terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Ipiranga e eu

Quando pequeno, embora meu pai fosse ateu e minha mãe católica não praticante, eu frequentava a Igreja Católica, levado por uma tia, que há muito tempo já não está mais entre nós. Ela morava em Guarulhos, mas todos os anos, no mês de março, me levava à Igreja de São José no Ipiranga, onde era realizada a festa do santo que me deu seu primeiro nome. Como eu sempre fui um menino alegre e simpático, logo me tornei querido pelos padres e corria pelos corredores do Seminário Maior que havia ao lado da Igreja. É que os padres dali eram da Congregação de Sion, que mantinham seu Noviciado em Guarulhos e eram os responsáveis pela Igreja de Santo Antonio, em Gopoúva, o bairro onde nasci e onde minha tia morou sua vida inteira.
O Seminário Maior e a Igreja de São José ficam de frente para a Rua Brigadeiro Jordão, mas o terreno se limitava também com a Cisplatina, Agostinho Gomes e Lino Coutinho, a uma quadra do Museu do Ipiranga. Eu gostava demais desse passeio e quando voltamos a morar em Gopoúva, eu acabei indo para o Seminário Menor, que eles mantinham em São Sebastião do Paraíso, e
m Minas Gerais. Acabei não me tornando padre e, depois de moço, também deixei de ser um católico praticante, procurando outros caminhos... mas isso é uma outra história.
Passei os primeiros anos de minha adolescência, mesmo após ter deixado o seminário em Minas Gerais, frequentando o Seminário do Ipiranga, devido à minha amizade com os padres e às minhas atribuições na Igreja de Santo Antônio, em Gopoúva, onde fui coroinha, cruzado, congregado mariano, professor de catecismo, participante do coral e um dos organizadores das quadrilhas que se apresentavam nas quermesses juninas.
A Igreja de São José possuía belíssimas telas, realizadas pelo artista Oscar Pereira da Silva e possuía um órgão cujos tubos eram uma preciosidade de origem francesa.
No prédio do Seminário Maior também havia belas pinturas e a que mais me impressionava era um painel belíssimo feito em trompe l’oeil, no salão de refeições. Lembro que ficava fascinado com aquela pintura cujas figuras pareciam ter relevo e que iriam sair da parede a qualquer momento.
Acred
ito que esse salão tenha tido grande influência em meu gosto por arte, pois aquela pintura funcionava como um ímã para mim e eu não via a hora de chegar o momento das refeições, não pela fome, mas para poder me perder em seus detalhes. Lembro que, enquanto fazíamos nossas refeições, um dos irmãos lia um trecho do evangelho, mas eu nunca prestei a menor atenção à leitura... ficava admirando, embasbacado, aquela belíssima pintura! Não sei se ela ainda existe, pois me parece que hoje, no prédio, funciona uma faculdade.
Também costumava passear um pouco por aquele bairro que sempre me fascinou, pelas ruas tranquilas, com casarões opulentos, como o Palacete Rosa, da família Jafett e o maravilhoso conjunto formado pelo Parque da Independência, composto pelo Museu Paulista, construído em estilo neoclássico e seus jardins, que possuem o estilo barroco dos palácios franceses, como o de Versailles.
Isso tudo ficou para trás, lá pelos idos da década de 60, onde
um adolescente tinha a facilidade de andar sozinho pelas ruas de um bairro onde ninguém o conhecia, mas, também, onde ninguém o incomodaria.
Hoje, sei que o Ipiranga, de tantas boas recordações, é movimentadíssimo, com efervescente vida universitária, ligação entre vários bairros de São Paulo, que perdeu aquela tranquilidade das tardes em que eu percorria suas ruas admirando seus casarões ou perambulando pelos jardins do museu. Os padres de Sion, sei que ainda continuam lá, tocando a paróquia de São José, mas o seminário, com sua pintura que me fascinava é usado para outros fins, sem aquela tranquilidade silenciosa de seus corredores e de suas muitas salas.

Por Zeca Paes Guedes

8 comentários:

Soninha disse...

Olá, Zeca!

Ipiranga também me traz doces recordações. Bairro vizinho à Vila Prudente, onde nasci...
Íamos sempre ao parque da Independência e ao Museu Paulista...Passávamos tardes deliciosas...
Eu também gostava das ruas onde o comércio era intenso e onde achávamos de tudo, sem precisar ir ao centro da cidade.
Gosto da região onde estão as faculdades, também...Com seus prédios antigos e bem conservados, verdadeiros patrimônios arquitetônicos, contando um pouco de nossa história.
Valeu, Zeca!
Obrigada.
Muita paz!

Miguel S. G. Chammas disse...

Zecamigaço, teu texto sempre muito claro e lúcido. Não nos exige qualquer esforço para ler e compreender.
O Bairro do Ipiranga também está muito ligado a minha juventude. Ali, quando office-boy, eu ia entregar as faturas e demais documentos para as fábricas de meias lá instaladas.
Chegava lá com o bonde, batia suas ruas à pé e voltava para o centro com outro bonde.
Naz Igreja de São José, por não exigir cursos para padrinhos, eu batizei vários afilhados.
E. imagina, na última sexta-feira, na esquina da Rua Bom Pastor com a Rua Brigadeiro Jordão, eu e mais 25autores de Sampa, tivemos uma noitada espetacular no Centro Cultural do Tango.
Pena voce não ter podido ir.
Sei que outras noitadas virão e que poderemos contar com sua agradavel presença.

Bernadete disse...

Zeca, meu marido também foi seminarista por 5 anos, lá em Aparecida do Norte.
Ler seu texto, é como se estivesse ouvindo as estórias que ele me conta,do período em que lá viveu. Principalmente no gosto pela arte e música erudita.
Quanto ao bairro do Ipiranga, preciso voltar qualquer dia para rever, pois estou há muito tempo afastada de Sampa.
Um abraço

Arthur Miranda disse...

Zeca, também conheci vários padres do Sion,(cujo o carisma era voltado para a conversão de Judeus ao Cristianismo). Eles mantinham um Seminário menor também em Ponta Grossa - Pr. Onde eu conheci alguns Padres, muitos dos quais hoje em dia deixaram a congregação e tornaram-se Diocesanos.
Parabéns, gostei de saber que você foi seminarista, eu também,porem fui Diocesano em São Vicente-SP.

Modesto disse...

Um maravilhoso passeio pelo bairro hist[orico, Guedes, onde se destaca seus conhecimentos litúrgicos, tratados com o devido respeito. Quem teve a experiência de frequentar um seminário, está munido de farto material interessante pra nos contar. Tenho dois sobrinhos, (hoje são professores) que foram seminaristas até pouco antes de se ordenarem. Suas descrições das ruas do bairro, deixam a certeza de uma memória privilegiada. Parabéns, Zeca.

Nelson de Assis disse...

Zeca Guedes.
O bairro do Ipiranga também envolveu a minha infância paulista e o famoso Museu da Independência fez parte de meu aprendizado em nossa história brasileira.
A religiosidade do bairro sempre foi um panorama constante da liturgia paulistana e contribuiu para a educação religiosa de nossa cidade.
Abraços

Anônimo disse...

Zeca, eu sou suspeito para falar do Ipiranga pois eu nascí neste maravilhoso bairro, a minha família inteira frequentou a Igreja de São José (onde eu fui coroínha, congregado mariano e até participei de encontro de casais), tudo aquí no Ipiranga é sensacional e mantive bom relacionamento com os párocos da Igreja, parabéns por ter chacoalhado a minha memória, um grande abraço, Leonello Tesser (Nelinho).

Luiz Saidenberg disse...

Belo bairro, magníficamente descrito. Vale a pena ser visto e revisto, principalmente depois de uns chopes no Bar do Nico, ali perto do Museu de Zoologia. Abraços.