sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Debaixo da escada da sala

Ah, dona Sonia, não sei mexer nesse troço, não! Assim se justificava a Josi, auxiliar doméstica, em meu primeiros tempos de casada, nos idos de 1977, quando morei na Rua Orfanato, na Vila Prudente.
Parece piada, mas, foi verdade o acontecido.
Josicleide, ou simplesmente Josi, como gostava de ser chamada, era uma destas pessoas muito simples, vinda do nordeste do Brasil para São
Paulo, tentar uma vida melhor, com trabalho honesto. Sem instrução escolar alguma (mal sabia escrever seu próprio nome e sabia os números), já com idade madura, obviamente se prestou aos serviços domésticos, função que desempenhava muito bem, pois era limpa e organizada.
Mas, quando o assunto era telefone, ela entrava em pânico. Tinha medo de chegar perto do aparelho. Chegava até a chorar, caso eu insistisse para ela atender.
Naquela época eu ainda lecionava e tinha de sair em determinados horários, deixando Josi em casa, trabalhando solícita.
- Josi, se o telefone tocar, atenda, por favor e lembre-se dos recados.
- Deus me livre, dona Sonia, desconjuro, valha-me Deus.
- Deixe disso, Josi. Você precisa vencer este medo e aprender a atender ao telefone. Você verá como sua vida vai mudar. Encurtam-se distâncias com ele. Ficamos pertinho das pessoas, me
smo quando elas estão bem longe.
Com muita insistência de minha parte e com muita paciência, fui demovendo este bloqueio de Josi. Após alguns meses, ela, até, atendia quando o ap
arelho tocava...ficava ouvindo, sem nada dizer. Só balançava a cabeça, concordando ou discordando, como se estivesse conversando pessoalmente.
Eu insistia para ela falar, pois a outra pessoa não a estava vendo.
- Josi, diga alo....diga de onde está falando...
- Como é que faz, dona Sonia?

- O telefone toca, você atende e diz alo. A pessoa do outro lado, provavelmente, dirá alo e perguntará de onde fala. Então você responde que é daqui de casa. Tem que falar de onde está falando, entendeu?
- Entendi.
Neste instante, o telefone toca.
- Atenda, Josi.
- Sim, senhora.
Alo. Alo. De onde falam?
E, Josi, corajosamente responde: Debaixo da escada da sala.
O telefone ficava sobre a mesinha console, bem debaixo da escada da sala

de estar e ela não se fez de rogada...respondeu com exatidão.
Depois de muito rir, fui em seu auxílio e atendi ao telefone.
Claro que, depois, lhe expliquei a forma correta de atender.
Realmente, a vida de Josi mudou. E a minha também, com a conta de telefone bem gorda, pelas muitas ligações que Josi passou a fazer para seus familiares.

Por Sonia Astrauskas

8 comentários:

Arthur Miranda disse...

Sonia, pelo visto você arrumou sarna para se coçar, brincadeira, hem!
Gostei da historia, que deveria terminar assim:
Moral da historia. Não permita que sua auxiliar domestica aprenda a telefonar, ou de a ela um celular pré pago assim que a mesma for contratada.kkkkkkkkk

Bernadete disse...

Soninha, muito hilário seu texto. Também tive uma auxiliar analfabeta, mas só descobri isso muito tempo depois. Ela sempre me repassava o nome de quem havia ligado, mas nunca anotava qualquer recado. Tinha medo de perder emprego. Por sinal trabalhou aqui em casa por 23 anos. Era muito querida por todos. Acho que tive sorte.
Um abração e bom final de semana.

Luiz Saidenberg disse...

Muito gozado, Soninha. Pois é, acho que era melhor quando ela tinha medo e não falava.
Se fosse em Portugal, ela teria de responder: -está cá! E repetiria-debaixo da escada, pois, pois!
Abraços.

Modesto disse...

Sonia, vc. lembrou o ocorrido com amigo nosso que, na mesma época contratou uma doméstica com o mesmo problema: não conhecia telefone. Um dia, a família estava jaantando e ouviram a doméstica, aos berros, "...é da casa do sr. Antonio, por que vc não responde?, (e a campainha do telefone, contimuava chamando), quando chegaram pra ver o que tinha acontecido, viram a Etelvina berrando para o aparelho, sem tirar o mesmo do gancho. Texto cativante, Sonia, parabéns.

Nelson de Assis disse...

Coitada da Josicleide (nome perfeitamente nordestino e das bandas do interior da Bahia).
Apesar de os 'tabaréus' (caipiras no popular) estarem mais 'antenados' com as 'modernagens' (celulares, motos e internet já são uma realidade aqui no sertão), ainda se encontra, mundo afora, algumas simplórias personagens iguais a Josi.
Me diverti bastante.
Abraços.

Zeca disse...

Sonia,

seu texto chega a ser hilário! Pena que no final, você tenha "ficado com a conta" dos telefonemas dados por ela.
Se fossemos listar as coisas que as nossas queridas auxiliares domésticas já aprontaram, poderiamos escrever um livro - ou mais.
Eu tive uma que, entre tantos outros foras, chegou a dizer que "o seu José mandou dizer que não está em casa e que é para o senhor deixar recado".

Abraço.

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Sonia, acho que este problema de atender telefone não é só de pessoas analfabetas, no meu trabalho já aconteceram verdadeiras barbaridades devido a falta de instrução dos funcionários, parabéns pelo texto.

Marta disse...

Parabéns pelo texto.