quarta-feira, 2 de março de 2011

Apelidos e alcunhas

imagens: Padre Johannes Beil em Ubatuba (1939); ferrovia Santos /Jundiai na zona do Bras; bairro do Bras em 1920; zona cerealista de SP


Numa comunidade em que quase todos se conhecem, as identificações por meio de apelidos, torna-se mais fácil localizar pessoas do que pelo próprio nome ou sobrenome. A comunidade de polinhaneses, oriundos de Polignano à Mare, província de Bari, sul da Itália (calcanhar da “bota”), localizada no Brás, limitada a norte e leste pela Estrada de Ferro Santos/Jundiaí e a oeste e sul pela Rangel Pestana e Parque D. Pedro II, recorria a este expediente com uma frequência inusitada, chegando mesmo a ser utilizada nas escolas pelas crianças como se a alcunha fizesse parte do seu nome. Isso até meados dos anos 60, quando seus membros foram morrendo e o costume desaparecendo, em virtude de uniões de bareses ou descendentes com pessoas de outras origens que, ao saberem dos significados dos apelidos, chegavam a brigar com quem os pronunciava. Nos anos de 1920 a 1950, quando os membros dessa comunidade atingiram idades adultas (a grande leva de imigrantes começou no final do século XIX), a mais corriqueira das citações, quando se queria mencionar algum dos patrícios, recorria-se a esse expediente, a maneira mais fácil e rápida na identificação.
Vou tentar descrever alguns apelidos, conforme sua pronúncia no dialeto e não pela gramática.
Minha família tinha o apelido de “Perqueuse”, pelo rosto cheio de pintas, “banana pintada”, como se dizia antigamente. “Pezza'n gueug” (remendo na bunda), “Mira' n baccia” (mancha cor de vinho no lado inteiro do rosto), “Costa a costa” (andava bem junto a parede, com a cabeça inclinada, quase batendo nos relevos), “Zambenela” (pernilongo), “Sgota latroine” (esgoto e latrina), “Patre nustre” (pai nosso), “Sactele” (saquinho), “Farfele” (borboleta), “Tzabeline du pagazze” (Izabel do palácio), “Tasctoini” (sem tradução), “Martinelli” (alto demais), “Trofle-trofle” (apressadinho), “Facci'n nheure” (cara preta), “Ace di'spete” (aço da espada), “Guipeuni” (tremoços), “Pizziquela” (beliscão), ”Imbaixatoure” (embaixador), “Changolome” (sem tradução), “Murti suoni” (morto de sono), “Batiste u ruce” (Batista, o russo), “Riquetela” (orelhinha), “Xiqui'nnhac” (ruído onomatopéico do mastigar), “Arritela” (chegando devagarinh
o), “Xaquá” (lavar), “Ana fagalauni” (Ana fala demais), “Grositela” (mexe com resíduo de madeira), e por aí a fora. Isso tudo no bairro do Brás, último reduto de uma população que muito fez e faz pelo engrandecimento e prosperidade de nossa querida cidade de São Paulo.
Quando perguntava a meus pais a origem dos apelidos, eles diziam que os bareses já vinham alcunhados da Itália, pois, não raro o apelido vinha dos antepassados dos catecúmenos, que herdavam sem saber o significado e o porque de sua família ser contemplada com a alcunha.
Pois bem, minha família não escapou desse “RG adriático”. Não sei se por simpatia, por ironia ou por maldade mesmo, os apelidos nem sempre eram bem aceitos pelos contemplados, mas isso não impedia que ele se propagasse imediatamente, por causa das facilidades de se localizar ou identificar quem quer que seja da comunidade. Até nos folguedos de rua, quando a brincadeira se tornava mais ríspida, um garoto xingava outro e o outro reagia, citando o apelido da família, que ouvira em casa seus pais citarem com escárnio.
De acordo com seu trabalho, sua atividade profissional, sua postura física ou moral, seus gostos, qualquer coisa valia para “batizar” alguém. Quem o fazia? “I chi lo sá?” (e quem sabe?).
Nos anos 30, 40 e 50, mesmo durante a guerra, a colônia polinhanesa fervilhava de alegria e trabalho, muito trabalho. Todos os anos e até hoje, os que ainda vivem e seus descendentes, mantém as tradições em torno da igreja de São Vito, com procissões e quermesses, esta, hoje fazendo parte do calendário turístico de São Paulo.
Uma prova deste fervor religioso é o próprio edifício, na antiga Rua Álvares de Azevedo, hoje Rua Polignano á Mare, que abriga, além da igreja, mais 4 andares, que são utilizados para várias finalidades. Esse prédio tem uma interessante história de uma atitude altaneira de um vigário alemão, padre João Beil, já falecido. Quando o Brasil entrou na guerra, em 1941 ou
42 (que me corrija o Rocha ou o Lopomo, se estiver errado), o padre João cuidava de uma pequena paróquia em Ubatuba, no litoral paulista que, na época, pra se chegar vocês podem imaginar... Padre João, um homem robusto, alto, chegava a quase 2 metros de altura, forte como um touro, era uma pessoa obstinada e de uma convicção para realizar qualquer projeto, sem medir nenhum sacrifício. Vocês podem imaginar, dentro de uma colônia fechada (na época), ter que aceitar um padre que não fosse italiano ou brasileiro, cerceado pelas exigências absurdas das autoridades, proibindo qualquer diálogo, em público, nos idiomas alemão, japonês e italiano, um padre que foi proibido de pastorear numa comunidade no litoral que, além de suas atividades religiosas, tinha uma escolinha para os caiçaras, onde cuidava da população bem pobre da região e mal falava o português; foi remanejado, contra sua vontade, pra outra paróquia longe do litoral. As autoridades tinham receio de que ele pudesse enviar sinais pra algum submarino alemão.
Fui coroinha do padre João durante quase toda sua permanência entre nós. Logo após sua chegada no Brás, reuniu-se com os próceres da Associação Beneficente São Vito Mártir e mandou um recado rápido e rasteiro: vamos derrubar a capelinha e construir uma igreja maior, com escolas, recreações, atividades literárias e esportivas. Sabia o que estava falando, o comércio cerealista da Rua Santa Rosa quase na sua totalidade, nas mãos dos polinhaneses, daria respaldo a um evento grandioso e custoso desse tipo. A colônia toda comentava em todos os ca
ntos do bairro: “Ma esse alemão pensa que nós somos o que? Isso não é nada mais nada menos do que uma segunda invasão alemã na Itália. Nós construímos essa capela em fins do século XIX, pelos primeiros imigrantes que aqui chegaram, alguns ainda vivos, não podemos aceitar essa intromissão em algo que nos é sagrado. Quem ele pensa que é, esse devorador de chucrute e salsicha? Ninguém vai derrubar nossa capela.”
As manifestações eram mais ou menos nesse sentido, com reações xenófobas, nada estranhas se atentarmos para uma população que já na Itália sofria os preconceitos do resto do país, pois eram considerados inferiores, “baixa Itália”, como eram alcunhados. Padre João não se deu por vencido. Reuniu os mais “letrados”, pouco alfabetizados, e fez ver a eles as vantagens da iniciativa e, logo em seguida, começou a demolição. Levantou o prédio e antes de terminá-lo, acabando a guerra, ficou mais um pouco e logo voltou pro seu projeto principal que era o município de Ubatuba, onde ficou até morrer.

Por Modesto Laruccia

10 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Mô, lindo e elucidativo texto. As traduções das alcunhas foram simplesmente maravilhosas,algmas eu até conhecia, outras nem sabia da existência.
Enfim, congtinuo sendo, cada vez mais, seu fã declarado.

Wilsonnatale disse...

Larùccia: Texto saboroso. Com sabores que poucos, oggigiorno, podem entender.
Meu apelido Ciccio era causa de muita encrenca,do fim dos anos 60 em diante. Chamavam-me Cício, ou Cicío e eu berrava na orelha do imbecil: É Tchítchio,Tchítchio! (risos)Fui gordo e virei Ciccio, depois fiquei alto e me chamavam Mastrocíccio (Mastro +gordo = mastrogordo).
E os sabores da "cosa nostra". Cada um no seu espaço, no seu canto, sem iterferir no espaço dos outros. Se fizessem isso era o mesmo que "Caccaretutt'ara" (fazer cocô em toda ara (ara = altar).
Dos apelidos que você citou, tínhamos similares em napolitano.O teu tasctoine, lembra o taschturnata dos napolitanos, e equivale a bolsos vazios, sem dinheiro; aquele a quem todos pagam algo e que num paga nada a ninguém.Significa bolsos virados para fora.
Murti suoni (o peixeiro), em napoletano é mort'e suonne.
Bons tempos aqueles!
Como dizia o meu tio Amedeu éramos infezmente muito felizes ( alusão à vida dura que se levava.)
Foi bom fazer com você esse passeio à São Paulo, ao Brás de todos os dialetos italianos.
E bom ter visto a foto do Cotonifício Regole-Crespi, alí, na Rua dos trilhos, quando a mooca era ainda subdistrito do Braz. ( A Mooca tornou-se bairro em 1910.)
Abração,
Natale

Modesto disse...

Obrigado a vcs, Miguel e Natale, depois de ler seus comentários, lembrei de mais dois: "disht'in gueug" e "uchiu piccet" ("dedo no fió, fió" e "olho mijado") Abraços.
Modesto

Arthur Miranda disse...

Modesto, mesmo possuindo mais sangue português que italiano nas veias, mesmo sendo corintiano e inimigo do Palestra-Itália, hoje conhecido como Palmeiras. Io até por ter convivido com muitos italianos em toda minha vida, já que durante muitos anos em São Paulo metade da população era italiana e a outra metade eram os seus descendentes. Io aprendi a gostar da comida,do pão,do azeite,da bela macarronada domingueira e de tudo que é de origem italiana, inclusive a beleza das italianas, e principalmente das belas histórias referente a vida dos imigrantes italianos e seus descendentes aqui em São Paulo, e mais ainda quando contadas e escritas com seu enorme talento, Parabéns e por favor (vou dizer aquilo que todo torcedor corintiano gosta de gritar no Pacaembu lotado). NÃO PARA, NÃO PARA, NÃO PARA, NÃO PARA. Pois tenho certeza que é essa a vontade de todos os seguidores desse delicioso Blog

Luiz Saidenberg disse...

Muito interessante, Modesto, essse duelo de apelidos, e concordemos, tinha certas vantagens. Se um queria ofender o outro, não precisava mandá-lo para a p..., nem outro nome digno do Costinha. Dizia(em polignanês, é claro)- seu Remelento, ou Pé de Pato....y otras cositas más. Bem mais inocente e divertido. Bela história! Abraços.

Zeca disse...

Modesto,
como bem disse o Arthur, eu também, descendente de portugueses, acabei aprendendo a gostar - e muito! - das "coisas" italianas, devido ao convívio mais próximo com a colonia italiana, muito maior que a portuguesa, em nossa amada cidade. E como não podia deixar de ser, a maior musa de toda a minha vida foi e continua sendo a mais linda de todas as mulheres do mundo: Sofia Loren! O mais belo exemplo das mulheres italianas!
O texto saboroso, com uma infinidade de apelidos engraçados e a história do padre alemão que, mesmo sendo inicialmente rejeitado pelos moradores do bairro, conseguiu atingir seu objetivo e acabou se tornando figura inesquecível, a ponto de estar sendo, hoje, lembrado aqui por você.
Parabéns e obrigado por mais este presente que nos oferece.

Abraço.

Soninha disse...

Olá, Modesto!

Que bacana lembrar desta questão dos apelidos.
Entre a italianada da família de minha mãe ouviamos muito eles falarem "capa tosta" quando se referiam a alguém teimoso, cabeça dura...
Minha mãe, Virginia, os familiares a chamavam por Zinha. Meu pai, Divino,os familiares o chamavam por Divo...
Engraçado, né?!
Quando eu jogava volei pelo Juventus, a turma me chamava por Vermelhinha,pois eu ficava com o rosto bem vermelho depois de correr e saltar bastante...
Mas, o que ficou até hoje é Soninha. Interessante que,mesmo eu me apresentando como Sonia, após alguns minutos de conversa, as pessoas já estão me tratando por Soninha... Já estou velhinha,mas, não tem jeito... rss
Valeu, Modesto!
Obrigada.
Muita paz!

suely schraner disse...

Me diverti com os apelidos. Muito bom texto, Modesto. Abraço.

MLopomo disse...

Teve uma época que os apelidos eram autênticos nomes próprios. Conheci gente que o apelido era um, autentico nome próprio, pois ninguém sabia seu nome de batismo. Em vários times que joguei não soube o nome de certos amigos de time, foi o caso do Sardinha, que comigo jogou comigo em vários times e nunca ninguém perguntou seu nome. Com o tempo nos perdemos e ficou apenas como lembrança do, Sardinha. Nico era o apelido de outro colega de time que todos imaginavam que fosse Nicola, ou Nicodemos , seu nome mesmo era Evaldo, nada a ver com seu apelido. Outro que ninguém sabia o nome era o Gato. Todos queriam saber seu nome de batismo e ele não dizia a ninguém, pois era sempre procurado pela policia, era um inveterado ladrão. Somente eu, e um amigo ficamos sabendo do seu nome, e foi sem querer. Um dia ele nos mostrou a foto de um travesti, (uma autentica mulher na foto) que tinha uma dedicatória, dizendo: Ao Edson com muito carinho e amor. Ai foi que ficamos sabendo. Então você é o Edson, heim? Ele olhando para os lados nos disse baixinho: que fique somente entre nos três. Rsss. E assim foi feito.

CFurlan disse...

Me veio em mente mio papa, a ja não está entre nós vai fazer um ano mas eternamente em nossos coracoes, mia mama chamando ele "Eita Furlan eterno Capatosta" E ele morou na região do Brás na Visconde de Parnaíba e com muitas historias lindas de tempos bons vividos por eles e muitos mas, que adoramos escutar!!!!