quarta-feira, 4 de maio de 2011

Bilhetes de loteria


A loteria no Brasil vem de muito tempo. Há coisa de cem anos atrás fazia parte de uma empresa particular. Sob licença do governo, é lógico. Mas sempre tinha aquele negócio de que havia marmelada ou coisa parecida. Aliás, nos dias de hoje ainda tem-se essa desconfiança.
A partir do início dos anos 1960, o governo encampou a loteria para dar mais confiabilidade, e passou a responsabilidade para a Caixa Econômica Federal.
O jogo do bicho estava relacionado à loteria nas quartas-feiras e sábados, nos outros dias o bicho corria pela Paratodos, um sorteio paralelo, que muita gente tinha suas desconfianças de que o sorteio era de cartas marcadas. Portanto, o dia que o bicho rendia mais para os banqueiros e cambistas era nos dias que o sorteio era feito com os números da loteria federal, quem dizia era meu primo Chico (Piqui) cambista e depois sócio da banca do Avelino, no Itaim, quando o escritório era na Rua Clodomiro Amazonas, esquina da Rua Tabapuã, andar de cima.
Os bilhetes com 20 frações eram pedidos pelos compradores pelos números do jogo do bicho, baseados na dezena final que correspondia aos grupos do “jogo do Barão”, ou seja, a dezena 01 ao 04 correspondia ao grupo 01, Avestruz, e as dezenas 97 a 00 correspondia ao grupo 25, da Vaca.A vaca era uma das dezenas preferidas do povo... Quando um vendedor aparecia, já tinha gente gritando, você tem aquela... Vaca?
Cachorro no mês de agosto, Coelho na época da páscoa... Eram os bilhetes que mais se vendiam, segundo os responsáveis por casas lotéricas do centro da cidade. Um dos bilhetes que era difícil de vender eram os que tinham os finais de 93, 94, 95 e 96, que faziam parte do grupo 24, que é o grupo do veado. Puro machismo. Conheci gente que tinha o palpite no veado e mandava a mulher ou uma criança na casa lotérica comprar.
Números desprezados eram os que tinham todos os algarismos iguais. Nos anos dourados da Loteria Federal, quase ninguém comprava bilhetes "difíceis", como o 5.555, que no Grande Prêmio de Natal de 1943 encalhou numa loja do concessionário lotérico Ricardo Fasanello e, foi sorteado no primeiro prêmio. Aquele bilhete encalhado segundo o proprietário desencalhou o dono da casa lotérica, através de outros negócios.
Eu sempre fui um pé frio para qualquer tipo de jogo ou sorteio. Na véspera do meu aniversário, de 4 de maio de 1966, eu passava pela Avenida São João quando um bilheteiro de origem italiana me ofereceu um “gasparino”. (gasparino era o apelido de uma fração do bilhete inteiro que tinha vinte frações) Esse apelido era em homenagem ao homem que idealizou a loteria, de nome Gaspar.
O bilheteiro tinha poucos bilhetes na mão e me ofereceu um. Nunca fui muito de comprar bilhetes de loteria, mas, pensei: quem sabe o destino vai me dar um prêmio de aniversário amanhã? O sorteio era às 14 horas de todas as quartas e sábados. Segundo Omar Cardoso, quarta-feira era um dia de sorte para quem era do signo de touro.
Dizia ele. Touro: nascidos de 21 de abril a 20 de maio. Você é um teimoso. Fala alto, tem voz firme, não consegue baixar seu tom alto. Come muito, com tendência a barrigudo. Quarta-feira é seu dia de sorte, para rifas e sorteio de loterias. Pensando nos ensinamentos de Omar Cardoso, resolvi comprar um bilhete. Afinal, era o dia do meu aniversário, justo numa quarta-feira.
O bilheteiro andarilho de origem italiana pediu para que escolhesse um número. Pedi para ele dar qualquer um e ele me vendeu o bilhete que tinha o numero 07.493, que correspondia ao veado.
No dia seguinte estava trabalhando quando veio a hora do sorteio, que era feito por Ricardo Dias, um argentino que, além narrar os sorteios da loteria pela Rádio Piratininga, apresentava também um programa de tangos e falava muito de Gardel, Lepera e tinha também o clube dos Gardelófilos.
Então, resolvi mudar de estação e passei a ouvir o Daniel Paulo e o Colombo Barbosa... Estavam na Radio Tupi, sempre sob os auspícios da cidra Cerezer e do vinho Chapinha de Jundiaí.
O sorteio era alternado entre pequenos e grandes prêmios. Quem fazia o sorteio eram as crianças de uma casa que abrigava órfãos. A própria criança, geralmente uma menina, era quem cantava a bolinha sorteada. Ouvia–se a voz dela dizendo: vinte cinco mil, quinhentos e quatorzeeeeee. Cinco mil cruzeirossss.
Onze mil, oitocentos e vinteeeee. Um mil cruzeiros.
Sete mil, quatrocentos e três. Seis milhões de cruzeiros!
Dei um pulo da cadeira. Gritei a todos os pulmões. Ganhei na Loteriaaaa. Quando peguei o bilhete para conferir, vi que meu bilhete era sete mil quatrocentos e noventa e três. Errei somente o penúltimo número. Deu, quando muito, a unidade final e troca de bilhete.
Até hoje, tenho esse número na garganta. Nunca mais o vi em qualquer casa lotérica por onde passo. Se vir novamente esse bilhete, vou comprar. Por mais duas vezes errei no último algarismo da loteria federal.
Vou continuar na onda do Omar Cardoso quando dizia “Os astros não mentem jamais” e, como foi dito por ele certa vez em seu programa de rádio, o taurino é um cara de sorte em sorteios de rifas e loterias. Disse também, que o nativo de Touro é um teimoso e, como teimoso, vou tentar até morrer.

Por Mario Lopomo

12 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Mario, até hoje, sempre que posso, faço uma fezinha no danado do bicho.
Já ganhei diversas vezes jogando no gato e no urso com as minhas milhares, cebntenas e dezenas preferidas.Não sou afeito à Loto, Supersena, Quadricena ou coisas que tais, mas no bicho eu me amarro.
Coninue jogando, um dia dá!
Mesmo que vc nãzo ganhe nada, acho que está na hora de guardar uma graninha e nos dar um pedaço (grande) de bolo de aniversário.
Desejo a você muitas felicidades, rodeado dos seus, e assoprando essas 90 velinhas. rsrsrsrs

Miguel S. G. Chammas disse...

Mario, se a Sioninha não errou a foto, você está muito parecido com seu idolo Omar Cardoso.
Que meda de uma reencarnação precoce........

Zeca disse...

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BOM DIA, MÁRIO!

FELIZ ANIVERSÁRIO!!!


Desejo-lhe saúde, paz e prosperidade! E muita teimosia também, para continuar tentando seu jogo! Sorte para isso você já tem, segundo o saudoso Omar Cardoso que, até final da década de 70, levou ao ar em várias emissoras de rádio do pais, o horóscopo mais famoso que o Brasil já conheceu. E seu instituto publica, ainda hoje, o horóscopo diário para todos os signos.

Gostei muito dessa crônica, da qual, quase nada sabia! Lembro apenas do astrólogo, além da Cidra Cereser (quem não conhece?!), ainda fabricada em Jundiaí, próspera e agradável cidade do interior paulista, onde tenho alguns bons amigos.

Já de loterias ou jogo de bicho, nada entendo! Nunca comprei um bilhete de loteria, entrei por pouco tempo na febre da Loteria Esportiva, quando de sua criação e, na Mega-Sena, jogo de vez em quando, geralmente quando acompanho algum amigo até uma casa lotérica onde o mesmo irá fazer sua fézinha. Aí, meio por brincadeira, meio pela esperança de, quem sabe?, acabo rabiscando alguns números no volante e gastando meus dois reaizinhos... rs.

Então, meu caro, permita-me cumprimentá-lo pelo texto e pela data:

FELIZ ANIVERSÁRIO!!!

Abraço.

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Zeca disse...

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CAROS AMIGOS:

Como estarei ausente nos próximos dias, aproveito a carona neste texto para desejar à Denise, aniversariante de amanhã, 05 de maio, muita saúde, muita paz e um horizonte de alegrias e realizações.

FELIZ ANIVERSÁRIO, DENISE!!!

Abraço.

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LAERTE CARMELLO disse...

CARO MÁRIO:

FELIZ ANIVERSÁRIO!!!
E MEUS PARABÉNS POR ESTA POSTAGEM
QUE ME FEZ LEMBRAR UM FATO ENGRAÇADO DO FAMOSO PROFESSOR GODOFREDO DA SILVA TELES. O MESMO LECIONANDO NA FACULDADE DE DIREITO DO LARGO S.FRANCISCO, CERTA VEZ DISSE AOS ALUNOS QUE A MATÉRIA QUE ESTAVA ENSINANDO NAQUELE MOMENTO ERA DE UM JURISTA ITALIANO CHAMADO "CORIÓGGI". NA REALIDADE ESTAVA
"CHUTANDO" OU SEJA, ESTAVA CITANDO
UMA EXPRESSÃO DE UM VENDEDOR DE BILHETES DE LOTERIA, DE ORIGEM ITALIANA, O QUAL FICAVA NA PORTA DA
FACULDADE CLAMANDO: "CORIÓGGI, CORIÓGGI"! (CORRE HOJE!).
MÁRIO, CONTINUE AINDA POR MUITOS
ANOS NOS BRINDANDO COM SEUS EXCELENTES ESCRITOS E MUITO BEM PESQUISADOS!
ABRAÇÃO E CHIN-CHIN! LAERTE.

Arthur Miranda tutu disse...

Mario, me lembro de um vendedor de bilhetes que ficava na década de 60 na Praça do Patriarca, quase na entrada da galeria Prestes Maia, e que vendia seus bilhetes,(maliciosamente) gritando: É hoje: VACA GALO PORCO.
Como você ja sabe, eu não me afino muito com jogos, a não ser de futebol, e como não jogo, o pouco que sei sobre jogos e lendo textos como esse seu, Que é muito interessante mesmo para alguem como eu que não tem interesse por jogos de azar para a maioria e de sorte para poucos. Pois para um ganhar, muitos sairão perdendo. Assim como o carnê do Baú. Onde eu só conheço uma pessoa que só ganha e nunca perdeu. O Silvio, kkkk.
PARABÉNS, E VÊ SE VAI comemorar com
a gente, nesse encontro com as redondas, do dia 06 Onde é certa a presença da Marly Marley.

Miguel S. G. Chammas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Soninha disse...

Olá, Mário!

Também quero deixar aqui meu abraço pela passagem de seu aniversário.
Que Jesus o abençoe com muita saúde e prosperidade.
Nas ilustrações do texto, deixei também um presentinho, que é a imagem de seu tão sonhado bilhete...Montado, é claro.
De vez em quando, aposto em uma das loterias existentes... Afinal, sonhar ainda é permitido e a sorte pode chegar para qualquer um de nós.
Parabéns!
Muita paz!

Modesto disse...

Feliz aniversário, Mario, sua narrativa a respeito da Loteria Federal é uma verdadeira aula de atividades sociais. Parabéns.
Modesto

marcia ovando disse...

Lopomo
Parabéns ! muita sáude,$$$$$,amor e que você tenha sempre inspiração para continuar nos presenteando com suas histórias.

suely aparecida schraner disse...

Fui lendo e torcendo. Que pena, ainda não foi desta vez. Parabéns e sorte sempre!

Wilsonnatale disse...

Lopomo: Ótimo texto!
Como na vida nada vem de graça e sem esforço ou tenacidade, o négócio é insistir! Vai que um dia a sorte e a felicidade venham bater à sua porta!... Um dia o bicho pega e dá!
Um mundo de felicidade e paz! E vida longa com muita saúde! PARABÉNS!
Abração,
Natale