sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Apenas um quarteirão


São Paulo é um macrocosmo. Uma galáxia em expansão desordenada e incontrolável. Formada de incontáveis universos, subdivisíveis em milhões de microcosmos e microcosmos.
Podemos nos deter para observar alguns deles. Podemos limitar uma região, uma zona, um bairro, uma rua, até uma casa e sempre será fascinante. Detenhamo-nos sobre essa imensa praia, para apanhar alguns dos grãos da infinita areia.
Desta vez ficarei com um quarteirão, uma quadra apenas do Brooklin, que muitas vezes me chamou a atenção. Logo após a esquina, uma bem sucedida loja de chocolates finos. 
Mas, logo a seguir, uma estranha casa em violento contraste. Era feia e mal reformada, e até parece ter sido invadida. Repentinamente surgiram ali, do nada, uns latinos, barbados e mal ajambrados, como vindos da Revolução Cubana. Creio que são bolivianos, ou de outro país subdesenvolvido.
Instalaram-se ali muito à vontade, espalhando pela calçada e em frente a ela uns móveis destrambelhados, nos quais por vezes se escarrapacham. O tema principal seria reforma de estofados, mas faz-se de tudo um pouco: eletricidade, encanamento, o que pintar.
Condoída, minha mulher passou-lhes um velho pufe, todo arranhado de gato, para revestir. Prometeram o serviço para a semana seguinte, mas nada foi feito. 
–Deixa pra lá, disse eu, o pufe estava mesmo muito feio. Mas, ao saber que ela tinha dado um adiantamento, fui lá cobrar. Soltei meu espanhol com o que pareceu ser o chefe deles, e, si, señor, por cierto que si, como no, prometeu-me o serviço para poucas horas.
E cumpriu, mas depois vimos que o courvin era de má qualidade, rasgando-se facilmente. Saltemos para a casa seguinte: também muito decadente, que parece ser de uns velhos japoneses. No jardim, dois fuscas condizentes: velhos, encardidos, brancos e absolutamente iguais.
Logo a seguir, o que foi a tentativa de ser um restaurante. 
Um espaço verde, no qual foi colocado um cartaz com a cara do Sr. Madruga, o que por si bastaria para afugentar os clientes. Durante uns dois dias ficaram por ali umas moças distribuindo prospectos, mas creio que o restaurante não sobreviveu a esses dois dias. Tentaram então transformá-lo em bar de Happy Hour, mas nada de happy ocorreu ali, e fechou. 
Sobrou a carantonha de Madruga, assombrando o local, até hoje.
Depois de uma loja de utilidades domésticas, chegamos então à Cidade Proibida. Um mistério, que começou como loja de louças e estatuetas chinesas, bonitas e baratas. Compramos até dois potes, pois tudo na China é feito em duplas.
Logo transformou-se, cerrando-se dentro de altos muros, como a Muralha da China. Quase nunca se via ninguém, mas passaram a estacionar defronte carrões: BMW, Audis, Mercedes, Porsche Panamera. Deles, de vez em quando via-se sair um chinês.
O andar superior ampliou-se, tornando-se quase um pagode. Certa vez vi um guarda no porão, tão blindado como tivesse chegado da Guerra do Golfo. Grande, forte, feroz, todo de negro, colete à prova de balas, metralhadora. De outra, vi pelo portão entreaberto, rara ocasião, a placa de um banco desconhecido. Mas qual? De quê?  Não se vê vivalma entrar, nem sair. 
Tão misterioso como um antro de ópio do Dr. Fu Manchu, de Sax Rohmer. Eu é que não vou bater lá, para saber.
Pois é, só um quarteirão. Poucos metros. E contrastes e enigmas, como rotina de um bairro, de uma rua. Somente alguns do grande caos que é nossa cidade.


Por Luiz Saidenberg

5 comentários:

Memórias de Sampa disse...

Olá, Luiz!

Os contrastes de São Paulo que nos encantam, nos deprimem, nos assustam, nos surpreendem...
Mas, uma coisa é certa. Nosso amor a esta cidade com coração gigante e que abriga a todos que a buscam.
Adorei o texto.
Muita paz!

Sonia Astrauskas

MARGARIDA PEDROSO PERAMEZZA disse...

Luiz, são pedacinhos da nossa cidade que nos surpreendem, às vezes até dentro de uma praça! Quem ama São Paulo tem sempre olhos de amor e a esperança que aquele pontinho tão próximo vai melhorar!

MIGUEL cHAMMAS disse...

Luiz, São Paulo é mesmo assim, apresenta-nos mil facetas, umas lindas outras feias e, ainda, outras horrorosas, mas é a Sampa adorada por nos paulistanos da gema e muitos outros não paulistanos. Gostei do texto como sempre bastante detalhista. Espero novos artigos.

Teresa disse...

Dobrando a esquina, um mundo novo se nos apresenta. Isto é São Paulo. Esta é nossa cidade.

Arthur Miranda disse...

Belo texto Luiz, as mil facetas de São Paulo,bem assim mesmo. Parabéns