quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Memórias sessentivas

Anos 60, eu estava no auge da minha curtição de boemia. As noites eram todas muito bem aproveitadas e os dias, mesmo quando totalmente estafado, eram de muito trabalho. Fui educado pelo Sr. Alfredo e por D. Terezinha que o trabalho é sagrado e não aceita negligências. Então, por mais que o retorno à casa, todas as noites, viesse ocorrer depois das quatro horas da matina, às sete eu tinha de estar desperto para dar continuidade à labuta do dia a dia.

Para melhor adaptação da minha vida agitada, busquei trabalhar com algo que me desse espaço para alguns momentos de descanso ao longo do expediente. Assim, candidatei-me e fui aceito na firma Auto Asbestos (Baterias Durex), cujos escritórios estavam localizados na Rua Dr. Ricardo Batista (Bixiga City), a uma quadra e meia do 307 da Rua Major Diogo, onde eu residia. Fui admitido no setor de Crédito e Cobrança para exercer as funções de "informante". Assim, no inÍcio do expediente, recebia, juntamente com o Oswaldinho, outro informante do setor, as fichas a serem preenchidas com informações comercias.

Saíamos, então, para desempenhar nossas tarefas. Lógico que, rapidamente, aprendi os macetes do cargo. Então, de posse das fichas, fazia um tour pela cidade visitando empresas tais como Mesbla, Isnard, Banco do Brasil, Sanbra e outras que se prestavam a atender os coitados dos informantes comerciais. Com elas deixava as fichas de pesquisa para serem preenchidas e devolvidas no dia seguinte e retirava as fichas deixadas no dia anterior.

Pronto, antes das onze horas da manhã, minha tarefa principal estava concluída. Cônscio do dever cumprido, voltava para casa onde, depois de almoçar, eu me deixava cair no sofá da sala e me permitia tirar uma soneca de 2 ou 3 horas e, assi
m, recuperava minhas forças para as atividades boêmias. Por volta das 17 horas, saía de casa e com a maior cara de pau, aparentando o maior cansaço, entrava nos escritórios para entregar o resultado do dia anterior. Fazia algumas coisinhas por ali e às 18h voltava para casa, descansava a carcaça por mais umas duas horinhas, levantava, tomava banho e, depois de vestido e perfumado, com algumas borrifadas do velho Lancaster argentino, voltava para minhas atividades noturnas nos cabarés e inferninhos da Boca do Lixo.

Quando me demiti da Auto Asbestos, fui trabalhar no setor comercial da Armações de Aço Probel, instalado no primeiro andar do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Ali, já totalmente tarimbado, continuei a desempenhar a mesma rotina anteriormente praticada na Auto Asbestos. Ao lado da Probel, no mesmo Conjunto Nacional, estavam instalados os Salões de Festas do Fasano onde, nas temporadas de bailes de formatura, eu frequentava quase todas as noites. Por ser obrigatório o uso de trajes a rigor nesses bailes, todas as manhãs eu entrava na empresa totalmente trajado com as roupas do baile e só depois ia desvestir quando da minha saída para buscar informações. Era o funcionário mais bem trajado da empresa. Foram tempos de muita alegria e danças.

Por Miguel Chammas

7 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Belas recordções, Miguel. Vc era um dos Dez Mais, graças à sua atividade boêmia, e imagino a cara do patrão ao vê-lo entrar, vestido à Princípe Danilo !
Minha juventude foi bem diversa; nunca fui bom de dança e meus romances ocorriam como os ataques de um lobo solitário, mas tb sempre bem vestido, pois o hábito faz o monge. Mesmo em pele de lobo !
Abraços.

Soninha disse...

Oie...
Não sei se rio, se lamento, se lhe puxo as orelhas...
Ainda bem que foi há muito tempo e posso compreender a irresponsabilidade da juventude e o descompromisso dos jovens.
Aprendeu a lição?
Não faça isso nunca mais...mesmo porque, não ficaria bem, um senhor idoso fazer estas traquinagens, né! rss
Valeu!
Muita paz! Beijosssssss

Zeca disse...

Êêê, Miguel!
Colocando a descoberto alguns segredinhos, hein? Muito boas suas artimanhas, tão boas que jamais foram descobertas!
Eu não fui propriamente boêmio, mas quando bem jovem trabalhava na Pfizer, na Via Dutra e não perdia os bailes de formatura que aconteciam durante o primeiro trimestre de cada ano. Assim, quando havia bailes, eu e meus colegas de trabalho éramos os últimos a sair, pois era o tempo certo para um pingado e um pão com manteiga em alguma padaria e ir até o ponto mais próximo do ônibus da empresa. E íamos trabalhar como o "Bloco dos Elegantes"; todos de smoking completo! O difícil era enfrentar a dura jornada de trabalho para, só quando chegássemos a nossas casas, cairmos em nossas camas e dormirmos até o próximo dia... deliciosas lembranças, graças ao seu saboroso texto. Parabéns!
Abração.

Bernadete disse...

Miguel, além de um grande pe-de-valsa, eras também um tremendo malandrinho hein?
Gostei demais de suas "Memórias Sessentivas".
Um abração

Arthur Miranda disse...

Miguel, em minha juventude eu jamais fui boemio, casas e vida noturnas eu só conheci depois dos meus 26 anos, quando passei a trabalhar em teatros e casas noturnas.
Orfão de pai aos 6 anos eu vive para ajudar minha mãe, que era analfabeta,e dava um duro como cozinheira e merendeira de uma Escola Estadual e dava um duro danado, para sustentar eu e duas irmãs mais velhas. Parabéns pela narrativa dessa preciosa historia, e a Soninha tem razão em puxar suas orelhas. kkkk

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Miguel, qualquer semelhança com outros boêmios é mera concicidência! soneca à tarde para recompor energias visando o baile da noite porém tranquilo quanto ao dever cumprido, parabéns pelo texto,abraços, Leonello (Nelinho).

Laruccia disse...

Miguel, seu "curriculun" como funcionário exemplar dava, no máximo, chefeta do dpto. pessoal, hoje, RH. Texto gostoso de se ler, sem nenhum preconceito. Parabéns.