domingo, 12 de dezembro de 2010

Aconteceu no Natal de 1945

1945, ano de acontecimentos espetaculares, transformações radicais na política internacional e em particular, no Brasil. No âmbito internacional, tivemos o fim da II Guerra Mundial e suas consequências; Europa arrasada, França libertada, Alemanha bombardeada, Inglaterra machucada, Japão com o amargo gosto da bomba atômica em Hiroshima, Itália se livrando do fascismo e enforcando Mussulini em praça pública, com sua amante Clara Petacci. Aqui no Brasil, queda dos 15 anos do Estado Novo de Getúlio Vargas, começamos a tomar conhecimento das monstruosas atrocidades contra o povo judeu, através de cartilhas distribuídas nas escolas públicas, confirmando o que já era amplamente divulgado.
Aqui em São Paulo, terminam os racionamentos, farinha de trigo à vontade, gasolina, além de abundante, era mais barata. Agora, mais alegres os tripeiros, os vendedores de tecidos, com rolos de panos diversos nos ombros, guarda-chuveiros, vendedores de leite de cabra, que andavam pelas ruas do Brás, puxando uma corda que se abria como um leque, trazendo em cada ponta uma cabra. Elas eram ordenhadas na hora em que surgia um cliente com uma caneca ou jarro, servindo um leite quentinho, saboroso e nutritivo. Sem a preocupação da proibição de se falar num idioma estranho, os ambulantes apregoavam seus produtos da forma que lhes aprouvessem, gozando uma liberdade nunca sonhada antes, nessa bendita terra paulista, já uma metrópole fervilhante e dinâmica. Sentia-se esse prazer, pois a grande maioria desses pequenos comerciantes eram estrangeiros, lembrando seus países devastados, agarravam-se a estas chances, pois São Paulo já oferecia grandes oportunidades a todos e em todos os segmentos.
Em dezembro, próximo ao Natal, minha mãe já ia preparando as guloseimas, pães, ficazzas (pão de batata com rodelas de tomates), petsica-dolci (torta de ricota), piccicatela scagdeti (tarallas salgadas), i pi lu zuchero (com açúcar), pastieri di grano (torta de ricota com amêndoas, avelãs) etc. Atividades alegres e prazerosas, envolvendo a todos, cada um responsável por alguma coisa. A minha tarefa era o presépio. Tinha 13 anos e, alguns anos atrás, havia presenciado um primo de segundo grau, mais velho que eu, 10 anos (vivo até hoje e clinicando, Dr. Paulo Zupo), confeccionar um presépio que me deixou curioso e com uma vontade louca de fazer igual. Consistia em armar numa mesa de bom tamanho, um “esqueleto
” de arames, posicionando alturas e depressões de uma montanha, arrematando com um arco também de arame, identificando a entrada de uma caverna com um papel bem grosso, amassado, dando a impressão dos relevos de uma pedra, jogava esse papel em cima da armação, enrolando na entrada da gruta, amarrotando bastante pra dar um efeito natural. As bordas eram cobertas com areia, depois borrifava com tinta (alvaiade diluído em álcool) com uma bomba de inseticida, o Flit, fazendo a vez de aerógrafo, realçando os picos de marrom e as pastagens de verde. Ficou lindo de morrer. Ocorre que, naquele dia, 17 de dezembro de 1945, minha irmã Maria, terceira da série de nove, ia ter um bebê e todos em casa foram pra maternidade com minha mãe e meu pai, apostando o que seria; homem ou mulher (naquele tempo não havia antecipação, era muito mais surpreendente). Em casa só ficamos eu e meu avô materno, já viúvo, que olhando o presépio dizia em barês, dialeto dos nascidos em Bari, sul da Itália: “Testy, stê belle assai, no bisogna a fare piu niente (está bonito demais, não precisa fazer mais nada, não mecha em mais nada). Ele falou isso porque, observando minhas reações, temia que eu fizesse algo. E eu fiz. Notei que, se houvesse alguma luz escondida no fundo da gruta, atrás da manjedoura, daria um efeito espetacular. Não tinha nenhuma lampadazinha e muito menos fiação, não tive paciência de esperar meu pessoal voltar da maternidade, que seria só à noite. Arrumei uma velinha de aniversário, tirei algumas imagens da frente, Nossa Senhora, São José, o burrico, os três reis magos e introduzi a velinha acesa no interior da gruta e o papel ainda recendia a álcool, acho que vocês já adivinharam; tão logo a pequenina chama encostou-se ao papel, incendiou totalmente meu encantado presépio, chamuscando algumas imagens e destruindo outras e ainda alcançando a cortina da sala, dando início a um incêndio de grandes proporções. Só não ocorreu o pior porque a cozinha era perto e, com baldes de água, consegui evitar a catástrofe. Meu avô, coitado, não sabia o que fazer e o que dizer. Naquele momento chegaram todos da maternidade, era um menino, Roberto, hoje com 62 anos, dois filhos e um neto. Espantados, perguntaram o que aconteceu e eu disse que o Dilúvio Universal acabou com o incêndio de Sodoma e Gomorra, antro do pecado da vaidade.
Nunca mais esquecemos o incêndio de Jerusalém do Brás. Quando o Roberto faz aniversário, ao acender as velinhas, a gente lembra, de imediato.

Por Modesto Laruccia

Roberto Carlos no Natal

Há muito tempo, a Globo nos presenteia com Roberto Carlos no Natal. Já escrevi aqui sobre meu ídolo algumas vezes, mas sábado, assistindo ao programa do "Rei" fiquei me lembrando de programas anteriores. Todos em casa sabem o quanto gosto do Roberto Carlos e quanto sou fã fiel. Então, todo ano, é uma briga!
- Você "ainda" vai assistir "isso"?
Ou então:
- Outra vez essas "mesmas" músicas?
Pra piora,r ainda tem comentários desse tipo:
- Nossa, como ele tá velho!...
Sempre gostei do Roberto, não importa quanto tempo tenha passado, não importa que seu repertório seja sempre o mesmo, não importa que ele "continue" dedicando o seu programa a Maria Rita, não importa que seus cabelos estejam rareando, não importa que o programa não seja mais exibido na véspera do Natal, como era antes...

Mesmo assim, continuo fiel. Nesse dia não saio de casa e "ai" de quem não me deixar ver o programa. No programa desse ano estavam inclusas as suas músicas da fase "motel": Café da manhã, Seu corpo, Proposta e outras. Músicas que enterneceram corações apaixonados, ou que deixaram muitos corações suspirando. Roberto Carlos esteve sempre presente em momentos marcantes da minha vida.
- Na adolescência enquanto esperava a flechada do "cupido" (... o que é que você tem, conta pra mim, não quero ver você tão triste assim); - na idade adulta amando muito (Esse amor é pra nós a loucura que traz esse sonho de paz e é bonito demais, quando a gente se beija, se ama e se esquece da vida lá fora); - nas desilusões amorosas (Se alguém tocar seu corpo como eu não diga nada, não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada, pensando ter amor nesse momento, desesperada você tenta até o fim, e até nesse momento você vai lembrar de mim).
Pois é, foram tantas emoções "bicho"... Uma brasa, mora! Roberto, eu estarei de bengalinha (se Deus quiser...) e você poderá estar também. Mas, de uma coisa estou certa:
- Estarei te esperando todo ano no "Especial de Natal".

" FELIZ NATAL A TODOS E QUE 2011 SEJA REPLETO DE EMOÇÕES, AMOR, SAÚDE, E SONHOS CONCRETIZADOS "
...São tantas já vividas, momentos que eu não me esqueci, detalhes de uma vida, histórias que eu contei aqui...


Por Berenice Rabello

sábado, 11 de dezembro de 2010

Natal Moderno

As ruas, um formigueiro humano. A 25 de março, o nosso shopping a céu aberto, ferve em dia de chuva. As árvores revestidas de milhares de lampadinhas cintilantes. As gentes, numa correria, atrás de coisas pra comprar. Vai-e-vem alucinante. Nem parece que é só o fim do ano. Mais parece que é o fim do mundo.

A gana de consumir. A ânsia de se entupir. Desejos descontrolados. Mas não é só isso não.

Nos viadutos, crianças, homens e mulheres imundos. Cachorros abandonados, esfomeados e querendo atravessar a rua. Os cristos do cotidiano. Carros velozes, motoristas ferozes. E segue homem-tração puxando sua carroça abarrotada do que sobrou por aí.


No rádio, na TV e nos jornais, muita notícia de irmãos flagelados. A natureza se vingando. As águas inundando. A correnteza levando tudo. Natal dos contrastes.

E pensar que, há mais de dois mil anos atrás, nascia o aniversariante, que hoje em dia nem sequer é muito lembrado não. Ele que nasceu num pasto, dormiu num cocho e era de uma família sem teto.

"Não espere o Natal chegar para refletir sobre a bondade, amor, paz, amizade, esperança, fé, sinceridade, verdade, sabedoria e união".


Por Suely Schraner

Uma roda de samba na madrugada

Ainda me lembro das rodas de samba que nós organizávamos na casa do amigo Emir, lá na Rua Cisplatina; geralmente ocorria quando voltávamos mais cedo de alguma festa, assim completávamos a noitada, cantando acompanhados pelo violão do Roberto. O trato era que cada uma deveria cantar apenas um verso de cada música, para dar oportunidade para todos cantarem; o Vicente abria a sessão catando assim:

"Abre a janela formosa mulher,
E vem dizer Adeus a quem ter adora
Apesar de te amar como eu te amei
Na hora da orgia eu vou em bora"

aí, entrava o Paulinho e cantava:

Ai, ai, ai, Izaura,
Hoje eu não posso ficar,
Se eu cair nos teus braços,
Não há despertador que me faça acordar,
Eu vou trabalhar"

Roberto entrava e cantava:

Aos pés da Santa Cruz
Você se ajoelhou,
E em nome de Jesus

Um grande amor você jurou
Jurou mas não cumpriu,
Fingiu e me enganou,
Prá mim você mentiu,
Prá Deus você pecou..."

O Moacyr logo emendava:

Depois que ele desceu do morro,
Passa fome prá cachorro
Lhe ofereci meu socorro ele diz que não quer
Não não não quer
Diz que não depende de favores de mulher..

O Simão, carioca, trazia sempre novidade e dizia:

Ela me disse jurando
Este é meu último adeus
Me ajoelhei implorando
Não vá embora pelo amor de Deus...

Eu, como fâ de carteirinha do Chico Alves, dizia:


Que rei sou eu, sem reinado e sem corôa
Sem castelo e sem rainha, afinal que rei sou eu,
O meu reinado é pequeno e e restrito,
Só mando no meu distrito
Porque o rei de lá morreru

O Emir um pouco desafinado dizia:

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por isso toda gente lá de casa começou a rezar
Até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada,
Por isso essa noite lá no morro não se fez batucada

O Vicente entrava outra vez cantando:

Ai, ai meu Deus, tenha pena de mim
Todos vivem muito bem só eu que vivo assim,
Trabalho e não tenha nada, não saio do miserê
Ai, ai meu Deus, isso é prá lá de sofrer..

O Emir, fâ da Carmen Miranda emendava:

Gosto de cachorro vagabundo
Que anda sózinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão

O Moacyr entoava um samba que dizia:

Eu ontem cheguei em Casa Helena
Te procurei e não te encontrei
Passei o resto da noite a chamar,
Helena, Helena vem me consolar

O Neno era mais retraído e cantava:

Não falem dessa mulher perto de mim
Não quero prá não aumentar minha dor,
Já fui moço, já gozei a mocidade
Se me lembro dela, me dá saudade
Por isso em homenagem a meu fim
Não falem dessa mulher perto de mim...


O sono vinha chegando e, um a um, íamos deixando a roda, como saideira o Roberto, dedilhando o seu violão, ia pela rua cantando:

Noite alta. céu risonho
A quietude é quase um sonho
O luar caí sobre a mata
Qual uma chuva de prata
Em raríssimo esplendor
Só tú dormes não escuta
O teu cantor...

Na esquina, nos despedíamos e cada um ia para sua casa descansar para recobrar as forças, todos alegres e felizes e prontos para retornar à vida normal no dia seguinte.
Quanta saudade daquele tempo!

Por Leonello Tesser (Nelinho).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Velhas festas de fim de ano

Volto à minha antiga casa que não mais existe. Mas, existe em mim. Portanto, não preciso de chave. Basta girar a maçaneta e entrar.
Gostaria de precisar um fim de ano específico, mas todos os anos, entre 1950 e meado
s dos anos 60 foram sempre iguais e felizes...
Alternadamente, entre os meses de outubro e novembro, meus pais, meus avós iam à Cidade para comprar os presentes de Natal. Saíam às escondidas e – mistério – voltavam para casa carregando pacotes e iam diretamente para os seus quartos.
No final de novembro iam à Rua 25 de março comprar uma nova guirlanda para a porta, algumas bolas, enfeites e festões para a árvore de Natal. A tradição rezava que era preciso acrescentar a cada ano um novo enfeite à árvore. Compravam também um enorme pacote de algodão para “fazer neve”.
No início de dezembro, vovô, papai e tio Amedeo iam a Itaquera comprar o “Pino” (pinheiro) que, em casa era colocado em uma grande lata de óleo “Sol Levante”.
Seis de dezembro começava o Natal! Alegria e ansiedade...
O pinheiro era colocado em um canto da sala de jantar. A lata de óleo era coberta po
r uma camada de papel-crepom verde e, sobre ela, uma camada de celuloide amarelo e laços de fita vermelha.
Um a um os enfeites e adereços eram dispostos na árvore. Cabia ao vovô colocar a ponteira, enquanto meu pai fixava a guirlanda à porta de entrada.
A segunda etapa da noite foi forrar o tampo da “credenza” (aparador) menor com feltro e sobre ela colocar um espelho, onde foram dispostas as figuras do nosso pequeno presépio.
Tudo pronto para o Natal! E eu começava a esperar pelo dia 25, que parecia estar a mil anos-luz longe de mim...
Vinte e quatro de dezembro. Eu andava pela casa prestes a ter um ataque de ansi
edade. Chegou a noite e nonno e nonna, após o jantar, arrumam-se para ir à Missa do Galo.
Não comemorávamos a véspera. Lá pelas dez da noite, mamãe, esperta como uma r
aposa dava-me duas fatias de rabanada e uma caneca de gemada “carregada” com conhaque e me levava para a cama. Meia-noite, meus pais colocavam os presentes sob a árvore e iam dormir.
Manhã do dia 25: -“A sveglià’ miei maialini! È già Natale!” (Acordem meus leitõezinhos! Já é Natal!) – gritava o meu avô, batendo uma contra a outra, duas tampas de panela. Segundos depois eu e meu irmão em pijamas, o molecão tio Amedeu, em camiseta e cueca, atacávamos os presentes sob a árvore.
Em casa o almoço de Natal era da família e também dos filhos que Nossa Senhora nos mandava. E quase todas as famílias os recebiam.
Os “filhos de Nossa Senhora” eram os imigrantes solteiros (Italianos, espanhóis, gregos, portugueses) que, sem ninguém, sem família estavam aqui em busca de melhores dias. Moravam nos quartos de pensão ou nos cortiços e acabavam “adotados” pelas famílias da vizinhança. Era enternecedor ver todas aquelas “mammette” (mãezinhas), com lágrimas nos olhos, recebendo os filhos de Nossa Senhora. De dor da separação elas entendiam. E muito!
Após o almoço, a confraternização. Era um “vattene viene” (vai e vem) de vizinhos, amigos, parentes e aparentados. Música, festa e vinho. Na rua, a molecada exibia os presentes que ganharam...
O Ano Novo tinha a véspera com sua ceia e seus fogos. Tinha a Corrida de São Silvestre e o barulho ensurdecedor das buzinas dos carros e dos apitos e sirenes das fábricas. A ceia era farta. Tanto que sobrava muito para o almoço de Ano Novo. Era tradição da nossa família engolir três grãos de “melagranno” (romã) para que sempre estivéssemos juntos. Os espanhóis comiam uma colher de “lentejas” (lentilhas).
O almoço do primeiro do ano era igual ao do Natal.
Ano Novo! Agora, era só esperar pelo Dia de Reis...
Eu e todas as crianças, na véspera de Reis, colocávamos os nossos sapatos à porta, fora de nossos quartos, à espera de presentes (balas, confeitos, chocolate, etc.) Ninguém colocava mais os sapatos à janela, pois havia o receio de que fossem roubados. Os espanhóis colocavam capim dentro dos sapatos, para alimentar os camelos dos Reis Magos. Em agradecimento os reis deixava
m presentes.
Dia seis! Após o almoço, a sobremesa era o Bolo de Reis que, além de delicioso, trazia brindes em seu interior. Depois do “Magnificat” (Hora da Ave Maria – Seis da tarde.) começávamos a desmanchar a árvore de Natal e o presépio. E também começar a sonhar com o próximo fim de ano...
É hora de partir. Saio silenciosamente dessa minha casa que não mais existe, mas que ainda existe em mim e fecho a porta calmamente. Olho para o chão e em frente a ela ainda está o velho capacho que sempre dizia a todos “Bem-Vindo”. Capacho verdadeiro. Não como os muitos capachos que mascaravam a hipocrisia daqueles que Mal-Recebiam os seus parentes e amigos.
Fecho o portão e caminho de volta à realidade sentido o perfume da Dama da noite que florescia no jardim... Floresce ainda em mim...

Por Wilson Natale

Natal para todos

Tem coisas que não deveriam ser mudadas nunca; o Natal é uma delas!

Não o Natal como símbolo de presentes, compras, que chega a cada ano cada vez mais cedo, onde uma enxurrada de ofertas e apelos chegam até nós de todas as formas, ficando impossível não percebê-las.

Falo do Natal sentimento; aquele que envolve a todos, em todas as partes do mundo, trazendo aos vários locais desse planeta essa energia de expectativa, de desejos, enfim, de esperança.

O Natal que espalha por todo o planeta sentimentos tão fortes que envolvem cristãos e não cristãos, pessoas de fé e ateus, ricos e pobres, maiorias e minorias... Todos.

Em São Paulo não é diferente: percebemos já no mês de setembro aquela movimentação característica preparando a cidade para o Natal: shoppings se esmerando em criatividade para diferenciar suas decorações; o apelo cada vez maior e diversificado em opções de presentes; movimentos sociais aumentando suas atividades de inclusão, tentando minimizar a d
istância entre as classes, pelo menos nessa época, e por aí vai.

Agora, o que nos faz crer que o Natal é para todos é que, durante esse período natalino, muitos saem da cidade, buscando praias, campos, viagens com familiares e amigos, o que é realmente saudável.

Involuntariamente, abrimos com isso, espaço para que a confraternização nessa megalópole se estenda com maior facilidade para todos.

Shows ao ar livre, reveillon na Paulista, a iluminação natalina espalhada por toda a cidade provocam verdadeiros roteiros turísticos, a pé, de ônibus e metrô, permitindo que
todos, mas todos mesmo, usufruam do lado bonito e harmonioso dessa maravilhosa cidade, partilhando essa energia e esses sentimentos que envolvem todos de forma igual.

Pelo menos na época a gente tem a impressão que a cidade de São Paulo e o significado do Natal são para todos.

Feliz Natal pessoal!

Por Márcia Sargueiro Calixto

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Conto de Natal

O calor forte e úmido embota os sentidos e nem a TV ligada, com sua programação sem graça, consegue me entreter. Preguiçosamente, desligo a TV e, dirigindo-me lentamente à estante de CDs, escolho alguns com minhas músicas prediletas e os disponho na bandeja para tocar. Já encharcado de suor, retorno à minha poltrona predileta e me solto sobre ela, enquanto percebo, pela grande janela envidraçada da sala, que lá fora chove copiosamente. Aliás, chove como sempre, durante as festas de fim de ano.
O ventilador, à toda, não consegue espantar o calor!
Reabro o livro que estava lendo e deixo meus olhos seguirem as linhas que se embaralham pelas páginas, pesadas de tantas palavras, formadas por milhares de letras. Ao fundo, a melodia sempre hipnotizante do Bolero de Ravel que segue, em seu crescendo, aparentemente sem fim.
É nesse momento que um barulho vindo da cozinha me desperta do meu torpor. Preocupado, por estar só em casa, levanto-me com dificuldade e, pé ante pé me dirijo à cozinha, carregando nas mãos, à guisa de arma, um guarda-chuva velho que jazia, encostado e inútil, num canto da sala.
Encontrei vasculhando a geladeira, um garoto gordinho de uns sete anos, que me olhou assustado, como se o invasor ali fosse eu. Aproximei-me com cuidado, sem largar a arma, digo o guarda-chuva velho, e perguntei o que ele estava procurando em minha geladeira. Agora sim, assustado de verdade, ele disse que a geladeira era dele e que eu é que deveria explicar o que fazia dentro da sua casa. Sem receio do garoto, resolvi entrar na brincadeira para entender o que ele queria em minha casa e como havia entrado sem que eu percebesse.
Disse que estava com sede e gostaria de tomar um copo de água gelada. Ele, com desenvoltura, tirou um copo do armário, ofereceu-o para mim e, abrindo novamente a geladeira, pegou a garrafa de água que destampou e foi inclinando sobre o copo que eu segurava, até enchê-lo parcialmente de água. Depois ficou olhando-me fixamente, ainda segurando a garrafa
, até que eu bebesse todo o líquido refrescante. Como eu agradecesse e dissesse que estava satisfeito, ele fechou a garrafa com cuidado e guardou-a novamente na geladeira.
Parecendo um pouco mais seguro, sentou-se num banquinho e pediu-me que lhe explicasse o que fazia em sua casa na noite de Natal. Ele disse que sabia que Papai Noel eu não era, pois o bom velhinho não existia. Resolvi, então, tentar destrinchar aquele mistério, dizendo-lhe que, na verdade, eu estava na minha casa e que ele é que havia entrado sorrateiramente ali, sem ser convidado. Fomos discutindo acaloradamente quem estava na casa de quem, até que, assustado, comecei a desconfiar de que estava discutindo comigo mesmo, ou melhor, com o garotinho gorducho que eu havia sido, há tantos Natais passados.
Minha vida toda retrocedeu rapidamente, como num filme ao contrário e eu percebi que, naquela idade, cinquenta e cinco anos antes, eu estava desolado por haver descoberto que Papai Noel não existia. E que os presentes que ganhava todos os Natais eram comprados pelos meus pais e não deixados magicamente embaixo da grande árvore de natal, que enfeitava um canto da sala de estar. Desde então, a esperada festa de Natal havia perdido a magia e o mistério! Pouco a pouco, à medida que minha idade ia aumentando, fui percebendo as desigualdades, o sofrimento, as perdas, tudo enfim, que contribui para tirar dos adultos aquela sensação de que, num passe de mágica, o mundo será melhor.
Escola com professores desinteressados, colegas impiedosos que não hesitavam em tiranizar a vida dos menos agressivos, namoradas volúveis, trabalho excessivo com chefes que não se importavam com as necessidades pessoais dos seus subordinados, exigindo horas extras intermináveis; a cada acréscimo de dificuldades, um pouco mais de magia e sensibilidade nos deixava.
O vigor e a insensibilidade da juventude, empurrando para as noitadas de farra; depois, as obrigações de um casamento obrigado por uma gravidez indesejada, aliadas à decepção da morte prematura do filho indesejado, com o progressivo afastamento dos cônjuges até que cada um resolvesse tomar o seu próprio caminho, tudo isso empurrou para trás de uma parede de esquecimento as noites de fé e de esperança de um garotinho gordinho que, até os sete anos, ainda acreditava em Papai Noel.
E ali, há cinquenta e cinco anos, começava a tomar forma o homem que, nesta noite chuvosa e quente, estava na cozinha da sua casa, conversando consigo mesmo, com sete anos de idade e ainda com um grande estoque de fé, esperança, afetuosidade, compaixão e tudo o que fora deixando pelo longo caminho de sua vida.
Senti um enorme aperto no peito, lágrimas desaparecidas há tanto tempo, surgiram como por encanto e umedeceram meus olhos que olhavam fixamente para aquele garotinho gordinho que, de repente, abriu os braços e aconchegou meu corpo cansado em seu peito infantil. Uma onda de amor percorreu meu corpo enquanto as lágrimas lavavam minha alma dolorida. Deixei-me confortar pelo pequeno e, não sei mais desde quando, resolvi deixar as lágrimas se transformarem em soluços que aos saltos, foram retirando do meu coração toda a amargura acumulada, preparando-o para receber novamente todos os bons sentimentos que um dia habitaram meu coração infantil.
Foi então que percebi que os últimos movimentos do Bolero preparavam o término triunfal da composição de Ravel e que o pequeno gordinho que me abraçava diminuía sensivelmente até caber em minhas mãos, com os bracinhos abertos e um sorriso triunfal em seu rostinho corado. Levei-o com carinho para a sala e, sobre uma mesinha, preparei-lhe uma caminha com um pouco de palha tirada de uma caixa de vinho. Lá fora a chuva parou e, pela grande janela envidraçada da sala, vejo, no céu, uma estrela brilhante.
Volto à minha poltrona predileta e sento-me, com o coração leve e uma oração nos lábios. Adormeço.
Abro os olhos preguiçosamente, um fio de suor escorre pelo meu peito; abro os braços e me espreguiço, bocejando com vontade. Percebo que dormi na poltrona. Lá fora, um dia ensolarado faz com que as gotas de chuva pendentes das plantas brilhem como pequenas estrelas. Ou pequenos diamantes. Na mesinha ao lado, percebo surpreso, uma pequena imagem do Menino Jesus que me observa sorrindo e com os bracinhos abertos. Como se me desejasse Feliz Natal!
Ajoelho-me e, como não fazia há mais de cinquenta anos, oro com fervor. E enquanto lágrimas de amor e gratidão escorrem-me dos olhos, agradeço àquele menino por tudo o que fez por mim. E por todos.

Por Zeca Paes Guedes

Cachorros de outros tempos

Nos anos 1950-60 os cachorros viviam da mesma maneira que ser humano; brincavam na rua ou então nos quintais, local necessário para tê-los em casa. Quem morava na Mooca ou Brás, tinha certa dificuldade para criar cachorros pela falta de quintal, pois a porta das casas, naqueles bairros, era já a beira da rua. Naquele tempo, raramente se viam os cães pequenos, cheios de treleles. Quando muito, tinha alguém com um cachorrinho pequinês. Os nomes dos cachorros eram normalmente estrangeirados, Nero, Duke, Rex e Bob. A maioria era vira-latas, mas havia quem tivesse os pastores alemães, mas a maioria desses animais era da Guarda Civil e eram adestrados, geralmente usados em aglomerações como as que tinham em campos de futebol e para farejar lugares a procura de algo.
O primeiro cachorro que tivemos foi o Bob, um branquinho que apareceu em c
asa e nem mesmo sendo enxotado com estupidez pelo meu pai, ele foi embora, ficou em casa até morrer de velhice, já com falta de dentes. Mas, na flor da idade era um cachorro irrequieto e totalmente “indisciplinado”, pois não respeitava nem os homens da carrocinha, dando um verdadeiro baile nos laçadores que não conseguiam seus intentos. Como corria aquele bichinho! Os laçadores ficaram com uma tremenda raiva por que não só nós, os donos, mas todas as outras pessoas davam risadas, pelo baile que eles tomavam. No fim acabavam eles indo embora, sem levar o cachorro. Ainda bem, por que se ele fosse levado pela carrocinha, meu pai jamais iria buscá-lo.
Depois do Bob veio o Rex, nem me lembro como ele apareceu lá em casa; só se
i que era bem diferente do Bob, digamos um tremendo Lok, era meio abobalhado, grandalhão e pesado e não tinha a mesma mobilidade do seu amiguinho de casa.
Bob tinha uma mania de correr atrás das bicicletas e carros, ia latindo muito, até se cansar; vinha na corrida e, se aproximando do carro, dava uma brecada para depois ficar latindo ou nos pés de quem pedalava a bicicleta, ou então próximo aos pneus dos carros. O Rex quis imitá-lo, mas na hora de brecar, passou direto indo debaixo do chassi do carro, rolando, mas não sofrendo nada de grave. Serviu de lição, por que nunca mais se meteu à besta.
A maioria dos cachorros, da cidade de São Paulo, eram vira latas e criados com muito amor. Eles comiam a mesma comida que seus donos. Minha mãe, por exemplo, dava uma melhorada na comida dos nossos cachorros; toda semana ela ia à feira e comprava dois quilos de bofe, um tipo de víscera bovina, não usada para alimentação de seres humanos; processava na maquina de moer carne, cozinhava e misturava ao arroz. Os cães comiam com muito agrado. Mesmo com o inverno bravo daqueles tempos, nunca vi cachorro com capa de tecido ou
plástico para se livrar do frio. Eram cachorros machos sem frescura nenhuma. Também não existia Pet Shop; quando muito um ou outro veterinário, mas era difícil ver cachorros doentes naqueles tempos, De vez em quando aparecia um cachorro louco e, quando isso acontecia, ele era sacrificado para não morder as pessoas, principalmente crianças. Lembro-me que desde o início dos anos 1950 já tinha o hospital de Cães e Gatos, na Avenida Santo Amaro, de quem ia em direção ao bairro do mesmo nome. Hospital que, até bem pouco tempo, ainda estava no mesmo lugar. Creio que ainda deve estar.

Por Mário Lopomo

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Minha amiga Gregilvina

Natural da Freguesia do Ó, ela cresceu odiando o próprio nome, jamais aceitou o carinhoso nome escolhido pelos próprios pais, nome este que ela iria carregar como um enorme fardo pela vida toda.
Até hoje não sei a razão que leva certos pais a escolherem determinados nomes que criarão, em seus pobres filhos, um complexo de inferioridade que eles, além de carregar isso pela vida toda, ainda serão motivos de chacotas e piadas dos “amigos”.
Gregilvina Odete dos Santos, nome odiado por esta minha grande amiga e colega de infância, por muitos e muitos anos no bairro da Freguesia do Ó.

Estudamos juntos no Grupo Escolar Padre Manoel da Nóbrega (escola que funciona até hoje na Rua da Bica, esquina com Avenida Itaberaba) depois, fomos colegas no antigo Gitema Ginásio Teresa Francisca Martin (Santa Teresinha). Mais tarde, participamos também em algumas comédias em Teatro Amador, que ela também adorava participar, onde fizemos amizade e fomos colegas de uma futura e famosa garota propaganda e atriz da Televisão de São Paulo, Vininha de Moraes.
Seu objetivo, na época, era poder tornar-se atriz e, com isso, adotar um pseudônimo, que viesse livrá-la daquele odioso nome que sempre foi motivos de piadas e muitos constrangimentos, na hora de preenchimento de cadastros e congêneres.
E assim, sempre odiando o próprio nome Gregilvina Odete dos Santos, terminou o Ginásio e iniciou o ensino médio no Colégio Álvares Penteado no Largo São Francisco, onde se formou contadora e, em seguida, enfrentou o curso de Direito na Faculdade de Direito São Francisco, com o objetivo de tornar-se Bacharel em Direito e tratar de mudar seu odiado nome.
Durante uns bons anos acompanhei pessoalmente esse seu sofrimento, lutando muito interiormente contra a irresistível tentação em fazer, também eu, brincadeiras com seu nome (uma vez eu brinquei e quase perdi sua amizade).
Gregilvina sempre foi alegre, amiga companheira, gostava de participar em festas, de atividades sociais, cantar em corais nas festas da Igreja de Nossa Senhora do Ò, trabalhar em barracas das grandes quermesses, naquel
a época muito comuns no bairro.
Casei-me, fui morar no Bairro de Itaberaba. Mais tarde fiquei sabendo que ela tornou-se advogada e também se casou com um colega da Faculdade de Direito. E eu nunca mais soube da minha amiga Gregilvina Odete dos Santos.
Apenas fiquei sabendo que sua luta contra seu odioso nome chegou ao fim no início de Setembro p.p. quando a mesma conseguiu na Justiça autorização para a mudança do seu nome.
De setembro para cá Gregilvina passou a chamar-se:
GREGILVINA MARIA DOS SANTOS.
Enfim Gregilvina conseguiu tirar a Odete do seu nome.
PARABENNNNNNNNNNNNNNNNNNNS , GREGILVINA.

Por Arthur Miranda (tutu)

Um pequeno milagre de Natal

O ano se esgota, mais uma vez. Apressado – o amigo Nivaldo declarou que, no meu ritmo, a Páscoa seria celebrada antes do Ano Novo - faço como as pessoas que já se acotovelam na 25 de Março, ou compram frutas e brinquedos importados, aproveitando a baixa do dólar.
Então, vou fazer, como no conto de Dickens, uma invocação a um Fantasma do Natal Passado.
Confesso, como disse a música, eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...
Como podem, pergunto, hoje as crianças ainda crerem num ser tão absurdo, vestido de pesadíssimo manto vermelho- invenção da Coca Cola- percorrendo céus tropicais para, numa só noite, antes fosse, presentear a garotada do mundo todo.
Mas, talvez essa crença não seja tão ridícula diante de tantas outras que temos mundo afora.
Pelo menos, o Bom Velhinho nunca ordenou uma Jihad, as Cruzadas, limpezas étnicas, nunca queimou ninguém numa Inquisição. Pelo contrário, em sua origem era, segundo uma lenda, Bispo de Mira, na Turquia, que virou famoso e santo, por distribuir caridade aos pobres e às crianças.
São Nicolau. Para os americanos, seus maiores divulgadores pelo mundo, seu diminutivo: Santa Claus, ou só Santa, como intimamente o chamam. – Tá boa, Santa? Bom, acho que não é por aí...
Para nós, não sei como, chegou sua versão francesa, derivada do Pére Noël. Como se aqui tivesse sido estabelecida La France Antartique...Divagações natalinas à parte, eu, pecador, me confesso novamente - eu acreditava em Papai Noel.

Não era uma crença vã, pelo contrário. Rendia, no Natal, juros e dividendos, em forma de presentes. Embora, muitas vezes, bem modestos.
Não éramos ricos, nossa festa quando íntima era simples. Mas, enquanto minha Vó Sebastiana viveu, quase todo fim de ano o Natal era o grande acontecimento familiar no sobradinho 272, na Rua Albuquerque Lins, defronte ao Cine São Pedro.
Armava-se na sala imenso pinheiro autêntico, com neve de algodão em guirlandas, e sempre as mesmas e enormes bolas de vidrilho colorido. Nem sempre... Ás vezes alguma se quebrava no processo. O perfume de pinho era inesquecível! As máscaras da fachada do São Pedro escancaravam ainda mais suas bocarras!
Para alimentar mais nossa ilusão, um belo Papai Noel mecânico, precursor dos milhares que hoje são vendidos na 25, nos sorria e acenava de seu trenó, deslumbrante na sua vitrine da casa que lhe levava o verdadeiro nome, a São Nicolau, na Praça do Patriarca.
Mas, estávamos crescendo, meu irmão e eu, e já estava ficando vergonhoso, nessa idade, acreditar em tais fantasias. Então, num Natal do fina
l dos anos 40, morávamos em Tietê e nossos pais decidiram acabar com a farsa e contar-nos a verdade.
Ficamos desolados; Papai Noel não existia... O Natal nunca mais seria o mesmo. Mudaria o Natal e nós também!
Era tão grande nossa decepção, que eles ficaram meio constrangidos e arrependidos de tal confissão. Foi então que aconteceu o milagre!
Juro que é verdade, e os ouço como há tantos anos: justo nesse momento, uma charrete passou pelas estradas vizinhas do sítio, e seus guizos tilintavam na noite mágica.
Então, era tudo real, ELE existia mesmo, e cumpria, como diria José Simão, sua heróica e mesopotâmica missão de distribuir seus presentes pelo mundo!
Aliviados, nossos pais se desdisseram: - estávamos só brincando! E continuamos por um pouco mais na nossa santa ingenuidade.

Sim, amigos, Papai Noel, fora desse grotesco contexto comercial, que desvirtua todo o sentido do Natal, o bom São Nicolau de seus primeiros tempos, ainda existe.
Ou pelo menos existiu, por alguns instantes, naquela quase esquecida noite de Natal, faz tanto, tanto tempo.

Por Luiz Saidenberg

domingo, 5 de dezembro de 2010

Satisfação

Olá, amigos!
Fiquei ausente, por algumas semanas. Como todos sabem, fiz uma cirurgia da tireóide e correu tudo bem, graças a Deus.
Mas, um mês se passou e chegou a hora do resultado da biópsia. O
que se suspeitava, confirmou-se. Era, realmente, um carcinoma papilífero, um tipo comum de câncer da glândula tireóide. Por mais que eu estivesse preparada para qualquer tipo de resultado, a notícia causou um impacto... A voz do médico me dizendo...as explicações dele, me acalmando...tudo enfim, causou um efeito sobre mim.
Fui embora dali, meio anestesiada. Continuei trabalhando o resto do dia, mas, ao longo da semana fui me sentindo meio sem chão. Longos períodos de reflexão...
Se Deus permitiu que o mal fosse detectado e que fosse removido de meu corpo e que eu sobrevivesse, com certeza é para eu continuar a vida, da melhor maneira possível.
Entre tantas alegrias que a vida nos proporciona, para mim está, também, escrever... especialmente agora, falar no blog, cuidar dele, estar perto dos amigos...enfim, como se fossem meus familiares e que, neste mome
nto de minha vida, são importantes.
Bem, com tudo isso, quero dizer que me dedicarei mais ao blog Memórias de Sampa e que postarei com mais regularidade as incríveis memórias de todos os queridos autores que tem enriquecido este espaço.
Nada poderei, sem os preciosos textos de todos os autores, colaboradores deste blog. Por isso, conto com este tesouro de valor inestimável.
Perdoem-me pela ausência e até breve...diariamente.
Muita paz!

Sonia Astrauskas

Memórias Natalinas

O Natal está às nossas portas... É uma data de festa cristã onde o centro de atividades é a família.
Festeja-se, simbolicamente, o nascimento de Cristo.
Montam-se presépios e pinheiros ornamentais, trocam-se presentes, come-se e bebe-se em harmonia e sem preocupações com abusos.
Com este rabiscador de textos tudo isso também acontecia. Na véspera de Natal eu me reunia com todos os parentes (mais ou menos 30) e fazia uma festança de

arromba, com direito a me fantasiar de Papai Noel e distribuir os presentes que estavam colocados ao pé da Árvore de Natal, anunciando cada um dos presenteados, todos membros da família de dona Cida e que, com total reciprocidade, nós havíamos adotado, formando uma fantástica família.
Esta tradição caminha comigo por mais de 40 anos e, mesmo depois que me separei de dona Cida, ela vem se realizando a cada 24 de dezembro.
Há 10 anos, já separado e morando aqui na praia, trouxe para viver comigo a velhinha que num dia 26 de maio me trouxe ao mundo.
Em 24 de Dezembro de 1999, ela já bem caidinha nos seus 82 anos de vida e sofrimento, ficou sabendo que eu iria para São Paulo passar o Natal com toda a família, ela ficaria em casa e passaria a data com meu irmão e meu sobrinho.
Já pronto para viajar, fui ter com ela, que estava deitada, para me despedir. Meu peito abrigava um
coração apertado e eu levava um nó amargo na garganta. Mesmo assim, para não contrariar o meu modo de ser, brinquei e disse a ela que não queria meu presente ainda, que só iria recebê-lo quando do meu retorno.
Ela ouviu, deu um pequeno sorriso, mas nada disse. Estava saindo do quarto quando ela me chamou, olhou bem firme e pediu que eu desse um beijo por ela nos meus filhos e na dona Cida.
Prometi que assim faria, abracei meu irmão e meu sobrinho e saí quase correndo, como se quisesse fugir do inevitável.
A noite transcorreu como previsto, estávamos reunidos na casa de uma tia da minha ex esposa na Freguesia do Ó.
Todas as tradições foram cumpridas, inclusive a de não dormir para não “sofrer” as brincadeiras de sempre.
Depois do almoço, nos sentamos à mesa, nos fundos da casa, para as famosas partidas de caxeta. O jogo ia a pleno desenvolvimento, quando ouvi o tilintar do telefone e senti um arrepio correr por toda minha espinha dorsal.
Com os sentidos em alerta percebi que minha ex esposa, meio escondida no batente da porta da cozinha, fazia sinais tentando chamar a atenção do Durval (primo dela). Chamei-a e disse que não tinha necessidade de todo aquele cuidado, pois eu já estava consciente da ocorrência. Esperei sua reação
e, como ela se calou e baixou a cabeça, eu tive certeza que havia me tornado órfão de mãe.
Depois de ouvir todos os conselhos para me acalmar, fui informado que o Durval iria me levar para a praia e foi o que aconteceu, terminei o dia de Natal percorrendo IML, agência funerária e finalmente, ao lado de minha mãe numa sala fria de velório.
Natal, sinônimo de nascimento, de natalidade, passou a ter mais um significado depois desse ano, passou a significar, também, morte e orfandade.
É assim que me preparo, hoje, para o próximo dia de Natal.
Bola pra frente!

Por Miguel Chammas

Porcelanato, o piso

Nota: texto sem edição, original do site SPMC
Na inesquecível "Noite das Redondas", muito bem orquestrada pelo Miguelão, em meio a degustações e beberagens, batemos um bom papo, onde contei um fato ocorrido no dia anterior, 20 de maio, que queria dividir também com todos aqui.
Entre tantas ocorrências a cercar e sacudir nossa memória, que insiste
em adormecer e nós, teimosamente, recorremos a ela, sacudimos a poeira do tempo pra trazer a contemporaneidade, um pouco de sua realidade. Nessa tentativa não nos preocupamos muito em observar nosso redor. Será que há algo de relevância, merecedora de uma análise mais apurada pra um desenvolvimento textual?
O leitor quer saber de épocas distantes em que, sem ser testemunha ocular, conhece outros tempos através de nossos escritos, na nossa intenção de mostrar um relato fiel de um passado anterior ao seu nascimento e não de fatos contemporâneos.
Mas, o que aconteceu, há poucos dias atrás, em nossa querida cidade de São Paulo, merece registro.
No mês de dezembro de 2007, resolvemos trocar o piso de nossa sala de jantar e cozinha, necessidade esta, imediata. Trocamos o velho piso, de quase quarenta anos, por um moderno. "Porcelanato", pomposo nome que, só sua menção já causa admiração, subentendendo que se vai pisar, agora, sobre "porcelana". Ledo engano.
Colocados, com devido cuidado e observações dos revendedores, depois de trinta dias, começou a aflorar manchas em sua superfície. Contamos, mais ou menos, dez peças de 40x40 cm que estavam comprometidas.
Faço a devida reclamação ao fornecedor e este me encaminha, por telefone, junto ao fabricante do material. Depois de alguns dias recebo a visit
a do técnico do fabricante, senhor Antonio Carlos, 60 anos, grisalho, estatura mediana e um apetite voraz pela verbosidade.
Traz uma maleta, do tipo usado pelos médicos. Abre, simultaneamente, a maleta e a boca. Daquela, retira alguns frascos de produtos químicos que servem de esteira pra seus argumentos e desta, que levou em torno de três horas, as cansativas digressões defensivas ao produto, deixando pra nosso entendimento, um misto de exposição de conhecimentos com mal disfarçada intenção de não atender o pedido de troca do produto. Na defesa de seus propósitos, deste tempo, gastou duas horas, e o restante foi uma verdadeira exposição de situações pessoais, contadas com riqueza de detalhes tão íntimos que, em dado momento, cheguei a pensar, no delírio da narrativa, por parte do Antonio e a embriaguez que a audição me provoca, que o conhecia há longo tempo.
Passa duas horas de explanação sobre as qualidades do produto, afirmando que a Myrtes usou produto agressivo na limpeza do chão e a Myrtes já meia sonolenta (dez horas da manhã...), nega. Em virtude da peroração inacabada do profissional, sugiro um café, e minha esposa atende, imediatamente, percebendo minha artimanha em abreviar o fim do atendimento (ou do sofrimento). Na cafeteira italiana, a rubiácea sai em poucos minutos, colaborando com nossa intenção. Antonio sorve a bebida num tempo suficiente pra degustar com satisfação, senta na cadeira (estava ajoelhado) sem ser convidado, assinalando uma dissertação mais prolongada, preocupando nosso comportamento, não como anfitrião, mas como recepcionista educado. Quando estou decidido a interromper a fala, numa atitude de intérprete de boleros mexicanos dos anos cinquenta e o semblante expressivamente patético, Antonio puxa um cigarro, me oferece (aceito, não sei porque).
Com cigarro no cinzeiro, as duas mãos segurando os joelhos, dá um longo suspiro e começa (penso: eu mereço, meu Deus, eu mereço...):
- Dona Myrtes, senhor Modesto, hoje estou muito triste (lá vem bomba, pensei...)... Ontem minha mulher me pôs pra fora de casa...
- Não, não... - intervém a Myrtes, reagindo repentina e inconsciente
mente, como se ela estivesse esperando sua vez, nas falas da dramaturgia doméstica, tamanha expectativa provocada pelo comportamento do nosso "herói". Ele entendeu a negativa da Myrtes como protesto contra a atitude da esposa, enquanto que a Myrtes queria que ele parasse e fosse embora, pô...
- Calma, dona Myrtes, não saí assim sem mais nem menos, não... Fui sincero, disse a ela que não sabia ainda se a filha era realmente minha... Que minha aventura tinha acontecido há quase vinte anos e...
- E sua mulher - intervi - põe você na rua por causa disso?...
- É...
- E você queria que ela fizesse o quê?... - intervém o setor feminino, surpreendido - que ela desse uma festa e convidasse sua filha pra passar uns dias com vocês, conhecer melhor o novo membro da família?... Aôôô... - fala a Myrtes, juntando as cinco pontas dos dedos, batendo na testa - que tem na cuca, Miojo?...
A partir desse instante, querendo ou não, estávamos envolvidos num dramático relato familiar de uma pessoa que havíamos conhecido a poucas horas. Antonio continua:
- Quando viajava pelo sul, em Porto Alegre, conheci uma gaúcha, casada, com filhos, que de imediato me acolheu em seus braços... E eu, fraco, cedi.
- Fraco...? - interrompi - Isso é muita força... De vontade, pô! Se isso fosse sinal de fraqueza eu, com cinco filhos, estaria anêmico...!
- E tem mais, minha filha (a legítima) estava pra casar, me procurou no hotel e pediu pra eu ficar até ela casar, depois...
Nesse momento pensei estar ouvindo a "5ª" do Tchaikowski, chamada "Patética", que ele compôs pouco antes de se matar, tamanha mortificação.
- Pois é, Modesto e Myrtes (já íntimo...), 32 anos de casado e o pior...
- Tem pior, ainda?
- Tem sim, Modesto, a filha gaúcha...
- Já está confirmado no DNA?
- Não. Ela quer vir pra São Paulo e vou aproveitar pra fazer o exame...
- Taí, solucionado, em parte, o "imbróglio"!
- Não! Ela vem pra cá, em férias de 30 dias, e quer passar todo esse tempo comigo... Onde vou pôr essa moça...?

- Com você, no hotel, ora, é sua filha...
- E se não for...?
- Fica com ela, mesmo assim... Sua mulher não te mandou pra "cucuia"? Então...
Nessa altura eu já queria liquidar a "fatura", despachá-lo, pois começo a desconfiar de que ele quer é desviar nossa atenção do problema do porcelanato quando mostrou as fotos da filha e do filho, os dois já casados.
De pé, arrasto ele pra porta da rua, vai andando nos dando uma descrição de sua vida matrimonial, intimidades chulas, tachando sua esposa de fria, desligada, não querendo saber nada de sexo.
- Pudera - respondi - com uma confissão dessa...
- Não, não... Sempre foi assim... Fechada, gelada, indiferente aos meus apelos sexuais, qualquer tentativa de agarrá-la, já vinha com desculpas de "hoje não, estou incomodada, (devia ter três ou quatro TPM por mês...)”, nunca me disse "eu te amo", nunca saía comigo, pra um cinema, teatro, passeio, viagem ou qualquer outra distração...
- E como nasceram seus dois filhos, pô?...
- Isso foi só no começo... Depois...
- Depois você colocou um par de chifres na cabeça dela. - interrompe a Myrtes - queria o quê, porca miséria? Esses homens... Fale com ela de novo, quem sabe...
- Quando minha filha pediu pra eu voltar, até ela casar, os dias que fiquei em casa, uma semana, se tanto, foi uma tortura... Nem olhava pra minha cara, se eu pedia alguma coisa respondia: tá lá... Vá buscar... Ou: não sei... Não interessa. Ela trabalha fora e isso facilita as coisas pra ela... É totalmente independente.
- E você, engenheiro, dando um duro danado, ajoelhado, examinando pisos, como se estivesse pedindo perdão... Por favor, Antonio, me passe o imp
resso com tudo o que você relatou sobre o piso.
Já perto do carro, me passou o folheto e arrematou:
- E agora, Modesto, que faço?
- Antonio, cuidar de pisos manchados é fácil, só trocar a peça, mas, no trato da vida você usou um produto corrosivo demasiado forte e a mancha que provocou é difícil de sair; agora quem vai trocar a peça é sua mulher e você vai ficar com o resultado de uma experiência desastrosa na busca de novas emoções que, a bem da verdade, não tem nada de novo.
Isso ocorre no dia 20 de maio de 2008, em São Paulo, cidade onde tudo pode acontecer e acontece, servindo-se às vezes de nós, como testemunha e partícipe dos fatos, personagens principais do drama ou da comédia.

Por Modesto Laruccia