terça-feira, 5 de abril de 2011

A fronteira


Aquele era o limite; chegamos até ali e estacamos. - No pasarán! Não era possível continuar, a fronteira estava ali.

Invisível, pois a avenida parecia continuar normalmente mais à frente, até a praça. A Catedral estava a uma quadra de distância, mas tal distância era intransponível. -No, no pasarán!

Tínhamos ido à Liberdade. Domingo, deixei o carro na Galvão Bueno, perto da Tamandaré. Bem à mão. Por ali se estaciona e se sai com maior facilidade. Dali até a Praça da Liberdade, e sua animada feira, uma pequena caminhada pela velha Galvão.

Nada de especial, naquele domingo. Nem festa de Ano Novo Chinês, com suas sufocantes multidões seguindo, corações aos pulos, os dragões e leões acrobáticos. Nem Tanabata Matsuri, quando elaborados balões de papel e fitinhas coloridas são presas às árvores, cobertas de pedidos e orações. Nem aniversário do Buda, com suas danças rituais, sob o som de imensos tambores.

Um domingo comum da Liberdade e nossa missão era bem corriqueira: comprar massas e macarrões, guiozás e gelatinas orientais. Pode-se comprar isto em outros lugares, mas, ali, são melhores, mais típicos e mais baratos. Antes, passamos pela feirinha, com seus já conhecidos produtos padronizados. E seguimos em frente.

Pra quê! Pretendia dar uma olhada no conjunto estatuário " Contando a Féria ", um engraxate e um jornaleiro abraçados e eternizados na Praça João Mendes, tão estimados por nosso amigo Wilson Natale. Não conheço o conjunto pessoalmente e tem tudo a ver com meu gosto por escultura.

Pretendia, mas não chegaria lá. Seguindo a Av. da Liberdade, tivemos o primeiro aviso. Quase na esquina da Rua da Gloria, uma magnífica Mercedes C-180 prateada, estacionada. E, muito, muito estranho, com o vidro aberto, no qual se debruçava um personagem mal ajambrado e mal encarado. Pediria dinheiro? Jogada de drogas? Nunca saberemos.

Passamos por eles e ali estava a fronteira.

Poucos metros mais e iríamos ver as estátuas dos meninos pobres, mas já uma miséria muito maior se estendia ali, forrando as calçadas. Minha esposa declarou:- Por ali eu não passo. Tentei dar uma desviada, mas, na rota, outros miseráveis tinham estendido suas tendas, obstruindo a passagem.

Isto era só o começo, pelo que vislumbramos mais adiante. -No, no pasarán!

Desistimos. Engraxate e jornaleiro, vocês ficarão para outra vez. Vocês são ricos e felizes, na brônzea imobilidade de seus olhos cegos, sem ver a que foi reduzido o centro da cidade. Voltamos e, de rebote, pegamos ainda pela frente o indivíduo que estivera falando com o dono da Mercedes.

Veio direto para mim, com seu passo trançado de urubu malandro. Desguiei, com um seco Não tenho, companheiro. Ouvi-o ainda engrolar qualquer coisa, como “Não era dinheiro...”

Que seria, então? Queria discutir “O Capital” de Marx e sua influência urbanística em São Paulo? Ou as implicações do complexo de Édipo na análise freudiana? Não sei, nem quero saber.

Mas, juro que um dia, talvez durante a semana, volto para visitar as estátuas. Elas vêm de dias melhores, já esperaram tanto tempo que um pouco mais não lhes fará mal.

Que esperem. Uma hora a fronteira estará franqueada ao cidadão comum, marido exemplar e pai amantíssimo, cumpridor de seus deveres para com a Nação.

Que receberá, finalmente, como na historinha de Kafka, autorização para passar.

Por Luiz Saidenberg

11 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Pois é Luiz, as fronteiras nipônicas da liberdade às vezes são intransponíveis e até perigosas, mas se conseguimos transpo-las....quantas alegrias e delicias podemos encontrar.
Gostei do teu texto, abração.

Zeca disse...

Olá, Saidenberg!

Bela crônica! Bela e triste ao mesmo tempo, pois mostra como somos impedidos em nosso constitucional direito de ir e vir e, ao mesmo tempo, acaba nos forçando ao exílio voluntário atrás das grades que deveriam (mas nem sempre conseguem!) proteger-nos dos perigos que a violência que impera na vida moderna nos oferece.

Mas, da leitura desse belo texto, ficou uma dúvida. Na verdade, uma pergunta que não quer calar: afinal, vocês conseguiram passear e curtir o domingo na Liberdade? Conte-nos, brindando-nos com outra crônica saborosa como esta.

Abraço.

27.miranda@gmail.com disse...

Luiz pelo jeito havia liberdade para tudo, menos a liberdade constitucional para ir e vir...
É incoerente não haver liberdade na Liberdade.
Tenho certeza que no Japão no momento haveria maior liberdade. Mas só se você estivesse de Barco portando equipamentos contra radiações.

Luiz Saidenberg disse...

Muito obrigado. Na verdade, na Liberdade havia, e há liberdade. Mas, saindo dali, em direção à Sé, o direito de ir e vir corria perigo, além de outros direitos, inclusive à integridade física.
Pobre de nosso Centro, e no domingo, sem comércio e trabalhadores, os sem teto estabelecem o SEU território.
E sim, caro Zeca. Na Liberdade em si tudo bem: sempre animada multidão passeando e fazendo compras. Foi o que fizemos tb, lamentando a falha da visita às estátuas do Natale. Abraços.

Soninha disse...

Olá,Luiz!

Muito bom os asseios pelobairro da Liberdade...
Putz...fiquei com vontade dos guiozás...hummm!
Gsto de comprar láos chás, os incensos,além dos quitutes, claro.
Os moradores de rua se espalham mesmo,aos domingos...Lamentávelcenário de nossa Sampa tão querida. No meio deles tem os mais pacíficos,mas,infelizmente a maiorira são mal intensionados e oportunistas, e devemos cuidar para evitar passar pelo meio deles,com certeza.
Pena, né!
A estátua...bem...podemos vê-la em outras ocasiões.
Valeu,Luiz!
Obrigada.
Muita paz!

Soninha disse...

Em tempo...

Aiiiiii...meu teclado está muito ruim...snifff
Perdoe-me os erros de digitação.

Mais paz!

Wilsonnatale disse...

Pois é, Saidenberg: Nesse dia você não conheceu e nem "curtiu" os meus amigos. Mas passeou pela Liberdade, mas não em liberdade.
E os transtornos desse dia transformou-se em belo texto!
Abração,
Natale

Laruccia disse...

Experiência amarga, Luiz confirmada por mim. É verdade, não sei como será no futuro mas, por lá, se puder, não passo mais. Parabéns, Saidenberg.
Laruccia

Luiz Saidenberg disse...

Amigos, durante a semana dá, ou mesmo no sábado. Tem bastante movimento de gente- digo gente respeitável. Não desanimemos, as estátuas do Natale merecem ! é incrível que eu nunca as tenha visto, mesmo quando frequentava o Centrão. Já a Márcia as conheceu, levada pelo pai. Abraços.

suely schraner disse...

Uau! Agora estes zumbis fazem parte do estilo da cidade. Por minha vez eu respiro fundo e passo. Belo texto,Luiz! Abraço.

Nelson de Assis disse...

Liberdade, sinônimo de 'prisão?'
Tente da próxima vez, e num dia
de semana comum. Deixe os finais de semana os desfiles nipônicos.
Banzai!!!