terça-feira, 13 de outubro de 2015

Contos da cidade grande - São Paulo 1966

No ano de 1966, eu trabalhava na Standard Propaganda que ficava na praça Roosevelt no centro da cidade. A praça, diferentemente do que é hoje, era um imenso estacionamento a céu aberto. Tínhamos ali perto, na mesma praça, o Cine Bijou que só exibia filmes de arte, A Baiuca, casa noturna onde era fácil encontrar Dick Farney, Araken Peixoto (irmão do Cauby), John Alf, Zimbo Trio e outros. Um dos atrativos principais era o seu famoso filé a Chateaubriand ao molho de mostarda da pontinha da orelha. Na rua de trás, Nestor Pestana, ficava a refinada TV Excelsior canal 9 dirigida pelo meu amigo Edson Leite. Sexta-feira era só alegria. Como publicitários, recebíamos gratuitamente as revistas da época, cortesia das editoras. No final da tarde o Osvaldo Cioffi, que trabalhava na Midia chefiada pelo Nicolau Nigro, trazia um monte de revistas para nós todos. Manchete, O Cruzeiro, Fatos & Fotos, Realidade, Senhor, Visão, Playboy, inTerValo,, revistas de fotonovelas e infantis. Depois do expediente, eu e meus amigos Neco, o português, Jefferson, Clayton e Ione descíamos a pé ate a rua 24 de Maio onde ficava a APP (Associação Paulista de Propaganda). Lá nos encontrávamos com meu irmão Carlinho o “Xará” e o Boni, que trabalhavam na Multi Propaganda, o Diogo “O Pai da Nota”, o Zé Santos, David Cardoso e seu primo “Kimble” a Chateuabriand ao molho de mostarda da pontinha da orelha. Na rua detrás, Nestor Pestana, ficava a refinada TV Excelsior canal 9 dirigida pelo meu amigo Edson Leite. Sexta-feira era só alegria. Como publicitários, recebíamos gratuitamente as revistas da época, cortesia das editoras. No final da tarde o Osvaldo Cioffi, que trabalhava na Mídia chefiada pelo Nicolau Nigro, trazia um monte de revistas para nós todos. Manchete, O Cruzeiro, Fatos & Fotos, Realidade, Senhor, Visão, Playboy, InTerValo, revistas de fotonovelas e infantis. Depois do expediente, eu e meus amigos Neco, o português, Jefferson, Clayton e Ione descíamos a pé até a rua 24 de Maio onde ficava a APP (Associação Paulista de Propaganda). Lá nos encontrávamos com meu irmão Carlinho o "Xaxá" e o Boni, que trabalhavam na Multi Propaganda, o Diogo "O Pai da Nota", o Zé Santos, David Cardoso e seu primo "Kimble", o Pedro, Alex Periscinoto e o Arapuã da Alcântara Machado, o Luizir Blota da Thompson e outros amigos. Ali, disputávamos acirradas partidas de bilhar em duplas, com caçapa cantada. Outros preferiam jogar xadrez, ouvindo a bela voz do Pedro que cantava a canção "Laura" sucesso do Jorge Goulart, tudo regado ao bom uísque Dimple. Depois disso, ainda dávamos uma esticada ao Badaró, casa de danças que ficava no mesmo prédio para dar uma relaxada. Afinal, ninguém é de ferro. a Chateuabriand ao molho de mostarda da pontinha da orelha. Na rua detrás, Nestor Pestana, ficava a refinada TV Excelsior canal 9 dirigida pelo meu amigo Edson Leite. Sexta-feira era só alegria. Como publicitários, recebíamos gratuitamente as revistas da época, cortesia das editoras. No final da tarde o Osvaldo Cioffi, que trabalhava na Mídia chefiada pelo Nicolau Nigro, trazia um monte de revistas para nós todos. Manchete, O Cruzeiro, Fatos & Fotos, Realidade, Senhor, Visão, Playboy, InTerValo, revistas de fotonovelas e infantis. Depois do expediente, eu e meus amigos Neco, o português, Jefferson, Clayton e Ione descíamos a pé até a rua 24 de Maio onde ficava a APP (Associação Paulista de Propaganda). Lá nos encontrávamos com meu irmão Carlinho o "Xaxá" e o Boni, que trabalhavam na Multi Propaganda, o Diogo "O Pai da Nota", o Zé Santos, David Cardoso e seu primo "Kimble", o Pedro, Alex Periscinoto e o Arapuã da Alcântara Machado, o Luizir Blota da Thompson e outros amigos. Ali, disputávamos acirradas partidas de bilhar em duplas, com caçapa cantada. Outros preferiam jogar xadrez, ouvindo a bela voz do Pedro que cantava a canção "Laura" sucesso do Jorge Goulart, tudo regado ao bom uísque Dimple. Depois disso, ainda dávamos uma esticada ao Badaró, casa de danças que ficava no mesmo prédio para dar uma relaxada. Afinal, ninguém é de ferro., o Pedro, Alex Perischimoto e o Arapuã da Alcântara Machado, o Luizir Blota da Thompson e outros amigos. Ali, disputávamos acirradas partidas de bilhar em duplas, com caçapa cantada. Outros preferiam jogar xadrez, ouvindo a bela voz do Pedro que cantava a canção “Laura” sucesso de Jorge Goulart, tudo regado ao bom uísque Dimple. Depois disso, ainda dávamos uma esticada ao Badaró, casa de danças que ficava no mesmo prédio para dar uma relaxada.
Afinal, ninguém é de ferro.
Por Nelson José Xavier da Silva
 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A família aumentou


Amigos, quero apresentar aqui a mais nova ninhada de anjinhos latidores; são 7, filhos do branquelo Marshmellow e da dengosa Crystal, pequena dama canina de fitinha nos longos cabelos. As criancinhas nasceram dia 04 de outubro durante a parte da manhã, dia do Poverello Francisco de Assis, todas de parto normal. Minha neta Agatha, dona da Crystal, está que não se aguenta de felicidade...
Por Joaquim Ignácio Netto
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A escada

A história que vou contar é verídica, foi publicada pelo jornal "O Estado de São Paulo" de nove anos atrás, mais ou menos, com uma foto acompanhada de texto. Conto a mesma narrativa com um sabor romântico.
Osmar saiu da redação bastante revoltado, que se localizava no centro de São Paulo, nas proximidades da Rua Timbiras ou Aurora, Couto de Magalhães.
- Esse diretorzinho meia-boca, recém formado, ainda cheirando a leite ninho, dando ordens a veteranos como eu, esnobando minha experiência de mais de 30 anos... “Sr. Osmar, quero esse texto pronto, até duas horas da tarde, nem um minuto mais”. Ah!
- Realmente, as coisas mudaram muito.
- No meu tempo... - E lá foi Osmar divagando, com seus neurônios retesados, mas já preocupado com o texto.
Uma escrita para, no mínimo três colunas num quarto de página. Precisava encontrar na rua alguma coisa diferente, algo sem ser roubo, sequestro, crime passional, drogas... Esses assuntos cansavam os leitores.
Imbuído do forte propósito de escrever algo diferente, armou-se de uma caneta Bic e de um bloquinho, e rumou direto para o bairro de Santa Efigênia, no velho e sempre "acolhedor" (para esse tipo de serviço) centro da cidade, onde ocorre de tudo e se não ocorre, fazem ocorrer.
Andando pelas ruas, chegou a Couto de Magalhães e viu um lance ocasional bem esquisito: um soldado subir numa longa escada, até uma janela do primeiro andar de uma hospedaria, entrar e, em seguida, lançar uma mochila para uma mulher que a apanhou, alçou-a no ombro e foi embora, sem dizer nada.
A hospedaria apresentava a entrada barrada por um muro recém-levantado. “Que coisa mais esquisita”, pensou Osmar. Pensando e agindo de imediato, não se fez de rogado. Seus passos rápidos alcançaram a mulher ao dobrar a primeira esquina, então, Osmar interpelou-a de bate-pronto:
- Desculpe, minha senhora, mas acabei de assistir há pouco, uma...
- Eu sei, - interrompeu a moça- e o que é que você tem com isso?
- Eu... eu... na...nada... Só queria...
- Queria o quê? Não estou a fim de papo-furado, portanto, não enche o saco. Você é da polícia?
- Eu não, eu sou...
- Não me interessa quem você é, – interrompeu a mulher - vá cuidar da sua vida que eu mesma cuido dessa miserável de vida que levo. Já não chega o que aqueles bastardos me fizeram? Ainda vem você, com essa cara de assistente de educandário religioso, querendo o que?
Enquanto conversavam, Osmar notou que, apesar da raiva, ela andava no mesmo passo que ele, não dando nenhum sinal de querer se livrar dele. Animou-se.
- Escute, deixe-me falar um pouco. Pensa que só você tem problema nessa pestilenta de vida?
- Espere aí, assim... Eu, eu...
- Espera aí você! - cortou Osmar - Vendo seu rosto de perto percebo que tenho idade pra ser seu pai, portanto, vai me ouvir na marra. Já está na hora do almoço, aceita o convite?
Ela olhou pela primeira vez para o rosto de Osmar e resolveu ceder.
- A troco de que?
- De nada. Por quê?
- Vai me dizer que você não sabe o que faço...? O que sou?
- Não sei, mas desconfio... Pelo seu repertório...
- Isso mesmo. Uma prostituta, como vocês gostam de "embelezar" o nome.
Neste momento, passavam por um restaurante e os dois entraram sem falar nada, como se a sequência natural da caminhada fora aquela. Osmar tomou logo a iniciativa, perguntando:
- Me diga, qual a "jogada" do soldado de te atirar a mochila pela janela e você se mandar com a maior cara de pau deste mundo?
Ela encarou-o bem nos olhos deixou, sem se aperceber, transparecer um semblante triste, amargurado, sofrido, bochechas encovadas, olhos a marejar, lágrimas se formando nos cantos, cabelos lisos em desalinho e atendendo a um sinal de seu subconsciente, resolveu acreditar naquele cara. Sem responder, pediram o prato, comeram em silêncio e antes de pedir a sobremesa, resolveu falar.
- Olha, ó cara, eu... Como é mesmo teu nome?
- Osmar... E o teu?
- Verônica.
- Bonito nome, Verônica. Mas... Continue.
- Osmar, estou numa enrascada...
- Há quanto tempo vem isso? - obtemperou Osmar.
- Quase um ano... Você está anotando tudo? Por quê? – disse Verônica, um pouco receosa.
- Sou jornalista, não se preocupe... Não irei prejudicá-la.
- Mais do que já estou, você não vai conseguir... Bem, vim de Minas, de uma cidadezinha do norte do estado, com meu marido, deixando...
- Você é casada? – interrompeu Osmar.
- Mais uma interrupção, juro que vou...
- Calma, calma, eu só... Estou surpreso, não podia imaginar você, uma “mulher da vida” com...
- Com marido, não é mesmo? - interrompeu Verônica, um tanto quanto incomodada com o comentário de Osmar - Não me venha com esse papo de "mulher da vida", "profissão mais antiga" ou "mulheres de vida fácil", hipócrita duma figa! Eu só não fui embora ainda, porque estava com muita fome!
- Está bem, não vou te interromper mais, juro. Continue.
Olhou novamente nos olhos dele e pensou: "esse cara é diferente, não sei o porquê, mas confio nele" e prosseguiu:
- Vim pra São Paulo com meu marido e deixamos três filhinhos pequenos com minha mãe. Logo que pudesse mandaria dinheiro. O Julio, marceneiro, encontrou logo serviço, mas eu não... Mal sei escrever o meu nome, o melhor que pude arrumar foi de garçonete, num bar aí dá "boca". Moramos, numa pensão no Brás até acontecer o pior.
Verônica suspirou e continuou:
- Um dia eu estava trabalhando até mais tarde, outra garçonete havia faltado e o dono do bar pediu para eu ficar até as dez. Não tinha como avisar o Julio e, não querendo perder o emprego, resolvi ficar e depois iria explicar para o Julio e ele iria entender. O Julio apareceu lá pelas oito. Expliquei e ele entendeu. Pedi pra ele esperar sentado numa mesa, no fundo do bar. Em dado momento, um bêbado entrou no bar e mexeu comigo. Estou habituada e não liguei. Mas o Julio não deixou por menos. Foi tirar satisfação, brigaram e o Julio pegou seu canivete e acertou o pescoço do homem que, esvaindo-se em sangue, morreu antes de chegar a ambulância. Preso, pegou cinco anos por ser primário e eu fui despedida do emprego. Não sabendo fazer nada, sem escola e precisando mandar dinheiro pra minha mãe, resolvi "me vender". Arrumei um quarto nessa hospedaria, vinte e cinco "pratas" por dia, explorada por um patife de um paraguaio que mantinha um mercado negro de paraguaias. Desconfiados com as estrangeiras, alguns policiais apareceram e eles fecharam, com um muro, o “local do Sr. Gutierres”.
A jovem fez uma pausa, fixou o chão. Após uns instantes, olhou no rosto de Osmar e disse:
- Cheguei hoje de manhã, disse aos guardas que tudo que eu tinha estava no quarto e ele ficou com dó de mim. Arrumou uma escada e o resto você já sabe... Agora me diga: o é que eu vou fazer com essa minha maldita vida?! Oriente-me, por favor... – Verônica parou, levantou a sobrancelha - E você me fez tantas perguntas e quero saber: você acredita em mim?
- Acredito. Você não teria condições de inventar uma história dessas... Mas... Seu marido sabe de tudo isso?
- É claro. Quando mando dinheiro pras crianças, fica tudo bem. E, bem, eu gosto muito dele... Às vezes vou à penitenciária, nos dias de visita – com lágrimas nos olhos, Verônica exclamou - Mas tenho uma vida maldita, não é? Bem, e agora? Vai querer...? Costumo cobrar cinquenta "pratas", mas, pra você, não vou cobrar nada, só que não tenho lugar...
- Já disse que não quero nada de você, apenas um "bate-papo"... Mesmo porque... Ah, deixa pra lá...
- Espera aí, Osmar! Está me esnobando por quê? Sou tão feia assim? – falou a moça, surpresa.
- Não, não. É que eu... Não posso me envolver contigo e com nenhuma outra mulher... Bem, tenho outro amor e não sou correspondido.
- Também não precisa ser tão fiel assim! - exclamou Verônica - Hoje em dia, isso é tão comum e... Posso saber quem é “a gata”?
Osmar ficou em silêncio, com uma expressão sem graça, e respondeu:
- Trabalha comigo é... “Um gato...”
Verônica descansa o garfo no último pedaço de sobremesa. Atarantada, levanta-se, vai embora sem se despedir, pensando: “Sempre tem alguém pior do que a gente.”.
Osmar paga a conta, anota os últimos itens para o texto, saboreia antecipadamente a cara do diretorzinho ao imaginá-lo lendo seu texto. E, ainda, fica louco pra contar sua experiência do dia para sua esposa, principalmente a parte final da conversa com a jovem Verônica, a única ficção da narrativa.
Por Modesto Laruccia
 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Memórias de querer

 
 
Hoje o dia está chuvoso e frio; perfeito para sentar em qualquer canto, calar a voz e permitir que o peito, através das lembranças, chore e ria o quanto e como quiser.
Não será preciso nenhum toque especial, nenhum gole de álcool ou qualquer outro motivador que seja. Basta, apenas, relaxar e esperar as memórias começarem a aparecer.
Bem pensado. Imediatamente colocado em prática. Surge uma dúvida: O que lembrar?
Bem, eu queria voltar no tempo, ir para as décadas de 40/50, e lá, naquele casarão da Rua Augusta 291, encontrar a minha infância, encontrar meu avô Gidi, minha avó Siti, minhas tias Neide e Zazá, meus primos Sonia e Roberto, minha mãe, meu pai.
Queria, de novo, subir pelas escadas de mármore, ganhar o corredor e, adentrando no quarto da frente, encontrar meu avô, já doente, e lhe fazer um cigarro de palha para, depois, então, ler uma boa parte do jornal até vê-lo ressonar, tranquilamente.
Queria continuar percorrendo aquele longo corredor, ultrapassar o primeiro quarto onde dormíamos, eu, meu irmão, meu pai e minha mãezinha. Passar, logo em seguida, pelo segundo dormitório que era ocupado por minha tia Neide e meus primos Sonia e Roberto e, finalmente, chegar à sala de jantar onde as reuniões familiares eram realizadas, onde a árvore de Natal era montada todos os anos, onde os presentes do ”Papai Noel” eram desembrulhados a cada dia 25 de Dezembro, onde as macarronadas dos almoços dos domingos eram realizadas, onde os pacotes de doces do Bar Viaducto, comprados por meu pai, eram abertos e os doces devorados por todos, onde nós, crianças, a cada almoço, tínhamos, divididas com justiça plena, garrafas de deliciosas Tubainas.
Sala onde eu presenciei ainda garoto, os bailecos promovidos por minha tia Zazá, recheados de trilhas sonoras com Fernando Albuerne, Gregório Barrios, Lucho Gatica. Bing Crosby, Frank Sinatra, Tommy Dorsey, Glenn Miller e outros sons doces e melodiosos e, depois, passados alguns anos, mudando de assistente para promotor, passei a realizar bailinhos, não de garagem, mas de sala, abrilhantados por Pick-up e sus Negritos”, amparados por “sandubas” de “Carne-Louca” e espetinhos de Salsicha e Picles enfeitando abacaxis ou outros que tais, regados a Ponche confeccionados com muita guaraná, Cinzano, frutas picadinhas e gelo.
Sala de mil lembranças, inclusive as tristes como os velórios de meu avô e depois de minha tia Neide, onde a ela era transformada em morgue, tomada de panos pretos azuis e dourados, iluminada por velas em castiçais prateados e flores de odor doce e nauseabundo, arejada por um pequeno aparelho emissor de ozônio de barulho irritante.
Ou seja, uma sala grande e facilmente adaptada às exigências da situação apresentada.
Queria continuar atravessando o corredor, passando pelo pequeno quartinho ocupado por minha tia Zazá, quando de sua solteirice, passando, depois, pela porta do único banheiro da casa que , no seu interior, guardava uma enorme e antiga cômoda de madeira que tinha suas gavetas usadas para acondicionar materiais de higiene e toalhas de rosto e banho. Tinha, também, uma enorme banheira de um metal forte e pesado, um tanto quanto enegrecida pelo tempo, e usada de quando em vez, para os banhos alegres das crianças que, depois de se refestelarem na água represada, usavam o chuveiro elétrico que desaguava ao centro da referida banheira para o desensaboamento.
Chegaria, então, ao cômodo mais importante da casa, a cozinha, poucos, onde a vida inteligente da família se reuniam nos dias não festivos para consumirem os alimentos (poucos no pós guerra), mas elaborados com carinho e maestria por Tia Neide e minha mãe. A cozinha era simples, tinha um fogão de ferro onde eram acesos com a ajuda de cascas de laranja que, por sua vez, eram penduradas na barrinha em frente do fogão para serem secas e, consequentemente, transformarem os carvões inertes dentro das bocas em brasas vivas, e emprestarem o seu calor para uma perfeita cocção dos alimentos. Tinha também uma mesa antiga, de madeira já bastante gasta nas bordas arredondadas, um armário para guardar pratos e copos, uma pia que, nos seus baixos, tinham sido empilhadas umas tábuas para acondicionarem-se as panelas que, por sua vez, eram escondidas por uma cortininha de pano estampada com pequenas flores azuis. A geladeira, que chegou um dia, para gáudio de todos, estava instalada ao lado da pia e, pasmem, era alimentada por barras de gelo que recebíamos diariamente através do “geleiro” e sua carroça básica.
Finalmente, descerrar a porta da cozinha e deparar com o cenário de minha pobre, mas alegre infância. O quintal que, ainda hoje, povoa minhas lembranças. No seguimento da porta da cozinha ficava uma escada que descia pela parede até o piso do quintal. Uma pequena parte do quintal, em que estava instalado o tanque onde um dia eu mergulhei como se fora um super-herói e quase matando de susto minha mãe, o corredor lateral e de todo o porão da casa era cimentada, O resto do enorme quintal era em terra bruta, onde alem dos varais de roupa, suspensos por taquaras secas existiam, também, alguns mamoeiros, uma goiabeira de frutos vermelhos, onde eu saciava minha gula, algumas ervas aromáticas, um enorme e pesado pilão de cimento dos tempos de minha avó e, a minha paixão, uma touceira de hortênsias azuis que eram o meu esconderijo preferido depois de alguma travessura.
Esta era minha casa, meu mundo, minha vida. Queria muito poder voltar a ela e matar as saudades que hoje moram no meu coração.
Infelizmente, a realidade é cruel e sei, pesarosamente, ser impossível meu desejo, então tento amenizar estas saudades escrevendo e descrevendo o velho casarão.
Por Miguel Chammas
 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O garotão chegou lá



Ó quebra, quebra gabiroba eu quero ver quebrar
Ó quebra, quebra gabiroba, eu quero ver quebrar
Ó quebra, quebra gabiroba, eu quero só te amar
Ó quebra, quebra gabiroba, eu quero só brincar
Ó quebra aqui e quebra lá, eu quero ver quebrar


No Rio de Janeiro
que é a terra do amor
Só se vive sem dinheiro
mas se goza com calor

Essa é a transcrição da letra de uma das marchinhas mais populares do carnaval de 1930 em todo o Brasil juntamente com "Tá'hi" - Prá você gostar de mim', com Carmem Miranda. As duas marchinhas marcam o ano de 1930 à ferro e fogo e Quebra, Quebra Gabiroba tem muito a ver com essa narrativa, malgrado o absoluto non sense e pieguice da letra.

Diga-se de passagem que o ano de 1930 foi um ano sui generis: Carmem Miranda explode em sucesso em seu primeiro disco; Sinhô se apresenta no Teatro Municipal de São Paulo e morre logo e seguida, tuberculoso; Noel Rosa inicia uma carreira solo... o governo de Washington Luis é derrubado, Julio Prestes é impedido de tomar posse na Presidência, Getúlio Vargas se auto declara vencedor das eleições, o Tenente João Cabanas da Força Pública de São Paulo é um dos militares que amarram seus cavalos no Obelisco da Pça Tiradentes no Rio; Preguinho marca o 1º gol da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo.

1930 foi um ano muito maluco, quando toneladas e mais toneladas de café exportação foram atiradas ao mar ou queimadas, ano em que a enorme fortuna de Oswald de Andrade começa a ir para o ralo da esbornia e da má gestão.

São Paulo, em 1930, já era a locomotiva que puxava vagões vazios e foi o Estado e cidade que mais perderam economicamente com a quebra das Bolsas de Nova York e de Chicago.

1930 é também o ano em que, timidamente, começa uma mudança nos parâmetros políticos do pais e São Paulo, o Estado e a cidade, vão derramar sangue, vão sofrer vilipêndio e humilhações, mas...

Mas este texto não pretende ser um libelo político ou uma laudatória histórica sobre carnavais e suas músicas; aliás, tem sim, tem algo a ver com música, política e teatro, tudo em doses homeopáticas , prá usar um tremendo lugar comum literário. Vou explicar:

Anos 1970, ainda trabalho na ECA USP; época complicada, ditadura militar, agentes infiltrados nas faculdades (sssshhh! as paredes têm ouvidos!), tortura, mortes...

Estou em minha sala:

- Dá licença, seu Ignacio... ontem eu vi o senhor dando uma aula de história 'prum' pessoal lá no auditório...

- É! 'tava sim! 'Tava falando da relação da música popular com os fatos históricos e políticos de cada época...(eu e outros colegas ministrávamos aulas para quem quisesse prestar os exames de madureza)

- Justamente!; por isso que eu preciso de um favor seu...

- O que é?

- O senhor conhece alguma coisa da revolução de 30? As músicas do carnaval de 30?

- Da revolução eu conheço o pouco que é ensinado na escola; quanto às músicas, preciso dar uma checada na discoteca ou nos jornais da hemeroteca...

"...e essa música, o senhor conhece?", e me mostrou a letra do Quebra, Quebra Gabiroba:

- Dessa vez você foi fundo, heim? Onde você arrumou essa letra?

- 'Tá numa peça do Vianinha (Oduvaldo Vianna Filho) ... "Rasga Coração", o senhor conhece?

- Conheço! 'Tá censurada, proibida... uma vez, faz tempo, eu vi o Vianinha falando dela no Bar da Tia...
 

UMA LIGEIRA DIGRESSÃO:

O Bar da Tia era uma instituição botequinesca anterior ao Rei das Batidas, famosa pela absoluta falta de higiêne, e, como no filme Casablanca, um antro onde se misturavam Esquerda Radical, Direita Radical, Centro Radical(?), alunos, professores, Polícia, DOPS, militares, inocentes, bebados e não bebados, numa verdadeira suruba político-cultural, numa espécie de território livre, só faltando o Humphrey Bogardt pedindo: ...play it again Sam...

De volta:

- Pois é, seu Ignacio, eu precisava que o senhor me falasse algumas coisas a respeito...

- Sent'aí, vamos conversar um pouco...

O garotão era muito humilde, interessado mas bem cru, produto do ensino deficiente da época e vítima de um conteudo programático fraquíssimo, creio que não tivesse culpa por seus desconhecimentos, em minha opinião. Durante uns 20 dias conversamos, destrinchamos a revolução de 30, falamos do Quebra Quebra Gabiroba e o porque da inserção da marchinha na peça... Já em nossa primeira conversa fiquei sabendo das tratativas do rapaz para organizar um braço do Centro Acadêmico Lupe Cotrim da ECA na Escola de Arte Dramática, fundando um Diretório Acadêmico, coisa que acabou por fazer, efetivamente. Sua idéia era fazer uma leitura pública da peça do Vianinha, razão pela qual precisava mergulhar na política do Brasil de 1930. 

Não lembro a razão porque fui escalado para fazer a conferência dos documentos dos candidatos ao vestibulinho da EAD, mas, naquele sábado frio e garoento, eu e o Lazinho atendemos apenas 3 pessoas, uma delas o garotão que motivou esta narrativa. Hoje em dia ele é uma celebridade (seja lá o que isso signifique!), mas naquela ocasião era um simples candidato, um pouco assustado com a cidade e com o tamanhão da Cidade Universitária. Foi aprovado no vestibulinho e começou a frequentar as aulas da EAD no período noturno; durante o dia ficava ou nas bibliotecas da Reitoria e da ECA ou simplesmente ficava tomando sol no gramado da ECA ou fugindo da chuva dentro do prédio, um 'bunda esverdeada', quase um "bunda verde" de carteirinha" e essa denominação nada tem a ver com ecologia e afins... Mas, muito bonito, sorriso cativante, olhos verdes, foi contratado 'à título precário' pela faculdade por 'insistência' de uma chefia. Enquanto "trabalhou" na ECA(o rei do telefone!), vinha diariamente à minha sala prá tomar café e bater um papo; essa rotina perdurou por um ano mais ou menos quando o garotão explodiu nos 'mediae' de comunicação logo após a leitura da peça no Pavilhão B9 onde funcionava a EAD. A repressão não interveio porque tudo foi feito na maior moita possível, convites sendo expedidos por mensageiros de confiança, no boca-a-boca ou através de orelhões fora da USP. Em um mês, nem isso, foi contratado pela Rede Globo e aí foi um sucesso seguido de sucesso!...

Seu nome? Edson Celullari.

Não terminou o curso; no total não deve ter terminado nem o 1º ano, um cometa, não teve tempo de estudar ou aprimorar algum talento que por acaso tivesse; penso ser esse o motivo do Edson ser um ator gritalhão e de face inexpressiva, botóxica, ideal para fotos ou para a técnica de close ou blow up das telenovelas da Globo.

Enquanto esteve 'trabalhando' conosco era um cara humilde, simpático, prestativo, muito educado. Depois de contratado ainda veio uma ou duas vezes visitar os colegas; depois sumiu...

Espero que continue o mesmo garotão acaipirado, um pouco espantado com as coisas e, com a sofisticação dos equipamentos de captação de som e de áudio, que consiga aprender a modular a voz, sempre é tempo; um galã não precisa declarar-se aos berros junto ao ouvido da atriz: -EU TE AMO!!!

Brincadeirinha (a brincadeirinha vale também pro Nuno Leal Maia, que não fez Teatro, mas fez Montagem Cinematográfica)!

 

Por Joaquim Ignacio
 

sábado, 24 de janeiro de 2015

Foto de Isaura Marques

Olá, prezados autores e leitores.


Precisei retirar a foto de Isaura Marques do texto "Relíquias", de 25/11/2011, depois do comentário de Cine metro sobre a foto.
A foto tinha sido cedida por ela mesma, mas, mesmo assim, considerei conveniente a retirada sua retirada para não causar maiores problemas pela divulgação e por respeito à memória desta querida atriz. 
Sua imagem está em nossa lembrança, assim como seu trabalho.
Muita paz!

Sonia Astrauskas (moderadora do blog)

sábado, 8 de novembro de 2014


imagens: Ricardo (garçon do "O Gato Que Ri) e eu no local


Aos poucos minha vida vai voltando ao normal, depois da cirurgia no olho esquerdo, por conta de um descolamento de retina, que eu jamais poderia imaginar ter um coisa destas, difícil acontecer com pessoas na minha idade. Embora eu não seja mais uma mocinha, mas ainda não tenho idade para certas patologias.
Segundo o retinólogo e sua equipe que me atenderam, estou me recuperando super bem e já posso fazer algumas atividades visuais, desde que não tenham impacto, solavanco, encontrões, etc...
Nesta sexta-feira, 07 de novembro de 2014, estive em minha amada Sampa, para resolver algumas pendências e rever alguns lugares, além de me encontrar com meu filhão amado.
Hora do almoço e atravessávamos a Rua 7 de abril, quando veio a ideia de almoçar no restaurante "O Gato Que Ri, no Largo do Arouche, 37, onde fomos atendidos por uma garçom muito simpático e solícito, o Ricardo. Gente boa demais.
Mesmo enxergando mal o Menu, aceitamos a indicação do Ricardo, bacalhau ao forno, que estava show de bola e como sobremesa um petit gateau sensacional, além do cafezinho no capricho.
Continuamos o tour e o tempo mostrava-se hostil, quando entramos no Paibar para um suco, pois estava muito calor. Desabou o céu sobre Sampa numa chuva muito forte e permanecemos no Paribar até abrandar. Dali fomos ao encontro de meu filho para voltarmos juntos para casa.
Um dia especial e momentos especiais. Valeu!
Muita paz! 




terça-feira, 1 de julho de 2014

Com o olhar da pomba e do urubu




O texto abaixo també foi sonorizado na Rádio CBN: https://soundcloud.com/miltonjung/conte-sua-histo-ria-de-s-o-9

Consta que Deus, cansado de ouvir reclamações sobre a Terra, mandou que o urubu sobrevoasse tudo e retornasse dizendo o que viu. Ele voltou contando das guerras, carniças (delícias), poluição, violência, catástrofes e vícios, um inferno enfim. 

Desolado, Deus quis ouvir uma segunda opinião. Pediu então que a pomba fizesse o mesmo. Aí ela retornou dizendo do sol clareando a terra e o orvalho das plantas. Dos passarinhos arrulhando nas árvores após um dia de chuva. Das flores com seus diversos matizes sob o céu de azul diáfano. Das cachoeiras que inundavam a atmosfera com sua música maviosa. De crianças a brincar e a sonhar. De velhos nas praças a ver a vida passar com graça a dar milho aos pombos. 

Deus então deu um logo suspiro e declarou: é preciso olhar o mundo com os olhos da pomba.


Esse é o desafio do paulistano: olhar esta cidade com os olhos da pomba. Ver a beleza que existe na diversidade, na concentração de talentos, nas oportunidades de desenvolvimento e mudança. Beleza no seu centro cultural, nas atividades criativas. Na poesia concreta das suas esquinas, como na canção.



Cai, levanta, cai levanta. Vocês sabem do que estou falando. Como na teoria do evolucionismo, os mais aptos sobreviverão. Uns chegam de longe para se tratar e vão ficando. Outros chegam munidos de muita vontade de trabalhar, transformar o pouco em muito. Tenacidade de aço e nervos de concreto faz do cidadão paulistano um ser singular. Caçadores de beleza na cidade dos migrantes e imigrantes. Diz-se que quem vive aqui, está apto a viver em qualquer lugar. Uma metrópole que contempla tanto o olhar do urubu como o olhar da pomba. A escolha é sua.

São Paulo é um pólo de atração. Atrai os que ousam sair da zona de conforto e mudar, transformar, garimpar ouro em merda. Cidade em constante mutação a provocar mudanças em seus atores. Quantos desses 11 milhões de habitantes, sem contar os 10 milhões no entorno, aqui chegaram apenas com a roupa do corpo, coração acelerado e, um sonho na cabeça povoada de ilusões.  Educaram seus filhos, trabalharam e conquistaram seu espaço. Quem não se envolve não desenvolve.






Por Suely Aparecida Schraner


sábado, 21 de junho de 2014

Copa 1950, ninhas lembranças


imagem: Seleção da Espanha, minutos antes do jogo contra o Uruguai na Copa de 1950
Escalação: Ramallets, Gabriel Alonso, Parra, Gonzalvo II, Gonzalvo III, Puchades, Basora, Igoa, Zarra, Molowny, Gaínza (Cap.)

Em 1950 meu tio Mané me levou ao Pacaembu para assistir Uruguai vs Espanha; era um domingo que começou com tempo fechado mas logo o sol apareceu, aquele solzinho de inverno, até que um pouco frio, um sol  que não aquecia. Chegamos ao Pacaembu era meio dia mais ou menos e ficamos esperando abrir as bilheterias, acho que abriu por volta de 13:30h. havia uma fila normal, sem empurra-empurra, claro que cheia de hermanos da Banda Oriental e señores de Castilla la Vieja, Aragon, Galicia... e muitos brasileiros.
Prá ser sincero, para nós, aquele era mais um torneio com a Seleção do Brasil e seleções estrangeiras, nada  muito importante e, além do mais, em relação à Seleção Brasileira, havia o problema do bairrismo exacerbado com a escolha dos jogadores pendendo para o lado do Rio de Janeiro, com o time tendo por base o Vasco da Gama, o expresso da vitória. Me lembro do Antonio Cordeiro da radio Nacional do Rio justificar o encariocamento da Seleção com o seguinte argumento: "Ninguém conhece os jogadores de São Paulo, de Minas,  do Rio Grande..." Aquela foi uma época em que o Brasil treinava contra o Torres Homem, um time de várzea de Niterói presidido por um diretor da CBD; creio que deveria haver uma graninha por fora para "pagar despesas, etc, etc...(cala-te boca!)".
Uruguai e Espanha ficaram no 2 a 2 num jogo horrível, se eu estou bem lembrado; o Brasil jogou contra a Suiça, também no Pacaembu, com um time considerado reserva, ou melhor, com um time montado nas coxas (perdão pelo calão!) e também empatou por 2 a 2...
No Rio, após a goleada contra a Espanha, o time saiu do Hotel das Laranjeiras, um local sossegado, na floresta, e desceu para São Januário, dependências do Vasco da Gama...
Era época de eleições, inclusive eleições presidenciais e políticos do Brasil todo vieram para o Rio para serem fotografados com os jogadores; Flávio Costa, o Alicate, era o nosso técnico,  candidato à vereança do Distrito Federal e articulador das entrevistas, fotos e filmagens com os políticos. Zizinho, talvez na última entrevista em profundidade dada por ele para um órgão de imprensa, no caso a para a ESPN (tá no youtube) afirmou que em 3 dias, se ele dormiu 20 horas foi muito. A revista "O Cruzeiro" levou os jogadores, na madrugada do dia do jogo contra o Uruguai, para um estúdio para serem fotografados uniformizados e com a faixa no peito... e deu no que deu! Bigode não conseguiu marcar o Gighia, faltou-lhe pique, velocidade e, de repente, lá veio a bomba, chute cruzado, que o sonolento Barbosa, mesmo estando bem acordado, não conseguiria defender. 
Fala-se muito de 1950, mas também em 1954 a desorganização comeu solta, jogadores preferidos por Zezé Moreira como titulares e Julinho, Cláudio, Baltazar, Djalma Santos, entre outros, ou no banco ou não sendo convocados... A Copa terminou tristemente para nós com a "Comissão Técnica" partindo inteira para cima do  "referee", Zezé Moreira com uma chuteira na mão, como um malandro do morro e seu chinelo Charlot, avançando contra a polícia da Suiça; Paulo Planet Buarque fotografado e filmado distribuindo rabos de arraia no gramado... vergonha!
Eu me abstenho de escrever em datas especiais, efemérides, dia das Mães, dia dos Pais, dia das Sogras e outros dias, inclusive Natal, Ano Novo e outros, mas estão escrevendo tanto sobre essa Copa de 2014 e sobre 1950 que resolvi deixar minha postura de molusco e relembrar certos fatos...
Talvez eu ainda volte ao assunto, sei lá!




Por Joaquim Ignacio de Souza Netto

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Memórias Copeiras


imagem: Seleção Brasileira que sofreu a derrota contra o Uruguai em 1950


Estamos em clima de Copa do Mundo, mesmo não sentindo nas ruas a mesma vibração de outros tempos eu sinto a animação nos transeuntes, nos vizinhos e, por que não dizer, nos amigos.
É neste clima de expectativa que sento em frente ao meu computador e sinto vontade de escrever sobre as copas que vivi nestes 74 anos de vida.
As lembranças não são difíceis de virem à tona, apenas me cabe o trabalho de selecionar algumas e escrever sobre elas. Teclado pronto decido escrever sobre a copa que, mesmo presente, eu não assisti. Foi uma escolha deliberadamente cômoda, pois as demais copas geraram muita aflição, desespero, alegria, e ser-me-ia bastante abreviá-las para caber num só texto. Então, vamos lá, Copa do Mundo de 1950.
Eu, moleque ainda, ao contrário dos garotos de hoje, não tinha noção da grandiosidade desse evento.
Ouvia comentários dos meus pais, dos meus tios, mas preferia, lógico, o meu mundo de brincadeiras no quintal de casa em que vivia, na Rua Augusta, 291.
Era 16 de julho, depois do almoço ajantarado de todos os domingos, eu o Carlinhos meu irmão, e o Roberto meu primo, fomos para nosso mundo de fantasias, o quintal. Minha prima, como de costume, foi se entreter com os diversos trapos e roupas de minha tia e de minha mãe com que normalmente brincava. Minha mãe, minha tia Neide, minha Tia Elisa, minha tia Zaira, meu avô Gidi e meu pai, sentaram-se em torno da mesa da cozinha e, entre conversas diversas e um cafezinho coado na hora, começaram a ouvir o rádio e a transmissão do jogo entre Brasil e Uruguai.
Meu pai, com aquele jeito exagerado de sampaulino fanático e ferrenho, alardeava que o campeonato já era nosso, tendo a concordância de todos os demais.
Nos, brincávamos e apenas por curiosidade, de quando em vez, esticávamos os olhares para o plano mais alto onde se localizava a cozinha para ver o movimento, eram caretas angustiadas, murros no ar desferidos por meu pai, algumas palavras de sentido mais imoral, nada que realmente nos fizessem desistir de nossas brincadeiras.
Em certo nos “ouvimos” um silêncio sepulcral, intrigado corri até a cozinha e não vi mais meu pai e meu avô, as mulheres daquele diminuto auditório choravam copiosamente, minha mãe me abraçou e disse entre soluçõs e lágrimas: -Miguelzinho o Brasil perdeu, o Brasil perdeu...
Sem muito entender, mas querendo participar do destempero, busquei me emocionar e também comecei a chorar. Foi uma choradeira geral.
Só não vi, ou melhor, não lembro se vi meu pai e meu avô chorando (naqueles tempos homem não chorava).
Estas são as minhas memórias daquele campeonato fatídico.
Vamos torcer para que neste ano de 2014, quando novamente temos a realização de uma Copa do Mundo no Brasil, mesmo conscientes de todas as mazelas e aberrações ocorridas, o povo brasileiro tenha o prazer de comemorar um final mais feliz do que em 1950.



Por Miguel Chammas

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Eu só estava assistindo




Era o ano de 1961, meu irmão Emmanuel Ferreira Leite em casa era conhecido pelo apelido de Nenê. Morávamos no Cine Clipper da Freguesia do Ó. Éramos três irmãos: Nenê com seis anos de idade, Isabel Virginia com dois anos, e eu Luiz, apesar de ser menor do que Nenê em estatura, tinha já meus sete anos. Na foto acima estamos, da direita para a esquerda, Nenê, meu pai e eu. A foto foi tomada diante de uma das portas de saída lateral do Cine Clipper que dava acesso para a Rua Bonifácio Cubas, a antiga rua da feira. A feira atualmente acontece aos sábados numa praça próxima à Escola Infantil Manuel Preto.
Nosso local de habitação era um pavimento que existia sobre o banheiro masculino cujo acesso era através de um pequenino hall. A porta que levava para onde morávamos dava para o interior da sala de expectadores, ao lado da porta do banheiro dos homens. O acesso para o pavimento sobre o banheiro masculino era feito por uma escada feita de madeira cujos degraus eram muito altos para mim e para meu irmão. Não havia cômodos e os ambientes eram distribuídos conforme o espaço permitia. Nossos pais eram zeladores do cinema. Meu pai, Manoel era também cobrador de ônibus e, durante algum tempo, também se incumbiu da da projeção dos filmes.
Aquela época era um sonho para mim. Moramos no cine Clipper entre os anos de 1958 e 1962. Era os tempos áureos do famoso Mazzaropi, do inesquecível Cantinflas, de Roy Rogers, dos famosos filmes de caubói americano, do cão Rin Tin Tin, do Vigilante Rodoviário e muitos outros. Como éramos pequeninos só podíamos assistir filmes nas disputadas matinês de domingo. Às vezes, aos sábados ocorriam alguns shows matinais com artistas populares, oportunidade onde chegamos a assistir “ao vivo” artistas como o sambista Germano Matias, Moacir Franco se apresentando como mendigo cantando “Ei você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí!”, e ainda um dos nossos primeiros roqueiros: Carlos Gonzaga cantando “Diana”.
Voltando ao início do relato, era o ano de 1961 e, naquela época ocorria um evento que era um show carnavalesco onde se apresentavam algumas dançarinas mulatas em trajes mínimos, conhecidas como cabrochas. Não precisa dizer que a idade mínima para assistir a esses shows era de 21 anos! Eis que um grupo desses foi se apresentar no Cine Clipper! Maior alvoroço, coisa proibida para menores de 21 na cabeça da gente deveria ser algo inimaginável. Chegou a noite da primeira apresentação, minha mãe preocupada com os últimos detalhes de limpeza, meu pai atarantado com os detalhes de acompanhamento de instalação elétrica, som e outras coisas. Após terminarem suas tarefas eles subiram rapidamente para tomarem banho e se trocarem para assistir ao show que já estava começando. Em meio aos preparativos se deram conta que meu irmão Nenê não estava no aposento onde residíamos! Rapidamente desceram a escada e saíram para a plateia para começarem a procurar o filho perdido. E não é que deram de cara com o cara de pau que estava comodamente sentado em meio aos expectadores? Rapidamente retiraram Nenê do local e subiram a escada já dando um pito daqueles no meu irmão! E ele na maior cara de pau: “Ué .... eu só estava assistindo!”
Esse fato marcou a vida de nossa família, até mesmo em virtude disso ter acontecido numa época em que o então conhecido Juizado de Menores funcionava com muito rigor e a estória teria sido outra caso um dos comissários tivessem flagrado a escapada do Nenê.


Por Luiz Carlos Ferreira Leite

terça-feira, 10 de junho de 2014

Primeiras transmissões da Copa do Mundo



imagem: Gagliano Neto

Gagliano Neto!
Locutor esportivo, jornalista, nasceu em Recife, Pernambuco, em 24 de dezembro de 1911. Seu nome Leonardo Gagliano Neto.


Muito jovem mudou-se para São Paulo e mais tarde para o Rio de Janeiro onde em março de 1935 transmitiu pela primeira vez uma partida de futebol! Palestra Itália e Botafogo pela Rádio Cruzeiro do Sul, RJ.
 
Sua história se confunde com a história do rádio!

Trabalhou nas melhores da época como por exemplo Rádio Mayrink Veiga, Nacional,Continental,Tupi, Globo. foi ele que em 1944 fundou a Rádio Globo do Rio de Janeiro junto ao jornalista Roberto Marinho.

Jovem, visionário,sonhador, saiu do Brasil em 1938 rumo a Europa no navio inglês Arlanza, para fazer a transmissão dos jogos do Brasil daquela Copa do Mundo! 17 dias "al mare"!


As pessoas não acreditavam! Mas o que se ouviu foi pura magia! Com sua voz forte, seu português impecável transmitiu em ondas curtas e médias aqueles jogos que encantavam o Brasil!

 
Não foi só São Paulo e Rio de Janeiro que pararam para ouvi-lo,foi o Brasil inteiro.O povo se unia nas praças(como hoje) e Getulio Vargas decretou feriado a cada jogo e assim seu nome ficou conhecido nos quatro cantos do país!


Virou uma figura das mais importantes! Todos reconheciam aquele "feito"!


Criou a função do repórter de campo, do comentarista esportivo, as mesas redondas, e apelidos ao jogadores, como Diamante Negro, coisas que até hoje continuam na mídia.passou para o português todos os termos do futebol, como correr que ficou escanteio e outros.


Ele era de vanguarda!
 
Muitos o chamavam de louco, atrevido nas suas mirabolantes ideias!


Era louco sim! Louco por futebol, pelos esportes, pelo rádio, mais tarde pela TV e principalmente pelo Brasil
Está no Museu do Futebol e existem duas ruas com o seu nome, uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro!


Casou-se com Lygia Caldeira Gagliano e teve quatro filhos, um homem e três mulheres.


Uma delas sou eu! 


Orgulho de ser filha dele! Meu pai ,meu herói!


Foi embora muito cedo aos 62 anos de idade em 5 de março de 1974!


Saudade eterna.





Por Lygia Caldeira Gagliano