segunda-feira, 18 de abril de 2011

Páscoas e um congresso inesquecíveis


1942; tenho dez anos, o Brasil, na iminência de entrar na guerra contra o eixo (Alemanha, Itália e Japão), que desafia quase todo o resto do mundo. Na escola primária, Grupo Escolar Romão Puiggari, são distribuídos folhetos quinzenais, anunciando a implantação da nova capital da república, no centro do mapa do Brasil, precisamente em Goiás, e que levará o nome de Brasília. Acho o nome bonito, a localização da nova capital num planalto que, na justificativa dos promotores, está bem alto, no centro do país, longe do mar, sem correr o risco de sofrer ataques marítimos.
Eu, na idade do primeiro decênio e na limitada preocupação com essas ocorrências, passo as aulas lendo meus gibis, nas segundas, quartas e sextas-feiras, e o Globo Juvenil, às terças, quintas e sábados, onde me inteiro, através dos meus heróis preferidos, Super-Homem, Batman, Capitão América, Namor, o Príncipe Submarino, Terry e os Piratas, Mandraque, Flash Gordon etc, das bravuras dos soldados aliados contra os “bandidos” do eixo. Minha posição, na intimidade do lar, é com os aliados, com as caricatas figuras dos três comandantes do eixo, sentindo um pouco de piedade com relação à do Mussolini, de quem meu pai gosta. Mensalmente, leio o Gibi Mensal e o Globo Juvenil Mensal (os dois com 100 páginas), O Gury, O Lobinho (os dois com 78 páginas).
Na escola, além dos folhetos da nova capital, tomo conhecimento dos horrores da guerra, através de folhetos ilustrados dos campos de concentração nazista. Em casa, nas conversas com meus irmãos e com meu pai, procuro esclarecimentos sobre o Brasil entrar na guerra, contra o eixo, principalmente, contra a Itália. Meu pai, fervoroso adepto do fascismo do Mussolini, diz que o Brasil não vai entrar em guerra contra um país que conta com grande número de imigrantes aqui vivendo. Mesmo tendo saído da Itália bem jovem, 11 anos, meu pai se mantém informado das obras do Duce, na Itália, a estação ferroviária de Roma, melhoria econômica do povo, derrubada do regime monarquista, etc. Culpa os americanos que estimulam o Brasil, por meio de ameaças, a sair de cima do muro, que é a pretensão do governo. Getúlio Vargas tenta resistir, com bom relacionamento com os três países beligerantes, quer seguir os exemplos de Espanha, Portugal e Suíça, que se mantêm neutros. Não consegue.
Aqui, em São Paulo, na esteira das graças envolventes do mundo cristão, principalmente da igreja católica, que se prepara para realizar um congresso eucarístico, faço, nesse ano, a 1ª comunhão e inscrevo-me para participar deste grande evento.
No mês de junho de 1942, venho de minha casa, na Rua Alfândega, no Brás, a pé, até o Vale do Anhangabaú, sob o Viaduto Santa Ifigênia, assisto à Santa Missa Campal do 4º Congresso Eucarístico Nacional de São Paulo, oficiada por Dom José Gaspar d'Afonseca e Silva, Arcebispo de São Paulo, nascido em 6 de janeiro de 1901 em Araxá, MG, e falecido em 27 de agosto de 1943, no Rio de Janeiro, num desastre de avião em que falece, também, Cásper Líbero, diretor d´A Gazeta.
Esse Congresso, precedido por campanhas radiofônicas, pela imprensa, tem seu ponto alto na venda de um escudo de folha de flandres, com os dizeres “4º Congresso Eucarístico Nacional de São Paulo junho de 1942”, com a finalidade de levantar fundos pra realização do evento e os que compram, pregam nas portas das residências, pra dar ao conhecimento de todos que a família colabora.
Uma festa para os olhos, o Vale todo tomado por uma multidão e a missa campal rezada, com a distribuição do sacramento por um exército de sacerdotes, todos com a preocupação de melhor atender aos fiéis, o que foi conseguido.
As festas da Páscoa, com todos os preparativos domésticos em que prevalecem os quitutes relativos à data, começam com a quaresma, os 40 dias decorrentes após o carnaval, a Quinta-Feira Santa com o Lavapés, Sexta-Feira da Paixão, com procissão do Cristo Morto, e a Vigília. Durante toda a quaresma, nas sextas-feiras, se faz a abstinência de carne, seja ela in natura, industrializada ou acompanhando qualquer receita, mesmo com pequena participação. Em casa, minha mãe chegava ao exagero de proibir, além da carne, o leite, o queijo e a manteiga, que eram subprodutos da vaca, ou seja, ela dava uma de SIF. Nestes dias, só peixe. No Sábado de Aleluia, com a malhação do Judas, ao meio dia, começava a Vigília Pascal, confissão, à meia-noite, Missa do Galo e, ao meio dia, comilança pra nenhum descrente botar defeito. Nem se cogita sobre ovos de Páscoa de chocolate; a única coisa parecida que minha mãe faz é uma massa com formato de boneca, se for pras meninas e, para os meninos, um cavalinho, todos levando um ovo cozido e envolvidos numa massa, feito empada, grudado na figura e que tem o nome de “papriug”, qualquer coisa parecida com “pato”.
Pra nós, descendentes de bareses, além das observações religiosas, temos um folguedo a mais, temos a “pascoela”. Em que consiste a pascoela: na segunda-feira, após o domingo de Páscoa e com as sobras do domingo gordo, nós e a vizinhança vamos à margem do Rio Tamanduateí (piscoso, na época), no parque D. Pedro II, fazer um belo piquenique, liquidando, de vez, tudo o que restou da Páscoa e mais alguma coisa preparada em última hora. É uma verdadeira festa de arromba, com músicas (sempre tinha alguém que tocava algum instrumento), comida à vontade, brincadeiras de roda, futebol (com bola de meia) e as “mamas” pondo seus assuntos em dia, rasgando “o manto diáfano da fantasia”, como diz o escritor português Eça de Queirós. E o que mais nos surpreende é que, em volta, todo o perfil da cidade, com a imponência do prédio Martinelli dominando o panorama e, pasmem, todos trabalhando. Na minha visão infantil, será que eles não sabem que hoje é “pascoela”, não se trabalha? Acho que não... Eles não sabem o que é viver!
Até hoje eu penso assim...

Por Modesto Laruccia

13 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Belas memórias, Modesto, de tempos difíceis para o Brasil, e para o mundo, sob ameaça do terrivel nazi-fascismo. E da Páscoa, tão cultivada pelos italianos. Pascoela? Macché....quem na cidade que não podia- mas bem que precisava - parar, ia ligar para isto? Trabalha, trabalha, nego, oôo...abraços.

Luiz Saidenberg disse...

E caro mio, a Suiça manteve-se mesmo neutra, mas não Portugal e Espanha. Afinal, tb tinham regimes fascistas, simpatizantes do Eixo. Apenas não tinham cacife para entrar numa guerra destas. Bem que fizeram. Certo, Guido ?

Laruccia disse...

Luiz, obrigado pela correção. Mas, no fim da guerra eles não sofreram nada, até foram beneficiados com o "Plano Marchal". Sabe, Luiz quando, na gosação, pegava um descendente de espanhol ou português (o que não era nada difícil) sobre a guerra, eles respondiam: é.. mas nós temos o Franco e o Salazar.
Laruccia

Laruccia disse...

Luiz, obrigado pela correção. Mas, no fim da guerra eles não sofreram nada, até foram beneficiados com o "Plano Marchal". Sabe, Luiz quando, na gosação, pegava um descendente de espanhol ou português (o que não era nada difícil) sobre a guerra, eles respondiam: é.. mas nós temos o Franco e o Salazar.
Laruccia

Modesto disse...

Sonia, gostei da sua escolha. use a vontade, obrigado.
Modesto

Soninha disse...

Olá, Modesto!

Quando éramos crianças,ouvíamos as histórias de minha avó e avô maternos, sobre os horrores da guerra.
Meu avô, filho de italianos, além de nos contar as histórias, conservou até morrer alguns costumes de seu povo. O vinho,o pão, as comidas...as velhas tradições...tudo. Sempre nos ensinava.
Minha avó era bem radical quanto às restrições da quaresma. Ela fazia, mas, não nos impunha tamanho rigor; apenas pedia para não nos excedermos quanto a ouvir rádio e não comermos carne na sexta-feira santa.
Íamos ao cinema assistir A paixão de Cristo e depois íamos à procissão.
A Pascoela era tradicional também em nossa família, por conta de meu avô que, como eu disse, nos passava estas tradições italianas, com muito orgulho.
Valeu, Modesto!
Perdoe-me o comentário extenso.
Muita paz!

Wilsonnatale disse...

Larù, fico aqui imaginando como ficava a sua cabeça com todas aquelas notícias da guerra.
Eu nascí quase três anos depois da guerra ter terminado. Mas criancinha ainda, eu ficava horrorizado com as notícias constantes dadas pelos boletins das rádios sobre a guerra da Coréia. Tenho trauma até hoje.
E "Papriug" é Patinho. Em napolitano é papprin ou papperin, de Pappero (pato). A tradição na itália eram os ovos de pata cozidos,pintados e decorados. Algumas regiões usavam também os ovos de gansa (oca).
Aqui, se usava os de galinha e o de pata (que eram caros) era o prêmio da caça aos ovos.
Ótimo texto! Uma visão clara, histórica e humana dos anos 40.
Eem casa também havia uma "quedinha" pelo "Duce"... (risos).
Un baciotto in testa!
Natale

suely schraner disse...

Uau! Uma aula de história pascal. Valeu! Abraço.

Zeca disse...

Parabéns, Modesto!
E muito obrigado também!

Parabéns pela aula de história de um período que não conheci (nasci alguns anos depois) e sobre o qual não se fala muito, nem mesmo na escola. E obrigado pelo ensinamento que me proporcionou e, creio, a outros de nós também.
Anos difíceis, de incertezas e privações. Também aqui no Brasil, as pessoas acabaram sentindo um pouco, com as notícias e os boatos que se espalhavam ao vento, assombrando os corações das crianças e das mulheres. E insuflando coragem e valentia nos corações de alguns dos nossos rapazes que não viam a hora de se alistarem.
Gosto muito destes relatos e, se puder, continue ensinando-nos mais um pouco. Eu agradeço.

Abraço.

Luiz Saidenberg disse...

Aos meus amigos "mussolinistas", uma piada( italiana ) sobre Il Duce: estava ele no balcão da Piazza Venezia, mãos na cintura, peito estufado e o monumental queixo erguido em desafio, vociferando:- Popolo di Roma, cosa volete? Volete la guerra o il maccherone?!!!
E o popolo, uníssono:- Il maccherone!!!

LAERTE CARMELLO disse...

GRANDE MODESTO:
O consumismo dos dias atuais focado
nos produtos pasqualinos,
principalmente os ovos e o bacalhau,
desfiguram bastante o verdadeiro sentido da Páscoa, o qual está bem
explicado no post de nossa amiga Soninha.
Ainda bem que tem Pessoas como Você para recordar os eventos da década de 40 do século passado! Despertou-me demais a atenção a lembrança do
4º Congresso Eucarístico Nacional realizado em Sampa. Nesse ano de 42 eu ainda era bebê, porém anos seguintes me cansei de apreciar os escudos de folha de flandres alusivos ao tal Congresso em todos os bairros por onde passava. Realmente foi um evento monumental, sendo que até hoje houve mais 12
Congressos Nacionais, dos quais destaco o de Fortaleza(80) e de Natal(91) por terem a presença marcante do Papa João Paulo II de
saudosa memória.
Fazendo côro às palavras do Zeca, Modesto continue nos ensinando cada
vez mais! Buona Pasqua! Salute!

Laruccia disse...

Agraqdeço a todos, os comentários emitidos, desejando uma feliz Pásqua extencivo a todas as famílias.
Ao Natale, sobre o "Papriug", se falava e se comia muito mas, nunca me interecei pra saber o que é.
Suely, obrigado pelo comentário.
Zeca, Luiz, Sonia, (Miguel não disse nada, será que ele está zangado?) e Laerte, não tenho pretenção alguma de ter o mérito de ser professor, são apenas recordações dessa fase, (6 a 12 anos), que é quando nós todos absorvemos tudo o que vê, ouve e se emociona, com enorme facilidade, (lembro até hoje quando, em 1938, eu com 6 anos, perdemos meu avô e minha tia Maria e meu tio Santo, que quando chegava do trabalho trazia duas barras de chocolate Lacta, rótulo azul, uma pra mim e outra pro meu primo Vitinho, falecido há alguns anos) um aprendizado a flor da pele. Vou fussar mais minha memória pramais alguma coisas. Um abraço a todos e Feliz Pásqua.
Laruccia

Miguel S. G. Chammas disse...

Pronto, pode parar de resmungar.
Cheguei atrasado, mas cheguei, li eadorei esse texto dos tempos de antigamente na famila Laruccia.
Aliás a familia Laruccia de tão conhecida já um pouco familia de todos nos.
Feliz Páscoa MÔ e beijos na Myrtes.