quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Velhas festas de fim de ano

Volto à minha antiga casa que não mais existe. Mas, existe em mim. Portanto, não preciso de chave. Basta girar a maçaneta e entrar.
Gostaria de precisar um fim de ano específico, mas todos os anos, entre 1950 e meado
s dos anos 60 foram sempre iguais e felizes...
Alternadamente, entre os meses de outubro e novembro, meus pais, meus avós iam à Cidade para comprar os presentes de Natal. Saíam às escondidas e – mistério – voltavam para casa carregando pacotes e iam diretamente para os seus quartos.
No final de novembro iam à Rua 25 de março comprar uma nova guirlanda para a porta, algumas bolas, enfeites e festões para a árvore de Natal. A tradição rezava que era preciso acrescentar a cada ano um novo enfeite à árvore. Compravam também um enorme pacote de algodão para “fazer neve”.
No início de dezembro, vovô, papai e tio Amedeo iam a Itaquera comprar o “Pino” (pinheiro) que, em casa era colocado em uma grande lata de óleo “Sol Levante”.
Seis de dezembro começava o Natal! Alegria e ansiedade...
O pinheiro era colocado em um canto da sala de jantar. A lata de óleo era coberta po
r uma camada de papel-crepom verde e, sobre ela, uma camada de celuloide amarelo e laços de fita vermelha.
Um a um os enfeites e adereços eram dispostos na árvore. Cabia ao vovô colocar a ponteira, enquanto meu pai fixava a guirlanda à porta de entrada.
A segunda etapa da noite foi forrar o tampo da “credenza” (aparador) menor com feltro e sobre ela colocar um espelho, onde foram dispostas as figuras do nosso pequeno presépio.
Tudo pronto para o Natal! E eu começava a esperar pelo dia 25, que parecia estar a mil anos-luz longe de mim...
Vinte e quatro de dezembro. Eu andava pela casa prestes a ter um ataque de ansi
edade. Chegou a noite e nonno e nonna, após o jantar, arrumam-se para ir à Missa do Galo.
Não comemorávamos a véspera. Lá pelas dez da noite, mamãe, esperta como uma r
aposa dava-me duas fatias de rabanada e uma caneca de gemada “carregada” com conhaque e me levava para a cama. Meia-noite, meus pais colocavam os presentes sob a árvore e iam dormir.
Manhã do dia 25: -“A sveglià’ miei maialini! È già Natale!” (Acordem meus leitõezinhos! Já é Natal!) – gritava o meu avô, batendo uma contra a outra, duas tampas de panela. Segundos depois eu e meu irmão em pijamas, o molecão tio Amedeu, em camiseta e cueca, atacávamos os presentes sob a árvore.
Em casa o almoço de Natal era da família e também dos filhos que Nossa Senhora nos mandava. E quase todas as famílias os recebiam.
Os “filhos de Nossa Senhora” eram os imigrantes solteiros (Italianos, espanhóis, gregos, portugueses) que, sem ninguém, sem família estavam aqui em busca de melhores dias. Moravam nos quartos de pensão ou nos cortiços e acabavam “adotados” pelas famílias da vizinhança. Era enternecedor ver todas aquelas “mammette” (mãezinhas), com lágrimas nos olhos, recebendo os filhos de Nossa Senhora. De dor da separação elas entendiam. E muito!
Após o almoço, a confraternização. Era um “vattene viene” (vai e vem) de vizinhos, amigos, parentes e aparentados. Música, festa e vinho. Na rua, a molecada exibia os presentes que ganharam...
O Ano Novo tinha a véspera com sua ceia e seus fogos. Tinha a Corrida de São Silvestre e o barulho ensurdecedor das buzinas dos carros e dos apitos e sirenes das fábricas. A ceia era farta. Tanto que sobrava muito para o almoço de Ano Novo. Era tradição da nossa família engolir três grãos de “melagranno” (romã) para que sempre estivéssemos juntos. Os espanhóis comiam uma colher de “lentejas” (lentilhas).
O almoço do primeiro do ano era igual ao do Natal.
Ano Novo! Agora, era só esperar pelo Dia de Reis...
Eu e todas as crianças, na véspera de Reis, colocávamos os nossos sapatos à porta, fora de nossos quartos, à espera de presentes (balas, confeitos, chocolate, etc.) Ninguém colocava mais os sapatos à janela, pois havia o receio de que fossem roubados. Os espanhóis colocavam capim dentro dos sapatos, para alimentar os camelos dos Reis Magos. Em agradecimento os reis deixava
m presentes.
Dia seis! Após o almoço, a sobremesa era o Bolo de Reis que, além de delicioso, trazia brindes em seu interior. Depois do “Magnificat” (Hora da Ave Maria – Seis da tarde.) começávamos a desmanchar a árvore de Natal e o presépio. E também começar a sonhar com o próximo fim de ano...
É hora de partir. Saio silenciosamente dessa minha casa que não mais existe, mas que ainda existe em mim e fecho a porta calmamente. Olho para o chão e em frente a ela ainda está o velho capacho que sempre dizia a todos “Bem-Vindo”. Capacho verdadeiro. Não como os muitos capachos que mascaravam a hipocrisia daqueles que Mal-Recebiam os seus parentes e amigos.
Fecho o portão e caminho de volta à realidade sentido o perfume da Dama da noite que florescia no jardim... Floresce ainda em mim...

Por Wilson Natale

12 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Natale, que memória!
A nossa arvore de natal eratambem fincada numa lata amarela com aquele soldadinho de cor preta de 20 litros de "Oleo Sol Levante" e com todos os adereços dem papel crepom e ppel celuloide.
Voce me levou para os anos 40/50 na velha casa da Rua Augusta que hoje, tambem só existe na minha memória.
Obrigado amigo por estes momentos de ternura.
Confesso que meus olhos se encheram de lágrimas.

Zeca disse...

Puxa, Natale!

Depois dessa viagem aos natais da minha infância, provocada pela leitura do seu belo texto, fiquei com uma vontade enorme de montar, na sala da minha casa, uma enorme árvore de natal, natural, como aquelas que também eram montadas na casa dos meus pais!

E como os olhos úmidos de emoção e saudade, constato, que hoje nem mesmo o pinheiro natural eu encontraria, já que os artificiais tomaram conta de tudo e de todos.

E todos os "eventos" por você relatados eram, com pequenas diferenças, iguaizinhos aos da minha infância! Em casa tínhamos um "Filho de Nossa Senhora" que era tratado, carinhosamente, como filho da casa. Não apenas no Natal, mas durante todo o ano. Era o Paulão, um rapaz negro sem nenhuma família, que o meu pai, inicialmente, acolheu e que, pouco a pouco, conquistou os corações de todos. E no Natal, Papai Noel sempre deixava, sob a árvore, um presente para ele também.

Parabéns! E tenham, você e todos os seus afetos, um Santo e Felis Natal!

Abraço.

Zeca disse...

Desculpe alguns erros, como o "como os olhos úmidos de emoção" e o "Felis Natal" com "S"... rs.
Foi a emoção do texto e, como costumo digitar direto, de vez em quando acaba escapando alguma incorreção.

FELIZ NATAL A TODOS!

Arthur Miranda disse...

Meus natais eram diferentes, mas uma coisa era igual, depois de colocada a arvore, levava anos luz para chegar o dia 25, coisas que hoje em dia passa com a velocidade da luz, não é mesmo?
Parabéns Natale, Feliz Natal.

Modesto disse...

Dom Wilson Natale, no me fa piangere, per carita.
Sua transposição de tempo verbal, tendo como tema uma casa inesistente, pra nós mas, não nos seus devaneios. E nesta hipotética residência, as recordações dos natais de anos que já se foram. Quantos detalhes familiares, quantas lembranças de fins de anos, os parentes, amigos, "paraquedistas" de todas as nações, quanta comida, presentes, alegria sem fim. Tudo acondicionado num só pacote: AMOR.
Neste seu retorno imaginário, estou com vc, Natale, sem perder um só detalhe, peguei carona nos seus sonhos, convidado ou não, ocupei lugar ao seu lado e tomei conhecimento de todas as ocorrências das festas de Natal e Fim de Ano. Obrigado, Wilson e parabéns com os mais sinceros votos de um Feliz Natal e um fabuloso Ano Novo.
Modesto

Luiz Saidenberg disse...

Muito obrigado, Natale, por permitir nossa visita à sua casa do Natal Passado. Muito boa a descrição dos eventos dos imigrantes do velho Brás, minuciosa e históricamete narrados. Então, naõ havia a tão hoje famosa ceia de Natal...só o almoço.
Gostei !

Soninha disse...

Olá, Wilson!

Que legal esta história de sua família, sobre os natais...
A solidariedade aos menos favorecidos e aos que estavam longe de suas famílias...muito legal isto.
Você nos fez voltar aos natais de nossa infância, quando esperávamos, anciosos, pelo dia de Natal...
Tanta coisa sua que também era nossa...de nossas casas, de nossa vida...
Igualmente abri a porta daquela velha casa...senti seus aromas, revi seus cômodos, ouvi as vozes queridas...quanta saudade!
Doces recordações!
Valeu, Wilson!
Obrigada.
Muita paz!

Wilsonnatale disse...

MIGUEL: A Lata do "Sol Levante", depois que o pinheiro secasse era muito bem limpa e guardada. E serviu para muitos natais. Daí eu lembrar-me dela.

ZECA e ARTHUR:Mesmo com as diferênças, os nossos natais são parecidos na sua essência.

LARÙ: Cosa mai ti posso dire? Quelli erano ancora i Natali degli immigranti.

SAIDENBERG: Nós não fazíamos a ceia de natal.E alguns a faziam .A maioria, muito católica, optavam pela Missa do Galo e quando chegava à casa, tomavam uma "zuppa" - sopa - de creme de legumes e iam dormir. E para não alongar mais o meu texto, omiti que para nós o dia de reis era mais importante. E que era a Beffana e não Papai-Noel que nos trazia os presentes.Coisa de imigrantes e oriundos (risos).

SONINHA:São boas lembranças antigas que fazem sempre os meus Natais mais felizes.
Como um "nerd", se algo não está bem no meu Natal, vou lá no meu "arquivo" de lembranças e "seleciono", "copio" e "colo" no meu Natal atual. Ai é só "salvar" e pronto! Tudo perfeito e brilhante!... Afinal, que é NATALE tem que ter sempre um feliz Natal (risos).

A TODOS: Um Natal de muita Paz e um Ano Novo mais que feliz!

Abração,

Luiz Saidenberg disse...

La Beffana, Natale? Ma facciame il favore!
Como se estivesse na Piazza Navona, em pleno coração da velha ROma...
Abraço.

Wilsonnatale disse...

Não é essa, Saidenberg! ahahahahaaaaa!!! É a bruxa boa e má que,premiava ou punia uma criança. Ela sempre trazia os presentes envolvidos em lindas caixas ou pacotes. E quando é aberto, o presenteado descobre a quanto está sua bondade ou maldade.A Beffana com os lindos pacotes finge premiar a criança que se faz de boazinha. Ela escarnece do moleque commediante.
Se ben che a me mi vá abbastaza quelle beffane dè Via Veneto, dè Trastevere... Ahahahahahaaaa. Tem também as "Beffa" que se diverten vendendo tudo quanto é porcaria aos turistas com se fosse uma atiguidade.
Então bello, a Beffana aqui é aquela que premia ou pune. E a gente não pode enganá-la.
Abração.

Bernadete disse...

Natale,um texto maravilhoso e cheio de belas recordações. A lata de oleo Sol Levante, é impagável. Nossa comemoração também era no dia 25 com "aquele" almoço. A tradicional canja de galinha depois da missa do Galo e o bolo de Reis, me emocionaram.
Um grande abraço e um Feliz Natal para você e os seus.

Anônimo disse...

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