terça-feira, 24 de agosto de 2010

Fantasmas Virtuais


Clica-se num botão e abrem-se as cortinas do espetáculo. A tela se ilumina e, por detrás dela, um universo de coisas, imagens, palavras, informações.
Está tudo ali, seções desmesuradas de lembranças, amores e amigos desaparecidos. Tudo que aprendemos, o muito que deixamos de saber e o que jamais compreenderemos.

Toda a sabedoria da Biblioteca de Alexandria, do Novo Michaelis, dos papiros do Mar Morto, dos segredos dos alquimistas. As profundezas insondáveis do absurdo universo.
É um mundo totalmente novo e, depois que se coloca um pé tímido nele, não há mais saída. Somos arrastados para um vórtice, que nos atrai mais e mais.
Tanta riqueza incalculável e, no entanto, sua extrema fragilidade está sempre presente.
Como tudo na vida, o muito que nos é dado poderá ser tomado, de um momento para o outro. Nada há de sólido e concreto no mundo.
Como disse Hélio Pellegrino, no interior de uma rocha, qualquer rocha, por mais impenetrável que pareça, canta uma fonte de águas cristalinas.
Acho a internet um belo exemplo dessa relatividade. Tudo que está ali armazenado, ao nosso alcance, pode desaparecer por intervenção de um vírus, ou uma simples falha no sistema. Nunca a existência demonstrou tanto sua impermanência, agora quase ao alcance de qualquer um. E, nesse universo, tudo é assim.
Os amigos, por exemplo. Tanto existe a facilidade para fazê-los, como para perdê-los para sempre, no próximo instante. São criaturas virtuais, seu peso e estrutura são fagulhas de energia arm
azenadas em misteriosos chips.
Nem é preciso buscar muitas explicações: é a internet e com ela as coisas são assim mesmo.
Há algum tempo, li num site a nota de alguém que suplicava por uma foto de uma praça, hoje desaparecida, que lhe foi muito importante na infância, a Praça Almeida Junior, no bairro da Liberdade, em Sampa.
Lá, tinha brincado seus jogos, conhecido sua esposa, então também uma criança. E desde que se mudara, jamais chegara a rever essa praça, mesmo em fotos.
Como eu também tinha minhas recordações do local, pesquisei; para
a internet, quase nada é impossível. Consegui a tal foto da tal praça, bela e serena nos anos cinquenta. Enviei-a ao cidadão, que ficou gratíssimo e, assim, iniciamos uma amizade virtual.
Até um ponto que resolvemos nos materializar num almoço. Escolhemos, de comum acordo, o Bar do Nico, pitoresco recanto do Ipiranga. Foi mesmo um belo almoço, muito papo e chope de primeira.
Depois disso, mandei a meu novo “amigo” meus comentários sobre o evento e, também, algumas de minhas crônicas do site. Resposta? Nenhuma.
Não houve nenhum retorno, como se jamais nos tivéssemos falado. Como se a praça jamais houvesse existido.
Fiquei imaginando o que poderia ter acontecido. Teria dito algo que o desagradasse? Nossa
imaginação aí corre solta: teria me achado inculto, para sua renomada sapiência, ou pobre demais para sua imensa fortuna? Concluí: não era nada disto. Que foi, então que eu fiz?
Aborrecido, não tentei mais contato nenhum. Passou-se muito mais de um ano, eu já até tinha esquecido o assunto, quando então chega um e-mail:
- estimado amigo Luiz, estou lhe escrevendo para retomarmos aquele agradabilíssimo papo, naquela ótima cervejaria...
Não lhe respondi. Era minha hora de deletá-lo. Há limites para tudo, mesmo para a internet...

Por Luiz Simões Saidenberg

9 comentários:

Arthur Miranda disse...

Simões,muito interessante sua Narrativa, Adorei, pois é algo que acontece muito na Internet.
Mas, pessoalmente eu acho que vc não deveria deleta-lo não. Abraços e parabéns.

Miguel S. G. Chammas disse...

Luiz, existem exemplos vários de amizade na net, mas a nossa, surgida também na internet, não há de querer sumir, a não serque sumamos com ela.
Tenho orgulho de poder dizer que nosso grupo é muio forte enadapoderá nos separar ou dele
tar.
Isso é realmente sensacional!

Nelson de Assis disse...

Luiz.
Vou transbordar a sua caixa de mensagens, até com bobagens.
Tenho medo de ser 'deletado' pois, já faz muito tempo que não nos correspondemos (espero que não esteja próximo do tempo limite - rsrsrsrsssss).
Abraços

Soninha disse...

Olá, Luiz!

Há algum tempo a internet era misteriosa e as pessoas se aproveitavam da pseudo proteção que tinham por trás da tela do computador...
Hoje, felizmente, muitas amizades sinceras, nascem e se fortificam...
Encurtam-se distâncias, enxugam-se lágrimas, derramam outras tantas, mata-se saudade...enfim...um meio de comunicação importantíssimo.
Graças a Deus, a amizade nascida no grupo SPMC cresceu, fortaleceu e nos faz muito felizes.
Ao menos de minha parte, sinto-me feliz com as aizades que fiz através da internet.
Luiz, não nos delete, heim?! rss
Adorei!
Obrigada.
Muita paz!

Leonello Tesser (Nelinho). disse...

Luiz, que coincidência, o estacionamento onde trabalho fica exatamente ao lado do Bar do Nico aquí no Ipiranga, as vezes as pessoas tem uma vida tão atribulada que se esquecem de retribuir obséquios recebidos, as amizades que fiz na internet felizmente permanecem firmes e espero que o amigo não me delete!!! parabéns pelo texto, abraços, Nelinho.

Bernadete disse...

Saidenberg, nossa amizade começou no site de forma virtual e através das redondas,já nos conhecemos pessoalmente. Hoje formamos um grupo feliz e unido.
Acho que esse seu "amigo" talvez não seja um internauta como nós e prefira uma boa conversa regada com um exelente tinto português ou italiano. Portanto,dê mais uma chance a ele.
Um abraço

Zeca disse...

Luiz,
também já tive experiências desagradáveis com "amigos virtuais", porém, as experiências gratificantes superaram e muito as outras.
Hoje tenho alguns amigos(as) que conheci através dos blogs que mantive, já nos conhecemos pessoalmente e seguimos nossas amizades como se fôssemos amigos de infância.
Infelizmente nem todas as pessoas correspondem ao que desejamos, mas essas são as excessões, não as regras. Dê uma chance ao rapaz, talve acabe ganhando um amigo inesperado.

Abraço.

Luiz Saidenberg disse...

Muito obrigado, amigos. Sou uma pessoa tolerante e compreensiva , e gosto de amizades. Mas, como disse, há limites para tudo. Num vôo, há um ponto limite, sem retorno. Foi assim nesse caso, e eu não me sentiria confortável reatando tal amizade. Abraços.

Modesto disse...

Existem pessoas que só enxergam o próprio umbigo, nada mais lhe interessa, muito menos o respeito a quem lhe deu toda atenção, Simões. Vc não causou nenhum mal a ninguém, apenas seguiu a regra: "indiferente? indiferente e meio". Parabéns, Luiz.