sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Uma noite em 1967


Por que estrear na direção de um longa-metragem narrando a noite final do Festival da Record em 67? A resposta está na lista dos vencedores, diz Ricardo Calil, responsável pela direção do filme ao lado de Renato Terra."Em primeiro lugar 'Ponteio', de Edu Lobo; em segundo lugar 'Domingo no parque', de Gilberto Gil; terceiro lugar, 'Roda viva', do Chico Buarque, e em quarto, 'Alegria alegria', de Caetano Veloso", enumera Calil.
Vinte e um de outubro de 1967 também foi a noite em que Sérgio Ricardo quebrou o violão e atirou sobre a plateia do Teatro Paramount, em São Paulo, numa das cenas mais emblemáticas dos anos 1960. Foi a noite em que Gil e Caetano plantaram a semente do tropicalismo e, assim, configuraram uma nova ordem na música brasileira, dividida entre tradição e modernidade. Tudo isso motivou os dois diretores a recuperarem cenas e depoimentos históricos para o documentário U
ma noite em 67. Ricardo Calil lembra que o festival teve "uma importância histórica, política e cultural que transcende apenas a questão musical".
O filme surgiu como desdobramento da monografia de conclusão do curso de Comunicação de Renato Terra. Logo Ricardo Calil juntou-se ao projeto, motivado pela paixão por cantores como Chico Buarque, Caetano e Gil. "São artistas que fizeram a trilha sonora da minha vida. Embarquei de vez e mergulhei fundo na história."
Ricardo Calil conta que a proposta do documentário é tentar transmitir a experiência daquele momento. Uma noite em 67 contextualiza a cena em que Sérgio Ricardo quebra o violão depois de defender a música "Beto bom de bola". "A gente usou os seis minutos inteiros em que ele foi vaiado antes desse gesto, para que as pessoas hoje possam sentir a hostilidade, a irracionalidade das vaias e a angústia do Sérgio", resume Calil.
Além da
s músicas e cenas de bastidores, o documentário traz depoimentos dos protagonistas daquela noite em São Paulo. Além dos cantores que competiam no festival, os diretores entrevistaram o produtor Solano Ribeiro, o crítico Zuza Homem de Melo - que na época era técnico de som - e o escritor Sérgio Cabral, um dos jurados.
Uma noite em 67 apresenta revelações surpreendentes, segundo Ricardo Calil, como Caetano Veloso dizendo que ficou marcado demais pela música "Alegria alegria". Já Chico Buarque confidencia que, com a explosão do tropicalismo, se sentiu sozinho, aos 23 anos. "Porque foi tachado de velho e conservador."

Foi diante de uma plateia fervorosa - disposta a aplaudir ou vaiar com igual intensidade - que alguns desses artistas fundamentais para a música brasileira competiram naquela noite em 1967. Para entender as reações do público, explica Calil, é preciso conhecer o contexto histórico da época. Durante a ditadura militar, os brasileiros encontravam na música uma maneira de extravasar sentimentos muitos fortes. E o público adotava artistas para reforçar ou renegar suas visões de mundo. "A música era um espelho do país: das divisões, das tensões e da política. E isso levou a manifestações extremas, tanto na consagração dos artistas quanto nas vaias."
http://www.youtube.com/watch?v=Mpx1IVcnywM

Por Laer Passerini

12 comentários:

Soninha disse...
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Soninha disse...

Olá, Laer!

Agradeço-lhe por nos trazer um pedaço de nossa história, através do texto que nos enviou por e-mail, a todos nós do grupo.
Isto é São Paulo, com suas infinitas histórias e palco de momentos de vanguarda, indescritiveis.
Sampa registrou mais este segmento maravilhoso. De rebeldia em favor da democracia...de modernidade com ritmos revolucionários...com tudo o que pudemos testemunhar em mais esta faceta da história da música brasileira.
Estes fatos moldaram muitos caráteres, disto podemos ter certeza...formou-se opiniões, mudou-se procedimentos, modos de viver, de pensar, de falar, etc...
Muito boa esta sua lembrança.
Parabéns por seu trabalho de pesquisa e pelas indicações nos links.
Valeu!
Obrigada.
Muita paz!

Luiz Saidenberg disse...

Belo relato, Laer, sobre um notável fime- bem, ainda não vi, mas tenho as melhores referências. Além de fortes lembranças dessa época, e das agitadas cenas do festival. Parece-me ali um limite: a música popular brasileira, que havia brilhado com seus sambas canção e bossa nova anteriores, atingia seu ápice, em virtude mesmo da exaltação dos ânimos reprimidos. E não sou passadista, mas creio que dali em diante nunca mais atingiu tal nível de qualidade. Abraços.

Modesto disse...

Tive a felicidade de assistir e testemunhar aquela inesquecível noite, Laer e vc descreve rigorosamente fiel a efeméride. Realmente quem, como nós teve esta chance, irá recordar tudo, principalmente o violão espatifado e jogado em cima da plateia. Bem lembrado, Passerini, parabéns.

Miguel S. G. Chammas disse...

21/10/1967 neste tia eu estava completando 6 meses e 6 dias do meu enlace matrimonial e assistir o final do Festival da Record foi para mim um feito memorável.
Outros festivais vieram , mas este foi marcante.
Obrigado pela lembrança.

MLopomo disse...

A Bernadete tinha razão. O violão foi quebrado no banquinho.Eu achava que tinha sido no piano.

Bernadete disse...

Laer, foi uma época de grandes mudanças e muito descontentamento com o regime político. Jornais e meios de comunicação foram calados, mas nós, juntos com esses artistas, protestávamos através da música. Quer coisa mais bonita?
Parabéns pelo texto de uma época que não quer calar.
Um abraço

Nelson de Assis disse...

São Paulo sempre foi a vanguarda das ações culturais no Brasil. Os festivais da Record e da extinta TV Excélcior, afinaram o tom dos novos movimentos musicais e com o surgimento de novos valores do nosso cancioneiro popular.
Gil, Caetano, Bethania, Gal, Os Mutantes, Vandré, Edu e até o próprio
Sergio Ricardo que contribuiu para a antologia do momento, que eu caracterizo como uma suíte do 'Quebra-Viola', em analogia à Tchaikovisck.
Felizes lembranças dos anos 60's.

Luiz Saidenberg disse...

Agora sim, assisti o filme.É mesmo muito bom,e emocionante. Dá para reviver bem essa histórica noite, de tantos, tantos anos atrás.

Arthur Miranda disse...

Não assisti o Filme, mas assisti o Festival e me lembro perfeitamente do mesmo como se fosse hoje, No dia seguinte o Jornal sensacionalista da época(NP) saiu com a seguinte manchete: VIOLADA NO AUDITÓRIO. Parabéns Laer.

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Laer, me lembro muito bem da cena da quebra do violão, o apresentador era o Blota Junior mas, a meu ver a platéia deu uma demonstração de má educação e falta de respeito ao artista, parabéns pela lembrança, abraços, Nelinho.

Zeca disse...

Laer,
seu texto nos faz reviver uma época tão conturbada politica e socialmente, mas tão rica em termos de música! Os compositores se esmeravam em driblar a rígida (e extremamente burra!) censura, com criatividade jamais igualada, letras que expressavam a angústia e a revolta que não se podia externar.
Lembro perfeitamente do impacto que essa noite causou! E, coincidentemente, dias atrás pude assistir num programa de televisão uma entrevista com o Renato Terra e o Ricardo Calil, com a participação do Zuza e de uma mulher, cujo nome não recordo agora, mas que foi participante ativissima de todos os festivais que só tinham razão de ser naquela época. Preciso ver esse filme!
Obrigado pelo belíssimo texto!
Abraço.