sexta-feira, 6 de maio de 2011

Dia Das Mães - Anos 50


“Haec ornamenta mea”

Esta frase latina, citada acima, é a primeira coisa que vem a minha cabeça quando penso no dia das mães.
Depois me vem à lembrança os fragmentos da música que cantávamos no galpão do Grupo Escolar antes de, em fila, seguirmos para as classes, durante o mês de maio:
“Mês de maio.
Mês de Maria!
Festejamos Maio,
Com muita alegria!"

Na classe, a professora de catecismo nos falava da importância desse mês, dedicado à Nossa Senhora. Dizia-nos que Maio era o mês mais lindo do ano e o mais importante, pois nele, se comemora o Dia das Mães!
A professora, até quase às vésperas do Dia das Mães, reservava quinze minutos do tempo de aula para nos ajudar a criar, confeccionar os cartões que daríamos às nossas mães e avós.
No fim de semana, bem antes do Dia das Mães, papai e vovô me levavam à Cidade para que eu comprasse mimos e lembrancinhas para as minhas duas mães.
Nada de presentes caros ou extravagâncias: lencinhos de bolsa bordados, bichinhos e pequenas estatuetas de “biscuit”, caixa de sabonetes ingleses, caixas de bombons, etc.
Só uma única vez eu fiz uma extravagância: Assassinei meus quatro porquinhos de cerâmica, que estavam “bem cevados” e dei à minha mãe um “portacippria” (estojo para se colocar pó-de-arroz) florentino, banhado à prata e com uma pedra de jade (imitação) e dei à minha avó um terço de lápis-lazúli lindíssimo.
Véspera do Dia das Mães – uma loucura! Minha casa era o centro do mundo familiar. Nela estavam os meus avós.
Sábado, após o almoço, chegavam as minhas tias. Entravam e iam direto para a cozinha.
Na cozinha, tias lavavam louças, verduras e legumes, tias temperavam as carnes, tias colocavam o molho para apurar, tias preparavam a massa dos cappelletti e a massa do bolo... Réstias de alho e cebolas desapareciam como por encanto.
Quase noite. E tias ainda lavando as louças, tias preparando a “zuppa” (sopa) que seria o nosso jantar. Tia Rosaletta entre anilinas, açúcar, saco e bicos de picotar, enfeitava o bolo enorme, em forma de coração, do Dia das Mães com rosas de glacê real... Bolo finalizado, a “zuppa” pronta elas começam a limpeza da cozinha... Jantamos quase nove horas da noite! Terminado o jantar, nova incursão das tias à cozinha: Lavar a louça, guardar tudo e deixar tudo “brilhando” para o domingo. Eram quase onze horas quando as tias foram embora.
Indo para a cama, passei pela sala de jantar reparando no clima de festa deixado pelas minhas tias. Sobre o aparador estava a porcelana branca com a decoração de espigas de trigo em relevo. Porcelana que era usada apenas em ocasiões especiais. Reparei no brilho dos talheres de “prata princesa” dentro do estojo; a toalha de linho muito branca e os guardanapos com o monograma da vovó. No aparador menor, os vinhos Bolla, os decantadores, o saca-rolha, as jarras de água e os cristais.
Ao sair da sala reparei quão pequeno ficara o jarrão de rosas, no centro da mesa aberta, com os dois aumentos. A família era tão grande... Tão grande que as crianças precisavam almoçar na mesa, também aberta, da cozinha...
A família era tão grande... Era...
Domingo. Passava um pouco das oito, quando Caruso, através da vitrola, entre chiados e ranhuras, entrou em nossa casa cantando a todo o volume “Mamma”. Pelas nove horas chegaram os tio e tias. E tias começam a arrumação da casa e a preparação do almoço. Só vovó ficou sem ter o que fazer. Afinal, embora todas fossem mães, a “nonna” era a matriarca e aquele era o seu dia de rainha.
O almoço foi um sucesso! Sucesso porque havia amor, fraternidade. Um calor humano tão forte que poderia incendiar o mundo.
Findo o almoço, chegara a hora do bolo e da entrega dos presentes. Vovó, emocionada, deu o primeiro corte no bolo em forma de coração e, em sequência de idade, cada tia e minha mãe cortava um pedaço e servia.
Emocionada, com a voz embargada, minha “Nonna” abriu os braços, como se estivesse abraçando a todos nós e disse:
“HAEC ORNAMENTA MEA”! – traduziu – “Eis as minhas jóias” (ornamentos)!
Os adultos se emocionaram. As tias ficaram com os olhos marejados de lágrimas e abraçaram vovó.
E nós netos/filhos ficamos a ver navios. O que será que a “nonna” dissera? Só podia ser palavrão! Mas que tipo de palavrão?... Meu primo Berto achou que era palavrão brabo, pois as tias choraram e foram abraçar vovó “pedindo perdão”... Berto foi até a mãe e cochichou-lhe no ouvido. A mãe respondeu ao cochicho e ele veio até nós, todo sorridente. Falou: “Minha “mamma” disse que a “nonna” falou em Latim”... Parou de falar, pensou e despejou: - Mas ela não disse que “cazzo” de palavrão a nonna falou. - E que “cazzo” é Latim”?
Para nos dizer que tipo de palavrão a vovó dissera, nada melhor do que consultar o Tio Amedeo. Decepção total. O Latim era uma língua antiga e vovó disse exatamente a frase que ela mesma traduzira.
Mais tarde, perguntado, o vovô nos contou a história da frase dita por uma mulher maravilhosa, há quase dois mil anos.
Falou-nos de Cornélia, a Virtuosa – a mãe do Graccos. A mulher e mãe mais conhecida, amada e respeitada em todo o Mundo Romano. Viveu para os filhos e pelos filhos. Mulher nobre e culta, respeitada até pelos inimigos, era tão amada que lhe erigiram uma estátua de bronze, no Fórum Romano.
Sobre a frase, ele contou que, certa matrona arrogante acintosamente exibiu para Cornélia seus ricos ornamentos (jóias) com gemas preciosas. E Cornélia mostrando os seus dois filhos, Tibério Gracco e Caio Gracco, respondeu-lhe: “Eis as minhas jóias (ornamentos)!”
Haec ornamenta mea...
Mais que a história de uma mãe e sua frase, vovô nos fez entender que nós todos éramos as Jóias mais preciosas que vovó possuía. Que todos éramos a maior riqueza que ela possuía neste mundo.
E todos nós, à nossa vez, envolvidos pela ternura e o amor que sentíamos (sentimos ainda) pela “nonna”, ficamos a olhá-la com olhos de adoração. Meu primo Berto quebra o silêncio e nos diz emocionado: - Como eu gosto dessa “nonna maledetta”! Concordamos com ele...
Vovó e mamãe, onde quer que estejam, recebam as vibrações de amor deste “ornamenta tua”.
“Nu felice ‘Iurne ‘e Mamme”! (Um Feliz Dia das Mães!)

Por Wilson Natale


15 comentários:

marcia ovando disse...

Wilson
seu texto me fêz viajar no tempo, me emocionei e muito.
Abraço grande

Miguel S. G. Chammas disse...

Natale, que lindo texto!
Você o escreveu com as tintas do coração e o calor da lembrança.
Eram assim as datas festivas do nosso antigamente. Não precisavamos ser envolvidos por um trabalho de marketing para gastar na compra de um presente.
Uma simples lembrancinha (a minha, na maioria das vezes, era um pequeno camafeu) fazia a aledgria das nossas mãs e tornava o dia muito mais alegre.
Li tua lembrança amigo, e fiquei muito emocionado. Obrigado!

LAERTE CARMELLO disse...

NATALE: AO HOMENAGEAR O DIA DAS MÃES,VOCÊ FALOU DA MAMMA, DA NONNA, DA ZIA, ENFIM FALOU DOS VALORES DA BASE FAMILIAR, QUE CONSTITUEM A SOCIEDADE.
ONTEM, ACOMPANHANDO EU O DEBATE NO SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA SÔBRE A
ESTABILIDADE DA UNIÃO GAY, EM NENHUM MOMENTO ESCUTEI UM MINISTRO SE REFERIR A ESSES VALORES FAMILIARES. UMA PENA!
AINDA BEM QUE TEM PESSOAS COMO VOCÊ
QUE RESGATAM OS VERDADEIROS VALORES
QUE SÃO O SENTIDO DE NOSSA VIDA!
FORTE ABRAÇO! LAERTE.

Luiz Saidenberg disse...

Bela homenagem, Natale, à suas santas mãe e avó. E desta vez, senza intervenzione del Zio Amedeo. Pois é meu caro, passamos a vida toda gastando nosso latim, em vão: Vana verba! -Hic, haec, hoc, qui, quae, quod, qui pro quod... Quosque tandem, Catilina...
mas, Alea jacta est!
Eu não prestava nenhuma atenção nas aulas, no ginásio, do velho professor Galvão, já meio gagá. Como me arrependo, hoje! Abraços.

Soninha disse...

Olá, Wilson!

Nossa! Quantas recordações boas seu texto nos trouxe!
Em minha época de criança também era assim, mais ou menos como você descreveu...
Minha mãe e tias se debruçavam sobre o fogão e pia, preparando o almoço do dia das mães,enquanto minha avó ficava curtindo os netos...Todos brincávamos e preparávamos os mimos que entregaríamos para elas...
Meu avô fazia os "discursos" e pedia a mim que lesse o que eu já tinha escrito,com antescedência,para as mães queridas (eu sempre gostei de escrever, desde muito pequena)...
O almoço e todo o dia transcorriam em clima de muita harmonia e muita paz!
Bacanas suas lembranças que também são nossas.
Valeu!
Obrigada.
Muita paz!

Memórias de Sampa disse...

Bilhetinho do Arthur, que nos enviou por e-mail, esta manhã:


9:00 - Estou saindo Agora de Lorena
rumo a minha cidade querida
Onde eu passei minha infância
Ao lado de outras crianças
vou para o nosso encontro
Louquinho para chegar
e a todos escritores queridos
com meu abraço apertar
e junto aos redondos amigos
algumas redondas jantar
Até já.



Arthur Miranda (tutu)
QUEM VIVE COMPRANDO SUPÉRFLUOS
ACABA TENDO QUE VENDER O NECESSÁRIO.

Conselho Gestor da UBS Veleiros disse...

Natale,

seu comovente texto me encheu de ternura. Meus parabéns!

suely aparecida schraner disse...

Natale,

o comentário acima ficou incompleto por uma teclada indevida.
Quero dizer que além de comovente o relato me fez aprender um pouquinho de latim e valores fundamentais da família.Valeu!

Wilsonnatale disse...

MÁRCIA: Valeu! Eram tempos gostosos, onde a família era tudo.
Abração,
Natale

Wilsonnatale disse...

MIGUEL: Com certeza, o preço de um presente era o que menos importava.
E nós, pelo menos, seguíamos a tradição italiana de oferecer um "pensierino"(lembrancinha) ou "Memento" (lembranças) que tinham o intúito de se transformar em recordação - daquelas que se guarda e, quando se revê, lembra-nos quando e quem as deu.
Eram os tempos dos mimos singelos e não das extravagâncias obrigatórias.
Abração,
Natale

Wilsonnatale disse...

LAERTE: Antes, a família era tudo.
Não somente pai, mãe e filhos. Eram os tios, os primos, os avós.
Família era o todo. Hoje formam pequenos núcleos distanciados do restante.
Meus avós, pai, mãe, tios, tias, há muito partiram. Mas ficaram os primos-irmãos, os primos-segundos,os terceiros e quartos, com quem ainda mantenho estreitas ligações familiares.
O mundo muda e a existência humana parece perder o rumo... Mas eu sou um otimista. Penso que, sempre, de tudo o que acontece, algo bom resultará.
Abração,
Natale

Wilsonnatale disse...

SAIDENBERG: Confesso a você que, no Ginásio eu fui um aluno medíocre em Latim. E isso me custou uma segunda-época. No clássico, de repente virei um ótimo aluno. Tanto que a professora me deu um livro - As Catilinárias de Cícero! Meus colegas de classe me olhavam como se eu fosse uma aberração. E eu me sentí com um Cícero em meio a um montão de Catilina (risos).
E tio Amedeo, nos dias que se seguiram, de tanto ouvir-nos falar que éramos a "ornamenta" da "nonna", berrava para nós: "Que jóia, que nada! Vocês são umas bijuterias de m..., bem vagabunda"!Ahahahahaaaaa!
Abração,
Natale

Wilsonnatale disse...

SONINHA: E que coisa boa era criar algo com as próprias mãos!No Primário não tínhamos atividades manuais. Mas, para eventos com páscoa, dia das mães, a professora nos ajudava a fazer os cartões.
Para o Cartão do Dia das Mães, usávamos cartolina,lápis de cor, decalcamonias, fitas e cola e vitrilhos. A professora cortava a cartolina em forma de Corações duplos (para dobrar), ajudava na escolha dos temas e dos decalques florais.
Na frente do cartão, em uma faixa,
ela escrevia em Nankin a palavra MÂE e preenchia a faixa com vitrilhos. Na parte interna do segundo coração desenhávamos e coloríamos dois ou três coraçõezinhos, colávamos os decalques floráis e escrevíamos a nossa mensagem. Tudo pronto, a professora contornava os corações e decalques com o Nankin. Depois,ela fazia dois buracos com o furador de papel e colocava um laço de fita...
Coisa boa de lembrar! A interação aluno-professor; a criação com meios limitados; a satisfação de ver o trabalho finalizado!
Tudo feito sem o guache, sem as hidrocores... Não havia nada disso.
E a satisfação hoje, usando o computador, o Corel, o fotoshop, não é a mesma dos tempos da minha infancia.
Abração,
Natale

Wilsonnatale disse...

SUELY: Como o Latim, aos poucos esses valores que davam solidez às familias vão desaparecendo. É pena.
Hoje,os tempos são outros, onde pais e mães saem a trabalho, buscando o conforto da família. Até aceito que seja assim, mas sem uma relação de qualidade familiar, sem calor humano fica difícil de dar estbilidade emocional aos filhos que, um dia, ambém terão a sua família.
Abração,
Natale

Luiz Saidenberg disse...

Belo texto mesmo, Natale. Quanto ao meu latim, fiquei mesmo em falta. Mas, ainda assim dou umas enganadas.
Audax Fortuna juvat! e...mea culpa, mea maxima culpa!
Sinto, Prof. Galvão, do Culto à Ciência campineiro.