quinta-feira, 31 de março de 2011

O Castelinho da Rua Apa





(Uma experiência insólita)

Em 2006, mais uma vez, meu amigo Silas veio do Rio para minha casa. Estava interessadíssimo em conhecer e fotografar o Castelinho da Rua Apa. Na manhã seguinte, lá fomos nós para a Avenida São João, fotografar o dito Castelinho. Não sabia que ia entrar de “gaiato” em mais uma situação insólita...

O Castelinho hoje está em ruínas.

Foi construído em 1912, por Vicente César dos Reis para ser o lar de sua tradicional família. Nele viveu a família até a trágica noite de 12/05/1937, quando todos morreram vítimas de um crime.

Naquela noite a governanta, que vivia em um anexo, ouviu tiros dentro da casa e saiu para a rua, em busca de um policial. Quando o policial entrou encontrou, no escritório e na sala, os corpos de Dona Maria Cândida (viúva havia dois meses) e dos seus dois filhos, Álvaro e Armando.

Na manhã seguinte, os jornais estamparam: “O crime do Castelinho da Rua Apa”, causando comoção na cidade toda.

A polícia investigou e encerrou o caso: Dois assassinatos, um culposo, outro doloso, seguido de suicídio (por suposição). Encerrou, mas não solucionou. Não descobriram a real motivação e nem quem seria o verdadeiro assassino.

A versão que ficou e que virou tradição oral é a seguinte: Álvaro queria transformar o Cine Broadway (propriedade da família) em um rinque de patinação. Desentendeu-se com o irmão Armando e pegou uma arma e o ameaçou. A mãe, tentando apartá-los, meteu-se entre os dois e foi atingida mortalmente. Álvaro mata o irmão e, em seguida, comete suicídio.

Com o tempo, o clima da tragédia maculou a residência dos Guimarães Reis. Virou uma casa mal-assombrada e tornou-se mais uma lenda urbana.

Com a ausência de parentela direta, o imóvel passou à União. Foi alugado muitas vezes até ser abandonado e, através dos anos, virou ruína.

A ruína continuou com a fama de mal-assombrada. Diziam que o fantasma de Álvaro vagava pela casa, perseguindo o irmão - o Armando. E que a mãe, eternamente desesperada, continuava na tentativa de separá-los; falavam de ruídos, vozes e gemidos... Muitos disseram que sentiram e viram “coisas” por lá.

O comediante ANKITO que morou no castelinho por uns tempos, disse que nunca vira, ouvira ou sentira nada. Confirmou que a casa era linda e que adorava viver lá.

A lenda urbana leva muita gente a visitar o Castelinho da Rua Apa, nº 236, esquina com a Avenida São João.

Estávamos eu e Silas dentro daquelas ruínas. É nosso costume, quando estamos fotografando, pouco ou quase nada falarmos. Em silêncio vamos fazendo as nossas fotos, sempre juntos, às vezes colados, fotografando o mesmo objetivo. Acabei de fazer a foto, mas Silas ainda fotografava o escritório. Eu fui para a sala dos fundos. Entretido em angular uma foto, percebo a presença do Silas. Logo senti que ele estava junto a mim. Pensei: “ele está interessado no mesmo tema que eu”. Mais uns passos e eu dirigi a objetiva para a torre do Castelinho. Um ângulo interessante! Clic! Pronto! Agora, mais duas fotos para garantir... De repente, sinto o Silas colar-se em mim. Sem tirar os olhos do visor, falei em tom de brincadeira:

- Se você colar um pouco mais, vai virar assédio! Rindo, volto-me para o Silas e... Ele não estava lá! Senti um arrepio dos pés à cabeça e uma sensação de enjôo. E a invisível presença desapareceu.

Segundos depois, ouvi o meu amigo, do lado fora, chamando por mim. Fui ao encontro dele. Eu me aproximei e ele rápido me diz: -

Caraca! Vamos embora. Não quero mais ficar aqui! -

O que houve? – Perguntei.

Ele contou: Depois de fotografar o escritório foi para fora, fotografar a fachada. Disse-me que logo percebeu a minha presença. Continuou fotografando e eu junto. De repente, bateu-lhe a vontade de virar-se e fazer uma foto minha (Brincadeira de mau gosto que fazemos um com o outro. É que não gostamos de ser fotografados).

Rindo intimamente, rápido ele virou-se e bateu a foto... Eu não estava lá! Apavorado começou a chamar por mim.

Eu, por minha vez, contei a ele o que acontecera comigo lá dentro.

Conclusão: Fomos fotografar o Largo de Santa Cecília e Silas, mais que depressa, entrou na igreja para “fazer um ‘descarrego básico’.” Eu, por via das dúvidas, fui atrás.

À noite, em minha casa, sem coragem de ir para os nossos quartos, ficamos na sala a ver filmes e nem cogitamos de falar sobre o assunto. Amanhecia quando subimos para dormir.

Fica aqui o meu relato somente. Eu não tenho competência para explicar o inexplicável. Sei que nunca acreditei nas lendas do Castelinho. Via nele, um local marcado pela tragédia, nada mais.

Do Castelinho e da tragédia que aconteceu lá, havia ficado na minha lembrança, apenas a figura fiel de Dona Baby (Maria Ângela Cunha Bueno). A namorada e amiga do Álvaro, que nunca acreditou que ele fora o assassino matricida e fratricida, como diziam. Passou a vida levando flores ao túmulo dele. E, quando ela morreu, uma parenta passou a cumprir o ritual.

Do Castelinho ficou e ficará apenas a figura de Dona Baby. Aquela mulher idosa, que tantas vezes vi no cemitério da Consolação (anos 60/70), carregando uma braçada de flores, a caminho do túmulo onde ainda repousa o seu amado...


Por Wilson Natale

26 comentários:

Arthur Miranda disse...

Natale! Que historia de perder o fôlego hem? Desde menino sempre admirei esse castelinho, e sabia de suas lendas, mas nunca levei as mesmas muito a sério, mas agora depois dessa sua historia que me arrepiou até os pelinhos do meu olho... Minha nossa!

Miguel S. G. Chammas disse...

Natale, o desconhecido sempre me atraiu. Historias fantasmagóricas também.
Não sei como agiria numa situação como essas pois, comentar depois do ocorrido é fácil. Viver o ocorrido, acho que eu também teria corrido.
Saravá zi fio!

Luiz Saidenberg disse...

Ô lôko! Essa história é tão apavorante como a do Sr. Maluf, em sua mansão da R. dos Franceses!
Porquê será que todo lugar que parece mal assombrado, acaba realmente ficando, ou será apenas sugestão ? Ou uma sensibilidade a eflúvios, a más vibrações dos crimes cometidos- ou não- no local?
Não é minha praia- nada vi, ouvi ou senti, até hoje. E espero que continue assim! Vade retro !Abraços.

MLopomo disse...

Natale. Li no jornal dias atrás que o Castelinho está sendo restaurado. O que será feito dele ou nele?
Mário Lopomo.

Zeca disse...

Natale,

sua história, por seu testemunho, acaba arrepiando e fazendo com que discutamos, mesmo que internamente, a existência ou não do "sobrenatural".

Eu conheço o castelinho há muito tempo; já estive várias vezes na frente do prédio, admirando-o, mas mesmo dizendo não acreditar em fantasmas, nunca tive coragem suficiente para entrar e conhecê-lo por dentro. Agora é que essa suposta coragem jamais vai aparecer mesmo! Cruzcredo!!!

Parabéns pelo texto!

Abraço.

LAERTE CARMELLO disse...

NATALE, apesar da polícia ter encerrado o caso, a população na época nunca se convenceu das diferentes versões. Sem dúvida o Castelinho da Rua Apa faz parte dos contos de lendas urbanas de Sampa.
Gostaria de acrescentar que ele serviu de locação para uma breve cena de um filme brasileiro "Fogo e Paixão" (1988 - comédia). Nesta cena a atriz Fernanda Montenegro aparece na janela principal do palacete, caracterizada como uma espécie de rainha caolha igual à forma como estavam as 2 janelas redondas da torre(uma aberta e outra fechada).
Cena bastante criativa! Parabéns por desenterrar esta impactante história!

Soninha disse...

Ola, Wilson!

Como era bonita esta cronstução, não é mesmo?!
Mas, tantas outras construções padecem o mesmo abandono e escondem tantas histórias como esta...histórias que demonstram o apego exagerado aos bens materais,por parte de seus antigos proprietários ou de quem os habitou, e que continuam presos aos bens,mesmo depois de terem morrido...continuam vagando por seus cômodos, como se pudessem ainda administá-los, tomar conta,mandar e desmandar..."vivendo" neles como se ainda fossem vivos.
Lenda ou não, acredito nesta situação.
Muito bom seu texto.
Valeu!
Obrigada.
Muita paz!

Wilsonnatale disse...

ARTHUR: Eu sou um São Tomé: Ver para crer. Estive muitas vezes no Joelma e nunca senti nada.
Mas o que me aconteceu, lá no Castelinho foi estraníssimo. E falando a verdade, quase me "borrei" de tanto medo!
Isso já havia acontecido comigo antes e depois, com essa mesma intensidade. Dizem que sou "sensitivo". Mas um sensitivo "cagón". E não é fácil! (risos)
Abração,
Natale

Wilsonnatale disse...

Ahahahahaaaaaa!
Miguel: Como eu, vc sairia correndo! Mas, até "cair a ficha" vc se "borraria" todo.
Quer saber qual é a sensação? Simples!
Vc é a loira gostosa,de um filme "b", de terror, que dá de cara com um morto-vivo. Vc foge e corre em direção ao seu carro. Vc perde minutos procurando as chaves dentro de uma bolsa enorme, cheia de de coisas. Acha a chave e... Quando vai abrir a porta do carro o chaveiro cai ao chão. Ai, lá se vão muitos minutos procurando o chaveiro. Porta do carro aberta, vc entra e porta do carro fechada, travas fechadas. É ligar o carro e partir... Mas o chaveiro tem umas trezentas chaves... Minutos e minutos testando toda. Chave achada, enfia a dita no buraco, mas nada de partida. Minutos de tentativa, o carro pega. Mas vc é loira gostosa e burra, em vez de pisar fundo no acelerador e seguir em frente pela estra, resolve dar uma ré e seguir no sentido contrário. Nessa manobra seu carro sai da estrada e fica atolado. Vc acelera no ultimo e, minutos depois o carro sai em disparada, Mas, não antes do morto-vivo estourar o vidro e agarrar seu pescoço... E vc loira burra, mas gostosa, voa pela estrada, levando o braço do morto-vivo agarrado ao pescoço...
Ahahahahahaaaaaaa!
Abração,
Natale

Wilsonnatale disse...

Saidenberg: Se o Castelinho fosse MAL(uf)ASSOMBRADO eu estaria mortinho de terror ou em algum asilo de alienados. Ahahahaaaaa!
Usando a lógica, que sempre me diz que nada é impossível, e sim improvável, fico com a teoria das energias acumulativas.
E pela minha formação, não acredito que os personagens daquela tragédia estejam presos àquelas ruínas.
Abração,
Natale

Wilsonnatale disse...

LOPOMO: Lí também o artigo. Vamos ver quanto tempo levará para começar esse restauro. Essa é uma luta que meu amigo Jorge, do PRESERVASP,tem se empenhada a muitos anos.
Vamos espera pelo restauro e ver qual será o uso posterior do prédio.
Abração
Natale

Wilsonnatale disse...

ZECA: Imagina o quanto eu fiquei estupidificado!
Antes, eu já havia ido lá muitas vezes. Nunca encontrei ninguem que me falasse de experiências paranormais vista, ouvida, sentida naquele lugar.
Naquele dia, simplesmente aconteceu.
Muito tempo depois em conversas sobre o castelinho soube que alguns tiveram a mesma experiência.
Abração.
Natale

Wilsonnatale disse...

LAERTE: O Castelinho foi totalmente deixado ao deus-dará, nos anos 70. Foi albergue de mendigos, foi fechado. depois foi invadido pelos sem-teto. Foi se deteriorando mais e mais e por um tempo foi teatro, depois disso ele começou a ruir. Está lá, agora, sem o assoalho do piso superior, sem a escada. E sem o teto e forro.
Ficaram apenas as paredes que foram reforçadas para que não ruisse.
Abração,
Natale

Wilsonnatale disse...

SONINHA:
Independente da lenda urbana, independente da tragédia que lá aconteceu, o Castelinho é de grande importância para a História da Arquitetura da Cidade de São Paulo.
Na Cidade existem apenas três exemplares desse tipo de construção: O Castelo do Conde de Sarzedas (século XIX), O Castelinho da Rua Apa (1912) e o Castelinho da Rua Brigadeiro Luís Antonio (anos 30).
Ah! As casas antigas com suas histórias, seus habitantes... Sempre fica algo,memórias felizes, tristes, dramas, emoções impregnando a aura do imóvel e, vez ou outra, um "proprietário" possessivo que não arreda e fica. Talvez alguns permameçam, esperando finalizar assuntos mal resolvidos. Afinal, o espírito é eterno e a vida continua,
Abração,
Natale

Luiz Saidenberg disse...

De qualquer forma, Wilson, com ou sem assombração, foi uma bela experiência documentar esse castelinho. É a presevação de nossa memória urbana, tão atirada ao descaso, ao sabor dos monstruosos espigões que sobem diáriamente. Parabéns pala inicativa, e pela coragem, he, he...
Tb sou um descrente, mas já dizia Mestre Shakespeare que existem mais coisas entre o Céu e a Terra...e existem,mesmo!

suely schraner disse...

Ai que medo! É também aterrorizante o descaso para com o patrimônio desta cidade que encanta e assombra, sem deixar perder a ternura.
Abraço.

Laruccia disse...

Natale, querido e louco por um torrão de rapadura. Vou tentar esclarecer, de vez esta sua obsessão a respeito de fantasmas. ELES NÃO EXISTEM, PÔ!!!
Se vcs. entrassem no "Castelinho" sem nenhuma informação do ocorrido, desconhecendo completamente sua lenda, não teriam nenhuma sensação de "alguém" encostando em vcs. Estariam, apenas, fotografando um cazarão em ruinas. Mas, conhecendo a história, sua fértil imaginação, associada a uma rica interpretação de ocorrências metafísicas, mistificções e vontade involuntária de testemunhar um fato sobrenatural, inconscientemente, "construiu" uma cena na qual só vc e seu amigo participaram, ele com as mesmas sensações que vc. Independente disso, gostei de saber dos fatos históricos e os crimes. Continua sendo um mistério e é destes que eu gosto.
Parabéns, Wilson, narrativa aterradora, com a fidelidade de um ótimo escritor.
Laruccia

Wilsonnatale disse...

LARÙ, caro mio: Io non lo credo... Mas que "las hay, las hay"!
Como eu escrevi, não tenho competência para explicar o que se passou comigo.
Não sou sugestionável. Estive no Ed. Joelma - que dizem assombrado - muitas vezes e não vi, senti nadinha. E pasme! Fotografei cemitérios à noite e não senti nada, a não ser o receio de bater de frente com ladrões vivinhos da silva. Também fui a muitos lugares ditos assombrados e nadica de nadica!
Mas no Castelinho e outros dois lugares, que transformei em texto, o insólito bateu (ou eu bati) de frente comigo.
Seja lá o nome que se dê ao que aconteveu comigo, valeu como experiência,
Abração,
Natale

Yasmine Marina disse...

Wilson ,muito interessante sua visita ao castelinho ,porém te peço uma favor,vocênão teria ainda as fotos que você tirou ?

O motivo é pq estou fazendo um trabalho acadêmico ,mas no momento não foi possivel adentrar o castelinho e preciso de fotos do local .

Agradeço desde já e te envio um email ,para contato .


Obrigada .

Wilsonnatale disse...

Yasmine: Agradeço pelo comentário.
Infelizmente não recebí o seu e-mail para enviar as fotos.
Mande seu endereço para o e-mail do site Memórias de Sampa e ele me será repassado.
Abração,
Natale

Douglas Canuto da Silva disse...

Muito Legal a história, eu gostaria de passar uma noite no local lugares assim por mais que eu fique com medo enfrentaria o medo numa boa.

Douglas Canuto da Silva disse...

Muito Legal a história, eu gostaria de passar uma noite no local lugares assim por mais que eu fique com medo enfrentaria o medo numa boa.

Anônimo disse...

Eu adoraria ir ao castelinho tirar fotos dentro dele mas morar so se me pagasem.

Antonio Carlos Honorio disse...

Senhor Wilsonnatale, boa noite. Obviamente você não me conhece, contudo estive verificando vários sites acerca do Castelinho e notei que em um de seus comentários você diz que algo te aconteceu lá, provavelmente uma experiência sobrenatural? Você poderia falar-me a respeito? Gostaria muito de saber o que ocorreu naquele local, tanto com a família quanto contigo. Gostaria mesmo de tomar conhecimento disso, caso você deseje partilhar tal experiência. Obrigado.

Memórias de Sampa disse...

Olá, Antonio Carlos Honório!

Caso o nosso querido amigo Wilson Natale não veja este cpmentário, você poderia nos enviar seu e-mail e eu, como moderadora do blog, passarei a ele para que ele possa lhe contar as histórias que você deseja saber, aqui mesmo no blog ou por e-mail, ok?!
Obrigada por visitar o blog. Volte sempre.
Muita paz! Abaração.

Antonio Carlos Honorio disse...

Senhor Wilson, volto a falar-lhe acerca do Castelinho. Porventura o senhor poderia me enviar as fotos que você tirou no interior do imóvel? em caso positivo, poderia enviar para antoniocarlloshonorio@gmail.com. Grato pela atenção.