. E me vi, um dia, como um intruso carona, carregando uma doce inveja ou amarga lembrança, imaginando meu neto, assim como meu avô fez comigo, como meu pai fez com meu filho, como eu farei com ele um dia, este pequenino ser dará um passeio fabuloso com seu próprio neto. E nesse dia, São Paulo, esta querida São Paulo, voltará a ser a terra da garoa, com suas ruas e calçadas úmidas pela garoa que meus olhos teimosamente insistirão em derramar.

Por José Carlos Munhoz Navarro

10 comentários:

Soninha disse...

Olá, José Carlos!

Viajamos com você e com seu neto, nesta sua viagem fantástica por Sampa.
Que incrivel!
A nave pousou, mas, tenho certeza que você queria continuar sua viagem com seu netinho.
Muito bom!
Valeu, José Carlos!
Muita paz!

Miguel S. G. Chammas disse...

Viajar dessa forma é um privilégio que só os escolhidos conseguem.
Ver Sampa das alturas em companhia de um ser querido é muito mais emocionante.
Faça novos voos e nos conte, por favor.

Leonello Tesser disse...

Navarro, desculpe, sem sua prévia "autorização" peguei "carona" nessa sua viagem astral, como avô também senti o prazer que você também sentiu, parabéns pelo texto, abraços, Leonello Tesser (Nelinho).

Bernadete disse...

Navarro, que delícia de texto! Que viagem fantástica! E que super avô hein!!!
Um abração / Bernadete

margarida disse...

Navarro,passear é tudo de bom, mas fazer um passeio para conhecer esta cidade maravilhosa guiado por este fantastico vovô, fica melhor ainda!Um grande beijo e parabéns pelo belissimo texto sobre a cidade de São Paulo.

tutu disse...

Navarro, queria ter um avô assim, obrigado graças ao seu conto (que na realidade é Um Conto e Quinhentos,) Eu voltei a infancia e juntei-me a vocês nesse passeio pela maior e melhor cidade do Brasil.

Marcia disse...

Navarro, viajamos todos com seu texto; privilégio para poucos é poder "viajar" assim com o neto. Maior privilégio é ter neto para viajar junto. Abraços.

Modesto disse...

Nada melhor que mergulhar no fantástico mundo da fantazia, onde tudo é permitido. Se vc. não sabe, seu neto viajou de verdade nos teus sonhos, não pode falar, ainda mas, um dia ele vai te retribuir e agradecer pelo belo passeio. Sem saber por que, ele se sentirá feliz em retribuir, dizendo a si mesmo: como o vô foi bom pra mim, não sei por que mas, amo demais esse vovô. Parabéns, Navarro.

Luiz Saidenberg disse...

Benvindo, Navarro, com sua fina- e rara- prosa. Este texto não fugiria a esta regra, escrito com esmero e sentimento. Belo tour virtual por uma São Paulo infelizmente mais bela na imaginação que, como disse o poeta, na realidade concreta de suas esquinas. Não pretendo, se os tiver, levar meus netos a passear pelo Centrão. Nem eu mesmo tenho a mínima vontade de lá voltar, após nossa reunião- Miguel, Lopomo e eu-no Ponto Chic, com a reportagem da Folha. Pobre Centrão ! Abraços.

Zeca disse...

Xará,
gostei demais dessa viagem que me levou, como clandestino, pelos principais pontos dessa cidade que, gostemos ou não, será sempre o nosso principal ponto de referência.
E como disse a Marcia, melhor do que ter o privilégio de ser clandestino numa viagem dessas, o maior privilégio mesmo é ter um neto pra levar junto!
Parabéns, vovô.
Abraço.