terça-feira, 17 de agosto de 2010

Quase morri de susto

Tínhamos um grupo e fazíamos nossas reuniões mensais no Brooklim, Rua Américo Brasiliense, reunião onde era exigida a participação de todos os elementos.
Nesse grupo, participavam pessoas da Bahia, do Paraná, de Belo Horizonte e, para facilitar a chegada dos membros de outros Estados e garantir a presença de todos, eu e outros participantes da Capital íamos de carro apanhá-los na Rodoviária Tietê e Barra Funda, pois muitos alegavam dificuldade para chegar até o Brooklim, local do encontro, mesmo tendo como referência aquela " maravilhosa" estátua do Boba Gato.
Em 1983, estávamos todos reunidos no dia 25 de Janeiro no aniversário de São Paulo Apostolo e, também, aniversário de nossa querida Cidade, para mais uma reunião importante e também comemorarmos o próprio Aniversário do nosso grupo, fundado que foi em 25 de Janeiro de 197l.
A reunião estava demorando por falta de um único companheiro que precisava estar presente, sem falta. Afinal, era o tesoureiro e teria que fazer a obrigatória prestação de contas.

A reunião deveria começar às 09h, porém, o relógio já marcava 10h e 15min e nada do companheiro aparecer.
Desesperado, olhei para o relógio, não acreditando que o dito cujo chegaria a tempo de fazer a prestação de contas, já que a reunião iria até ao meio dia. Após o almoço, estava combinado com o grupo, um passeio ao belo e acolhedor Parque do Ibirapuera e, depois, uma ida até o Jardim Botânico.
Em vista disso, resolvi ligar para a residência do companheiro, que morava em Santana, na Rua Douto
r Zuquim.
-“Alô” ! – Atende uma voz de criança sussurrando.
-“Alô. Seu pai está?”.
- “Tá” - ainda sussurrando.
- “Posso falar com ele?”.
- “Não” – disse a criança bem baixinho.
Meio sem graça, eu tentei falar com algum outro adulto:
- “E sua mãe? Está aí.”.
“- Ta”
“-Ela pode falar comigo”?
“- Não. Ela tá ocupada”.
“- Tem mais alguém aí ?”
“- TEM” – sussurrou a criança.
“–Quem?”
“O Puliça”
“Surpreso e preocupado continuei.” – O que ele esta fazendo aí.
“Ele ta tonversando to papai, tom a mamãe e tom o Bombelo”.


Ouvindo um grande barulho do outro lado da linha me apavorei
E perguntei assustado.
“- Que barulho é esse que eu estou ouvindo”?
“- É Licópito”.
“- Meu Deus! Um helicóptero ???."
"-È. -Ele tlôce uma tulma de busca”.
-Minha nossa Senhora! O que eles estão fazendo aí.
E a voz da criança sussurrou com risinho safado.
“- Eles tão me pucurando, kkk eu tou condido”.
Hoje em dia, esse garotinho deve estar perto dos 30 anos e, com certeza, não se lembra mais disso.

Por Arthur Miranda


15 comentários:

Soninha disse...

Olá, Arthur!

Você sempre com suas histórias verdadeiras, acrescidas do bom humor de suas piadas maravilhosas.
Testemunhamos sua performance, lá na noitada de tango, onde pudemos nos divertir à bessa. Você arrasou!
Adorei o texto!
Obrigada.
Muita paz!

Luiz Saidenberg disse...

Tutu, como sempre bem gozado e narrado, mas parece que a situação estava preta! Qual é, a repressão andava atrás de vcs? Que reuniões eram essas feitas no Brooklin, aqui perto de casa?
Acho que vc pode escrever mais sobre o caso, que dá ainda muito pano pra manga! Abraços.

Miguel S. G. Chammas disse...

Tutu, nesta vidanada se cria, tudo se copia.....................
Mesmo assim gostei de ler o causo...

Arthur Miranda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bernadete disse...

Arthur, você como um bom humorista, sempre nos presenteando com estórias alegres e divertidas.
Gostei.
Um abraço

Arthur Miranda disse...

Querido Saidenberg, Postei esse texto para esclarecer as reuniões citadas na minha historia.

O grupo era de Comunicadores Cristãos criado pelo antigo produtor e redator de programas de Televisão, Neimar de Barros que ficou muito famoso na época, por ser o autor do Best-Seller, DEUS NEGRO (livro que vendeu mais de dois milhões de exemplares) Tínhamos um grupo de Animação Missionária que atuava em Paróquias e Igrejas católicas de todo o País, e que acredito até hoje continua atuando dentro e fora do Brasil, com o nome atual de Instituto Meac.

Luiz Saidenberg disse...

Ainda bem, Tutu. Quando vc falou de helicóptero, polícia, pensei em coisas tipo Val Palmares, algo assim. Coisa de nosso passado recente, mal cicatrizadas !
Abraços.

Soninha disse...

Olá, Arthur!
Adorei saber osbre esta seu lado filantrópico.
Me identifico muito com este trabalho.
Peço licença para postar o trecho Deus Negro, de Neimar de Barros. Achei lindo demais.

Deus Negro

Eu, detestando pretos,
Eu, sem coração!
Eu, perdido num coreto,
Gritando: "Separação"!

Eu, você, nós...nós todos,
cheios de preconceitos,
fugindo como se eles carregassem lodo,
lodo na cor...
E, com petulância, arrogância,
afastando a pele irmã.

Mas,
estou pensando agora,
e quando chegar minha hora ?
Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã?
Numa viagem esquisita, entre nuvens feias e bonitas,
se eu chegasse lá e um porteiro manco,
como os aleijados que eu gozei, viesse abrir a porta,
e eu reparasse em sua vista torta, igual àquela que eu critiquei?
Se a sua mão tateasse pelo trinco,
como as mãos do cego que não ajudei ?
Se a porta rangesse, chorando os choros que provoquei ?
Se uma criança me tomasse pela mão,
criança como aquela que não embalei,
e me levasse por um corredor florido, colorido,
como as flores que eu jamais dei ?
Se eu sentisse o chão frio,
como o dos presídios que não visitei ?
Se eu visse as paredes caindo,
como as das creches e asilos que não ajudei ?
E se a criança tirasse corpos do caminho,
corpos que eu não levantei
dando desculpas de que eram bêbados, mas eram epiléticos,
que era vagabundagem, mas era fome?

Meu Deus !
Agora me assusta pronunciar seu nome .
E se mais para a frente a criança cobrisse o corpo nu,
da prostituta que eu usei,
ou do moribundo que não olhei,
ou da velha que não respeitei,
ou da mãe que não amei ?
Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa,
porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei,
sei lá, só dei desgosto?

E, no fim do corredor, o início da decepção .
Que raiva, que desespero,
se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,
o maldito funcionário, e até, até o padeiro,
todos sorrindo não sei de quê?
Ah! Sei sim, riem da minha decepção.

Deus não está vestido de ouro. Mas como?
Está num simples trono.
Simples como não fui, humilde como não sou.

Deus decepção .
Deus na cor que eu não queria,
Deus cara a cara, face a face,
sem aquela imponente classe.

Deus simples! Deus negro !
Deus negro?

E Eu...
Racista, egoísta. E agora ?
Na terra só persegui os pretos,
não aluguei casa, não apertei a mão.

Meu Deus você é negro, que desilusão!

Será que vai me dar uma morada?
Será que vai apertar minha mão? Que nada .

Meu Deus você é negro, que decepção!

Não dei emprego, virei o rosto. E agora?
Será que vai me dar um canto, vai me cobrir com seu manto?
Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei?

Deus, eu não podia adivinhar.
Por que você se fez assim?
Por que se fez preto, preto como o engraxate,
aquele que expulsei da frente de casa?

Deus, pregaram você na cruz
e você me pregou uma peça.
Eu me esforcei à beça em tantas coisas,
e cheguei até a pensar em amor,

Mas nunca,
nunca pensei em adivinhar sua cor.

Neimar de Barros

MLopomo disse...

Legal a historia Arthur, O Neimar era o braço direito do Silvio Santos.Agora a reunião que você fazia não era mo Brookiln. A Rua Americo Brasiliense é na Chacara Santo Antonio, um pouco alem do brookiln.

Luiz Saidenberg disse...

Linda poesia, Soninha.
Que bom vc ter publicado. Não sou o Silvio Santos, mas palmas pra Soninha, que ela merece!

Modesto disse...

Palmas pro Arthur, palmas pra lembrança da Sonia, que narrativa encantadora, Miranda, gosto de mistérios e o seu garoto foi sensacional. Parabéns, Arthur.

Nelson de Assis disse...

Peraltices de uma criança que não tinha a noção da preocupação.
O diálago impecável do 'pestinha' ao telefone deixou a todos em polvorosa e visível aflição, inclusive a mim.
Abraços

Nelson de Assis disse...

Peraltices de uma criança que não tinha a noção da preocupação.
O diálago impecável do 'pestinha' ao telefone deixou a todos em polvorosa e visível aflição, inclusive a mim.
Abraços

Leonello Tesser (Nelinho). disse...

Arthur, mais uma vez você nos brinda com uma história humana e alegre, com referência ao livro "Deus Negro" do Neimar de Barros eu também lí, parabéns, abraços, Leonello Tesser (Nelinho).

Zeca disse...

Arthur,
parabéns pelo suspense que me fez pensar em reuniões políticas realizadas em esconderijos difíceis de localizar e, até mesmo, em prisões arbitrárias, como tantas que se faziam durante a ditadura, embora em 1983 um ponto da luz da liberdade já se fizesse enxergar ao longe... o texto está muitíssimo bem escrito.
E permita-me estender os parabéns também à Soninha, que deu, em contribuição, o belíssimo trecho de Deus Negro!
Abraço.