terça-feira, 13 de julho de 2010

A Escada


Osmar saiu da redação bastante revoltado.
- Esse diretorzinho meia-boca, recém formado, ainda cheirando a leite ninho, dando ordens a veterano como eu, esnobando minha experiência de mais de 30 anos...
- Sr. Osmar, quero esse texto pronto, até duas horas da tarde, nem um minuto mais - disse ele.
- Realmente, as coisas mudaram muito.
- No meu tempo... - E lá foi Osmar divagando, com seus neurônios retesados, mas, já preocupado com o texto.
Uma escrita para, no mínimo três colunas num quarto de página. Precisava encontrar, na rua, alguma coisa diferente, algo sem ser roubo, sequestro, crime passional, drogas, hiii, (fez cara de nojo), isso tudo o leitor já cansou. Imbuído do forte propósito de escrever algo diferente, armou-se de uma "bic" e um bloquinho e rumou direto para o bairro de Sta. Efigênia, no velho e sempre "acolhedor" ( prá esse tipo de serviço) centro da cidade, onde ocorre de tudo e se não ocorre, eles fazem ocorrer.
Andando pelas ruas, chegou a Couto de Magalhães e viu um lance ocasional bem esquisito, um soldado subindo numa escada longa, até uma janela do primeiro andar de uma hospedaria, entrar e em seguida lançar uma mochila para uma mulher que a apanhou, alçou-a no ombro e foi embora, sem dizer nada. A hospedaria apresentava a entrada barrada por um muro recém levantado. Que coisa mais esquisita, pensou Osmar. Pensando e agindo de imediato, não se fez de rogado. A passos rápidos, alcançou a mulher ao dobrar a primeira esquina, interpelou-a de bate-pronto:
"desculpe, minha senhora, mas acabei de assistir há pouco, uma..."
"eu sei, interrompeu ela, e o que é que você tem com isso? "
- Eu... eu... na...nada... só queria...
- Queria o quê, pô, não estou a fim de papo-furado portanto, não enche o saco. Você é da polícia?
- Eu não, eu sou...
- Não me interessa quem você é, interrompe ela, vá cuidar da sua vida que eu cuido dessa miserável vida que levo. Já não chega o que aqueles bastardos me fizeram, ainda vem você, com essa cara de assistente de educandário religioso, querendo, o que?
Enquanto conversavam, Osmar notou que, apesar da raiva, ela andava no mesmo passo que ele, não dando nenhum sinal de querer se livrar dele. Animou-se.
- Escute, deixa eu falar um pouco, pô, pensa que só você tem problema nessa pestilenta de vida ?
- Peraí, ó cara, eu...
- Espera aí você, interrompe Osmar, vendo seu rosto de perto percebo que tenho idade pra ser seu pai portanto vai me ouvir na marra. Já está na hora do almoço, aceita o convite?
Ela olhou pela primeira vez seu rosto e resolveu ceder.
- A troco de que?
- De nada. Por que?
- Vai me dizer que você não sabe o que faço...? o que sou?

- Não sei mas, desconfio... pelo seu repertório...!
Isso mesmo... uma prostituta, como vocês gostam de "embelezar".
Neste momento estavam passando por um restaurante e os dois entraram sem falar nada, como se a sequência natural da caminhada fora aquela. Osmar tomou logo a iniciativa, perguntando:
- Me diga, qual a "jogada" do soldado te atirar a trouxa pela janela
e você se mandar com a maior cara de pau deste mundo?
Ela encarou-o bem nos olhos e deixou, sem se aperceber, transparecer um semblante triste, amargurado, sofrido, bochechas encovadas, olhos a marejar, lágrimas se formando nos cantos , cabel
os lisos em desalinho e atendendo a um sinal de seu sub-consciente, resolveu acreditar naquele cara. Sem responder, pediram o prato, comeram em silêncio e antes de pedir a sobremesa, resolveu falar.
- Olha, ó cara eu ... como é mesmo seu nome?
- Osmar...e o seu?
- Verônica.
- Bonito nome, continue.
- Osmar, estou numa enrascada...
- Há quanto tempo vem isso?, obtemperou Osmar.
- Quase um ano... você está anotando tudo? por que?
- Sou jornalista, não se preocupe... não vou te prejudicar.
- Mais do que já estou você não vai conseguir... Bem, vim de Minas,
de uma cidadezinha do norte do estado, com meu marido, deixando...
- Você é casada?
- Mais uma interrupção, juro que vou...
- Calma, calma, eu só... estou surpreso, não podia imaginar você, uma mulher da vida com...
- ... com marido, né? interrompeu Verônica, não me venha com esse papo de "mulher da vida", "profissão mais antiga" ou "mulheres de vida fácil", hipócrita duma figa...eu só não fui embora porque estava com muita fome.
- Está bem, não vou te interromper mais, juro. Continue.
Olhou novamente nos olhos dele e pensou: "esse cara é diferente, não sei porque confio nele" e prosseguiu:
- Vim pra São Paulo com meu marido e deixamos três filhinhos pequenos com minha mãe. Logo que pudesse mandaria dinheiro.
O Júlio, marceneiro, encontrou logo serviço mas eu, não... mal sei escrever meu nome, o melhor que pude arrumar foi de garçonete, num bar aí dá "boca". Moramos, numa pensão no Brás até acontecer o pior. Um dia eu estava trabalhando até mais tarde, outra garçonete havia faltado e o dono do bar pediu para eu ficar até as dez. Não tinha como avisar o Júlio e, não querendo perder o emprego, resolvi ficar e depois iria explicar pro Júlio e ele iria entender. O Júlio apareceu lá pelas oito. Expliquei e ele entendeu.
Pedi pra ele esperar, sentado numa mesa, no fundo do bar. Em dado momento, um bebum entrou no bar e mexeu comigo. Estou habituada e não liguei mas, o Júlio ouvindo, não deixou por menos. Foi tirar satisfação, brigaram e o Júlio com seu canivete, acertou o pescoço do homem que, esvaindo-se em sangue morreu antes de chegar a ambulância. Preso, pegou cinco anos por ser primário e eu fui despedida do emprego. Não sabendo fazer nada, sem escola e precisando mandar dinheiro pra minha mãe, resolvi "me vender". arrumei um quarto nessa hospedaria, vinte e cinco "pratas" por dia, explorada por um patife de um paraguaio que mantinha um mercado negro de gringas da terra dele e por causa disso a polícia apareceu e desta vez " eles resolveram fechar, com um muro, o muquifo do sr. Gutierres. Cheguei hoje de manhã, disse aos guardas que tudo que eu tinha estava no quarto e ele ficou com dó de mim, arrumou uma escada e o resto você já sabe... Agora me diga: que é que eu vou fazer com a merda dessa vida?... me oriente, por favor, você me fez tantas perguntas e quero saber: você acredita em mim?
- Acredito sim, você não teria condições de inventar uma historia dessa... e seu marido, sabe de tudo isso?
- É claro, mandando dinheiro pras crianças tá tudo bem e eu gosto muito dele... as vezes vou lá na penitenciária, nos dias de visita vou ter um pouco de intimidade com ele, mas é uma merda de vida, não é? Bem, e agora? Vai querer...? costumo cobrar cinquenta "pratas" mas pra você, não vou cobrar nada, só que não tenho lugar...
- Já disse que não quero nada de você, apenas um "bate-papo"... mesmo porque... aaah, deixa pra lá...
- Espera aí, Osmar tá me esnobando porque? sou tão feia assim?
- Não, não. É que eu... não posso transar com você e com nenhuma outra mulher... tenho outro amor e não sou correspondido.
- Também não precisa ser tão fiel assim, pô, exclamou Verônica. Hoje em dia isso é tão comum e ... posso saber quem é a gata?
- Trabalha comigo é... um gato... - Verônica descansa o garfo no último pedaço de sobremesa, atarantada levanta, vai embora sem se despedir, pensa: sempre tem alguém pior do que a gente. Osmar paga a conta, anota os últimos itens para o texto, saboreia antecipadamente a cara do diretorzinho e louco pra contar a sua esposa também, principalmente
a do "gay" no final do texto a única ficção da narrativa.

Por Modesto Laruccia

9 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Muito legal, Modesto. E escapa bem da linha que vc tem tratado, mais de memórias do Braz, e dos imigrantes de Polignano A Mare. Gostei muito. Abração.

Bernadete disse...

Modesto parabéns pelo novo estilo. Gostei. Um abraço

Soninha disse...

Olá, Modesto!

Que história, heim?!
Infelizmente, muitas mulheres acabam se submetendo a esta vida, pela dificuldade em arrumarem emprego, tanto antigamente como nos dias de hoje.
Valeu, Modesto!
Mande-me mais, ok?!
Excelente semana.
Muita paz!

tutu disse...

Sei que minha opinião é insignificante, mas gostei muito da historia.
Que historia gostosa Modesto,deglutei a mesma numa bocada só, desejando que a mesma jamais chegasse ao fim. Parabéns.

Marcia disse...

Modesto, quando comecei a ler seu texto, pensei tratar-se de um conto do Mario Lopomo até ver no final, com surpresa, que era seu.Gostei de seu novo estilo. Parabéns, isso que é versatilidade. Um abraço.

Miguel S. G. Chammas disse...

Amicci, este texto ficou prá lá de bonito.
Pintou por aqui até uma pontinha de inveja (da boa claro).
Parabéns!

Leonello Tesser disse...

Modesto, parabéns pelo relato, retrato fiel das infelizes que costumam ser taxadas de "mulheres de vida fácil", abraços, Leonello (Nelinho).

margarida disse...

Modesto, seu texto traz um exemplo de como tudo começa.... neste caso a vida de uma prostituta e de um assassino. Gostei da historia! Um abraço.

Zeca disse...

Belo texto, Modesto!
Muito bem contado, com detalhes de lugares e situações, nos levando a um tempo em que ainda podíamos (per)seguir uma notícia, independente de sua origem ou profissão.
E desde tempos imemoriais vemos que a mais antiga profissão do mundo, além de não aceita socialmente, embora tolerada, não é escolhida, mas fruto da ocasião e necessidade.
Parabéns!
Abraço.