terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um amor eterno

Como faz toda manhã, Tomás acordou ainda antes de o sol se manifestar. Estava tão habituado ao tempo que, sem olhar o relógio, calculou: 5:15min."É primavera" pensou. Depois, mentalmente, num auto-desafio conferiu o palpite: 5:22min. Levantou-se, e como sempre, cuidou de não incomodar Irma - respeito mantido durante toda a vida de casado, já perto das Bodas de Ouro, daí a três anos. Pé ante pé, passou pelo banheiro, seguiu para a sala, sentou na poltrona frente à tv, sem ligá-la, e pôs-se a preparar para a caminhada matinal de uma hora, exercício que sempre fazia junto dos amigos da mesma faixa etária, pelas cercanias do Parque D. Pedro II, bem próximo do centro da cidade de São Paulo.
Naquela manhã, estava particularmente bem disposto. Aliás, disposição que não se lembrava ter há algum tempo. Com quase 78 anos, a artrose que molestava seu joelho desde os tempos de futebol, não incomodava mais, bem como os desconfortos do ciático, as juntas com ruídos que lembravam castanholas e a tosse pertinaz. Creditou o "milagre" aos dois dias de chuva que lhe impediram o passeio, esse prazer, esse vigor extemporâneo e bem vindo. Continuou sentado, esperando o raiar do dia e gozando a sensação de bem estar enquanto cerrava os olhos para mergulhar nos deliciosos sonhos que sempre o animavam. Ah, seus devaneios...
Esse torpor involuntário, foi interrompido pela presença de Irma que, de mansinho,
sentou-se ao seu lado, procurando um pouco de calor na fria manhã. Com um sorriso amável, juntou seu corpo ao de Tomás, que abriu os olhos a deliciar-se no aconchego, estreitando mais ainda o seu corpo ao de Irma.
"Querida, ainda é cedo... por que você levantou?"

"Oh, Tom! Estou sem sono e, já que você sempre tentou me convencer a andar...bem, hoje acordei com uma disposição sem igual! Você não vai acreditar, Tom: não sinto nada, nada, nada! Parece milagre: minha tradicional dor de cabeça da manhã, a falta de ar, o reumatismo, as câimbras... nem sinal! Estou bem mesmo, querido!"

Irma, sua mulher, ainda trazia resquícios de uma beleza tardia nos traços delicados, de um perfil altaneiro traídos pelos 76 anos com as implicações inevitáveis do tempo corrido. Amava Tomás com uma paixão que poucas mulheres sabem nutrir por tantos anos. Era, sem dúvida, um amor dedicado, inabalável, eterno...
Tomás, ex-atleta, alto, boa forma física, rosto anguloso, dono de um perfil similar ao de um busto romano, sorriu e falou a Irma da sua disposição, ressaltando a coincidência das condições dos dois. Abraçou e beijou sua companheira de tantos anos, com ternura e devoção. Imediatamente, ambos começaram a recordar o passado, o que faziam sempre que surgia uma ocasião propícia, sem a presença de filhos, netos e outros parentes. Ainda abraçados e emocionados com o momento, Irma tomou a iniciativa de iniciar um diálogo como se fora a primeira vez. Conversar era algo que os agradava bastante.

"Tom, lembra do nosso primeiro encontro, na Aclimação, naquele casamento de su
a prima Heloísa, com aquele japonês... como é que se chamava mesmo? Kazuo, né? Onde nos conhecemos... nosso primeiro beijo no escurinho do cine Santa Helena, os piqueniques em Vila Galvão, os passeios de bonde de Santo Amaro até o ponto final..."

"Nossas fugas da eterna vigilância de sua mãe, Irma... Seu pai, querendo saber se eu trabalhava, quais os meus planos - uma mal disfarçada preocupação com o futuro de sua filhinha..."

"Nosso primeiro baile, Tom... A primeira viagem a Santos - com mamãe e papai, naturalmente, rss - o primeiro presente no dia dos namorados... Que saudade!" Depois do namoro, seguiram-se o noivado... o casamento... os filhos... Três meninos e uma menina. Quem diria, hein?

"Tom, lembra que coisinha linda, a Cecília? Meu Deus...Uma boneca! Então, vieram o Danilo, (você queria um menino também), o Milton e o Raul, para completarem nossa felicidade..."

"... E hoje, os quatro já casados - muito bem, diga-se - deram-nos cinco netos para coroar e alegrar nossa existência. Irma, que bem maior poderíamos esperar? Diga-me, querida!"

"É verdade, Tom. E você, sendo um tanto cético em matéria de religião, há de concordar comigo que existe sim, uma divina Providência em nossa união, não é? Tanta ventura, tanta felicidade e um amor profundo como o nosso, só pode ser desejo do Criador!"

"Concordo, é claro. Mas nosso comportamento, o respeito mútuo, as renúncias ante os desafios que tivemos - e não foram poucos, sabemos - bem como a dignidade com que amparamos nossos pais até seus derradeiros momentos; a educação e o esforço para formar nossos filhos...tudo nos levou a um mérito maior. Temos, portanto, o direito de desfrutar dessa paz e tranquilidade!"

" Sim,meu bem. Mas é exatamente esse comportamento que nos colocou nesse privilegiado grupo de bem aventurados. Fomos pinçados da multidão de sofredores e, por isso gozamos, agora, uma existência inusitada."

"Bem, querida, não quero iniciar uma querela com você sobre a questão religiosa. Não é que não acredite, é que...

"Pssssiu! Esqueça, esqueça... Apenas desfrutemos destes pequenos interlúdios tão difíceis de ocorrerem..."

"Olha, Irma, o sol já nasceu...Vou colocar as bermudas. Sabe que estou na ponta dos cascos?Ah, e se você vem comigo, é bom que se apresse, pois a "turma da pesada" já deve estar na pista. E, ai de quem chegar atrasado: receberá uma senhora gozação! rss

"Ah, querido! Estes raríssimos momentos são tão difíceis de acontecer que devemos aproveitá-los ao máximo! Fica só mais um pouquinho? É tão doce o seu carinho... Ademais, nunca se sabe quando teremos outra oportunidade para desfrutar desses encantos... Sem querer ser pessimista, nossa idade não permite uma expectativa a longo prazo... Não vá agora! Abrace-me e beije-me, por favor, querido... Quero sentir seu calor mais e mais... aperte-me, deseje-me como antes! To
más, eu...eu..."

Tomás percebeu que o comportamento de Irma, sem ser surpreendente, era, no mínimo, diferente. Amava a sua esposa - e muito! Agradava-lhe bastante estar com ela. Porém, começou a desconfiar que lhe escondia alguma coisa... Apesar de intrigado, ficou mais algum tempo nesse devaneio inspirador e reconfortante.

"Bem, vamos então, querida. Vou para o quarto vestir as bermudas e..."

"Não. Não precisa colocar bermudas... Fica aqui comigo, amor! Não vamos precisar mais disso tudo... Fica, por favor..."

Delicadamente, desvencilhou-a de seus braços, foi para o quarto e estancou perplexo: incrível acreditar na cena que via à sua frente! Após alguns minutos de confusão, um Tomás lívido, inquieto, abismado, voltou à sala da tv e, ao encontrar os olhos de Irma, então compreendeu tudo...

"Querida... quer dizer que..."

"Sim, meu Tom. É aquilo que você viu: os dois, lá na cama... somos nós. Quando acordei e vi que você não respirava mais, abracei o seu corpo e uma angústia tão grande tomou conta de minha alma. Não pude... não pude resistir: desfaleci. Depois levantei-me e vim para cá.
Olhei para trás e me vi abraçada a você. Então compreendi tudo! Nosso amor foi mais forte...Tão forte que nem mesmo a morte conseguiu nos separar. Por isso, estamos assim felizes,Tomás! Agora temos a eternidade para gozarmos a imortalidade desse amor. Um prêmio mais do que merecido..."

É verdade. O derradeiro e maior de todos os bens que recebemos de Deus, ou quem quer que seja essa entidade superior que rege todos os destinos, é fazer com que deixemos a vida terrena junto de quem amamos tanto. E mais apaixonados do que nunca.

Por Modesto Laruccia

11 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Bonita história, Modesto. O amor além do amor. Mas, morte lírica no final... Xô, pé de pato, mangalô três vezes!
Prefiro o amor em vida...quando eu me chamar saudades, não preciso de vaidade, quero preces e nada mais!
Parabéns.

Zeca disse...

Uma das graças que mais peço ao Criador é a ventura de morrer assim, sem perceber e sem dar trabalho a ninguém.
Bem-aventurados os que o conseguem!
Belíssimo conto, Modesto!
Parabéns!
Abraços.

Soninha disse...

Olá, Modesto, querido amigo!

Você sabe de minha crença. Mas, não é só uma questão de crer, mas, atinar com estudos e pesquisas.
Claro que, ainda, nossa mente não consegue processar muita coisa, mas, ao longo de nossas existências, vamos adquirindo condições intelectuais, emocionais e espirituais, para entendermos o processo da vida, ou, das várias existências a que somos submetidos, pela força da evolução.
Somos evolutivos...sempre seremos. Nossa história humana nos mostra isso.
Bem...adorei seu conto. Doce e sublime e que jos fez tão bem à alma.
Felizes os que podem partir para a vida espiritual com tamanho desprendimento e com a consciência tranquila.
Adorei, Modesto.
Obrigada.
Muita paz!

Miguel S. G. Chammas disse...

Mamma mia!
Modé, vc quer me matar de emoção?
Ia leno teu texto e me arrepiando todo.
Isso não se faz amicci.
ADOREI....

Arthur Miranda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Arthur Miranda disse...

Que lindo Modesto, maravilhoso, se pudesse escolher eu desejaria morrer assim. Estamos assim bem unidos, eu tentando te fazer rir, e você buscando me fazer chorar. E isso é muito bom, Obrigado, e parabéns pela
historia.

Nelson de Assis disse...

Sua história tem um desfecho que encerra uma citação mais que verdadeira: 'nem a própria morte consegue vencer ao amor verdadeiro'.
História de vida e cumplicidade de dois seres que ao longo de suas
vidas, fortaleceram-se do mais sublime dos sentimentos: 'o amor'.
Como disse o poeta:'que seja eterno enquanto dure...' e, em algum lugar da eternidade.
Abraços, amici.

Bernadete disse...

Que lindo Modesto!
Isso que é amor eterno.
Se pudesse escolher como morrer, gostaria que fosse assim...silencioso e sem sofrimnto.
Um abraço

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Modesto, desta vez você extrapolou! nos brinda com um texto emocionante, realmente o verdadeiro amor nunca morre, abraços, Nelinho.

Luiz Saidenberg disse...

MOdesto, há uma música italiana que adoro:
Addormentarmi cosí...tra gli tue braccia, mentre tu mi bacci e non svegliare piú...
Bocca a bocca, cuore in cuore, vivere insieme, muorire insieme...
addormentarmi cosí... e non svegliare piú !
Belleza!

Modesto disse...

Conheço, Luiz, é uma melodia linda. Obrigado