segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Memórias de esquisitices

Hoje lendo textos de amigos, tive a memória voando lá para o final década de 50 e resolvi escrever sobre isso.
No final dessa década, eu tinha sido admitido, por interferência do meu amigo, irmão e compadre, o finado Antonio Settani, nos escritórios da Comercial e Importadora Restinga, para substituí-lo uma vez que ele havia sido transferido para gerenciar a fábrica que estava instalada na Avenida Celso Garcia, 6.090.
Essa empresa era uma laminadora de ferro para construção que trefilava lingotes de diversas bitolas em barras de ferro 3/16¨.

Tempos depois, com a venda da empresa para o Grupo Pontal, o Toninho foi transferido para os escritórios do Grupo e eu, na cola dele, fui assumir o seu cargo de gerente da laminadora, agora batizada como Alpont. Para melhor ilustrar esta narrativa, hoje, depois de todos esses anos, depois de todas as mudanças de urbanização, no local ainda existe uma empresa do ramo, a Ferro e Aço N. S. de Fátima.
Bem, vamos deixar de digressões e voltar ao tema principal de minha narrativa. Desde muitos anos, antes de eu ser admitido na Restinga, mesmo antes do Toninho ser transferido para a Gerência da Fábrica, um funcionário já exercia, ali, as funções de mestre (hoje Gerente de Produção), seu nome, Nicola Mastropietro, conhecido popularmente como Pedro.
Conhecedor profundo de todas as mumunhas da profissão, homem de coração boníssimo, morador da Vila Ré e bastante meu amigo. Esse era o Pedro que eu conheci naquela empresa.
Almoçávamos juntos, todos os dias, numa padaria logo depois do pontilhão da Central do Brasil. Éramos verdadeiramente dois bons garfos e, na hora do almoço, não nos fazíamos de rogados, batí
amos pratos dignos de espanto.
Às vezes, nas segundas-feiras, o Pedro fazia uma surpresa e trazia para o almoço quitutes que dona Lidia, sua esposa, havia preparado no domingo. Ora era uma generosa porção de pés e rabinhos de porco, ora uma rabada, ora uma galinha ao molho pardo e coisas que tal.
Numa segunda-feira normal, quando cheguei à fábrica, o Pedro me disse com euforia: - Migué, se prepara que o almoço hoje é especial.
Assim sendo, fiquei na expectativa, à espera da hora de saborear o quitute por ele trazido. Como de costume, um pouco antes da hora da bóia, tomei um trago da pinga especial que mantinha guardada no cofre e esperei servir o almoço.
O Pedro, todo cheio de salamaleques, chegou com as marmitas já quentinhas e abriu-as. Nelas estavam o tradicional arroz, o feijão de caldo grosso e perfumado e uma carne ensopada
com batatas de aparência convidativa. Informou, então, que iríamos comer um coelho preparado com todo o capricho.
Não tive dúvidas, ataquei a comida como se fosse a última refeição da minha vida. Comemos, ele e eu, até nos fartarmos. Terminada a refeição, o Pedro levantou-se, pegou um dos compartimentos da marmita, que havia ficado até então fechadinho e, dizendo-me ser a hora da sobremesa, aproximou a marmita para bem perto e a abriu, ao mesmo tempo em que soltava estrondosa gargalhada.
Dentro dela, devidamente acondicionada, estava a cabeça do gato que transvertido de coelho nós havíamos almoçado.
No primeiro minuto levei um susto, mas depois, sopesando a delícia do almoço, aplaudi a surpresa e fiz com que ele prometesse uma nova refeição idêntica para muito em breve.
Foi mais uma das esquisitices gastronômicas que vivi em minha existência.

Por Miguel S. G. Chammas




10 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Miguel,
isto não se faz, Arnesto !
Pobre do bichano, não merecia tal gulosidade!
abraços.

Soninha disse...

Olá, amor!

Por esta e outras é que não como qualquer coisa, não.
Deus me livre.
Mais coragem do que comer, seria matar o pobre bichano, depelar e colocar na panela....ô dó!
Seus desnaturados! Hunffff!
Brincadeiras a parte, bom diz o ditado que "o que os olhos não vem, o coração (e o estômago) não sentem."
Valeu!
Muita paz! beijossssssss

Bernadete disse...

Miguel,bota esquisitice nisso!!! Se eu ainda tinha alguma dúvida, que os churrasquinhos servidos nas cercanías dos estádios de futebol, são realmentede gato, agora não tenho mais. Acho que tem quem gosta. Pobre dos gatinhos.
Um abraço

MLopomo disse...

Miguel. Para com isso PÔ. 8 horas da manhã, voce me fez ficar com fome,por varias horas. Meu almoço é das 12 as 13 horas. Quando botar essa delicias na tela, mande e-mail dizendo que tal coisa foi para o site da Soninha, assim eu vejo as outras materias e vejo a sua 11,55 minutos. Copiou?

Zeca disse...

Eita, Miguel, velhamigodopeito!

Após a leitura deste delicioso texto, lembrei que não foi só você que comeu "gato por lebre", hehehe.
Naquela mesma época, uma senhora, amiga de casa, nos convidou para o almoço de domingo, onde serviria uma coelhada. E lá fomos - toda a família - comer o coelho da Dona Maria Sapateira! Só que, para desespero da minha mãe - que ficou algum tempo agastada com ela - após o almoço ela revelou a "traquinagem" e provou, mostrando as peles dos bichanos. Minha mãe, furiosa, nos levou embora na mesma hora, jurando nunca mais conversar com a agora ex-amiga. Mas o tempo amenizou tudo e elas voltaram às boas.
Nós é que não esquecemos a brincadeira da Dona Maria, que virou "causo" contado em todas as reuniões familiares...

Abração.

Modesto disse...

Miguel, vou te contar um segredo que poucos poderiam ter "matado" a charada da "brincadeira" do Toninho. Em primeiro lugar, o nome, "Setani", origem baresa, de Polignano a Mare, província de Bari, Itália. Segundo, Setani quer dizer "sete anos"; o gato tem sete-vidas, tá na cara que era gato. Vc comeu por que quis esperimentar carne de gato.
Depois de ter lido, hoje a Myrtes fez um ensopado de língua, uma verdadeira delícia. Comi e repeti. Em casa, ninguém gosta de miudos, (moela, rins, fígado, dobradinha, miolo etc.). Eu gosto de tudo mas, gato, NÃO, é so árabe que gosta.
Gostei da sua história, Miguel, quando vc me convidar pra um almoço, quero bicho, sim mas, de cabrito pra cima. Parabéns e um abraço.

Arthur Miranda disse...

Miguel, uma vez me convidaram para comer gato, fui, não consegui comer e saí todo arranhado até hoje tenho as marcas. Nunca mais tentei comer gato, é preferível cabritas. kkkkk. Agora sério gostei da historia, parabéns

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Miguel, acho que você comeu gato por lebre, como diz o velho ditado, parabén pelo gastronômico texto, abraços, Leonello Tesser (Nelinho).

margarida disse...

Miguel, tem gosto pra tudo não é mesmo! Comeu gato por lebre e você nem percebeu, que fome a sua!
Eu já não sou de comer muita carne, e fico sempre desconfiada e na duvida como mesmo muita salada...rsrsr.
Um beijo....adorei o texto.

Nelson de Assis disse...

Habib...
Da próxima vez, feche mais a boca e abra bem os olhos para não comer 'gato por lebre' - kkkkkkkkkkkk.