quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Rabanadas

São tantas recordações, meu Deus! Especialmente agora, pelas comemorações de fim de ano. Temos todos nós, muitas histórias para contar. Muitas memórias sobre Natal. Mas, revendo algumas receitas para escolher algumas para as festas natalinas, lembrei-me das rabanadas...
Quando pequeninos, meus irmãos e eu tantas vezes sonhávamos com aqueles quitutes deliciosos, que víamos pela televisão, ou mesmo nas revistas... Pedíamos para nossa mãe preparar, porém, nem sempre dava para serem aquelas, da revista ou da TV...
Lá pelos idos de 1964, quando vivíamos os turbulentos dias da revolução, numa imensa dificuldade financeira, pois meu amado pai havia ficado detido no DOPS, mamãe tinha que se virar para que não faltasse o alimento à nossa mesa. Meu pai amado era líder sindicalista, dentro da Mafersa, onde trabalhava. Não tinha vínculos políticos, não participava de nenhuma atividade subversiva. Apenas era como um “porta voz” dos colegas, dentro da fábrica. Porém, foi levado para esclarecimento e ficou por 30 dias detido no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Era para lá que os presos políticos eram levados, durante a ditadura militar, para serem interrogados, torturados e, em muitos casos, mortos pelo sistema autoritário que regia o país. Foi no prédio localizado na região da Estação da Luz que homens e mulheres viveram e presenciaram cenas de violência inimaginável, que o tempo ainda não conseguiu apagar. Felizmente, nada puderam provar contra meu pai e ele foi libertado, graças a Deus, mas, ficou desempregado e um longo período de penúria se abateu sobre nossa família. Nosso avô materno era quem supria nossas necessidades, neste período.
Tudo isto para eu falar sobre como pudemos apreciar as famosas rabanadas, um prato m
uito saboroso e por um custo baixo. Minha mãe e minha avó, para satisfazer nossa vontade quanto aos quitutes natalinos, nos contou que era uma iguaria muito apreciada, herança da culinária portuguesa e estava sempre presente nas mesas mais finas de nossa cidade.
Para nós, crianças, que até então acreditávamos que era simplesmente pão frito, passamos a ver com outros olhos e a saborear com mais prazer as famosas rabanadas.
Hoje, posso dizer que faço questão de tê-las em minha mesa nas festas de fim de ano. Que delícia!
Feliz Natal a todos! Boas Festas!

Por Sonia Astrauskas

8 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Que bela história, Sonia, apesar do triste episódio de seu pai. Foi mesmo uma época medonha, da qual somente os agregados ou cegos às arbitrariedades do regime podem ter saudades. Meu amigo Shimamoto, que era publicitário, assinou uma lista de donativos a um exilado político, e tb ficou preso no Dops. Não foi torturado, mas viu e ouviu coisas terríveis. E que bonito, o simples pão frito passou, desde então, a ser um dos mais queridos pratos de Natal. Foi promovido a "Rabanadas"!
Que beleza!
Um belo Natal a você e ao Miguel !

Miguel S. G. Chammas disse...

Amor, historia triste e, ao mesmo tempo, deliciosa.
Também, com esse prato de rabanadas a nos fazer provocações gastronõmicas não se pode aguentar.
Voce viveu, como eu, esses anos de tristezas e penurias. Ainda bem que as rabanadas serviram para acalentar os desejos daqueles coraçõezinhos ainda tão jovens.
Vou torcer para que neste ano as famosas rabanadas voltem à mesa e, lógico,terminem na minha boca faminta.
Beijos.

Bernadete disse...

Soninha,os "Anos de Chumbo" foram e são uma mancha para nosso país.
Lamentável o ocorrido com seu pai.

Uma de minhas filhas, detesta qualquer receita que use pão umedecido,mas deliciava-se com as rabanadas de Natal,até descobrir que eram feitas com pão frito....desde então não come mais. Vá entender né?
Um grande abraço e um feliz Natal para você e o Miguel.

Arthur Miranda disse...

Sonia.
Na ditadura dos anos 70 a única rabanada servida nos porões do DOPS era mesmo as preparadas pelo delegado Fleury, Mas as rabanadas feitas pela minha querida mãe eram muito gostosas e sempre aprovadas em todos os Natais, Hoje em dia para não engordar elas estão proibidas aqui em casa. Bela triste e apetitosa historia, que com certeza foi por todos apreciadas.

Modesto disse...

Adoro rabanadas, Sonia, a Myrtes fez ontem. Estou "dodói", (levei um tombo e esfolei meu braço esquerdo), por isso estou atrasado nos comentários.
Um Feliz e Santo Natal a todos vcs.
Modesto

Wilsonnatale disse...

Texto SABOROSO, Soninha!
Embora não fizessemos a Ceia de Natal, as rabanadas e gemadas com conhaque substituíam o nosso copo de café com leite e pão.
Na véspera de Ano Novo, lá pelas nove e meia, dez horas as gemadas com as rabanadas eram servidas como uma espécie de espera-bóia até a ceia, que começava à meia-noite, depois da corrida de São Silvestre.
Foram dias difíceis aqueles dos anos 60. Mas nem por isso nos levou a esperança.
Abração,
Natale

Zeca disse...

Soninha,

que tristeza essa lembrança dos "anos de chumbo", onde até hoje tantas familias choram o desaparecimento de entes queridos. Essa é, infelizmente, uma mancha em nossa história que haveremos de suportar, ao mesmo tempo que cuidaremos para que não se repitam jamais.

Quanto às rabanadas, essas sim, de muito alegres lembranças, pois como especialidade servida, geralmente, nas festas de fim de ano, acabam tornando-se iguarias extremamente desejadas. Minha avó materna, que morava conosco, além de excelente cozinheira, era famosa na familia pelas suas rabanadas que nunca ficavam encharcadas e eram deliciosas. Tão deliciosas que eu, a partir de determinado momento, comecei a chantageá-la para que as fizesse mesmo em outras épocas, fora do Natal. E ela, avozinha amorosa, caia na chantagem e, cheia de prazer, fazia deliciosas rabanadas em qualquer época do ano.

Eu lembro que um dos segredinhos dela era o leite condensado, mas que ela não contava para ninguém. E as rabanadas sequinhas nem eu consegui descobrir como ela as fazia.

Ô, saudade das rabanadas da minha avó!!!

Um muitíssimo Feliz Natal para vocês e para todos os seus.

Beijão.

suely schraner disse...

E as rabanadas adoçaram a moça. Uma história doce e melancólica. Parabéns, Soninha!