quinta-feira, 21 de abril de 2011

Capitano d’industria

Reza a lenda que serviu a Mussolini. Era da marinha e viu o mar tingir-se de vermelho na guerra.
Só emoção. Coração na boca. Para o bem e para o mal. Ou oito ou oitenta. Gostava demais. Sentia raiva demais.
Se ela legislava a favor de um empregado, ele retrucava: Quem paga o seu salário, sou eu ou é ele? Para logo em seguida, concordar.
Até para pedir um copo d’água, um palavrão, em italiano ou português mesmo. Era de lei.
A maturidade, a experiência e afeto permeados de confiança. Confio até me provarem o contrário, dizia. Competia consigo próprio.
Sua gargalhada ressoava pelos corredores. Da mesma forma que dava murros no balcão, se algum documento sumia. Um dia, a funcionária nova não encontrava o documento solicitado. E ele: Toda vez que procuro este documento, tá na casa do caralho! A Jurema retrucou baixinho: Não sabia que tinha casa... Já, a funcionária nova, que era crente, nunca mais apareceu, nem pra dar baixa na carteira.
Capaz de surpreender. Ajudou o empregado a construir a casa dos sonhos. Tijolo a tijolo. Dizia que era empréstimo. Nunca aceitou pagamento de volta. Mas, numa falta profissional, gritava: Bastião, você é um bosta!
Seu objeto de sonho era construir casas populares para todos os empregados.
Quando soube da viuvez precoce da ex- funcionária, mais que depressa lhe ofereceu o emprego de volta. Estou no sexto mês de gravidez, ela disse. Gosto de gente que trabalha, esteja grávida ou não. Pode vir. E isso, foi a sua salvação, já que nem enxoval, nem berço ela tinha.
Num belo dia, ele comprou uma Mercedes. Orgulhoso a chamou para mostrar a maravilha. "Como o senhor pode andar num carro que custa mais que um apartamento, com tanta gente sem ter onde morar?" E ele: Prefiro ser vaiado numa Mercedes que aplaudido num ônibus.
Inteligente e trabalhador. Um capo de indústria. Tenacidade e dedicação fizeram o pequeno negócio, iniciado numa garagem, se transformar numa referência em matéria de pastifício.
Era o primeiro a chegar e o último a sair. Dizia que o escritório era o cartão de visita. Queria moças bonitas e eficazes. Limpeza era regra absoluta. Um dia, um entregador apoiou a mão suja no portal. Ao ver isso, ele deu um tranco que o coitado se desequilibrou, sob o riso de todos. O batente da porta era todo branco, não podia ter nem uma manchinha...
A massa que fabricava era excelente. A mesma que ia para o mercado, era servida em sua mesa.
No Natal, não economizava. Panetone da Di Cunto, pernil e caixas de macarrão pra todos.
Uma tristeza, porém, minava sua resistência. A vida inteira dentro da fábrica, só compensada pela certeza da volta ao lar no fim de cada dia. Lar que deveria desocupar. Perdeu em última instância, o direito de continuar onde vivia há muitos anos. Desapropriação, para aumentar o jardim do palácio do governo de São Paulo.
Desajustes na sociedade e má gestão o forçaram a vender a fábrica. Mais desilusão. A vida se esvaindo num câncer definitivo.
Suas últimas palavras ao morrer: Foda-se.

P.S.:
Foda, vem do grego antigo e significa "mina".
FODDERE, significa "escavar" ou "cavoucar".
FODINA, significa algo como "mina pequena, sem
importância, com baixo rendimento extrativista".
Assim, o termo FÓDA virou analogia do ato sexual,
muito provavelmente, devido ao esforço masculino
sobre o corpo feminino, como num trabalho "árduo".
Curiosamente, alguém dizer "VOU FODER A MINA",
significaria, literalmente, que iria escavar no túnel,
em procura de algo precioso...
Fonte: http://www.dicionarioinformal.com.br/

Por Suely Aparecida Schraner

7 comentários:

Soninha disse...

Olá,Suely!

Gostei demais deste texto.
Quantas pessoas,estrangeiras e brasileiras, que construiram Sampa com seu trabalho, enriqueceram...outras não...E quantas delas "entregaram" seus imóveis por preço de banana pela desapropriação,para que São Paulo pudesse crescer, não é mesmo?!
Lendo seu texto, senti saudade das coisas gostosas da DiCunto...hummm
Despois que eu casei,ia sempre lá comprar as massas maravilhosas,o panetone, os doces...meu Deus do céu!ô coisa boa! As vezes,íamos lá, aos sábados a tarde, depois de saimos do Ana Vieira,só para comer os doces sensacionais...
Também tem a doceria Modelo,lá na Padre Raposo que,inclusive, édeuma grande amiga minha, a Norma...também com doces,massase outras iguarias, tão deliciosas quanto as da DiCunto...
Valeu, Suely!
Obriada.
Feliz Páscoa!
Muita paz!

Laruccia disse...

Schraner, pelo roteiro descrito e a foto do palácio do governo de São Paulo, suspeito de que vc está se referindo ao Conde Francisco Matarazzo cujo edifício, que seria Universidade Matarazzo, por motivos de dívidas fiscais, deu o prédio quase acabada pro governo. Sei disso porque trabalhava num andar acima dos escritórios de engenharia do Matarazzo, na pça. do Patriarca e via quase todos os dias o progresso dos arquitetos, sonhando, um dia colocar meus filhos na escola.
Se estou certo ou não, não importa, gostei da sua crônica, Suely, parabéns.
Laruccia

Miguel S. G. Chammas disse...

Suely, lindo este teu texto. Euque tenho minhas raizes de vida no sangue dos napolitanos e suas cançonetas e no sangue dos arabes e sua honrada vida de mascate,adorei revera historia desse capitão da industria. Parabéns.

Wilsonnatale disse...

Suely: Não ficou claro para mim se, no texto, você fala do Velho patriarca, il signore Di Cunto, ou do Patriarca dos Matarazzo, o Francesco.
De qualquer modo o título de Capo Industriale se aplica a ambos, pela garra e tenacidade.
O velho Di Cunto era um "maledetto" 'casca grossa' amado por todos. Hoje ele tem aqui na Mooca, uma praça com o seu nome.
E eu, sou um "devorador" Di Cunto desde os tempos do velho prédio que ficava à esquerda do prédio atual,veja a foto, onde agora é o estacionamento.
E o velho "Cecco"(apelido de Francisco) era apenas um operário em meio aos operários.
Para mim, são dois "capo" dignos de serem lembrados.
Abração,
Natale

Zeca disse...

Olá, Suely!

Belíssimo texto em homenagem ao, que acredito, seja o criador da Di Cunto! Pelo que você falta, mesmo com a característica de soltar palavrões em cada frase, ele deve ter sido uma daquelas pessoas que todos admiravam e temiam ao mesmo tempo. Mas não o temor por algum tipo de violência, sim o temor por algo mal feito, cuja repreensão, no calor do momento, ardia como uma chibatada. Pessoas assim sempre acabam tendo enorme influência sobre as demais, daí ele ter se tornado, como você mesma disse, um "Capo de Indústria".
Parabéns pelo texto e pela sensível homenagem.

BOA PÁSCOA! para você, seus familiares e todos os autores do Memórias de Sampa!

Abraço.

Luiz Saidenberg disse...

Muito legal, Suely. Di Cunto já é legendária em S. Paulo,e marca registrada da Mooca. Muito interessante sua explicação sobre Foda, que em grego, certamente escrevia-se com Ph. Palavrões à parte, belo relato. Abraços.

suely aparecida schraner disse...

São Paulo de tantas gentes e tantas interpretações. Adorei os comentários. São tantos personagens desta pauliceia desvairada e despertar lembranças e tantas imaginações. Tanto pode ser um quanto outro, nesta selva de pedra de tantos anônimos na multidão. Valeu minha gente. Obrigada!