terça-feira, 10 de agosto de 2010

A nossa turma é boa, boa, boa, boa

A nossa turma é boa. Boa, boa, boa.
E é da Freguesia. IA, IA, IA.
Rá Tchim bum, Paulista, Paulista, Paulista.

Era assim cantando, que comemorávamos nossas idas e vindas aos campinhos de futebol daquele gostoso futebol varzeano disputados
nas periferias de São Paulo, aos domingos em cima de um velho caminhão chevrolet tigre.
Se ganhávamos, para comemorar vínhamos no mesmo caminhão cantando, alegres, o resultado do Jogo, ligado a um deboche aos adversários (ELES VIERAM DE TREM DE FERRO PARA PERDER DE TRES A ZERO). Adversários que, na maioria das vezes, eram também conhecidos e moradores dos mesmos bairros (a rivalidade era só durante o jogo). No término do mesmo a amizade permanecia.
E assim, na carroceria do caminhão, íamos para Pirituba, Itaberaba, Brasilândia, Lapa, Moinho Velho, Piquerí, Vila Anastácio, Água Branca, Vila Pereira Barreto, Itaiaú, Vila Penteado, Cachoeirinha, Limão, Vila
Palmeiras, Casa Verde e, às vezes, até Pinheiros (o que na época, antes das marginais Tietê e Pinheiros, era uma aventura muito louca).
Meus companheiros e eu, alguns ótimos jogadores e craques de bola, como o Raimundo, o Décio Mosquito, o Tonéca, Wilson Galão, o Hildo Bertucci, o Zelito Simões, o Pedrinho Faragello, o Darcy Simões, o Alfredo Siqueira, filho do velho Elízio, Profissional do São Paulo F C em 1948 a 1950.
Essa era nossa turma do C.A. Paulista.

Havia, também, grandes jogadores em outros times da Região, como o XXV de Agosto, o Sete de Setembro, o Az de Ouro, o Botafogo, o Clipper, o Corinthians da Vila Palmeiras e os famosos Times da Cifa e do Cruzeiro.
Havia competição e campeonatos, a Várzea era um celeiro de grandes jogadores, mas, pelo menos de lá da Freguesia, não saíram muitos craques, não. A maioria jogava bem, mas apenas por gostar de uma pelada domingueira; Muitos viraram engenheiros, artistas, advogados e acredito que a maioria tornou-se empresários, contadores e funcionários públicos.
Na época, era muito difícil estudar na Freguesia do Ó. Só havia o Grupo Escolar, com o
primário até o 4ª ano de ensino gratuito, e só a partir de 1952 é que era possível fazer o ginásio, sem precisar sair do bairro; Assim mesmo, em uma escola particular (Gitema), onde só podia estudar pagando a mensalidade. E isso, é claro, era algo vetado aos menos favorecidos.

Hoje em dia, ao caminhar por São Paulo, passando por grandes avenidas e viadutos imensos, me vem na lembrança tudo aquilo sem asfalto.. No lugar do cimento armado, velhas pontes de madeira. Caminho por aqueles lugares, onde outrora eu andei, em terra e em barro quando chovia. Me dá tremenda saudades da minha antiga Freguesia, onde outrora todos se falavam e todos se conheciam.
Então, penso que ouço bem longe, naquele caminhãozinho, os meus amigos bem jovens e todos cantando com todo entusiasmo do mundo:

A NOSSA TURMA É BOA, BOA, BOA, BOA.
E É DA FREGUESIA, IA, IA, IA.
RÁ, TCHIM, BUM, PAULISTA, PAULISTA, PAULISTA.

Por Arthur Miranda (tutu)

7 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Bela narração, Tutu. Os bons tempos de quando haviam times de várzea, e existiam várzeas....elas ainda existem, mas cada vez mais distantes, pois tomadas foram por asfalto e cimento. Assisti, certa vez, uma partida com uma amigo de Vila Palmeiras, como relatei. E devia ser o Corinthians de lá. Abração.

Soninha disse...

Olá, Arthur!

Que texto delicioso de se ler.
Nos remete à infância distante, quando íamos ao campinho para assistir meu irmão e primos jogarem as peladas...
Tinh, até, torcida organizada, com pompons de papel, feitos pelas meninas. Era uma festa.
Bons tempos! E você nos proporcionou estas deliciosas lembranças infantis.
Valeu, Arthur!
Obrigada.
Muita paz!

Zeca disse...

Olá, Arthur!
Que crônica deliciosa para iniciar uma nova semana com um sorriso nos olhos e boas lembranças no coração!
Realmente, em meados do século passado (isso soa tão distante, não?), sem as artérias que rasgam a cidade de norte a sul, leste a oeste, uma ida a um bairro hoje tão próximo, era uma grande aventura, às vezes uma verdadeira viagem. E aquelas longas caminhadas por ruas de terra (pó intenso na estiagem e lamacento nas chuvas), que tanto nos incomodavam, acabaram virando hoje, saudades de um tempo que a nós, parece mais romântico, mais ingênuo, e que sabemos, não voltará jamais!
Paulista, Paulista, Paulista!!!

Abraço.

Modesto disse...

Futebol na varzea, que delícia de passa-tempo, Tutu. Vc diz que de lá, na Freguzia não surgiu craques de "ponta" mas, é esta mesma a atração maior, do futebol praticado por jovens realmente interessados em não perder, com sua limitada habilidade, dá tudo de seu na disputa da pelota.
Sua narrativa traz recordações bem familiares a todos que conheciam "o outro lado do Tiete". Muito bem elaborada, parágrafos enchutos e bem posicionados. Parabéns, Arthur.

Miguel S. G. Chammas disse...

Arthur, isso não se faz...
Nem bem me refaço de um ataque de saudades e você vem com outra lembrnça atormentar meu pobre coração.
Ai que saudades do Rubro Negro da Bela Vista. Eu nunca fui de jogar bola (nem mesmo sendo dono dela) mas fui dirigente e torcedor emblemático.
Vamos parar por aqui caso contrário vou acabar chorando....

Nelson de Assis disse...

E ainda dizem que eu sou saudosista.
Pois, sou sim e, cada lance de sua bela crônica, remeteu-me às saudades
da ponte do Limão, do trem da Lapa, do ônibus Penha/Lapa, das ruas, ainda de barro, transversais da avenida Itaberaba... chega, viu!
Deixa eu remoer as minhas saudades do também meu velho 'Bixiga', que já está de bom tamanho.
Parabéns pela crônica e pelas saudades.

Bernadete disse...

Arthur,esses campos de várzea que fizeram a alegria da garotada do nosso tempo, foram engolidos pelo crescimento da cidade, mas ficarão para sempre nas nossas lembranças.
Hoje o canto das torcidas são diferentes,usam um linguajar chulo e mais voltado para a violência.
Uma gostosa lembrança.
Um abraço