terça-feira, 20 de julho de 2010

Luar de Vila Sonia

A cidade de São Paulo, na metade do século XX, era de muitas vilas, na zona Norte, tinha Vila Maria, Vila Nivi. Na zona Sul, Vila Olímpia, Vila Nova Conceição, Na Leste, Vila Santa Izabel, Guilhermina, na zona Oeste, a Vila Sônia.
Morávamos no Itaim e tínhamos nossos vizinhos que se mudaram para a Vila Sonia quando, ao mesmo tempo, mudamos para a Vila Olímpia. A primeira vez em que fomos visitá-los, naquele longínquo ano de 1951, precisamos pegar duas conduções pois o trajeto era bem longo.
Quando estava no ônibus que ia para a Vila Sônia, eu como qualquer criança, ia sentado ao lado da janelinha, olhando a paisagem. Vi, a uns quinhentos metros da Avenida Francisco Morato, a esquerda, perto do enorme galpão da fábrica de roupas Regência, que tinha um enorme terreno com uma bela casa e uma placa feita com tronco de arvore, onde estava escrito: Rancho do Nho Totico.
Foi uma emoção, pois eu, como todas as outras crianças de minha época, adorávamos a escolinha da dona Linda, a professora que ele encarnava no programa, apresentado pela radio Cultura.
O ônibus ia em frente e, de repente, sai da “Chico Morato” e vira à esquerda, na Rua Manoel Jacinto, fazendo uma curva bem fechada, de onde deu para vermos uma placa que estava escrito o nome do sanatório Morumbi; Eu ia rever minha amiguinha Ana Maria e, quando cheguei, disse a ela que havia passado em frente a casa de loucos, mas sua mãe, a dona Irene, corrigiu dizendo que era uma casa de repouso.
Ainda no ônibus, pudemos ver, também, assim que entrou na curva fechada, um enorme terreno, cheio de árvores por toda volta e uma casa grande que mal dava para ver porque ficava a uns quatro metros acima do nível da rua e era denominada de a chácara dos padres, que dava para os fundos da casa.
Fomos recepcionados pelo seu Osvaldo o nosso ex vizinho do Itaim, que nos mostrava a casa por dentro e por fora. No outro lado da rua, em frente a casa, do terraço ele nos mostrava aquela imensidão de matas, morros e terrenos que já tinham sido loteados, a espera que seus
proprietários construíssem suas casas. Era o bairro do Morumbi, ainda totalmente desabitado.
Seu Osvaldo disse que as pessoas compravam para investimento, pois ninguém era louco de ali morar. Falava ele que, ouviu dizer, tudo aquilo que estava à nossa frente era de propriedade de Adhemar de Barros e que, antes, era uma fazenda de propriedade de alemães, mas que o governo tinha tirado deles, na época da guerra.
Disse, também, que ouviu dizer que, naquela região, seria construído um estádio de futebol, de seria propriedade do São Paulo F.C, que tinha seu campo no bairro do Canindé, naquela época. Ficou sabendo, por boca de terceiros, que o Ademar tinha doado o terreno para o clube, mas isso tudo era conversa do povo, quem sabe de torcedores adversários. Na verdade, em 1953 a pedra fundamental do estádio fora ali lançada.
Vila Sônia, fazia divisa com Vila Morse e aquele bairro me encantava, devido à imensidão de terrenos baldios, muito apropriados para empinar quadrados e catar balão. E, por falar em balão, naquele domingo quando lá estivemos, era em época de festas juninas e o céu azul estava forrado de balões. Ao cair da noite, o céu estava limpo, as nuvens tinham sumido e as estrelas brilhavam no céu e era difícil saber quais eram as estrelas, pois muitos balões com suas tochas acesas nos confundiam. Foi preciso dona Irene dizer que a cor avermelhada era a tocha do balão.
Voltamos para casa já tarde da noite e eu estava com a Vila Sônia na cabeça; Por muitos anos aquele do
mingo de festa junina permaneceu em meu pensamento.
Anos mais tarde, já na década de 60, um morador da Vila Sônia foi preso por ter cometido uma infração e, quando estava no presídio, sentiu a falta que lhe fazia a sua Vila Sônia. Era, Paulo Miranda, que sentia falta principalmente do luar da Vila Sônia; No papel, colocou sua nostalgia que acabou em letra de música e ficou assim...

Luar de vila Sonia


Luar, mais nada me seduz
Senão, chorar pensando em ti
Luar, sonho banhado em luz
Agora eu sei o que perdi

É noite e tudo se desfaz
Na fria solidão da lei
Noite sem Deus, noite sem paz
E tudo foi humano, errei.

Mas inda tenho coração
E tudo pode acontecer
O despertar da redenção
De um terno amor, o alvorecer

Amor, o alivio para a insônia
Perdão, a graça para o fim
Quero-te luar de vila Sonia
Para morrer cantando assim...

(Declamado por Moraes Sarmento)
“Nove horas, apagam-se as luzes do presídio
Mais uma esperança perdida na insipidez de um dia
Estiolado que se foi para o além, como tantos outros se foram, desde que me destinaram esta vida amargurada de encarcerado
Mais um período de lágrimas para a minha grande desventura
A noite tenebrosa dos fantasmas, a escuridão da lei privando-me do luar perfumado e encantador de vila Sonia, adormecida
A corneta da sentinela, lá no portão longínquo do presídio,
inicia o toque do silêncio, enquanto sob o cáustico do pranto abrasador, prossigo meu destino marcado, cantando e chorando a minha saudade imensa".
Luar, mais nada me sedus.
Agora eu sei o que perdi.

Por Mário Lopomo

11 comentários:

Modesto disse...

Elaborado com requinte, essa narrativa sobre Vila Sonia é uma beleza de escrita. Vc soube, Mario alinhavar os parágrafos com delicadesa e sabedoria, obtendo um trabalho limpo e harmonioso. É sempre um prazer enorme ler seus textos. Parabéns, Lopomo.

Soninha disse...

Olá, Mário!

São Paulo, gigante pela extensão e pela natureza...
Com seus bairros, suas vilas, seus lugares...
Belas lembranças, Mário.
Valeu!
Muita paz!

Bernadete disse...

Mario,agora fiquei conhecendo um pouco da Vila Sonia,nesse texto muito bem redigido e com informações muito interessantes.
Gostei muito!
Um abraço / Bernadete

Miguel S. G. Chammas disse...

Mario, bonito texto, repleto de informações.
Nho Totico que saudades!
Vila Sonia de muitas homenasgens.
Apenas me pertmito dizer que vc esqueceu um detalhe,Luar de Vila Sonia foi gravada por um bixiguense famoso, motorista de praça e molrador da Rua Abolição.
Seu nome? Francisco Petronio, a voz de veludo.
Eu, agora, não tenmho o luar mas tenho a minha Sonia.

margarida disse...

Mario, eu já conhecia a historia do Luar de Vila Sonia cantada por Francisco Petronio, pelos meus pais. Hoje recordei detalhes através de seu texto. Um abraço.

Arthur Miranda disse...

Me lembro do grande sucesso do Lançamento do Disco Luar da Vila Sonia esteve se não me engano até por duas semanas nas paradas de sucessos.
quanto a professora ercarnada pelo Totico (O grande paraquedista da Alegria)deve ter havido falha de digitação, o seu nome era Dona Olinda, e não Linda, apesar de achar os dois lindos.

Luiz Saidenberg disse...

A única vez que fui a Vila Sonia foi justamente para acompanhar uma internação, nesse sanatório. O caso é muito triste, então prefiro não contar.

Zeca disse...

Mário,
parabéns pelo belo texto! Não sei se algum dia conheci a Vila Sonia, mas com certeza dela já havia ouvido falar. E foi muito bem cantada e homenageada neste seu belo texto.
Abraços.

Leonello Tesser disse...

Mário, não cheguei a conhecer a Vila Sônia mas me lembro bem da música "Luar de Vila Sonia", parabéns pelo texto, abraços, Leonello Tesser (Nelinho).

MLopomo disse...

Prezados: Miguel e Margarida. Luar da Vila Sônia, foi composto pelo presidiário Paulo Mirando, e gravado por ele mesmo, graças a interferência do Moraes Sarmento, quando o Paulo estava na prisão. Moraes Sarmento, fez a declamação. Quando Francisco Petrônio a gravou já tinha feito muito sucesso, na voz do autor. Sarmento gastou a bolacha preta de tanto tocar em seu programa na radio Bandeirantes. E por falar em Francisco Petrônio, ele que era chofer de praça, foi lançado no disco pelo próprio Moraes Sarmento. Sarmento fazia bailes pelo interior a fora e também na capital levando vários cantores desempregados. O nome dos Bailes, era “Baile da Saudade”, já que o programa dele era chamado de programa da saudade. Depois que Petrônio gravou a musica Baile da Saudade, de autoria de Palmeira, registrou o nome e proibiu o Sarmento de usar em seus bailes. Moraes Sarmento magoado nunca mais tocou uma musica dele. Isso foi dito pelo Moraes a mim no estúdio. Quando Moraes Sarmento morreu. Francisco Petrônio estava lá derrubando “lagrimas de crocodilo”no caixão. Confesso que fiquei com vontade de bater nele.

Arthur Miranda disse...

Mario, isso que aconteceu com o Morães e o Petrônio, e coisa bastante comum e corriqueira dentro do ambiente artístico, onde existe sempre alguém achando que para subir a vida, tem que ser pisoteando os que estão ao seu lado, por outro lado em compensação talvez devido a esse fato, exista também entre alguns eterna, profunda e leal amizade.