terça-feira, 15 de março de 2011

Joelma - 01/02/1974

Onde você estava?...

Eu estava “de molho”, curtindo a quarentena.
Pois é! Quando criança, tive tudo quanto era tipo de doenças contagiosas, d
itas normais ou corriqueiras. Caxumba, sarampo, catapora... Escarlatina não. Mas, “estava escrito” que eu deveria ter escarlatina. Então eu, “cavalo véio”, a tive!
A doença, segundo o médico evoluíra para uma forma mais benigna. Mas, o contágio, não deixava de ser perigoso para mulheres gestantes. Daí a necessidade da quarentena.
Nada a fazer, a não ser beber, comer e dormir.
Êita vidinha boa de burguês abastado! No desvio, resolvi reler os mestres franceses.
À noite, esparramado na minha cama, comecei a reler o “Germinal”, do Émile Zola. Adormeci durante a leitura. Fui despertado pelo barulho forte e seco do livro que escorregara de minhas mãos e caíra ao chão, interrompendo o meu soninho gostoso! Não dormi mais.
Amanheceu. Barulhos pela casa, as vozes de mamãe e vovó, o cheiro forte do café fresco. Levantei-me.
Depois de tomar café fui para o jardim tomar um pouco de sol. Fiquei lá por um tempo e entrei. Fui para a sala fazer companhia a vovó, que crochetava e, ao mesmo tempo, assistia ao programa matinal da Clarice Amaral, na TV Gazeta.
Estava prestes a levantar para pegar o livro e retomar a leitura, quando a Clarice interrompe o bloco e avisa: “Gente, um edifício está pegando fogo no centro da cidade”! Rápid
o, cortam a imagem do estúdio e uma câmera externa, no alto do prédio da Gazeta, debruça-se sobre a Nove de Julho. Ao longe se via rolos de fumaça elevando-se em direção ao céu.
Quase nove horas da manhã do dia primeiro de fevereiro de 1974, começava o drama do Edifício Joelma.
Fui até o televisor e comecei a girar o seletor de canais em busca de mais informações. A Tupi, Record, Globo, em edição extraordinária, falavam do incêndio. E todas, em poucos minutos, estariam transmitindo ao vivo do local.

Eu estava abismado! A memória traumática do incêndio do Andraus trouxe de volta o cheiro da fumaça e lembranças tristes.
Pensava: “Então, nada foi feito? E todo aquele estardalhaço sobre medidas mais rígidas, fiscalizações menos espaçadas dos edifícios e multas pesadas? E aquela história de aparelhar melhor o Corpo de Bombeiros, de renovar a frota? No que deu aquela história de se construir escadas de emergência externas?”
No televisor, as emissoras começam a exibir os atos de uma tragédia anunciada.
A cada imagem, comecei a perceber que a tragédia do Andraus, vista com os meus olhos, dava-me apenas a dimensão do todo. E que a tragédia do Joelma vista pela TV, detalhava em “takes” o drama das pessoas acuadas pelo fogo e pela fumaça.

Pelo televisor eu vi, como se lá eu estivesse - e por toda a parte - o desenrolar do drama.
Bombeiros estarrecidos pela falta de água que os impediam de cumprir o seu dever, escadas que não alcançavam os andares superiores; o helicóptero que em mil manobras tentava um ponto de apoio para o salvamento. E pessoas. Pessoas em estado de choque, espremidas nos vãos, no alto do Edifício, fustigadas pela fumaça, fogo e calor; tentativas vãs de descer para o andar inferior, bombeiros intoxicados pela fumaça.
Na TV, as vozes em “off” dos repórteres que estavam no local, pediam às pessoas das imediações que levassem leite, muito leite e água mineral.
No prédio, pessoas. Pessoas traumatizadas, enlouquecidas. Alguém desistiu da vida e saltou para a morte.
No solo, começaram a aparecer as faixas e cartazes pedindo calma. Por megafones bombeiros e policiais gritavam a pleno pulmão para que todos mantivessem a calma, que o incêndio estava dominado.
De repente, alguém se jogou do prédio. Logo, mais um... Depois, outro... No solo, em um canto, amontoavam os corpos à espera do “rabecão”. No solo, pessoas solidárias desmaiavam, choravam; imploravam para que ninguém mais se jogasse. E o desespero daqueles que, em pânico estava no alto do prédio...
Quatro horas de inferno foi o quanto durou o sinistro incêndio do Joelma. Quatro horas em que os bombeiros driblaram a precariedade dos meios de combate ao fogo e improvisaram, com maestria, técnicas que salvaram muitos. Difícil foi a tarefa dos bombeiros! Apagar as chamas, retirar os feridos e carregar os mortos. Quatro horas, 345 feridos e 189 mortos... Tr
ês dias para o rescaldo e busca de novos corpos; uma semana ou mais de perícia e retirada de escombros.
Naquela sexta-feira a cidade não contabilizou lucros e sim, perdas e danos de uma tragédia anunciada
O Joelma virou lenda urbana: Policiais que vigiavam o interior do prédio confessaram “que ouviam gritos desesperados e saíam a procurar sem encontrar nada”. Alguns revitalizaram a lenda de Anhangá – espírito do mal, que mora no Vale, responsabilizando-o pelos suicídios das pessoas nos Viadutos (Chá e Santa Ifigênia), pelo famoso crime do poço (acontecido no local onde está o Joelma). E, responsável pelo incêndio do próprio edifício. Falavam de fantasmas vagando pelos andares do prédio... Outra corrente culpava o mês de fevereiro por ser nefasto.
Virou lenda urbana a “providência radical que a Prefeitura iria tomar”. Virou piada também.
Não sei se a Prefeitura fez pouco ou nada, ou se o mês de fevereiro é “fogo” mesmo. Mas sei que a 14 de fevereiro de 1981, o Edifício Grande Avenida pegou fogo. Era sábado de carnaval.

Por Wilson Natale

13 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Natal4e eu era uma dessas pessoas que levavam leiteparaos feridos e segurava cartazes pedindo calma.
Era uma cena dantesca.
Acabei retornando a casa *Rua Maria José 72 - Bixiga)e assistindo o resto do espetáculo hediondo pela TV.
Ah! Conheci com detalhes mórbidos a Casa do Crime do Poço na Rua Santo Antonio.
Vamos mudar de assunto?????

Luiz Saidenberg disse...

Ao contrário do Andraus, em que eu trabalhava justo atrás dele, no episódio do Joelma nada vi, apenas tomei conhecimento pelo rádio. Trabalhava na Teixeira da Silva, no Paraiso, bem longe desse Inferno. Espero que estas catástrofes tenham trazido boas lições em materia de segurança, e não sejam mais possíveis nos dias de hoje. Abraços.

Arthur Miranda disse...

Natale o incendio do JOELMA eu só vi pela televisão que é pior ainda do que assistir no proprio local como aconteceu comigo no incendio do Andraus.
Mas eu confesso que fiquei mais imprecionado com o terror do 11 de Setembro, e agora com esse tsumani no Japão. O que nos resta de horrivel para vermos no futuro ???

Zeca disse...

Natele,

se no incêndio do Andraus, eu testemunhei um pouco do terror, no do Joelma, nada vi, nem mesmo pela tv. Eu trabalhava na Comgás, na Rua Augusta e, no meu primeiro dia de férias, precisei ir até lá para acertar uns detalhes do orçamento. No dia seguinte, partiria para a Bolívia, Perú e Chile, para curtir as férias. Envolvido em cálculos e correções, soube do incêndio pelos comentários dos colegas, mas nem tive noção do tamanho do mesmo. Acho que, para mim, jamais voltaria a acontecer algo tão "grandioso" quanto havia presenciado dois anos atrás. Naquela noite, em casa, fechando malas e organizando minha viagem, nem vi televisão, nem ouvi rádio. E do dia seguinte até o final do mês, fiz um tour pelos países vizinhos, portanto, sem qualquer notícia do que se passava em São Paulo. Acho que fui "protegido" daquelas imagens e de todo aquele sofrimento.

Abraço.

Soninha disse...

Olá, Wilson!

Mais uma tragédia vivida por nossa cidade e por seus moradores...
O Brasil assistiu, estarrecido, a mais este episódio, quaqndo tanas vidas foram ceifadas.
Nem adianta dizermos que já existem prédios inteligentes e com mais recursos contra incêndios...Por analogia, lembremos Titanic, que foi construido para não afundar e afundou.
Fica a nossa torcida para que não mais tenhamos de ver cenas como do Joelma, Andraus e tantos outros.
Que Deus nos abençoe!
Valeu!
Obrigada.
Muita paz!

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Wilson, infelizmente eu assistí quase de perto os incêndios do Andrauss e do Joelma pois eu trabalhava na Av. Ipiranga na época, foram cenas terríveis que espero que não mais ocorram, parabéns pelo texto, Nelinho.

MLopomo disse...

Um dia Muito Triste!

Wilsonnatale disse...

A TODOS: A idéia dos dois textos - Andraus e Joelma - se presta justamente àqueles mais novos e não contemporâneos aos incêndios para que sintam através dos textos e dos comentários o trauma que eles deixaram. Tanto que, como testimunhas "in loco", pela televisão e rádio ou então soubendo-se depois, a dimensão e forte impacto que esses incêndios tiveram. Tanto que ainda trazemos na nossa memória aquilo que fazíamos no dia daquelas tragédias.
Abração a todos,
Natale

Wilsonnatale disse...

Meus Deuses!!! TesTImunha foi óóótimo! Leia-se TESTEMUNHAS...
PS: O Tibet tem o Pé Grande e Sampa tem a mim - O Mão grande... E inútil! Ahahahahahaaaaaa!

Modesto disse...

Natale, gostei da sua narrativa a respeito das tragédias. Neste dia estava voltando com minha família do Rio, onde fui acampar e levando meu primo americano John, que arrumou uma namorada que morreu no incêndio por ter viajado pra São Paulo um dia antes. Contei essa história aqui mesmo.
Esse dia não sairá de nossas lembranças nunca mais. Foi uma verdadeira tragédia.
Modesto.

Anônimo disse...

Eu nasci neste dia.
Meu pai comenta em todos os meus aniversários que na maternidade as pessoas estavam chocadas, acompanhando a tragédia pelo rádio e pela tv.
Após o evento muita coisa mudou em relação aos sistemas de proteção e combate à incêndio em São Paulo e no Brasil, além de rotas de fuga mais eficientes.

Anônimo disse...

Oi:

Tocante o assunto!
Talvez uma das maiores tragédias haventes em nosso país... E de reputação mundial.
Descobri o blog ao procurar por 1o DE FEVEREIRO DE 1974/e obviamente este incidente (não ponho em ITÁLICO porque não dá) aparece.
Teve fama mundial por aparecer em vários noticiários (no filme CATÁSTROFE, de 1977: aparece mais para o fim deste).
Meus pais moravam nos EEUU na época e um destes me disse que nem conseguia dormir algumas noites ao ver as imagens na capa de uma revista.
Sei que nessa época era calor, pois um primo meu nasceu um dia antes no RJ: de onde também sou.
E nasci no final de 1974.
Talvez o evento pior que este (além de outros INCENDIOS BRASILEIROS) foi o da BOATE KISS. Com os avanços que se tem hoje_tal poderia ser evitado. Só que com as LEIS ATRASADAS... Parece não se resolver!
Seria isso.

Valeu,
Rodrigo (PORTO ALEGRE)

Memórias de Sampa disse...

Olá, Rodrigo!
Agradecemos imensamente sua visita aqui no blog.
Realmente, os brasileiros viveram e vivem tragédias terríveis e inesquecíveis. Volte outras vezes e traga-nos suas histórias sobre a cidade de São Paulo, ok?!
Bom restinho de domingo. Ótima semana.
Muita paz!

Sonia Astrauskas
(moderadora)