domingo, 17 de outubro de 2010

PRAÇA DA REPÚBLICA

Do outro lado do Vale do Anhangabaú, nas terras do Marechal Arouche, havia uma plantação de chá e, em seguida, um descampado que, inicialmente, serviu para exercícios militares, depois cavalgadas e touradas. Recebeu o nome de Largo dos Curros e, com a proclamação da república, em 1889, foi rebatizado como Praça da República, recebendo um edifício moderno, especialmente projetado para receber a Escola Normal Caetano de Campos. Na mesma época, a construção do Viaduto do Chá, ligando o Centro Velho ao Centro Novo da cidade, transformou-a numa das principais praças da cidade, propiciando a ocupação dos seus arredores pela florescente elite paulistana. Em 1905, uma grande remodelação entregou à população uma praça com lagos e pontes, coreto e estátuas, projetada segundo padrões europeus, pronta para dar conforto aos seus freqüentadores. Em volta da praça, além dos prédios que iam surgindo, surgiu o Cine República, a maior e mais sofisticada sala de cinema do país, criada especialmente para a aristocracia que até então não trocava seus clubes pelas salas acanhadas e abafadas dos cinemas da época. Assim, na véspera de Natal de 1921, o público presente assistiu ao filme “Macho e Fêmea”, com Glória Swanson, na mais bela casa de espetáculos que o Brasil jamais conhecera.
A Praça da República, remodelada nos moldes das praças européias, pensadas para reunir e proporcionar novos espaços de lazer para a população das cidades era especialmente bonita, com árvores frondosas e imponentes palmeiras, oferecendo sombra aos transeuntes e refrescando os dias agitados da metrópole. Pelos muitos bancos espalhados entre as alamedas ligadas por pontes sobre lagos repletos de peixes, as famílias se encontravam e as crianças brincavam. Mas esse oásis idílico não durou muito tempo na cidade, tomada pelas pessoas que trabalhavam no comércio e nos bancos que foram ocupando a área e muito ocupadas para utilizar o espaço à sua disposição.
Nos idos de 1940/50, tornou-se ponto de encontro de colecionadores, principalmente de moedas e selos e também de cambistas. Nessa época, floristas que ocupavam a praça foram transferidos para o Largo do Arouche, próximo dali, sendo criado o mercado de flores que ainda permanece no mesmo local. Na década de 60, foi tomada por jovens que negavam as convenções e instituições sociais estruturadas por um estado essencialmente autoritário, os hippies, que ali expunham seus trabalhos artesanais, tornando conhecida, aos domingos, como “Feira Hippie” que, mais tarde, incorporando artistas plásticos, virou a “Feira de Artes e Artesanato”, onde alguns dos artistas reconhecidos atualmente ali se lançaram vendendo seus primeiros trabalhos.

Com o crescimento acelerado da cidade, o Centro Velho havia sofrido o desgaste da falta de interesse público em sua preservação, que acabou se espalhando para o Centro Novo quando os centros comerciais e financeiros rumaram para o espigão da Avenida Paulista ou para os modernos shopping centers, na segunda metade do século passado.
E a nossa Praça da República foi sofrendo com as transformações que atingiam o centro da cidade, adaptando-se aos diversos públicos que dela foram se apossando, bem como ao tradicional descaso das administrações públicas. Assim, de uma praça concebida nos moldes europeus, destinada ao desfrute das famílias e transeuntes, foi se transformando gradativamente em ponto de referência de todos os tipos de marginais, expulsando as famílias e os trabalhadores que já nas últimas décadas, não ousavam mais sentar-se em seus bancos e refrescar-se sob a sombra do arvoredo que a enfeita. Os lagos se degradaram completamente, perdendo os peixes que ali nadavam e tendo suas águas imundas e fétidas pela sujeira acumulada. As graciosas pontes se transformaram em redutos de traficantes e de profissionais do sexo. E suas alamedas se transformaram em ponto de exposição de garotos de programa que ali aguardam seus clientes.
Nem mesmo a construção da Estação República do Metrô conseguiu revigorar a praça! O Edifício Caetano de Campos também passou por várias ocupações, ao longo do século, até ser ocupado pela Secretaria de Estado da Educação, o que também em nada contribuiu para a revitalização daquele espaço público, tão degredado. Existem vários projetos de reurbanização do centro da cidade, onde se espera conseguir a reocupação da área para moradia e comércio, com o enfoque principal na recuperação dos edifícios e praças ali existentes. Mas até agora nada do que foi feito conseguiu algum resultado. Infelizmente a violência que impera, especialmente nos grandes centros, tomou conta da nossa cidade, expulsando cada vez para mais distante os moradores, os bancos
e as casas de comércio. E aos habitantes da nossa cidade restou a herança dessa violência que os obriga, cada vez mais a se defenderem dela atrás de grades, alarmes e empresas particulares de vigilância.
Assim, praças como a da República, que deveriam ser oásis refrescantes e aconchegantes espalhados pelas cidades, para reunir pessoas e oferecer-lhes espaços alternativos de lazer, acabaram tomadas pelos marginais. E a nós, amantes da nossa cidade, restou a saudade...

Por Zeca Paes Guedes

7 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Pobre Praça da República, Zeca!
De refinada e romântica, vizinha á bela Av. Ipiranga e seus luxuosos cinemas e pitorescos restaurantes, virou um selva sem lei na Selva de Pedra. Belo relato, muito pormenorizado, da ascenção e queda livre da grande praça central de
S. Paulo. Já disse antes: depois de uma entrevista no Ponto Chic, da qual participaram Chammas e Lopomo, jurei que só voltaria ao atual miserável Centro sob tortura.
Grande abraço.

Wilsonnatale disse...

Guedes, a história da degradação do Centro Histórico começa em 1975 com o fechamento do centro pelos calçadões. Foi nesse ano que a Cidade começou a morrer. E a Velha "cidade-nova" (região da Barão, República, 7 de Abril e a Consolação.
E a Praça da República vai-se recuperando aos pouco. Vai ficar melhor quando tirarem os tapumes do metro. Nela,pelo menos desde os anos 60, a "marginália" esteve presente. Talvez, menos exposta, mas presente. E nela, a violência é menor do que a que se vê na região da Paulista. A grande violência desta Praça está na visão de seres-humanos degradados fiísica e moralmente e POLITICAMENTE.Independente dessa "marginália", senhoras passeam os seus carchorrinhos, babás levam as crianças para tomar sol.
A Praça resite! Ainda... E nós, sem esmorecer, vamos vivendo na esperãnça de que tudo melhore, Mas, a Praça que um dia conhecemos, não voltará nunca mais. Virou passado, virou memória.
Abração,
Natale

Miguel S. G. Chammas disse...

Zeca, que bom ler sobre o passado da nossa querida Praça da Republica.
Passado que, de alguma forma, eu ajudei a ser construido.
Nela vivi bons pedaços de minha infancia e juventude.
O Cine Republica, ali instalado, foi marco de grandes novidades ao longo de sua existênca.
Primeiro foi o lançador das Sessões à 1/2 Noite, depois, foi nele que sessões de filmes em 3a. Dimensão tiveram suas primeiras exibições. Filas enormes se formavam à sua porta para receber o pequeno oculos de papel nas cores verde e vermelho e que permitiam transformar os filmes em quase realidade.
Que saudades!
Obrigado pela recordação.

Laruccia disse...

Zeca, a República é a única praça que ainda podemos chamar de PRAÇA. Bela como sempre, recebeu recantos novos, acompanhando a inevitável evolução dos tempos. Parabéns pela sua ótima crônica, Guedes.

MLopomo disse...

Luiz, A Praça da Republica virou mesmo uma selva de pedra. Você matou na mosca. Passei a poucos dias por La, para ir ao Bar Brahma, e me assustei ao ver o lago da Praça seco, não sei se ela está passando por alguma reforma ou não querem mais água no lago da Praça, onde por muitas vezes levei meu filho para ver e jogar miolo de pão aos patos.

Arthur Miranda disse...

Zeca, Eu sempre achei maravilhosa a nossa Praça da República, e isso dos nove anos (veja que já faz muito tempo) E ainda hoje apesar de abandonada ainda gosto muito, mas muito mesmo dela.
Acho até que é a única Praça do centro de São Paulo que restou e que ainda pode ser chamada de Praça, depois que destruíram a Praça Roosevelt, o Largo do Arouche, e a Praça Princesa Izabel, que teve suas de arvores substituídas por um enorme Luís Alves de Lima e Silva .

Soninha disse...

Olá, Zeca!

Falar de qualquer lugar de Sampa, para mim, é honra...Temos tantos belos lugares, tantas belas praças!
Mas, a da República realmente é especial...é referência.
Muitas recordações sei que todos temos, mas, neste momento, lembrei-me das exposições de arte que acontecem nela, até os tempos de hoje...
Muitas vezes íamos na praça para ver e adquirir algumas coisinhas...
Legal, Zeca. Gostei.
Obrigada.
Muita paz!