quinta-feira, 19 de maio de 2011

Memórias elegantes


Sou do tempo em que os homens primavam pela elegância.
Vestiam fatiotas costuradas por alfaiates conhecedores dos mistérios da arte de bem coser, eram roupas de três partes, a saber: calça, colete e paletó.
As camisas eram procedentes de grandes camiseiros ou de camisarias famosas de Sampa. Sapatos de preferência de cromo alemão, meias Lupo ou Aço de cano longo.
Gravatas confeccionadas em seda italiana, abotoaduras para punhos duplos em ouro e bastantes elegantes.
Na minha juventude, o chapéu tinha sido abolido e só os mais radicais teimavam em usá-lo; eu mesmo não os usando, gostava de admirar quem os usasse.
Meu alfaiate era o Nelson, que morava e tinha seu ateliê na Bela Vista, lá na Rua João Passaláqua, hoje extinta, mercê das deformações arquiteturais sofridas pelo Bixiga, ali, ele e o pai cosiam as roupas dos Duques de Piu-Piu, com todo o carinho e afeto.
Minhas camisas eram compradas na Camisaria Tanhauser, que ficava na Avenida São João, bem em frente ao prédio dos Correios, precisamente na entrada do setor de telegramas, ou então, eram confeccionadas por dois camiseiros de mãos cheias, o Wander e o Bell, que tinham loja na Rua da Glória, quase esquina com a Rua Conselheiro Furtado.
Era com eles que eu encomendavas as camisas com golas morcego, punhos duplos com recortes e outras modernidades da época.
Bem, esta introdução foi só para que eu pudesse falar de uma figura “bixiguiniana”, a mais elegante que eu tive oportunidade de conhecer por aquelas bandas.
Eu estou falando do Bano ou Urbano, figura alta e magra, sempre elegantemente vestida, que andava pela Rua 13 de Maio e adjacências, exalando finos perfumes... E esparramando elegância.
Nas noites mais frias, usava, por cima do terno impecavelmente passado, um sobretudo de lã de carneiro, um cachecol branco de seda e um chapéu Ramenzzoni, sempre em consonância de tom com o terno em uso.
Assim trajado, o velho Bano, por volta das 21:00 h passava pelo Bar e Bilhares Rex, da Rua Manoel e Dutra, tomava um conhaque, dizia algumas brincadeiras com o frequentadores e se despedindo de todos, dizia sorrindo com o canto da boca: “Amigos, o velho Bano vai à caça. Boa Noite”; descia os degraus do bar e sumia na noite que, às vezes, não era tão elegante como ele.
Bom era poder usufruir de tanta elegância.

Por Miguel Chammas

7 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Elegante texto, caro Miguel. Temos, mais ou menos , a mesma idade, então compartilhei dessas experiências do bem vestir, assim que tive dinheiro para fazê-lo: ternos em alfaiate, inclusive tropical inglês- servir-me-ia até hoje, vista que não aumentei o peso, mas que, convencido pela minha desagradável ex, doei a um parente dela- bons calçados, gravatas de seda. Ainda assim, abolidos o paletó e a gravata (salvo em ocasiões especiais), continuei um cara elegante, com crédito na Exposição, caso esta ainda existisse. Abraços.

Wilsonnatale disse...

MIGUEL: Você narrando esse delicioso texto, eu lendo e, ao mesmo tempo lembrando a minha "eleganza"...
Minhas camisas "finas" eram feitas no camiseiro - Alto, com os braços compridos, nunca conseguia comprar uma camisa de manga longa que não ficasse curta. E um número maior resolvia, mas ficava larga demais.
E vou lembrando das jaquetas de gabardini; dos pulovers de lá, aqueles sem manga; das capas emborrachadas e depois, das de náilon. Em tempo: usei galochas; das japonas de lã e dos "blasers" que em certas ocasiões substituíam os paletós.
E eu tinha paixão pelos ternos feitos pelo alfaiate, no padrão Príncipe de Gales.Calças no padrão "Pied de cocq" e espinha de peixe.
Depois, a praticidade do "prêt a porter" masculino: Lojas Garbo, Exposição, Colombo e Ducal.
Os sapatos, salvo raras excessões, eram sempre Clark.
E é muito bom lembrar do velho Centro onde homens e mulhres elegantes, desfilavam a moda na elegância "cara", ou simples. Havia bom-gosto por toda a parte.
Bom-gosto, classe e educação.Um conjunto perfeito para uma pessoa elegante!
Valeu, Miguel!
Abração,
Natale

Soninha disse...

Olá,amor!

Lembrei tanto de meu amado pai e de meu querido avô, sempre elegantes em suas vestimentas... Em nossa época de crianças,ainda mantinham o costume de sairem com chapéu. E eles sempre nos mostravam as fotos de quando eleseram mais moços...com seus ternos e seus chapéus...seus sobretudo para os dias mais frios de Sampa...
Minha mãe, então,nos mostrava as luvas,bolsas, sapatos que mantinha guardados,de seus tempos de mocinha...tudo combinando. Dizia-nos que jamais saia à rua sem o chapéu e sem as luvas...
Legal, né!
A imagem que escolhi para emcabeçar o texto,chamou minha atenção justamente porque é de um antigo bar e a maioria está trajando ternos, paletós,chapéus...interessante!
Valeu!
Muita paz!Beijosssssss

Arthur Miranda tutu disse...

Como por falta de grana, cresci sem poder $er elegante, acabei ficando um adulto muito de$elegante, Porem $empre achei inter$$ante! admirar a$ pessoa$ eleganteS.
E as pe$$oa$ mai$ chic e elegante$ que eu conheci e que já deixaram e$$e no$$o mundo, foi o grande Clodovil e o comediante Durval de Souza.
kkkkkk R$R$R$R$R$R$R$

Modesto disse...

Miguel, lendo sua narrativa, não fiquei muito alegre em lembrar das vestimentes e trages. Estilo de roupas e perfis de elegância herdados pela fria e cinzenta Europa. Nunca aceitei o uso de gravatas, perniciosa peça originária dos franceses que, na ausência de banhos diários, se empaturravam de perfumes. O chapeu, que foi se transformando com o tempo, de gorro ou boné, chegou aos Ramenzonis. E até eles, que tem neve já não usam mais.
Bengala... deixa pra lá, vá. Colete então, nem se fala, num pais tropical com o nosso, a gravata e o palitó tinham que ser eliminados. Gostei da sua recordação, Miguel, parabéns.
Modesto

LAERTE CARMELLO laertecarmello@hotmail.com disse...

Caro Miguel: Nós da boa idade estamos realmente comovidos com sua feliz recordação dos nossos tempos de jovens, em que priorizávamos a elegância, a qual tornava-se realidade através de bons alfaiates.
Aliás as mulheres também primavam pela elegância e aí entrava a mão de obra das costureiras. Hoje as espécies alfaiate e costureira parecem estar em extinção. Prevalece a moda da roupa pronta, do estilo informal: basta dar uma voltinha pela Faria Lima, Paulista ou Berrini para se constatar.
Porém cadê a elegância?
Também naqueles tempos primávamos
pelo contato pessoal, o que valia era estar junto dos outros funcionários, junto dos clientes,
tratando dos negócios olho no olho.
Hoje as novas gerações vivem se relacionando atrás da frieza de um computador.
Os tempos e valores mudaram. Pergunta: o que realmente é melhor?
É melhor sermos indivíduos/ pessoas de valor...ou simplesmente um número, um RG?
Forte abraço e parabéns, Miguel!

Luiz Saidenberg disse...

Caro Carmello, altri tempi...depois da Revolução Cultural, que foi realmente uma contracultura e subverteu muitos do valores antigos, tivemos a atual, e sérissima: a virtual. Tudo se compra pelo computador, tb, e muitas lojas perderam sua freguesia. Mas, o mundo não pára, e vamos em frente: somos humanos, não números. Isto, só a Morte nos tira. Abraços.