quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Hospital Humberto Primo

Estávamos na metade da década de 50 quando eu cismei de brincar de touro, com um bode. Deveria ter ouvido o meu primo, Capuletta, que me disse: - “Não se meta a fazer aquilo que não sabe”. Mas, desobedeci e fui tourear o bode. Conclusão: Levei uma chifrada na coxa da perna esquerda.
Apesar de um corte de um centímetro e meio, não sangrava muito. Dona Lesse, nossa vizinha, me disse para eu ir ao hospital Humberto Primo. Me deu o endereço, pois já tinha ido lá e foi bem a
tendida.
O hospital ficava na Rua Itapeva, Bairro da Bela Vista, bem próximo à Avenida Paulista. Estando dentro do complexo hospitalar , vi que se tratava do hospital Matarazzo, que foi construído por um homem simples, vindo da Itália, com uma mão na frente e outra atrás, começou enlatando banha na cidade de Sorocaba e, depois, veio para São Paulo onde ergueu o maior complexo industrial das décadas de 40-50.
Com espírito socialista, ela tinha em mente que aquilo que ele ganhava vinha do povo, então, tinha que dividir com o povo parte do que ganhava; foi assim que ele construiu outro complexo. O complexo hospitalar. Estando lá, boquiaberto com tudo aquilo que via em termos de estrutura arquitetônica, comprovei que o atendimento, assim como o prédio, era muito bom. Foi feito assepsia do local e colocaram mercúrio cromo, depois, fizeram curativo com gaze e esparadrapo, em forma de cruz para fixar bem.

Quando pensei que estava tudo em ordem, virando as costas para o médico sem ao menos dizer obrigado, fui puxado pelo braço, ouvindo sua voz com um chiado de riso. -Aonde vai, garoto. Pensa que acabou? Vai tomar uma injeção, para que não infeccione e, também, a vacina antitetânica, como prevenção, valida por dez anos.
Pouco tempo depois, tive uma gripe, por conta de ter ficado muito no sereno; a gripe demorou a sarar e já estava ficando crônica. Voltei ao hospital Humberto Primo, ou Matarazzo e, depois de uma longa consulta, ficou diagnosticado que, além da gripe, eu estava com sintoma de sinusite e me receitaram buchinhas, como aquelas buchas de tomar banho e esfregar os pés, só que menores. Mergulhadas em água bem quente, elas soltavam uma espécie de gosma e pequenas sementes pretas. A ordem era inalar o
vapor, inspirando forte e expirando, para ajudar nos sintomas da sinusite. Segui a recomendação do médico à risca, até sair sangue do nariz. Ai, eu parei. O médico também percebeu, em mim, a falta de cálcio, prescrevendo o remédio Doceful Cálcio.
Daí para frente, nunca mais precisei ir a hospital algum.
35 anos depois, retorno ao hospital Matarazzo, não mais como paciente e sim, como visitante. Meu sobrinho Renato, de nove ou dez anos, estava com o coração bastante fraco. A solução era uma operação, considerada bastante delicada, diante do estado dele. Com aquele atendimento, o mesmo de anos anteriores, dava a esperança de dias melhores para o menino. Renato foi operado e seu restabelecimento era dos mais positivos. Os médicos diziam a Tânia, sua mãe. Fique tranquila, vai dar tudo certo. E deu. Quando ele já estava fora de perigo e as visitas já podiam ser feitas pelos demais familiares, fui até lá, visitá-lo.
Entrando pelo portão principal , me veio à mente o ano de 1955, quando lá estive, a primeira visita como paciente. O hospital era o mesmo, nada tinha mudado em sua arquitetura. Enquanto aguardava os outros familiares fazerem a visita ao Renato, andava pelos largos corredores de lajotas, que tinham sido de primeira qualidade, vindos da Itália. Já estavam desgastadas pelo tempo... Comecei a pensar sobre quantas e quantas pessoas por ali já deviam ter passado, em busca de sobrevivência. E mais: aquele não era um hospital público; era um hospital particular, mas que recebia de bom grado pessoas, gratuitamente. Depois ficou nas mãos do INPS. Na verdade, o hospital como um todo, estava pior do que meu sobrinho, enquanto ele estava cada dia mais em condição de receber alta, era o hospital que estava a caminho da UTI.
Pensava eu por que será que uma obra tão humanitária podia ficar tão desamparada assim? Alguém que estava por perto, vendo minha indignação, pois tinha falado justamente para ver se alguém se manifestava, respondeu na mesma hora: - Está na cara que há especulação imobiliária por aqui. E, quanto mais deteriorado ficar, melhor para eles. Quando não tiver mais como levar avante esse enorme complexo hospitalar, com alguns blocos já fechados, ficarão de posse do imóvel.
Tempos depois, passando pela Rua Itapeva, onde se localizava o hospital Matarazzo. O prédio ainda estava de pé, mas, praticamente apodrecido, com seu terreno cercado por madeirite, à espera de uma ação da justiça, que ia dar o veredicto final, sobre quem ficaria com o imóvel, com um fundo de pensão, a PREVI, que se apodera de, praticamente tudo, para revender a quem possa pagar para restituir o fundo.
“O hospital morreu”. Renato, não. Hoje ele é adulto, com bastante saúde, um me
tro e noventa de altura, já foi jogador de basquete e está vendendo saúde.
Já o hospital, se ainda está salvo, é pelo fato de estar tombado pelo patrimônio histórico (Condephate), o que impede sua implosão. Somente com a deterioração,com o apodrecer de tudo e ele vier ao chão, pela providência de Deus, é que alguém vai rir muito. Como sempre tem alguém que se aproveita da desgraça dos outros.
A minha indignação é também de Aldeneide e sua irmã, ambas como eu, um dia estiveram lá e foram muito bem atendidas. Juntamente com outras pessoas, das quais faço parte, a convite de Aldeneide, lutamos para a preservação dos prédios dentro daquele complexo, e que volte a ser um hospital. É difícil, mas não impossível.

Por Mário Lopomo


10 comentários:

Soninha disse...

Olá, Mário!

O Hospital Matarazzo é um dos ícones da cidade de São Paulo e sempre será lembrado com muito carinho pelo povo paulistano.
Só lamentamos o descaso dos orgãos responsáveis pelo setor da saúde, com referência ao abandono de suas instalações e de seu prédio, matrimônio de valor inestimável.
Quem sabe ele possa ser novamente utilizado para a área médica, como hospital escola. Aguardemos.
As iniciativas para a preservação dos prédios paulistanos são sempre bem vindas. Parabenizo a todos pelas atitudes em torno do bem.
Obrigada.
Muita paz!

Arthur Miranda disse...

Mário, uma coisa que me deixa inquieto é como as autoridades brasileiras abandonaram a saúde publica e a educação. Diariamente vejo nos noticiários de TV pessoas que morrem sem atendimento na porta de hospitais, ou então sendo atendidas por falsos médicos contratados. Entra governos sai governos, e nada muda.
Se as autoridades não dão nem bola para quem os elegem, você acha que eles vão se importar com a manutenção de prédios? É lamentavel,não é mesmo?
E tem gente dizendo e achando que pior não fica...
Parabéns por essa sua luta que já é bem antiga.

Luiz Saidenberg disse...

É a segunda crônica sobre o Hospital Matarazzo que sai aqui, em poucos dias. Mas, sempre há algo a dizer, a acrescentar mais. E lamentar mais, tb, o fim dessa histórica istituição médica, que sempre fará muita falta a S. Paulo.

Luiz Saidenberg disse...

Desculpem, falha nossa: é iNstituição !!! Porquê não concluí o curso Underwood, aos 17 anos?

wilnat disse...

Sobre o Humberto Primo e outros hospitais, meu falecido pai dizia em uma frase: "A saúde sempre em último lugar!" Logo ele será ocupado por grupos de ação social e teremos mais um local onde se ensina capoeira, dança, curso de modelo - é tudo o que o pobre precisa para melhorar de vida. Ou então, uma nova creche onde crianças subnutridas terão todo o descuidado possível e sem saúde.
O Vecchio Umberto Primo não pode, não deve ser considerado PASSADO, mas sim o que ele realmente é: Um Hospital.
Parece-me que "Saúde não interessa".
Abração, Natale

Zeca disse...

Mário, parabéns por trazer novamente o assunto! Outro dia foi o Nelson e, agora, você, lembrando que nós, eleitores, temos o direito e o poder de lutar para que cessem casos como esse! Por que uma Instituição que já foi considerada referência precisa ter seu fim decretado de forma tão humilhante? Louvores ao seu fundador, que resolveu retribuir ao povo do país que o acolheu, dando-lhe um atendimento decente! Mas onde andam os políticos que permitem que a especulação imobiliária continue nos espoliando e nos roubando descaradamente? Tudo pode começar com ações como esta, a publicação de um texto a respeito do assunto; que nos unirá mais em torno de tanta desfaçatez e de tanta impunidade. Eu também, quando criança, fui tratado e curado nesse hospital! E é revoltante ver o que fazem com as poucas coisas que funcionam, mesmo sendo particulares, neste país! Precisamos de políticos mais voltados para a educação e a saúde! Precisamos de políticos com vergonha na cara!
Abraço.

margarida disse...

Mario, lamentável o que aconteceu com este hospital. Graças a Deus não lembro de precisar usar seus serviços, nem mesmo minha família. Acho um grande descaso dos poderosos chefões deixarem ele morrer aos poucos sem direito a UTI. Agora é torcer para que a recuperação aconteça e que Deus ilumine este nosso desejo. Um grande abraço.

Ivani disse...

Olá Mário,
Realmente, infelizmente isso não me surpreende. Por isso nosso país não tem história, não se conserva nada. E, é claro, fica muito mais barato fazer uma praça para ficar lotada de marginais, que conservar um hospital para o povo, já que a "saúde vai muito bem" em nosso país, não é? Uma pena, mas tenho que, nesse caso concordar com o Tiririca: pior do que está, não vai ficar, porque nada vai mudar, independente de quem seja eleito.

Ivani

Nelson de Assis disse...

Mario
Sua crônica do Hospital Matarazzo, juntamente com a minha, evocam a mesma ansiedade universal de uma saúde melhor para todos.
Bom seria que, nestes tempos de transição política, os candidatos ao governo de São Paulo e à presidência pudessem ler as diversas crônicas que, assim como estas nossas, mostram a quantas anda os descasos das coisas públicas, principalmente na saúde.
Ambas nossas crônicas buscam as atenções para o obvio do futuro do Hospital Matarazzo, com uma diferença. A sua crônica é mais enfática e incisiva, enquanto que a minha é mais romântica e saudosista mas, ambas convergem para o mesmo ideal.
Enquanto os postulantes aos cargos eletivos se confrontam nos diversos debates e com seus discursos prontos, deveríamos instigá-los à uma solução permanente e eficaz quanto ao futuro do Hospital Matarazzo.
Só quem conhece a história desta instituição de saúde e o quanto ela representou na vida das humildes famílias como as nossasm é que pode dar um seguro depoimento em defesa da sua permanência.
Se vivo fosse, o conde Francesco Antonio Maria Matarazzo, estaria enfartando com o rumo que as suas coisas, tão trabalhosamente edificadas, tomaram.
Contudo, arrisco que ele, em seus restos mortais, deve estar dando voltas dentro de seu caixão, no mausoléo da família, lá no cemitério da Consolação.
Portanto, que os novos governantes possam ter a sensibilidade médica para abraçat esta causa.
Ops!!! O novo governador é médico?
E o candidato para o segundo turno da presidência? Também o é?
Espero que as nossas crônicas e comentários cheguem até eles.

Fraternal abraço

Ivani disse...

Mário,
Desculpe usar esse seu espaço, mas preciso concordar plenamente com o Sr. Nelson de Assis.
Parabéns por ter um amigo que consegue enxergar além do edifício, da parte da "construção material", ele vê muito além, não só a saudade, por ser um dos ícones da cidade, mas a necessidade que fará como hospital, ao povo, e lembra muito bem, temos um governador médico e um candidato, que se não é médico só fala em "melhor saúde para o povo". Será?