terça-feira, 6 de julho de 2010

Descrição à vista de gravura


Noutro dia, escrevi algo parecido, para falar de uma velha foto de família. Desta vez, quase chego lá; desculpem, não é ainda uma daquelas gravuras do primário. Estas, talvez não existam mais, mesmo em museus.
Então, uma pintura. Não é uma boa pintura, reconheço, mas fui eu quem fez. Retrata um canto de nossa "varanda". Também não é exatamente uma varanda, no sentido das velhas varandas senhoriais, nem dessas modernas, agora ponto alto de venda de apartamentos de luxo, que se erguem a cada dia, aqui no Brooklin.
Tão atrativas que começam a ser, cada vez mais, maiores que os próprios apartamentos, com lareira, churrasqueira, espaço gourmet...a nossa não é nada disso. Apenas um espaço entre a sala envidraçada e o muro. Á direita, é limitada pela garagem, e no lado oposto tem um canteiro.
Ali, um pé de jasmim manga, que no verão dá, pontualmente, suas flores encarnadas, de sutil perfume. Depois, uma Costela de Adão, resgatada de uma casa em demolição, que teima em galgar o muro da vizinha, velha rabugenta, eternamente a resmungar. Então, tive de podá-la antes que chegasse á garagem da senhora.
A seguir, uma Primavera, comprada pequenina às margens da Rodovia Castelo Branco. Hoje, enorme, estende-se em arco sobre o muro da frente, com suas belas flores, também carmezins. E o ipêzinho. Ganhei-o de um colega, dono de sítio, no início dos anos 90.
Durante décadas cresceu lentamente, sem uma flôr. Agora, quando chega Setembro, elas despontam para uma festa dourada e tardia, pois nesta altura seus colegas ipês já perderam as pétalas, e até mesmo as longas favas.
Pois é. Um pequeno, mas agradável espaço, no qual nos refugiamos muitas vezes, cansados das luzes frias da tv e Internet. Uma mesa e umas cadeirinhas, e ali ficamos, nas horas agradáveis do dia, isolados da São Paulo circundante, e até mesmo de nossa ruazinha Brookliniana, bastante tranquila.
Nossa "varanda" teve várias fases. Na primeira, estava mais para jardim japonês, com uma grande Tuia no meio do espaço, finos bambus e um lanterna oriental de pedra entre as plantas do canteiro. Tinha também pequena mangueira, junto ao muro.
Foi-se a Tuia; foram-se os bambus, muitos devorados por nossa boxer; foi-se também a cadela, a lanterna, a mangueira, as lantanas junto ao muro. A área serviu também como terceira vaga, quando tínhamos um terceiro carro, atravessado ali lateralmente, com cuidado. Que se foi, também.
Muitas vezes escrevi ali, tendo como companhia um copo de bom vinho e nosso gatão cinzento. No ipê, uma travessinha com frutas atrai sabiás, sanhaços, cambacicas e bandos de periquitos. Alguns bem malandros, como o sabiá que já me espera todas as manhãs, sobre o muro. No que viro as costas, lá está ele traçando as guloseimas.
E assim vai vivendo nossa varandinha, colírio para os olhos e a alma. Temos pensado em passar para uma casa menor, e com certeza, entre outras coisas, sentiremos muita falta desse espacinho delicioso. Uma lembrança inesquecível de belos Outonos e Primaveras, de Invernos cinzentos e Verões tempestuosos.
Testemunha do Tempo, das estações passando cada vez mais velozmente, numa fuga sem fim para o desconhecido. Saturno insaciável devorando seus próprios filhos e tudo mais que existe, até mesmo a nossa varandinha.

Por Luiz Saidenberg

12 comentários:

Soninha disse...

Olá, Luiz, querido amigo!

É com grande alegria que li seu relato e emocionada com os detalhes que você descreveu.
Texto impecável, como todos os seus.
Não me deu trabalho para editar.
Se você tivesse foto deste lugar eu a postaria, mas, escolhi algumas imagens pertinentes ao seu texto.
Agradeço imensamente por sua participação e aguardarei mais textos seus.
Parabéns!
Muita paz!

Miguel S. G. Chammas disse...

Luiz, continuas o mesmo....
Cada vez que escreves, dás uma aula de redação e emolduras o assunto com detalhes realmente dignos de elogios.
É por isso que sou teu fã!

tutu disse...

Luiz, Belo texto, lindo mesmo, gostei tanto que vou convidar uma "prima Véra" para vir passar uns dias aqui em casa.he,he,he, Parabéns.

Leonello Tesser disse...

Luiz, maravilhoso texto, quem me dera ter uma varandinha para bater papo com a família, parabéns, abraços, Leonello Tesser (Nelinho).

Modesto disse...

Que linda apreciação de um encantador jardim, Luiz, o tempo passa (e...depressa, porca miséria!!!), ficam as flores, testemunhas vivas de nossos momentos felizes. Só que elas estão sempre jovens e nós, envelhecemos... que pena. Parabéns, Saidenberg.

Marcia disse...

Luiz, quase dá para ver a moldura em seu texto, tão belo quanto um quadro. O desejo de se mudar para uma casa menor parece ser comum a nós, cujo outono nos acerca. Mas resista, sua varanda é quem pede! Um abraço.

Bernadete disse...

Saidenberg, você tem um pouco do Tistu, personagem de Maurice Druon em "O menino do dedo verde"
O jardim de um artista, só pode parecer uma pintura.
Delícia de texto

falcon disse...

Luiz como já escrevi no spmc tire d cabepça esta de procurar mudar para outro lugar, não é o tamano aqmigo é que nunca será a sua casa.
Curta o jadim o ipê e os sabiás.
Abraços
falcon

Vera de Angelis disse...

Luiz, melhor do que plantar, cultivar é gravar na memória e no coração a história das flores, das plantas e dos animais que fazem parte da sua vida. Parabéns. abraço Vera

Zeca disse...

Luiz, seu texto tem uma poesia digna dos grandes artistas, como atesta o quadro que o abre. Aliás, tarado por arte como sou, abri e aumentei a foto do quadro para melhor analisar e gostei demais do que vi. Além, é claro, do texto delicioso e tão intimista que faz com que sintamos o aconchego dessa varanda que não deveria, jamais, ser abandonada.
Abraço.

Luiz Saidenberg disse...

Muitíssimo obrigado a todos. Caro Zeca, como vc gosta de arte, envie-me seu email e lhe mando meu blog de quadros, que vai anexo com o de Carol, minha filha, grande pintora. Abração.
lssaidenberg@gmail.com

Conselho Gestor da UBS Veleiros disse...

Que lindo! Me fez recordar do tempo em que a professora primária mostrava uma gravura e pedia para escrever sobre ela. Parabéns e abraço! SuelY Schraner