segunda-feira, 11 de abril de 2011

Quem é vivo sempre aparece


Nós sempre vivemos rodeados pela sabedoria popular e pelas frases prontas e feitas.
Nos longínquos 1953/1954, meu universo era delimitado pelas ruas Guaicurus, Vespasiano, Faustolo e Caio Graco, e nesse universo habitavam todos os heróis em carne e osso e de papel.
Meu pai tinha um restaurante em frente à Rua do Cortume e essa rua era cheia de mistérios, pois terminava (para mim) na linha do trem e tinha muito terreno vazio e muito mato.
Meu amigo Décio e eu éramos os maiores do mundo e ele, por ser mais velho (tinha 5 anos mais que eu), sempre comandava as brincadeiras, seja de teatro, futebol ou brincadeiras mais caseiras como jogar ludo real, naqueles tabuleiros de 4 jogos, trilha, etc.
Quando eu me via sozinho, porém, tinha aventuras especiais. Uma delas era comprar gibis. Falei dos dois heróis em carne e osso, falo agora daqueles que devorava sem um instante de folga.
Capitão Marvel, Tio Patinhas e seu sobrinho Donald, Cavaleiro Negro, Gene Autry, Roy Rogers, Flecha Ligeira, Don Chicote, Luluzinha, Bolinha, entre tantos.
Minha aventura era a seguinte: De manhã, pedia para a minha mãe me dar dinheiro para comprar um gibi; de tarde, era meu pai quem me dava dinheiro; às vezes eu surrupiava uma gorjeta no restaurante e comprava outro.
Para completar, na frente do restaurante tinha um espaço disponível e o jornaleiro pedia para meu pai deixar que ele expusesse as revistas e jornais. Isso era um motivo para que eu pedisse para que ele me deixasse ler alguma coisa. Resumindo, de três a quatro gibis eu lia todo dia. O grande suspense da história era que meu pai não deveria saber que minha mãe me dava dinheiro, e vice versa.
Um belo dia, o vice versa se deu e fui pego com a boca na botija, isto é, sentado na banca lendo mais um gibi.
A bronca foi tão marcante que o Superman que eu lia voou longe, mesmo com ele ainda estar vestido de Clark Kent e, no triângulo, o jornaleiro se explicando, minha mãe tentando apaziguar e meu pai espumando... A farsa foi toda descoberta e eu, como se dizia na época, “saí de fininho porque não estava agradando”.
Alguns anos depois, já mais assentado e lendo menos gibi, resolvi relembrar tempos gloriosos e transformei minha bicicleta em fogoso corcel, meu jaleco azul de entregador em uma garbosa armadura e a Rua Groenlândia no cenário especial para reviver meu tempo de herói da Távola Redonda. Aposentou-se o Don Chicote e surgiu o Ivanhoé.
Numa manhã especial, com a lista de entregas de leite pronta, bicicleta carregada de litros de leite - levava 14 ou 16 por vez - pronto para sair, vi a menina que me enfeitiçava brincando na calçada e não deu outra. Herói arrebatador, aprumei meu elmo, que nada mais era que um boné, estiquei o jaleco e me imaginei pedalando ao lado dela, todo imponente, enfrentando todos os infiéis inimigos do rei, mas o impensável aconteceu.
Desatento, não percebi que a bicicleta, desequilibrada por tanto peso na traseira, deu um pinote para traz e num instante os 16 litros de leite misturaram–se no asfalto em cacos e líquido.
Não sabia se me lamentava pela menina que me olhava ou pelo meu pai que se aproximava.
Está bem, diriam tantos que não se deve chorar sobre o leite derramado. Mas, eu sabia que iria chorar sobre o leite derramado. E como chorei, pelo leite derramado!
Tantos heróis passaram pela minha cabeça e eu acrescentei Ivanhoé a esta galeria.
Na semana passada, lembrei de mais um, desses quase esquecidos personagens. Fui até a OAB entregar uma documentação e a atendente, muito solícita, depois de receber toda a papelada, pediu que me dirigisse ao caixa, indicando a senha preferencial.
Tal como Flash Gordon, que está sempre viajando e, especialmente eu, no mundo da Lua, pequei a senha normal e, percebendo o equívoco, imediatamente puxei outra que era a preferencial.
Como o local é de respeito e o segurança estava atento a tudo que acontecia, sorrateiramente coloquei a primeira senha no bolso mantendo a preferencial na minha mão e me dirigi ao caixa.
Esperei por uns trinta segundos e a caixa chamando o número seguinte enquanto esperava o meu, preferencial.
A moça que me atendeu, vendo-me parado, esperando, retornou e começou a discutir com a caixa e esta lhe dizia que não me chamava por estar já chamando o 47 e que logo seria a minha vez. Passada a discussão, um pouco acalorada, confesso, a caixa, meio contrariada, me atendeu, conferiu, carimbou, recebeu, deu o troco e finalmente me vi na rua, em direção à Praça da Sé.
Meio ressabiado, disfarçadamente, pus a mão no bolso e confirmei que o 47 estava comigo, no meu bolso.
Faltava mais este herói à minha lista, como se fosse o Mandrake, tinha conseguido a façanha de me deslocar e ficar atrás de mim mesmo na fila.
Heróis vão e vem... Ditados populares são ditos e muitos esquecidos. No meio da praça, amassando aquela famigerada senha e depois a jogando no lix, veio em mim o derradeiro mote:
Quem é vivo sempre aparece, mas... Às vezes, é melhor se fingir de morto.


Por José Carlos Munhoz Navarro

8 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Zé, eu como o Lothar ou o velho indio Tonto, fiquei embasbacado com tua narrativa.
Você fez um balaio de gatos, derramou o leite, namorou a Silvia e levou uns petelecos, tudo no mesmo texto.
Maravilhoso, o poder de costurarpalavras e idéias.
eu só posso dizer: Não para, não para, não para......

marcia ovando disse...

Sempre muito bom ler suas histórias.
abraço grande para você e para Silvia

Arthur Miranda - Tutu disse...

Navarro. Você com essa sua estória enviaram-me de volta ao passado e eu me senti em frente a uma velha banca de jornal admirando a exposição de gibis, babando sem dinheiro para comprá-los, vendo desfilar na minha frente O almaque do Globo Juvenil mensal, onde a Família Marvel enfrenta a Família Silvana (Hi,Hi,Hi) e ainda desfilam, O Príncipe (Namor) Submarino, Capitão America, Tocha Humana, Dom Chicote, Flexa Ligeira, Hapolong Cassidy, Nyoka rainha das selvas, Fantasma e o seu capeto, Zorro e tantos outros, e você um grande Mandraque das palavras hipnotizando minha mente e fazendo num abrir e fechar de olhos tudo isso materializar-se em minha frente. Por essa sua tão bela narrativa que fez até o Miguel mostrar o seu lado “corintiano” e gritar como a fiel o faz nos jogos do Timão: Não Para, Não Para, Não Para. Eu só posso dizer: Navarro Pare sim! Pare de demorar em escrever. Parabéns .

Wilsonnatale disse...

Pois é, Navarro: "Não há mal que sempre dure e nem bem que nunca se acabe..." Ou vice-versa (risos).
Entre os tantos Gibís, por você citado e lidos por mim, acrescento "Os Sobrinhos do Capitão", o "Terror Negro", "Contos de Terror" e o "Dick Tracy".
Lembrei também, não sei se acontecia com você, que o meu jornaleiro tinha uma pilha de Gibís velhos que se podia comprar a preços mais baratos, ou trocá-los pelos que a gente tinha. A troca era sempre na base do dois por um.
E o seu texto prova que "A mentira tem pernas Curtas", que "Tanto o cântaro vai à fonte que, um dia se quebra"... E que, "Nada como um dia após o outro..."
Adorei o seu texto! Tão hilário fazendo-nos lembrar dos tempos em que TODO NÓS achávamos que éramos espertos.
Abração,
Natale

Zeca disse...

Zé Carlos,

o que mais poderia acrescentar, que já não tenha sido dito acima pelo Miguel, pelo Arthur e pelo Nathale? Eu também lia todos os gibis mencionados, me sentia na pele dos heróis e sempre querendo salvar a mocinha e também comprava, como lembrou o Nathale, gibis usados por preços menores. A única diferença é que eu arranjei um expediente para ganhar uns trocados e poder comprar mais gibis: todas as 4ªs feiras, eu espalhava os meus gibis sobre uma folha de jornal, na feira e vendia, conforme o estado, por preços que iam até quase o preço de capa!
Bons tempos aqueles! Gostosas recordações!

Abraço.

Laruccia disse...

Excelente narração, Zé Carlos, vibrei com o tombo da bicicleta e a lambança de leite no asfalto. Não é maldade minha, não. Imagine!!!! achei espetacular o sacrifício, em nome da conquista irrealisável, que ficou na intenção, na imaginação tão forte que até hoje vc lembra e conta pra nós, com requintes de vanglória, imaculando o negro asfalto com a mancha irremovível da brancura do pecado.
Agora, quando vc fala de GIBI, use sempre as maiúsculas, por favor. GIBI é coisa sagrada, iniciação de toda minha vida de aventuras. Vc não lembrou do Principe Submarino, do Tocha Humana, do Titan, do Drago e Roy, do Fantasma Voador, do Barney Baxter, do Tereré, do Principe Valente, do Flash Gordon do..... chega, quero te dizer que tenho a coleção de republicações de 1970, destes herois. Ahhh, ia esquecendo do Brucutu, Pinduca, Pafúncio e Marocas eeeee chega, pô!
Parabéns, Navarro.
Laruccia

Soninha disse...

Olá,José Carlos!

Bacana sua aventura de adolescente apaixonado e suas manobras parapoder ler a literatura que mais gostava.
Eu também gostava de ler gibis e gosto até hoje.
Valeu!
Obrigada.
Muita paz!

suely schraner disse...

Divertida e bela narrativa. Parabéns, José Carlos!