quarta-feira, 6 de abril de 2011

O fusca


Em 1973, o piloto Ronnie Peterson, o sueco voador, ganhava o Grande Prêmio da França. Aí, ela comprou seu fusca 66. Vermelho grená e parcelado em 36 vezes.

Vinte horas na auto escola: baixar o breque de mão, primeira e segunda.

No Detran, a baliza certa e aprovação garantida. De noite, pegar o possante na concessionária. Onde é mesmo que se liga a lanterna?

Na Marginal Pinheiros, só xingamentos. Gente mal educada a dizer impropérios sobre sua mãe. Em primeira e segunda, ela chegou ao pódio.

Naquela clara manhã de outono, saiu uma hora mais cedo. Pegou seu veículo e rumou para o trabalho. Era uma fábrica de macarrão que ficava na Marginal, quase esquina com a Avenida Interlagos. Na ladeira, pof, pof, em ré descontrol. Êpa! Passou direto do ponto. As duas mãos no volante, cara esticada quase colada ao vidro, aquela craqueza. De repente, o rio Pinheiros no meio. Como retornar? Uma hora esse rio tem que acabar.

Nesse pique, chegou à Lapa. Só aí é que se deu conta que o retorno só poderia ser por uma ponte. Um guarda pulou. Caderninho de multa voou. Ufa! Enfim conseguiu pegar a marginal de volta. Atrasada duas horas! Os tímpanos já imunizados aos palavrões.

Mãos firmes no volante, pernas travadas. Primeira e segunda. Enfim a firma onde trabalhava. Não havia focos de lentidão como hoje. A surpresa era uma aglomeração em frente à fábrica. Seu Adrimon, da portaria, muito solícito lhe abriu as duas bandas do portão de entrada dos carros. Mirou bem e acelerou na direção do portãozinho de pedestres. Foi só manifestante que voou.

Nova ré descontrol. Barbeira, eu? Deixou o carro atravessado na rua e entrou a pé mesmo.

Seu Antonio, o motorista de caminhão, foi quem colocou o carro pra dentro. Passava do meio dia. Coração na boca. Pernas bambas.

Por Suely Schraner

12 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Suely, conome sua narração, essa mulher era total merecedora do titulo "a maior piloto de fogão do mundo".
Não sou partidário da opinião que as mulheres são péssimas motoristas, eu tenha ao meu lado uma excelente piloto.
Mas as madames quando dão para fazer barberagem,sai de baixo......

Wilsonnatale disse...

Suely: Conta prá mim... A motorista Suely aprendeu e, hoje, dirige muito bem, não é mesmo? (risos)
O bom é que o começar dramático dos motoristas acaba se transformando em histórias hilárias.
Quem não teve o seu primeiro Fusca "prá bater", que atire a primeira pedra...
Abração,
Natale

Soninha disse...

Olá, Suely!

O bom da história é que a motorista iniciante n]ão se intimidou e tomou a iniciativa de ir para o trabalho em seu próprio carro e não guardu a CNH na gaveta...
O ruim é que ela não se lembrou das aulas de volante...da necessidade de mudar amarchas corretamente e de começar a treinar em locais mais tranquilos que a marginal Pinheiros, né!
Mas, seu texto é bem divertido e tem gosto de quero mais.
Valeu!
Obrigada.
Muita paz!

Luiz Saidenberg disse...

Suely,
quem não cometeu sua primeiras "barbeiridades"? Passados tantos anos, e de vez em quando, descuidou, e o frio gume da navalha passando na jugular. Mais que normal, e parabéns pela coragem ! Abraços.

Laruccia disse...

A única e grande vantagem desse relato é, ele, o relato ser contado pela protagonista principal, Suely. Sinal de que ela está viva. Parabéns, Suely.
Laruccia

Arthur Miranda disse...

Parabéns, por ter admitido essa sua barberagem, fruto de seu noviciado na arte de pilotar veículos automotivos,
e sendo assim eu tenho altos motivos para considera-la perdoada e totalmente isenta de culpas,e de multas por ser uma motorista amadora amaciando a própria carta, que você ainda nem tinha lido direito por falta de tempo. Gostei da historia e você me fez lembrar de uma historia semelhante acontecido no inicio de minha carreira de motorista. Que eu vou escrever e enviar nesse final de semana para o deleite de todos os queridos e simpáticos companheiros
PARABÉNS. Que gostoso comentar um texto assim. kkkkkkk

LAERTE CARMELLO disse...

Suely: Na década de 60 trabalhava eu na Vila Clementino e decidi tirar a carteira de motorista, aproveitando os bons serviços de uma auto-escola local. As aulas de direção eram à noite dentro do Parque Ibirapuera.
Em seguida comprei meu primeiro carro, por coincidência um fusca vermelho/grená. Ao sair da concessionária na Faria Lima, tantas foram as barbeiragens que ao invés de chegar na Pompéia onde morava, fui parar na Freguesia do
Ó. Toda minha experiência era dirigir dentro do Parque Ibirapuera e não no trânsito. Tive que chamar um parente que residia perto na Casa Verde, para me conduzir ao destino final. No dia seguinte, da Pompéia até a Vila Clementino, gastei 4 horas no volante,após ter dado a volta ao mundo. A pergunta fatal: como Você conseguiu tirar a carteira com tão exígua experiência? Bem, a auto-escola
era próxima do Detran e estamos falando da década de 60. Creio que me expliquei! Abraços, Laerte.

Nanci Aoad Gimenez disse...

Su, voce acredita que estacionei o carro na Teodoro Sampaio bem lá em cima.Levantei o breque de mão e não deixei engatado na primeira. Sabe o que aconteceu? Ele desceu ladeira , a sorte que eu tive: UMA BENDITA ÁRVORE QUE SEGUROU O CARRO.
Faz mais ou menos uns quinze anos, do ocorrido.Aprendi a lição...
Bjs, Nanci

suely schraner disse...

Nanci,Laerte,Arthur,Laruccia,Luiz Saidenberg,Soninha,Wilson e Miguel:
Eu agradeço de coração, pelos comentários e o carinho. Continuem passando por aqui. Grande abraço!

Nelson de Assis disse...

Voltei...
Depois de minhas peripécias pelas estradas do norte e nordeste do nosso Brasil, deparo-me com esta 'pérola' narrada pela Suely.
Quem nunca mordeu a segunda e nunca arranhou uma terceira, esquecendo-se da quarta (quando os cambios ainda eram de quatro marchas), que levantem as mãos.

suely schraner disse...

Obrigada, Nelson! Valeu pelo toque.
Abraço.

Zeca disse...

Suely,

muito boa e engraçada sua crônica. Eu não posso falar muito a respeito pois, para espanto da maioria das pessoas, eu jamais tive a menor vontade de aprender a dirigir e, até hoje, me considero um excelente co-piloto, piloto, jamais!

Abraço.