sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Fazendo e empinando pipas

No meu tempo de garoto, anos 50, aqui na cidade de São Paulo, as pipas eram também conhecidas como quadrado ou papagaio. Para se construir essas peças voadoras, era preciso ter bambu, papel de seda, cola e linha. As varetas eram feitas de bambu, planta abundante na chácara da dona Ângela, ou no terreno em frente, onde morava a dona Virgínia, mãe do Dado. Quanto mais verde fosse o bambu melhor, o que facilitava o trabalho de confecção dos quadrados.
A garotada que morava na Rua do Porto e João Cachoeira, no Itaim, fazia quadrado
s de vários tipos, como o Peixinho, Barrilete e Maranhão. O peixinho era o mais fácil de fazer; Tinha o formato de um losango, onde se colocavam duas varetas em forma de cruz, com a vareta horizontal mais acima do meio da vareta vertical; depois, vinha a linha por toda a volta, que podia ficar em linha reta ou vergada, para facilitar sua permanência no ar, sem ficar balançando para os lados, em sentido vertical.
Podia-se, também, construir um peixinho sem as linhas em volta, para poder empinar sem o rabo que, naquele tempo, era feito de pano.
Alguns meninos preferiam usar só o papel, de preferência jornal, dobrado em V no horizontal, com um estirante nos bicos; Tinha o nome de Capucheta.
Já o barrilete era mais trabalhoso; Tinha uma vareta em sentido vertical e duas em sentido horizo
ntal, em tamanhos diferentes, de modo que a vareta horizontal que ficava na parte de cima era maior do que a que ficava em baixo. Esse quadrado ou Pipa não podia ser menor do que 40 centímetros. O rabo tinha que ser maior porque tinha mais força, principalmente quando os ventos eram mais fortes. O Barrilete era um quadrado que podia ser feito até com um metro de altura, mas tinha que ser empinado com barbante e o rabo tinha que ser feito com bastante pano.
Já o Maranhão, tinha o mesmo sistema do Barrilete, com uma diferença, o papel era colado tanto com goma arábica ou cola de farinha de trigo, na vareta horizontal de cima para baixo... a linha de cima ficava livre, onde se colocava um papel colado naquela linha e com vários cortes, como uma franja, que provocava um barulho como se fosse um zunido e quando se dava muita linha a ele, era justamente por ela que se sentia aquele zunido excitante. Pra laçar outros quadrados, os peixinhos eram os mais usados, porque seu formato facilitava faze-lo embicar, de cima para baixo, para executar o laço.
Mas, para ter sucesso nessa operação, o laçador tinha que ter a linha nº 24 e a c
erteza que o outro tivesse uma linha mais fraca, no caso a nº 50. Naquela época, não existia cerol; Para tentar cortar uma linha, colocava-se uma lâmina, do tipo Gillette, numa rolha amarrada na ponta do rabo, num esforço para conseguir fazer esta armadilha ir ao encontro da linha do outro quadrado que se queria cortar.
Correr atrás dos quadrados quando uma linha era cortada, não tinha o mesmo perigo de hoje porque, tanto no Itaim quanto em outros bairro de Sampa, ainda não tinha muitos carros transitando e, também, não havia muita fiação elétrica.

Por Mário Lopomo

8 comentários:

Soninha disse...

Olá, Mário!

Muito legal fazer pipas...
Hoje em dia tem, até, grupos e oficinas para ensinar a garotada a confeccionar as pipas.
Na minha infância, eu ajudava ao meu irmão a fazer os quadrados e, depois, íamos ao "campinho" perto de casa, bem no alto, para poder empinar. Muitas vezes, meu pai ía junto e era muito divertido.
Legal suas lembranças, Mário.
Valeu.
Muita paz!

Zeca disse...

Boas lembranças, trazidas por você, Mário!
Eu era perito na confecção dos "quadrados"; tinha uma imensa freguesia, que já começava a fazer as encomendas no mês de junho, pois era durante as férias de julho e ainda durante, talvez, a 1ª quinzena de agosto (mês do cachorro louco), que a garotada em peso coloria o céu limpo e ensolarado de inverno, com seus quadrados coloridos! Era o período com melhores ventos para isso!
Hoje, na cidade onde moro, pelo menos, esse "esporte" ainda é bastante praticado, mas não mais pelos garotos e sim pelos marmanjos aborrecentes, que enchem as linhas de cerol e provocam vários acidentes, alguns bastante graves.
E também não fazem mais as suas pipas em casa; elas são vendidas pela cidade, pelo jeito fabricadas em larga escala, principalmente nas cores de times de futebol.
Agradeço pelas lembranças despertadas com este belo texto!
Abraço.

Arthur Miranda disse...

Parabéns Mario, como sempre fiel e autentico em seus relatos.
Nos meus tempos de menino eu gostava de fazer o maranhão, pois o mesmo subia sem o devido rabo, e era mais fácil bota-los no ar.
E claro era sempre a gente mesmo quem os fabricava, hoje infelizmente o pessoal já compra o seus papagaios prontos.
Mas para quem quiser faze-los manualmente, é só seguir a receita, que você tão bem passou em seu texto. Bela narrativa.

Leonello Tesser disse...

Mário, no meu tempo a gente não chamava de pipas e sim de "quadrados", tinha também a "capucheta" que fazíamos com papel de jornal, belo texto caro amigo, me reportou à minha infância nas ruas aquí do Ipiranga, abraços, Nelinho.

Modesto disse...

Mario, vou já, já fazer um quadrado pro meu neto. Vc me trouxe recordações impagáveis, empinar quadrado era um divertimento extraordinário. E olha que era bem barato, e gostoso quando a gente punha um "telegrama" na linha, esperando ele, o telegrama atingir o quadrado correndo pela linha. Uma beleza. Obrigado, Tomate e parabéns.

Luiz Saidenberg disse...

A antiguíssima arte de fazer pipas, quadrados, papagaios e afins surgiu na antiga China, e até hoje existem fantásticos campeonatos, com as formas mais incríveis. Particularmente, gosto muito das japonesas, belíssimas, elegantes e de cores berrantes.

Nelson de Assis disse...

Pipa, quadrado, capucheta, papagaio, o que importava é que agente se divertia pra caramba. A linha '0' e a boa 'rabada', faziam o céu ficar mais bonito e colorido.
Bons tempos nos barrancos da quadra do 'Bôca Juniors', lá no Bixiga.

Anônimo disse...

Thanks :)
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