quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Histórias de arrepiar

No final da década de 40, São Paulo era ainda uma cidade de muito verde e sua periferia ainda era cercada por chácaras, onde não havia quase iluminação nas ruas e as únicas luzes eram as provenientes das raras residências ali existentes.
Nas casas dos bairros e vilas mais distantes não havia energia elétrica. Telefone e água encanada era um sonho acalentado pela demagogia dos políticos, muitos deles grandes professores dos demagogos e desonestos que são eleitos hoje em dia e, por incrível que pareça, alguns deles até hoje permanecem no poder.
Em vista disso, pouca gente saia à noite e, quando saiam, muitos caminhavam munidos de uma lanterna ou lampião a querosene para melhor transitar pelos trechos mais escuros do caminho.
Quan
do chovia, então, era o caos; Nas estradas sem asfalto, a lama e o barro faziam sua moradia e o veículo que aventura-se a enfrentar o caminho, estaria mais encrencado que um cara todo melado e sem papel no banheiro.
E assim, nesse ambiente, não sei bem por que a mãe e os vizinhos da gente, insistiam em contar umas histórias de medo onde, invariavelmente, tinha sempre lobisomens, vampiros e fantasmas.
Às vezes, eu ficava parte da noite acordado com a bexiga estourando e aquele medo danado de ir ao banheiro no escuro.

Tudo porque minha mãe sentia uma santa felicidade em contar histórias de arrepiar os cabelos e, o que é pior, a gente ouvia e gostava, mas depois não dormia.
Tinha história do Homem do Saco que vinha de noite pegar criancinhas.
Mula sem cabeça.
Tinha, até, historia de medo que era uma pegadinha.
Aquela que, era uma vez uma mulher descabelada que vinha subindo a escada com uma faca na mão... Entrou, então, pela casa com aquela faca afiada e assim chegava até a cozinha.
Então, a mãe perguntava pra gente, com uma voz cavernosa (SABEM O QUE ELA ESTA FAZENDO?). VOCÊS NÃO SABEM NÃO?
E com uma voz mais assustadora ainda dizia: A MALVADA ESTA PASSANDO MUITA MANTEIGA NO PÃO.
A gente morria de medo, mas aprendia a lição e, depois, contava aos primos e amigos que ainda não conheciam a horrorosa história que, invariavelmente, terminava em risos e gozação.
Um dia minha mãe contou uma história horrível, dessas de tirar o sono.
Ela começava com uma voz diferente e assustadora dizendo que uma noite de muita chuva, raios ventos e trovões... Um menino dormia no seu quarto quentinho, porém estava sozinho seus pais haviam saído.
Então aquele menino, enfiado em sua cama, ouviu no meio da noite em seu quarto um ruído.
Pensando ser o seu pai, o menino ainda dormindo falou com uma voz fraquinha: A bênção pai !
E uma voz assustadora respondeu: - DEUS TE ABENÇOE MEU FILHO, MAS EU NÃO SOU O SEU PAI !
O menino apavorado, quis logo saber quem seria.

Abriu a porta do quarto e... Viu que era sua mãe.
Eu sempre ficava com medo, com meus cabelos ouriçados, na época, ainda criança, eu não tinha pelos para ficar arrepiado.
Hoje perdi meus pelos, como também os cabelos, não tenho quase mais nada que possa arrepiar.
Mas continuo medroso e muito mais hoje em dia.
O apavorante Homem do Saco foi substituído pelo sequestrador.
No lugar da Mula sem Cabeça, o assalto relâmpago. Quando você sai do banco.
E quando você é morto em um assalto à mão armada.
Não faça carinha feia.
Se o culpado for “DE MENOR “, nem mesmo irá pra cadeia”.

Por Arthur Miranda (tutu)

7 comentários:

Modesto disse...

Arthur, quando a gente sente muito frio no inverno, não tem a menor ideia de como seja o calor de um forte verão. E vice-versa, não consegue se "transportar". Assim somos nós, quando crianças, toda a fantazia que nos afligia, hoje, adultos chegamos a rir daquelas bobagens. Tudo dentro de seu contexto. Texto arrepiante, pra época. Parabéns, tutu.

Soninha disse...

Olá, Arthur!

Em todos os tempos, as crianças passam por isso, né?!
Até hoje, reúnem-se para contar suas histórias de arrepiar...
Não só as crianças tem medo, viu?! Muito "marmanjo" fica sem dormir a noite por conta de histórias de horror...
Mas, você sabe que esta sua história de horror pegadinha, minha avó também nos contava? Depois, era só risada...e, também, ficávamos imitando ela contar...divulgávamos a história e ríamos pra valer da cara assustada das amigas...risos fartos depois.
Muito legal!
Valeu, Arthur!
Obrigada.
Muita paz!

Luiz Saidenberg disse...

Muito legal, Tutu. Os medos infantís...para não falar do Bicho Papão, do Tutu(desculpe) Marambá, do Saci, Mula Sem Cabeça, Curupira e todas essas crendices para mim apresentadas por Monteiro Lobato em "O Saci", muito tempo atrás.
Vc conta que as pessoas não saiam à noite por causa da escuridão, ruas enlameadas...pois é. Hoje, tb não o fazemos, mas por motivos muito mais apavorantes, reais e violentos que o Homem do Saco e todos outros monstros juntos...
Abração.

Bernadete disse...

Arthur, nós quando crianças, adorávamos escutar esses relatos . Eu, até comprava umas estórias em quadrinhos com contos de terror, mas só lia durante o dia, porque depois era assustador.
Hoje como você diz, nossos medos são reais e apavorantes
Um abraço.

Miguel S. G. Chammas disse...

Uauuu que medoooo!

Zeca disse...

Olá, Tutu!
Quando era bem novinho, mórávamos numa rua que terminava em um eucalipal. Minha avó dizia que se fossemos para a rua, o lobo viria nos pegar e isso fazia com que eu e meu irmão ficassemos brincando apenas dentro do nosso quintal, sem deixar de dar uma espiadinha pela rua à procura do lobo, com medo de que ele pulasse o muro e nos levasse para o matagal.
E como você disse muito bem no final de sua bela crônica, hoje o lobo continua nos espreitando pelas esquinas...
Abraço.

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Arthur, as noites de hoje estão mais perigosas, depois das 8 horas é arriscado andar pela cidade e pelo bairro, tudo mudou caro amigo, abraços, Nelinho.