sábado, 11 de dezembro de 2010

Uma roda de samba na madrugada

Ainda me lembro das rodas de samba que nós organizávamos na casa do amigo Emir, lá na Rua Cisplatina; geralmente ocorria quando voltávamos mais cedo de alguma festa, assim completávamos a noitada, cantando acompanhados pelo violão do Roberto. O trato era que cada uma deveria cantar apenas um verso de cada música, para dar oportunidade para todos cantarem; o Vicente abria a sessão catando assim:

"Abre a janela formosa mulher,
E vem dizer Adeus a quem ter adora
Apesar de te amar como eu te amei
Na hora da orgia eu vou em bora"

aí, entrava o Paulinho e cantava:

Ai, ai, ai, Izaura,
Hoje eu não posso ficar,
Se eu cair nos teus braços,
Não há despertador que me faça acordar,
Eu vou trabalhar"

Roberto entrava e cantava:

Aos pés da Santa Cruz
Você se ajoelhou,
E em nome de Jesus

Um grande amor você jurou
Jurou mas não cumpriu,
Fingiu e me enganou,
Prá mim você mentiu,
Prá Deus você pecou..."

O Moacyr logo emendava:

Depois que ele desceu do morro,
Passa fome prá cachorro
Lhe ofereci meu socorro ele diz que não quer
Não não não quer
Diz que não depende de favores de mulher..

O Simão, carioca, trazia sempre novidade e dizia:

Ela me disse jurando
Este é meu último adeus
Me ajoelhei implorando
Não vá embora pelo amor de Deus...

Eu, como fâ de carteirinha do Chico Alves, dizia:


Que rei sou eu, sem reinado e sem corôa
Sem castelo e sem rainha, afinal que rei sou eu,
O meu reinado é pequeno e e restrito,
Só mando no meu distrito
Porque o rei de lá morreru

O Emir um pouco desafinado dizia:

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por isso toda gente lá de casa começou a rezar
Até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada,
Por isso essa noite lá no morro não se fez batucada

O Vicente entrava outra vez cantando:

Ai, ai meu Deus, tenha pena de mim
Todos vivem muito bem só eu que vivo assim,
Trabalho e não tenha nada, não saio do miserê
Ai, ai meu Deus, isso é prá lá de sofrer..

O Emir, fâ da Carmen Miranda emendava:

Gosto de cachorro vagabundo
Que anda sózinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão

O Moacyr entoava um samba que dizia:

Eu ontem cheguei em Casa Helena
Te procurei e não te encontrei
Passei o resto da noite a chamar,
Helena, Helena vem me consolar

O Neno era mais retraído e cantava:

Não falem dessa mulher perto de mim
Não quero prá não aumentar minha dor,
Já fui moço, já gozei a mocidade
Se me lembro dela, me dá saudade
Por isso em homenagem a meu fim
Não falem dessa mulher perto de mim...


O sono vinha chegando e, um a um, íamos deixando a roda, como saideira o Roberto, dedilhando o seu violão, ia pela rua cantando:

Noite alta. céu risonho
A quietude é quase um sonho
O luar caí sobre a mata
Qual uma chuva de prata
Em raríssimo esplendor
Só tú dormes não escuta
O teu cantor...

Na esquina, nos despedíamos e cada um ia para sua casa descansar para recobrar as forças, todos alegres e felizes e prontos para retornar à vida normal no dia seguinte.
Quanta saudade daquele tempo!

Por Leonello Tesser (Nelinho).

10 comentários:

Arthur Miranda disse...

Nelinho, O otimo nessas suas historias são as letras das musicas, as vezes já esquecidas em nossas lembranças e você as revive com maestria, parabéns e Tenha um Feliz Natal.

Miguel S. G. Chammas disse...

Nelinho meu amigo, sabe o que faltava nessas rodas de samba? Não sabe? Então eu te digo: Faltava euzinho pra soltar a voz e cantar "até amanhã, se Deus quiser, se não chover eu volto prá te ver ó mulher..."
Amigo, desejo um Feliz Natal a você e toda a sua família.

Wilsonnatale disse...

Nello: Que coisa boa de se lembrar!
Tempos dos barzinhos, das esquinas, dos fundo de quintais. E lembrar dessa marvilha musical - o tão esquecido violão.
E fui longe com a sua lembança. Voltei à minha rua, onde à noitinha, os Orlando Silvas "de chuveiro" cantavam a alta voz: Aos pés da Santa cruz você se ajoelhou e em nome de Jesus, um grande amor você jurou...
Gostei!
Abração,

Zeca disse...

Nelinho,
que coisa boa de se ler e de se lembrar! As rodas de samba onde os amigos se reuniam para se divertir e cantar! Ainda ontem fui a um churrasco onde se comemoravam os 60 anos de uma querida amiga e, sabe o que tivemos lá? Na churrasqueira, as carnes assando, na geladeira (e caixas de isopor também), a cervejinha gelando e todos reunidos em roda, alegremente cantando. Havia dois violonistas, um muito bom, que toca por prazer e outro, excelente, que é músico de profissão. Havia também uma cantora profissional e a minha amiga, que tem uma voz deliciosamente afinada, além, é claro, de outros "cantores", cada qual com seus pontos fortes. E eu, mais uma meia dúzia, apreciando e aplaudindo e, por que não?, cantarolando baixinho aquelas canções que foram desde o atual Gabriel, o Pensador, passando pelo rock, ye-ye-ye e bossa nova, até chegar nos saudosos Cascatinha e Inhana. Sem deixar, claro, de marcar sua deliciosa presença, nosso queridíssimo Adoniram Barbosa. Foi uma noitada memorável!
Tenha, com os seus familiares, um excelente Natal!
Abraço.

MLopomo disse...

NELINHO.Nesse dia vocês deveriam ter convidado o Adoniran Barbosa. Sabe por quê? - A Matilde brigou com ele que não podia entrar em casa, e ele cantava: Joga a chave meu bem
Aqui fora tá ruim demais. Cheguei tarde perturbei teu sono. Amanhã eu não perturbo mais...

Soninha disse...

Olá, Nelinho!

Bons tempos aqueles lembrados por você, neste texto, quando se podia sair às ruas e cantar belas canções, sem que agredissem os seresteiros ou que eles não fossem assaltados...
Boas lembranças, heim, Nelinho?!
Valeu!
Obrigada.
Muita paz!

Luiz Saidenberg disse...

No tempo das serestas,
nas noites de lua...
casais de namorados
dançando na rua!

Abraços.

suely disse...

"Una noche tibia nos conocimos/Junto al lago azul de Ypacaraí/Tu cantabas triste por el camino/Viejas melodias em guaraní...// Belas recordações melodiosas. Parabéns!

Modesto disse...

Nelinho, esta noite vou dormir ouvindo Celestino, Inesita e todos os trovadores que vc despertou. Muito obrigado, Nelinho, um Feliz e Santo Natal per tutti la famiglia.
Modesto

Bernadete disse...

Nelinho, estou aqui vibrando com sua parada de sucessos e pensando ....
..Com que roupa, eu vou.
Pro samba que você me convidou...

Um Feliz Natal para você, Jurema e todos os seus.