sexta-feira, 13 de agosto de 2010

El dia que me quieras

Contei, tempos atrás, que um dia de Copa do Mundo, com Brasil campeão e tudo, marcou-me com tristeza pela perda de um amor de adolescência. E que, vários anos depois, noutra Copa, encontraria a garota da minha vida. Muita gente ficou alvoroçada - conta, conta!
Bom, atendendo a pedidos...
Foi assim. Eu morava há nove anos no Bosque da Saúde. Vivia com uma moça e a relação, que nunca fora das mais felizes, deteriorava-se rapidamente. Até que um dia: era 6 de julho de 1974.
Nesta altura eu, felizmente, estava bastante decepcionado com o futebol. De torcedor fervoroso na Copa de 70, vira rolar, além de muita água debaixo da ponte, muitas cabeças de presos políticos, tortura, morte, prisão de amigos, censura e repressão. Passei a ser contra, como dizem, são os espanhóis em relação a qualquer governo. Meu lado Camargo, provindo da Espanha, passou a falar mais alto.
Naquele momento, a exaltação ufanista da Seleção cheirava-me, com razão, a propaganda demagógica da ditadura. Brasil, ame-o ou deixe-o e outras coisas do gênero. Um terror.
Mas, onde eu estava, mesmo? Ah, sim, indiferente em relação ao jogo, ao invés de sentado frente a um televisor, estava, naquela histórica manhã, num auto-elétrico, por sinal, japonês, fazendo um conserto no fusca.
Foi quando ela passou. Uma jovem beldade, caminhando com altivez e acompanhada por uma menininha que, depois, soube ser sua irmã mais nova.
Eu estava à porta da oficina, e ela, apesar do narizinho erguido, enviou-me de soslaio um devastador olhar castanho -esverdeado. Uau!!! Transido, apressei-me em segui-las. Por sorte, o conserto já havia term
inado.
Arranquei com o carro e ultrapassei-as, julgando ter visto, novamente, um quase sorriso naqueles grandes e belos olhos. Esperei-as mais à frente e conversamos brevemente. Trocamos telefones e deu-me umas balas, que tinha comprado para a irmã na padaria. Também ela não era fã de futebol e, por sua casa estar tomada pelos amigos dos irmãos, torcendo rumorosamente, aproveitara para dar uma volta.
O que é a coincidência! Ou será que outros fatores misteriosos escondem-se atrás do acaso?
Eu já morava, ali, havia nove anos e jamais a tinha encontrado antes.

Poucos minutos de conversa e, embora eu ainda não soubesse, minha vida estava mudada, para sempre. Casamo-nos dois anos depois. Aí, vieram os filhos, o tempo passou rapidamente e, agora, quando recapitulo, vejo que estamos juntos há 36 anos. Sempre com muito carinho e emoção, ainda, como se jamais tivéssemos amadurecido e o dia 6 de julho de 74 ficasse congelado no tempo.
Muito tempo depois, perguntei-lhe o que a tinha atraído, em mim, naquele momento. Disse que eu parecia uma figura deslocada no panorama do velho bairro e que tinha no olhar um brilho quase de loucura, no que não deixava de ter razão. Eram o fascínio e a perplexidade ante o milagre espantoso de nossa vida, tão singular e, ao mesmo tempo, compartilhado com milhões e milhões de outras pessoas.

Por Luiz Saidenberg

12 comentários:

Soninha disse...

Olá, Luiz!

Que legal sua história com Márcia!
Sabe...o ano de 1974 foi bastante importante para mim. Fiquei maior de idade, pude votar pela primeira vez e fiz questão de providenciar tudo bem rápido...não só o título de eleitor, mas, também, carteira de habilitação, pois eu sempre fui apaixonada por carros e por dirigir.
Naquele 1974 nossa seleção não fez bonito, mas, sempre fui torcedora fervorosa, quando se trata de seleção brasileira.
Bem...adorei saber mais um pouquinho da história de sua vida, amigo.
Obrigada.
Parabéns a você e Márcia.
Muita paz!

MLopomo disse...

Saidemberg, Estraçalhando corações. Digo coração.

Modesto disse...

Quando começo a ler um texto neste blog, não procuro o nome do autor que está no fim, procuro adivinhar. No seu, não acertei. A surpres, Luiz foi vc ter se manifestado amorosamente, como nunca. Parabéns.

Miguel S. G. Chammas disse...

Luiz, historias de amor sempre prenderam minha atenção.
"El dia que me quieras" deve ser, lógico a musica de fundo, a trilha sonora desse idílio.
Realmente muito bem escolhida.

Bernadete disse...

Nossa Saidenberg!!! Que linda demonstração de amor e carinho pela sua querida companheira de 36 anos. Coisa rara hoje em dia.
Pela fotos, verifico como são lindos os "frutos" dessa duradoura união.
Bjos, também na sua Marcia.

Nelson de Assis disse...

Saidenberg. O destino é provedor de todas as nossas ações. Voce não precisou correr para encontrar a sua 'metade'. O amor, estava bem ao seu lado. Ainda bem que voce enxergou a tempo.
Felicito-lhe e à sua bela esposa pelo longo desta união feliz e contemplada pelo amor.
'Pois, que seja eterno, enquanto dure...' - Vinicius de Moraes.

Luiz Saidenberg disse...

Muito obrigado a todos. Caro Nelson, não é bem assim. Talvez essa corrida tivesse se iniciado há muito tempo, mas não era a hora certa. Um minuto a mais, ou a menos, e não daria certo. Talvez haja um mecanismo que não entendo nem controlo, (chamam-no Destino), que certa hora determina o desencadear dos fatos. Não sei se é assim, e sinceramente espero que seja.
Abraços a todos.

Nelson de Assis disse...

Caro Saidenberg.
É o que está explícito no primeiro parágrafo de meu comentário. Quem há de entender o destino? E, com voce, não foi diferente. Portanto, vanglorie-se deste feliz momento.
Abraços.

Arthur Miranda disse...

Saidenberg,Você nem precisou ir a nossa noite de tangos para viver o El dia que me quieras. Parabéns a vocês e que Deus os proteja e os guarde.

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Luiz, veja você que o destino nos prepara agradáveis surpresas, isto me faz pensar que nada acontece por acaso, parabéns pela linda família que vocês formam e que Deus os abençõe, abraços, Leonello Tesser (Nelinho).

Zeca disse...

Saidenberg,
que linda história de amor! Um amor que dura uma vida e, sabe-se lá, dure uma eternidade!
Parabéns a vocês, que formam uma linda família. Uma família criada a partir do maior dos sentimentos!
Abraço.

Luiz Saidenberg disse...

Muito obrigado, mesmo. A família, penhorada, agradece. Pois é, parece que foi ontém...lá vinha a Márcia pela R. Carneiro da Cunha, com uma blusinha côr de malva e calças boca de sino pretas, e sua irmã Stella pelo braço...