domingo, 17 de outubro de 2010

Um domingo no parque

3 De Maio de 2009. É domingo, e dia da Virada Cultural.
Trânsito livremente pela 23 de Maio. São 10,30 da manhã.
Não queremos chegar tarde à Pinacoteca, pois o estacionamento fica lotado. Mal me aproximo, vejo que entrar lá será missão impossível.
Toda a lateral já se acha ocupada por carros, cercando a quadra toda.
É claro que não pode ser só pela Pinacoteca, mesmo com exposições de Fernand Léger e o Brasil visto por fotógrafos franceses- deve haver algum grande evento por ali.
E há mesmo: como primeiro domingo do mês, acontece o grande encontro de carros antigos e clássicos, em frent
e ao Jardim da Luz.
Ali é que não dá para parar, menos ainda entrar, está cheio.
Mas, indo pouco mais em frente e atravessando o pontilhão da estação, estaciono tranquilamente, na Brigadeiro Tobias.
Impossível resistir à atração, compartilhada com milhares de pessoas. Assim, resolvemos dar uma passeada pela àrea, antes da Pinacoteca. Músicos peruanos tocam, uma bela menininha ensaia uns passos de dança junto a eles.
Bem diante do histórico prédio, o espaço foi reservada para gigantes americanos: Cadillacs Rabo de Peixe, Thunderbirds, Camaros. Os menores, Fuscas e Kombis foram para a outra extremidade da estação.
Mas a exposição, como a multidão, segue parque adentro.
Lá estão alguns dos exemplares mais antigos, como um Ford 29 igual ao primeiro carro de meu pai.
Mais que tudo, o que me chama a atenção é a alegria contagiante do povo, que invade as velhas alamedas, cercadas por jaqueiras e figueiras seculares. Há muito não via um espetáculo assim, pois normalmente o parque é melancólico e mal frequentado, e muita gente não se arrisca a explorar seu belo interior.
Mas, hoje, é só festa. O que me transporta há muitos anos atrás, numa comemoração belíssima.
Seria aniversário da cidade? Foi em 66, 67...era noite e o parque estava aberto, todo iluminado por seus velhos lampiões.
Era mágico o contraste da multidão com os grandes espaços, das belas luminárias com a escuridão das àrvores. As estátuas, nos lagos, iluminadas como numa festa da antiga Roma.
Todo o ambiente era nostálgico. Nos coretos, orquestras executavam valsas, polcas e maxixes.

Carros antigos desfilavam e estacionavam por ali. Vendia-se bengalas
e chapeus palheta. Parecia termos voltado um século no tempo. Só faltaria estarem todos de gravata borboleta.
E mais, o clima era de um quadro impressionista, Renoir e Degas gostariam de tê-lo pintado, com suas luzes e sombras.
A Belle Époque parisiense retornando numa bela noite paulistana !
Nunca, desde então, contemplei um espetáculo tão festivo no velhíssimo parque.
Hoje, tantos anos depois, o evento recordou-me aquela noite.
Mesmo sem paletó e gravata, sem palheta nem bengala, adentremos a Pinacoteca, que, outra surpresa, hoje é grátis.
São Paulo não é Paris, mas, às vezes também é uma festa.

Por Luiz Saidenberg

9 comentários:

Zeca disse...

É claro, Saidenberg, desde que a olhemos com nossos corações, São Paulo sempre será uma festa! Ali mesmo, naquela praça que foi belíssima um dia, até virar ponto de prostituição e antro de marginais (não sei se foi recuperada) há muito não passo por ali, temos a Pinacoteca com suas exposições e rico acervo; do outro lado da avenida, no magnífico prédio da Estação da Luz, encontramos o Museu da Língua Portuguesa e, um pouco à frente, já na Avenida Tiradentes, no magnífico prédio do Mosteiro da Luz, temos o Museu de Arte Sacra, também com riquíssimo acervo. Como vê, em poucos quarteirões, encontramos três museus da melhor qualidade, que nos oferecem programação cultural digna do primeiro mundo. Isso tudo é São Paulo! E tudo isso a faz digna de ser também imortalizada, como fez Hemingway com Paris que é, também, uma festa!!!
Abraço.

Wilsonnatale disse...

A Praça está lá. E ela deteriorou-se porque a Cidade se deteriorou.
Vou sempre lá, buscando novos ângulos para fotografar as árvores centenárias. E mesmo vendo a realidade cruel e triste dos seus frequentadores, anida consigo sonhar aqueles jardins.
Abração,
Natale.

Luiz Saidenberg disse...

Caro Zeca, de vez em quando vou à Pinacoteca, de fato belíssimo espaço cultural. Para mim, o melhor de S. Paulo. Mas só à Pinacoteca...saiu-se dali, vc entra na ambiguidade da praça. Há polícia, mas discreta prostituição, mendigos e rufiões. Não dá medo, mas vc, bem calçado, bem vestido, não se sente àvontade, como deveria estar, em lugar tão histórico. Abraços.

Miguel S. G. Chammas disse...

Luiz, a sua escrita fluente e cativante me fez voltar a uma época que certamente não vivi, mas que gostaria de ter vivenciado.
Além de tudo isso vc nos entrega, de mãos beijadas, uma cultura sem par.
Obrigado

Laruccia disse...

Saidenberg, a praça é o retrato vivo da "acomodação" que a cidade oferece a seus novos habitantes, vindos de toda parte do Brasil e, as vezes, de outros paises. A atração que estes locais exercem é a proximidade das estações de trens, largados sem um norte que os direcionam melhor na busca de um endereço acolhedor.
Sua escrita é muito boa, Luiz, parabéns.
Mô.

suely disse...

Saidenberg, seu texto me remeteu ao que escreveu Sérgio Vaz, da Cooperifa: " São Paulo é uma cidade no cio. Por isso, transa com todo mundo e em todos os lugares. É bonita porque é feia, e como toda feia que se preza beija mais gostoso. Que os Vinícius me perdoem, mas feiura é fundamental". Abraço e parabéns!

Luiz Saidenberg disse...

Muito obrigado, Suely, e o texto transcrito por vc realmente é um barato ! Genial, mas quanto à parte do beijo da mullher feia ( seria o Beijo da Mulher Aranha? )eu discordo, por muito boas razões.
Um abraço.

Arthur Miranda disse...

SAIDENBERG, Eu ia fazer mais um elogio ao seu texto, mas depois fiquei com medo que o Miguel não gostasse, e então parei a tempo. kkkkkk. Finalizo apenas com o tradicional parabens. rsrrsrsrs. Brincadeirinha, tá. Adoro todos vocês.

Soninha disse...

Olá, Luiz!

Eu adorro a praça da Luz! Considero uma das mais bonitas, ou mesmo a mais significativa...Talvez pelo fato de lá estar a estação famosa, a Pinacoteca... Hoje em dia, o museu da lingua portuguesa e outros...
Adoro isto!
Valeu por suas lembranças!
Obrigada.
Muita paz!