segunda-feira, 25 de abril de 2011

Crônica do dia a dia


São Paulo é uma cidade de vida intensa, que permite ao observador a descoberta de uma história em cada um das suas esquinas. Cada transeunte desta megalópole traz no seu rastro uma intensa história, repleta de amores, desamores, aventuras, perigos, bondades, maldades e tudo o mais que uma pessoa, por mais simplória que seja, vive ao longo de sua existência.
Hoje eu vou escrever sobre uma pessoa fisgada nessa multidão de viventes da paulicéia e seu mais fiel amigo. Atendendo a compromissos profissionais, notei que circula pela Avenida Cruzeira do Sul, nas imediações do Terminal Tietê, um carrinheiro (será que existe o termo?) catador de papéis e sucatas.
Como regra geral, é uma pessoa humilde, que traja roupas já rotas e marcadas por uma imundice notória às vistas e ao olfato. Não é mais nem menos comum do que muitos com que deparamos todos os dias.
Não sei, mas acredito que sua subsistência se faz mais pelo consumo de alguns tragos diários do que por ingerir com certa normalidade algum alimento.
Bem, essa figura, no seu caminhar indolente e até arrastado por um cansaço mais moral do que físico, é acompanhada por um cão que, um dia, deve ter sido de cor branca com manchas amareladas (e que hoje está tão encardido como o próprio dono).
De tanto ver essas figuras foi que percebi a lealdade e o grau de cumplicidade que as une. Tanto o homem como o cão são inseparáveis. Hoje, por exemplo, pude perceber a fidelidade do cão que, notando que seu dono ou companheiro estava sendo hostilizado (por brincadeira) por outro pária das ruas, latia e, destemidamente, ameaçava investir contra o ofensor e era contido, a duras penas, pelo dono.
Assim, vendo a cena, consegui concluir, mais uma vez, que a amizade e o afeto independem de condições sócio-econômicas e são regidas, simplesmente, por harmoniosas ondas emitidas pelo coração.
Mais uma lição que a vida me ensinou, dentre tantas outras que aprendi, nos meus anos de vivência. Mais um instantâneo registrado no cotidiano das ruas da minha São Paulo.

 
Por Miguel Chammas

10 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Comovente cena, caro Miguel. Essa gente inspira mesmo piedade, e mais ainda seus fieis animais, tão ou mais deserdados da sorte que eles. São dignos de admiração, e lamento que não haja mais assitência e respeito por parte das autoridades. Contei que certa vez dei um dinheiro a uma mendiga deitada no chão, e seu cãozinho atacou-me, mordendo a perna de raspão. De qualquer forma, tomei vacina anti rábica, por via das dúvidas. Mas depois vi a dupla novamente, bem lampeira, por aqui. De um tempo para cá desapareceram. Deus se apiede deles.

Wilsonnatale disse...

MIGUEL: Lindo texto!
É muito interessante essa relação entre os carroceiros, mendigos e moradores de rua com seus cães.
É interessante parar e analisar a relação de fidelidade e amor dos cães para com os seus donos.
Eles são amigos e acompanham os seus donos fazendo "viralatices" pelos caminhos, uns são amistosos com as pessoas, outros indiferentes.À noite,transforman-se em ferozes cães de guarda - um olho na rua, outro no dono. A qualquer aproximação, tomam a postura e soltam latidos de alerta.Não sentindo a agressividade de quem se aproxima, voltam a aconchegar-se junto ao dono.
E os donos, então, sempre retribuem essa fidelidade, esse amor: Dividem com eles as "quentinhas"; acariciam focinhos e orelhas, coçam os pelos sujos e embaraçados. E quando chega o carro da vacinação antirábica e tríplice, param tudo e correm para vaciná-los.
Vê-los, realmente é uma lição de vida. Mostra-nos que, não importa a
condição de cada um, o amor, a fidelidade é muito mais importante.
Seja um amigo humano, seja um cão, quem tem um verdadeiro amigo, nunca estará só.
Abração,
Natale

Soninha disse...

Olá, amor!

Sabe...estou com o Natale...
Quem tem um amigo (gente ou animal) tem tudo nesta vida...é feliz...e nunca está só.
Penso que Deus nos dáa chance de aprendermoscom os animais esta questão da fidelidade, do companheirismo, do comprometimento,lealdade, subserviência, humildade...estas coisas que os cãessão capazes de demonstrar emuios de nós, seres humanos, ainda não somos.
Valeu por sua hisória e pela vida do catador e seu fiel cão.
Obrigada.
Muita paz! Beijosssssssss

Jens disse...

Bonito e sensível texto, camarada Miguel. Uma bela homenagem a um dos tombados da vida e seu melhor amigo.

Um abraço.

marcia disse...

Nas grande cidades já não existem mais espaços para os carroceiros e seus cães.Em um ou outro bairro encontramos algum. Em Moema mesmo tem 1 carroceiro antigo , mas seu grande amigo cão, espanta todo mundo, pois o bicho é bravíssimo e ataca mesmo.A gente tem que ser esperta, senão o bicho nhoc!
abraço

Athir Miranda (tuirtu)kkk disse...

Aqui em Lorena, tem um carroceiro que cata quinquilharias, papelão, e bugigangas nas portas das residências, mas como ele não tem um cão, ele as cata com um gato, parodiando assim o velho ditado: Quem não tem cão, caça como gato. Popularmente conhecido como: QUEM NÃO TEM CÃO, CAÇA COM GATO. Gostei muito Miguel , parabéns

Zeca disse...

Belissima crônica, Miguel!

E belíssima observação, também...
Numa cidade gigantesca como São Paulo, o próprio ritmo da vida não permite muitas observações como essa, reservada apenas aos que têm almas sensíveis.
Mas nossos amigos cães bem merecem o título de "melhores amigos do homem", por sua fidelidade, seu companheirismo e, principalmente, pelo amor incondicional que dedicam àqueles que deles cuidam. Diferentemente de nós, humanos, eles não guardam mágoas, rancores, apenas bons sentimentos. Temos muito a aprender com eles!
Parabéns por mais esta bela crônica, meu amigo!

Abração.

Wilsonnatale disse...

Houve um tempo que não era incomum ver o "catador de papel" acompanhado por um cãozinho. Talvez o animal fosse o único amigo de verdade que ele tem na sua vida nômade.
No passado mais próximo, o cão passa a ser seu vigia e protetor, impedindo que outros catadores roubem o produto que seu dono juntou durante o árduo dia de andaças e trabalho.
No passado recente, eles protejem os seus donos contra a violência dos desequilibrados preconceituosos, e certos "representantes da lei" que os massacravam, incendiavam enquanto dormiam.
Hoje, não fossem os cães, estariam à mercê da violencia insana dos drogados e vagabundos.
Vida triste essa, para o dono e seu cão.Vida feliz essa, onde o homem indefeso encontra o seu cão indefeso e , juntos, adquirem uma força incrível.
Mas nos serve de lição:ver a vida nos detalhes e não no seu todo.
Abração,
Natale

suely schraner disse...

A cidade e seus personagens. O ambiente urbano repleto de seres e contrastes. Bacana, Miguel, Parabéns!

Laruccia disse...

Coincidência ou não,passa todos os dias, em frente a minha casa um catador maltrapilho com seu personagem, Miguel, numa carroça puxada por um burrico velhinho, velhinho, mais do que o catador. Debaixo da carroça, anda no mesmo compasso do burrinho, um cão, sujo e magrinho. Não larga seu posto por nada.Gostei da sua crônica, Miguel, parabéns.
Laruccia