sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Roberto Jorge

imagens: acima, Beto filmando; ao lado esquerdo, Beto; ao lado direito, Beto com a Irmã e Beto com os sobrinhos
No dia 17de Outubro de 1995, uma terça feira chuvosa e fria, Roberto Jorge levantou cedinho e muito feliz, apesar do tempo feio. No dia anterior, uma segunda feira, depois de um longo ano de atividades no Banco Bamerindus – Agência Campos do Jordão, onde fora admitido um ano antes, para o cargo de atendente de balcão, ele, enfim, entrava em merecidas férias.
Silenciosamente, imaginando que eu estivesse dormindo, entrou em meu quarto evitando ruídos que pudessem me acordar, falou baixinho ao lado da cabeceira da mãe.
-Mãe, eu já vou; meio dia eu venho almoçar.
Tive uma vontade de falar pra ele que o tempo estava feio; havia chovido a noite inteira e que e que talvez fosse melhor ele ir mais tarde, depois do almoço, quem sabe, o tempo já houvesse melhorado, mas, acabei permanecendo em silêncio, sabendo que ele iria passar a manhã com a namoradinha, que há dois meses atrás ficara conhecendo, no colégio onde a mesma estudava; era um encontro de despedida de adolescentes apaixonados, Roberto estava de viagem marcada para Curitiba onde, curtindo suas primeiras férias bancárias, ao lado de colegas também funcionários, iria passar 10 dias no Clube dos Funcionários do Bamerindus, em Curitiba – PR.
E assim, Roberto partiu.

Meio dia, hora do almoço, caminhei para o meu canto da mesa e perguntei para a mãe dele:
- E o Beto, não chegou ainda?
30 minutos depois, quando já estava para deixar a mesa, ouço e atendo ao telefone.
-Pronto.
Uma voz masculina fala: - É da residência de Roberto Jorge?
-Sim! Respondi, é o pai dele que está falando.
-Aqui é o Policial do Posto Rodoviário Estadual da SP 50, houve um acidente com o veículo de seu filho e pedimos a sua presença, aqui no Posto.
Temeroso perguntei: - E meu filho, está bem?
- Não sei informar, tudo que sei é que ocorreu um acidente que envolveu seu filho e fui encarregado de informar o ocorrido aos familiares.
Como já antevendo o fato e, no intuito de preparar o espírito da família para o pior, desliguei o telefone, comentando com a mãe dele:
- Acho que Deus veio buscar aquilo que sempre foi dele e que, por mais de 20 anos, permitiu que a gente tomasse conta, achando até que era nosso.
Foi uma longa e dolorosa viagem aqueles 15 quilômetros até o Posto Rodoviário. Lá chegando, fui informado daquilo que na alma eu já sabia; meu filho estava em óbito. Neguei-me a ver o corpo e acompanhei, em meu carro, a viatura funerária até o I M L.
Dia seguinte, velório, parentes, colegas e amigos, pêsames, palavras de conforto, o enterro, o silêncio e o tormento de não poder desviar o pensamento.
Parece que a gente se prepara para enterrar os pais, os avós, os tios e tudo que é parente; mas, acho que pai algum nesse mundo está preparado para enterrar o próprio filho.
Mas, pra quem tem fé, crê e acredita, chega junto também a essa tristeza, a esperança, a redenção, a ressurreição.
A minha veio através de um belo sonho, aquele que jamais esquecerei.
Naquele dia Roberto Jorge saiu de casa em seu carro e, no caminho, vendo um jovem caminhando, parou o carro e lhe deu carona.
O estranho entrou no carro e sentou-se no banco da frente, ao lado de Roberto. Era um jovem bem simpático e moderno, usava barba e cabelos bem compridos e era um pouco mais velho que meu filho.
Assim que entrou no carro, foi falando.
-Cara, eu acho que te conheço de algum lugar; meu filho respondeu:

- Pode ser, eu sou paulistano, moro em Campos a dezessete anos, estudei em Taubaté, faço faculdade em Pindamonhangaba e trabalho, há mais de um ano, no Bamerindus. Também acho que você não é estranho; já te vi em algum lugar.
-Eu acho até que foi em alguma igreja; tenho quase certeza que já te vi algumas vezes.
-É provável. Eu costumo ir à missa dos jovens na Matriz e...
Então uma freada violenta, o carro rodopiou na pista e bateu de frente com um caminhão. Roberto na direção, todo esmagado, o carona do lado de fora do carro transfigurado, clamava seu nome e lhe estendia a mão:
- Roberto venha, me dê sua mão! Você não se lembra mais de mim na comunhão? Na eucaristia?
Meu filho, com um sorriso nos lábios, largou aquela ensanguentada direção, cercado que estava por uma estranha luz.
Seguiu em frente, de mãos dadas com Jesus.
Roberto Jorge nasceu em 26-10-1974 em São Paulo, Capital e faleceu em um acidente, em Pindamonhangaba, em 17-10-1995

Por Arthur Miranda (tutu)

13 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Muito triste mesmo, Arthur. Mas com seu belo sonho, vc veio não só receber, mas transmitir com sua bela narrativa, palavras de cônsolo a tanta gente que, nos momentos tão difíceis em que vivemos, perdeu toda a fé não só no além, mas tb na humanidade.
Meu abraço.

Luiz Saidenberg disse...

Muito triste mesmo, Arthur. Mas com seu belo sonho, vc veio não só receber, mas transmitir com sua bela narrativa, palavras de cônsolo a tanta gente que, nos momentos tão difíceis em que vivemos, perdeu toda a fé não só no além, mas tb na humanidade.
Meu abraço.

Laruccia disse...

Arthur, essa dolorosa ocorrência, relatada com tanta delicadeza, antevia-se que uma grande alegria ou uma grande tristeza, estava reservada para o final. Infelizmente a tragédia,na dualidade das espectativas, prevaleceu. Que pena, 21 anos,nessa hora tento estar no seu lugar, Tutu, não sei a que me levaria o desespero e a dor. Não aceito esse inevitável destino dos jovens e, conhecendo vc pessoalmente, nunca poderia imaginar que vc e sua esposa trouxessem, na alma, essa cicatriz que nunca irá desaparecer. Deus lhe entregou uma cruz bem pesada porque sabia que seua ombros fortes poderiam suportar. Mesmo passados 15 anos, pelas fotos podemos imaginar o garoto que ainda estaria dando muitas alegrias aos seua familiares. Me perdoe, Miranda, não sirvo pra consola-lo, mesmo a distância do tempo, conhecendo só vcs, estou revoltado, não aceito esse destino. Mas, vc deve ser consolado e o meu pesar uni-se aos vossos no lamento e na dor. Que Deus noa ajude a todos, somos pais, também e não livres dessas malditas ocorrências. Vcs tem a nossa simpatia porque, apesar dessa dor profunda sempre demonstrastes um calor humano sem reziduos de revolta. Seja o que Deus quizer. Amen.

Soninha disse...

Olá, Arthur, caro amigo!

A dor que sente um pai e uma mãe com o passamento de um filho, não se explica, não se mede...
É incomensurável!
Mas, a bondade de Deus é tanta, que Ele nos dá a força para podermos suportar tão grande prova.
Ainda nos traz o consolo...a vida segue, além da vida!
Seria ilógico e injusto acreditar que tudo termina com a morte do corpo físico. Ao contrário. Ela segue em outras dimensões para darmos continuidade ao trabalho iniciado na Terra, com condições diferenciadas de entendimento, pois não se sofre mais a interferência da matéria densa que é o corpo físico.
Bem...isso é assunto para outras ocasiões.
Só quero mesmo lhe dar um forte abraço. O estimamos muito e temos imenso respeito por você.
Onde quer que Beto esteja, lá no plano espiritual, que ele também receba nosso abraço e nosso desejo de muita força e muita luz, para que ele siga seu caminho com discernimento e coragem.
Que Jesus o abençoe! Jesus o abençoou, também, Tutu...deixando pra você o sonho sobre o passamento de Beto, dizendo-lhe que seria necessário a partida, depois da missão cumprida, mas que Ele está ao lado de todos nós, carregando-nos nos braços nas horas difíceis, para que tenhamos forças de suportar todas as nossas provas.
Valeu, Arthur!
Obrigada.
Muita paz!

MLopomo disse...

Miranda. Se existe uma coisa que gosto, é de comentar o pensamento e ações de quem escreve. Hoje fiquei embasbacado. Dizer o que? é como você mesmo escreveu, a gente pensa que os filhos vão enterrar a gente e no meio do caminho tal pensamento é invertido. São coisas da vida que temos que carregar na maior obediencia ao nosso criador.Preces.

Miguel S. G. Chammas disse...

Tutu, meu maior medo é, Um dia, ter que aceitar uma alteração na ordem natural dos acontecimentos.
Rogo a Deus, a Jesus e a todos os Santos que velem por mim e me protejam de uma infelicidade assim.
Não sei se teria a resignação que em você foi tão imediata.
Tenho certeza que amaldiçoaria céus e terras.
Já se diz desde os tempos de outrora, o verdadeiro PALHAÇO é aquele que mesmo no auge de suador, ri e transmite alegria.
Agora vejo o por que do meu insucesso nos picadeiros e palcos desta vida e, em contrapartida, o teu comprovado sucesso.
Amigo, Deus continue a te transmitir essa força. Ela é necessária para a sua continuidade neste plano, e claro, nos precisamos de ti no nosso meio.
Amem!

Arthur Miranda disse...

Amigos, dizer o que para agradecer todos vocês pelos generosos comentários? Só espero que as lágrimas de gratidão que no momento eu derramo, sejam a grande prova de dizer quanto eu os amo.

wilnat disse...

Miranda, nada se perde. tudo se transmuta em luz.E, como dizia o meu avô, só se perde o que não se teve.
Linda homenagem de amor ao seu filho. Que vive e viverá sempre nas suas lembranças e no seu coração.
Diante da sua dor eu me calo. Posso avaliá-la intensamente.
E lambra sempre: Só se perde o que não se teve.
Abração,
Natale

Zeca disse...

Arthur,
não consigo avaliar a dor que inundou seu coração e o de sua esposa com esse acidente que levou filho tão novo, tão cheio de vida e de planos. E os admiro ainda mais pela resignada aceitação dos planos Dele que, em sonho, mostrou que veio buscar o filho amado.
Abraço.

Marcia disse...

O Beto foi um anjo que estava nessa mundo para deixar todos nos mais feliz, ele era uma pessoa muito iluminada, perto dele ninguém ficava triste, pois ele tinha um jeito todo especial de ser, as frases q ele dizia, eram sempre de carinho e amor, eu agradeço a Deus por ele ter feito parte da minha vida por quase 21 anos faltaram 9 dias pra completar os 21. A falta q ele faz em minha vida e dos meus filhos e enorme, nesses 15 anos de ausência não se passou um dia em que não me lembrei de alguma coisa que ele tenha feito ou falado.
Deus me deu a honra de ser sua irmã mais velha, me lembro q quando ele nasceu foi o dia mais importante de minha vida, nos meus 12 anos a minha alegria foi enorme.

Soninha disse...

Olá, Márcia!

A tristeza de nossos amigos passa a ser nossa tristeza também.
Temos um carinho tão grande por Arthur que nos comovemos com sua história e com a perda do Beto.
Mas, ao mesmo tempo, aprendemos com ele a oição valorosa da resignação diante da vontade de Deus.
Também pudemos, através de fotos, conhecer Beto, você e seus filhos...
SOmos nós quem agradecemos por esta chance.
Que Jesus abençoe você, seus filhos, seu pai e sua mãe, dando-lhes força e resignação para continuarem seguindo esta jornada terrena.
Valeu, Márcia!
Muita paz!

Soninha disse...

Em tempo...

Eu quis dizer "lição valorosa"
Perdoe-me.
Muita paz!

Margarida Moric disse...

Desculpe por me manifestar nesta pagina da internet. Mas também tenho algo pra falar do nosso Beto.
É seu Arthur, a morte do nosso Roberto Jorge foi muito triste mesmo, nos pegou de calças curtas. Até hoje não sei como Deus me deu tanta força, pois eu como super mãe, achava que se algum dia eu perdesse um de meus filhos não iria suportar tal, achava que ficaria louca. Talvez ele próprio deu-me forças. O que eu acho bonito, é que meus netos mais novos que nem o conheceram, todos tem um carinho e respeito por ele, como se ele estivesse no meio de nós, falam dele como o tivessem conhecido. Na minha lembrança, o tenho acenando para nós com os braços para cima, como ele tinha o costume de fazer, ou chegando ao portão de casa gritando – “mãe, o filhinho trabalhador chegou!” – quantas saudades, pois era um filho companheiro, sempre ao meu lado. Nos finais de semana, nem saia de casa para ficar ao meu lado e não me deixar sozinha, pois você tinha saio para mais uma de suas viagens a trabalho. Só depois de sua morte é que ficamos sabendo, como ele era querido, e era um grande conselheiro na faculdade e com um pessoal de Campos do Jordão, no seu velório só tinha elogios a seu respeito, como foi bom ouvir tantas coisas lindas a seu respeito. E uma grande graça que recebi foi eu ter largado o cigarro, eu sei que ele não suportava me ver de cigarro na mão. Quinze dias depois de sua morte, larguei o cigarro e nunca mais tive vontade de fumar por ele.
Obrigado Beto meu filho. Te Amo!
Sua Mamãe,
Margit