segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Praça Marechal Deodoro

Tenho várias lembranças da Praça Marechal Deodoro, em diversas épocas. Mas nenhuma de períodos mais recentes, quando ela virou um ocasional lugar de passagem. Nem sempre foi assim. Vejo-a como um ponto central, o coração da difusa região, uma colcha de retalhos de Santa Cecília, Higienópolis, Barra Funda e até Perdizes.
Ali, no seu complexo monumento ao Marechal, morre a Av. São João. Vem-me um conjunto de flashes desconexos, diurnos e noturnos dali. Não saberia encaixá-los todos, como um quebra-cabeça. Só me resta focalizá-los como numa lanterna mágica: surgem durante um instante da escuridão e len

tamente se apagam.
Pois foi, justamente, algo assim que vi certa vez num daqueles quarteirões, quase na esquina da Albuquerque Lins, no lado Barra Funda da praça. Num terreno estreito e escuro, abrigando alguns jogos e diversões.
Não me lembro dos outros, mas certamente de um aparelho, aparentado com a primitiva lanterna mágica. Um kinescópio, talvez?
Um cilindro vertical, ancorado no chão: punha-se uma moeda e, olhando-se pelo visor, uma cena, pequeno filme em preto e branco, animava-se lá dentro. Coisa que mais parecia ligada não ao século passado, mas ao retrasado, tempo dos irmãos Lumiére.
Na esquina da Albuquerque, a Padaria Palmeiras. Existe até hoje, mas não sei se fazem as maravilhosas empadinhas de palmito com que íamos nos deliciar.
Na esquina oposta, uma pequena drogaria, ou perfumaria, tendo na vitrine uma miniatura da Vênus de Milo, exibia na parede a parábola ilustrada dos dois burrinhos que, puxando em direções opostas, não
conseguiam mover a carroça do lugar, até que unem seus esforços...
Passemos à praça. Outra estátua, bem mais simpática, entre as árvores e bancos, depois da Av. Angélica; um índio, numa prova de força com um tamanduá. A praça era muito tranquila e agradável, mesmo à noite. Encarando a lateral do tamanduá, o confortável Cine Plaza, que fui umas poucas vezes.
À noite, entra um cordão de Carnaval: o povo apinhado nas calçadas e lá vem o bloco, com seus truculentos abre-alas. “Ô abre alas, que eu quero passar!” Junto às paredes, bancas vendiam confete, serpentina e grotescas máscaras de papel machê, com fálicos narigões.
Mais abaixo, todo domingo tinha espetáculo no Circo Piolim. Lá vinha ele, imenso colarinho branco sobre o fraque, nariz de bola e um bengalão. Estava sempre em conflito com o autoritário Tony, o palhaço branco, símbolo do poder e da disciplina. Certa vez, numa pantomima, Piolim “morria”. Para reaparecer como um fantasma, sob um lençol branco. Confesso que fiquei apavorado!
Numa outra época, o lugar do circo é agora um descampado.
Na sua orla, esquina com Lopes de Oliveira, uma grande loja de plantas e vasos. Na quadra anterior, uma loja expunha suas Mercedes Benz e eu já as admirava por suas linhas sóbrias e elegantes, ao contrário dos espalhafatosos carros americanos.

Por ali ficava a Pizzaria Solar, em que fizemos nossa modesta despedida do colegial.
E a Casa Whisky? Como pudemos deixá-la de lado? Falha nossa, mas não sei por que, jamais provei seus famosos sorvetes.
A praça se afunila, está chegando a seu final. Logo à esquerda, quase no final da Gabriel dos Santos, ficava o Colégio de Aplicação, onde estudei. Hoje é outro estabelecimento de ensino, mas a estrutura é idêntica.
Pegado a ele, ficava o magnífico Cine Santa Cecília, que resistiu até o início dos anos sessenta. A Av. Olímpio da Silveira segue, em largas passadas, direção à Água Branca.
Um Minhocão passou por cima de todas essas lembranças, e a praça nunca mais seria a mesma. Nem a cidade.

Por Luiz Saidenberg.

9 comentários:

Arthur Miranda disse...

Obrigado Simões, por me levar de volta ao passado,nessa sua maravilhosa narrativa. Valeu mesmo voltei a vêr a velha Praça Mal. Deodoro sem o minhocão que apagou a Praça, e de sobremesa o querido circo Piolim do querido Abelardo Pinto e seu companheiro Tony (meu amigo) que as vezes entrava no lugar do grande Pinatti, que por anos formou a dupla com o Piolim, Parabéns, parabéns e parabéns.

Soninha disse...

Olá, Luiz!

Ler os textos, aqui no blog, ajuda-nos a conhecer melhor a São Paulo de ontem e de hoje.
Os detalhes são preciosíssimos, para mim...
Fico encantada com a memória de vocês. Eu não consigo lembrar de nomes ou sobrenomes...
Mas, mudando um pouco, você sabe que no museu da língua portuhuesa tem um cinescópio? Usado para mostrar matérias sobre a língua portuguesa, óbvio, mas, muito interessante por conta da técnica de outrora...muito legal!
Valeu, Luiz, por sua narrativa, rica em detalhes.
Obrigada.
Muita paz!

Zeca disse...

Ei, Luiz!

Parabéns por mais esta bela crônica relembrando lugares amados em "nossa" amada cidade. Eu não tenho muitas lembranças da praça, antes do Minhocão, por ter sido, para mim, sempre um lugar de passagem, como você diz no início do texto. Mas a sua narrativa me levou de volta ao passado e às lembranças do saudoso Piolim, que tantas vezes me fez rir com suas palhaçadas.

Abraço.

Miguel S. G. Chammas disse...

Luiz, o preciosismo de suas lembranças registrado como se poema fosse, me levou, novamente, ao local ,rememorado.
Gargalhei como gargalhava há decadas atrás com o Piolim e o Pinatti.
Era esse circo programa obrigatório de todos os domingos.
A vntade de um sorvete (um só???) da casa Whisky encheu-me a boca dágua.
A tristeza do minhocão cruzando a praça me causou a mesma aflição de sempre.
Parabéns!

Laruccia disse...

Seus comentários a respeito de praças e ruas que ainda existem mas, que já perderam o encanto do tempo de nossa mocidade, nos transporta pra uma época sentimental e feliz, ao mesmo tempo pois, tudo que se relaciona com juventude tem sempre um sabor de beleza. O lugar é o mesmo porém nos envelhecemos. Parabéns, Luiz.

Bernadete disse...

Saidenberg,apesar de paulistana, pouco conheci do centro e outros bairros adjacentes. Coisas de um pai muito severo. Através de textos como o seu, tenho a oportunidade de saber, quanta coisa bonita eu perdi sobre minha cidade.
Parabéns

Nelson de Assis disse...

Pois é, Lopomo.
Em minha crônica 'Cicatrizes de Uma Saudade', eu também me entristeço com a 'violência' das transformações da modernidade concretada e as desfigurações de locais que marcaram o nosso passado e, que ainda vivem em nossas lembranças.
Pena que tenhamos de conviver com o abstrato dos estáticos pilares dos 'minhocões' e que muitas das antigas referências tenha sido cedidas para novos e desnecessários espaços.

Nelson de Assis disse...

Perdoe-me, Luiz.
Indenfiquei-o como Lopomo (nosso grande amigo e autor primoroso) em
meu comentário.
'Desculpe a 'minha' falha...' rsrsss

Abraços

Nelson

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Luiz, a velha Marechal Deodoro, da casa mal assombrada da esquina com a Rua Apa, bons tempos, abraços, Nelinho.